quarta-feira, 17 de julho de 2013

Crônica remix- Domingos

Domingos Assmar
Eu gostava muito de ouvir minha mãe falar da viagem que fizemos, de navio, do Acre até Belém. Ela falava com um certo orgulho, com uma exatidão acalorada e até com uma incontida emoção sobre aqueles  dias em que  deslizamos suave sobre o leito fúlgido do Amazonas, abrigados nas comodidades e confortos do navio Domingos Assmar.
O nome do navio nunca saiu da minha cabeça. Aqui e ali, quando me pego em uma prosa sobre a diáspora desta pequena fatia dos sodreres acreanos, encontro o nome Domingos Assmar na memória.
Por aqueles dias eu era um bebê batendo em retirada de um sonho ocidental. Tudo para mim, na viagem, era muito extravagante, extraordinário. Para quem tinha acompanhado a irmã caçula, um anjinho que não suportou as dores do mundo, ser acomodada numa caixa de sapatos e ser enterrada ao pé de uma seringueira, aquele mundo de luzes piscando lá embaixo, na cidade de Rio Branco, sim, aquilo sim é que era uma grande fantasia, um iluminado absurdo. A cidade era uma pretensão luxuriante, um irresistível desafio.
No pernoite na capital do Acre, mamãe nos alertava que se não nos comportássemos, não íamos ver televisão, quando chegássemos a Belém. Um ralho atemporal, futurista para quem sequer sabia o que vinha a ser televisão. Para quem a planura do mundo se alastrava sem fim pelas ondas curtas e certeiras do rádio. Nada mais que isso.
Não mais que pequenas sensações, raras sonoridades embarcaram comigo no porto de Rio Branco e se esconderam inertes num acanhado camarote do Domingos Assmar, por aqueles dias.
Foi uma viagem longa. Quando a gente é criança, nos subordinamos a uma escala distorcida de tempo e espaço: o tampo de uma mesa é inalcançável, o nosso pai é um grandalhão, passamos dois por uma mesma porta. Um dia parece dois. Um rio, mar. E eu achei, durante algum tempo, que aquela viagem havia demorado uns oito, nove meses, um ano...
Mas a gente vai crescendo (no meu caso até o limite de metro e meio, observo). As dimensões vão se ajustando e a gente já bate aqui, ó, além do ombro do pai, e percebe que o pai nem é tão alto assim. Dias e noites são bem mais definidos e as coisas passam a estar ao alcance das mãos (nem todas, constatamos indignados. Nem todas). E agora acho que aquela viagem nem durou tanto tempo assim, ainda mais de descida...
Quando vencemos as águas afoitas da baía do Marajó (ego incivilizado do rio Acre) e irrompemos sobre Belém, a batuta da minha mãe elevava-se insistentemente, agressivamente, ameaçadoramente a reger repetidas vezes a regra ‘se não se comportarem, não vão ver televisão’.
Deixamos o Domingos Assmar para trás. Pegamos um táxi Aero-Willis (outra coisa diferente de rádio) e fomos dar na Pedreira com malas e bagagens.
Naquela casa da Marquês de Herval, conheci aquela caixa encantada chamada televisão e, sabe, nem fiz tanta questão de ser um menino comportado. Preferi os quintais tomados de camapu.
Domingos Assmar foi o patriarca de uma família de imigrantes sírio-libaneses que se instalou no Acre e fez fortuna nos tempos áureos da borracha. Fundou a poderosa Casa Irmãos Assmar em Rio Branco, especializada nos ditos ‘aviamentos em geral’ e acumulou um imenso patrimônio.
Não sei se o navio era de propriedade da família...Tudo indica, tudo indica, né? O dinheiro da borracha comprava muita coisa.
Nesta minha batidinha diária entre Barcarena e Belém, tenho visto o velho e carcomido navio Domingos Assmar fundeado no porto do Arapari. Deteriorado, gasto pelo tempo. Abandonado na sua quietude.

Comportado...Comportado. Ouvindo sonhos. Nada mais que isso.

Um comentário: