sábado, 2 de março de 2019

crônica da semana - teu nariz é um sucesso


Teu nariz é um sucesso
Eu me bato de dobrar e estrebuchar para achar o sujeito da oração absoluta “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas/De um povo heróico o brado retumbante...”, contida nos versos iniciais do Hino Nacional. Não superei este desafio da gramática, até hoje, o que  deveras abala o meu viés intelectual, e ataca, severamente, a minha  presumida vaidade. Agora, tirando a erudição, meus débitos com a sintaxe e, largando crueldades da língua à parte, sei cantar o hino do início ao fim, sem escorregar um isso. E olha que as chances de um estatelamento, uma atrapalhação, e uma eventual queda, num momento ou outro da letra, são pecaditos perdoáveis, já que resultam de estrofes prodigamente ornadas, e de acompanhamento daqueles fiéis, rés a letra, difícil pacas. Além de patriotismo, a interação com o Hino Nacional exige boa memória, cadência, licenças métricas, um apurado senso harmônico e um fervor no estribilho. Tudo isso mais a mão no peito: a reverência ajuda na concentração.
Cantei hino em todos os estágios da minha vida estudantil. E não tenho bronca disso. Não só o Nacional, observo. Sou do tempo em que os hinos do Pará e do Brasil vinham impressos nas capas e contracapas  dos cadernos da Femesc. E a garotada, enfileirada à distância da mão no ombro, soltava a voz, a cada turno de aula, inclusive o intermediário, o turno da fome.
Os hinos pátrios são expressões de compromisso, de carinho, de saudade. Compõem traços da identidade, da cultura. Simbolizam o solo amado e gentil. Personificam amigos distantes, amigos sumidos assim. Nos trazem diante dos olhos e do coração, “os verdes mares bravios de minha terra natal”, mesmo que a gente esteja no ermo mais alto e árido das montanhas.
Tenho simpatia pelos hinos por indicarem acima de tudo apego. Nas minhas andanças pelos sertões do Brasil, parando em várias estâncias, me fiz sempre participar, amar aquele chão. E procurava crédito no que afirmava, sustentando que (além do título de eleitor; da minha integração com as iniciativas culturais, sociais políticas...) daquele lugar, eu sabia até o hino. E verdade era. Até um dia desses, cantarolava sem falhas os hinos de Rondônia, do Amapá, do Acre. A memória, nos últimos anos tem me traído, mas se arriscar, desenrolo bacana, ainda, o hino da Escola Estadual que me deu o primeiro grau, de quinta a oitava série, completinho.

Prezo esta afeição pela simbologia que os hinos carregam em si, mas acredito que estes sinais só podem ser pressentidos e metabolizados dentro da gente, se houver a animação voluntária. Nada a pulso presta. Na minha Escola Estadual, antes de entoarmos o hino, a antipatia provocava diversas reações. Enfileirados à distância da mão no ombro da próxima pessoa à frente, não era fácil manter a ordem. Valdeci, o que mais antipatizava, não se aquietava. Mudava de lugar a toda hora. Cobria um, cobria outra, saía de forma. Quando avistava Enedina, aquecia. Ignorava limites. Quantas vezes o vi adiantar-se até a bandeira, antes do hasteamento, abrir-lhe ao todo, ler a frase em voz alta, para toda a turma. “Ordem e Progresso”. A seguir dirigia-se faceiro até Enedina e segredava-lhe ao ouvido... “teu nariz é um sucesso”. Após a rima sumia no fim da fila. Concentrado, esperava o estribilho do hino, que era a única parte que sabia de cor.
   

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