sexta-feira, 18 de setembro de 2026

crônica da semana - Espelho sem aço

 Espelho sem aço

Ai de quem passasse na frente da TV na hora aquela que minha avó estivesse ligada na novela. Pegava um carão e recebia a ordem eivada de nocivo enfezamento: “sai da frente, espelho sem aço”. Queria dizer com este ralho que a pessoa se presumia transparente, e poderia estacionar ali de confronte à TV sem atrapalhar ninguém.

O aço que minha avó se referia é uma demão de produto metálico aplicada a uma face da placa de vidro e que lhe permite a propriedade da reflexão. Esta composição produz a superfície que, na regra, chamamos de espelho. Sem esta camada metálica resta a transparência do vidro. Era este o entendimento de minha avó: o intrometido da vez se achava penetrável, sem segredos. Oferecia, através de si a fantasia, a tensão, a emoção e as esperanças apregoadas pelos dramas da novela.

Foi assim, sem camadas de aço a espelhar personalidades, dramas e jeito de ser de outras pessoas que meu amigo tentou viver, nos tempos plúmbeos do regime militar, lá no esquecido vilarejo que margeava o rio Pium, interior do Amapá.

Encontrei com ele por agora, num evento cultural realizado na Praça da República. Anos e anos sem notícia. Bem mais velho que eu, era meu companheiro nos movimentos de resistência à Ditadura, ali pelos idos de 1979. Naquela época, ainda bombas explodiam em bancas de jornais, e militantes sumiam assim...

Ele era bem visado e numa de nossas mobilizações, reunindo estudantes da Escola Técnica ele foi identificado, monitorado, seguido. Por pouco não foi preso. Conseguiu escapar varando os quintais apinhados de camapu que ainda grassavam na Pedreira. Conseguiu apoio, fez contatos, tirou novos documentos, pegou a família e saiu de cena.

Reapareceu com outra identidade e profissão naquela comunidade nos estirões do rio Pium.

Eu só o reencontrei agora, passados quarenta e tantos anos, por uma sucessão de coincidências. E valeu a pena. O homem, avô hoje, assim como eu, tem história. Uma em especial me tocou bastante. Ouvi atento, enquanto tomávamos um café com tapioca, ao pegado do Teatro da Paz.

Ele contou que, embora o Amapá pudesse representar segurança por ter difícil acesso, à época, era área de segurança nacional e este fato levava uma boa quantidade de agentes e também um contingente significativo da repressão pra lá.

Ressabiado, largou-se às brenhas. Subiu o Pium.

Na comunidade, primou por uma conduta vítrea sem camada de aço que o mimetizasse. Era um ser único, transparente. Professor, casado com a enfermeira, dois filhos que jogavam bola até bem; de vez em quando viajava até Macapá e de lá trazia novidades, mimos importados, brinquedos para distribuir no Natal à criançada da beira.

Alugavam a casa de uma senhora bem dada, esperta que só ela.

Viveram por lá o tempo que deu para a anistia. Quando os ventos da democratização sopraram, resolveram voltar pra Belém.

À hora da despedida, decidiram contar a verdade para a senhoria. Revelaram que estavam ali como clandestinos, que eram mantidos pelas aulas e atendimentos que prestavam na região, que estavam fugidos da repressão, que levavam a vida na comunidade mostrando um comportamento baseado nas idéias que defendiam. No meio da conversa, a senhoria fez uma declaração. Sabia desde que tempo da situação deles. Os filhos muito inteligentes, observou ela, a mulher generosa, que por vezes nem cobrava pelo trabalho de enfermeira; ele lia muito, jornais, livros grossos, tratava a mulher muito bem, dividia as tarefas da casa, não reclamava se ela saísse e se demorasse pela noite, a vitrola tocava músicas bonitas mas que ela não entendia; uma família que partilhava o que tinha com os outros. Gente assim, só pode ser da laia subversiva, concluiu conformada, a senhoria. Ao se despedirem, um morador da vila postou-se entre eles. O barco estava de partida. A senhoria ralhou. “Sai da frente, espelho sem aço”. O morador não saiu. Ficou ali, refletindo a inconveniente realidade. 

 

 

sábado, 12 de setembro de 2026

crônica da semana - Karl Marx a resposta

 A resposta

Ela surgiu daquele vai e vem interminável, daquele povaréu sem destino certo que ocupa os corredores do Hangar em tempos de Feira do Livro. Era gitinha, aparentava não bater nem de perto os quinze anos. Desgarrou-se da correnteza de gente, arrastou a mãe. Foi certinho na estante que guardava as obras do filósofo alemão. Sacou de lá e abraçou com profunda afeição o volume 01 de O Capital. Convicta, sinalizou para a mãe: é este.

A cena chamou atenção. Uma menina ainda, sustentando no colo uma publicação volumosa. Um livro de dimensões impactantes, desproporcionais ao tamanho da garota. No entanto, ela exibia um sorriso de satisfação, de contentamento com aquele encontro. Para ela, aquele volume não pesava nada, não atentava contra a métrica da escala estabelecida entre os dois. Tinha nas mãos, sim, a densa interpretação do sistema capitalista, a compreensão elaborada de mercadoria e valor, a dissecação histórica dos registros de acumulação, a relação conflituosa entre lucro e mais-valia. Acomodava entre os braços a obra que estimulou a crítica da economia política. Um livro odiado e amado com a mesma intensidade. Texto analítico que mete medo e impõe curiosidade. Inspira reações, tomadas de consciência, substancia revoluções.

O que uma menina que na regra, pela fase ainda adolescente, estaria mais atenta aos vídeos do Instagran, aos livros juvenis da moda, a romances famosos, aqueles indicados no ginásio ou mesmo a textos ligados aos avanços tecnológicos quereria com a obra de Karl Marx? Nem imagino. Sei apenas que ela foi ao caixa, pagou, pegou o livro, guardou na sacola, saiu do estande e voltou a ser uma gota d’água naquele mar de gente, alegre que só ela, como se tivesse ganhado o melhor presente da vida.

Estava na biqueira do revezamento de almoço no estande. Abri meu aplicativo e visualizei meu ônibus se aproximando da parada que fica na Dr. Freitas um pouco adiante do Hangar. Taí uma coisa que funciona é este aplicativo. Dá impressão que temos um sistema de qualidade e fôlego. Neste aspecto do tempo é até aquele, o sistema, mas quando a gente entra no coletivo, meu pai do céu. Os bancos têm só o esqueleto, não têm o estofado, ou por outra, sequer o esqueleto têm. Os carros circulam com falta de bancos. A cordinha de solicitar parada é toda no remendo. Sujo, sujo, sujo. Uma batição de ferro, uma barulheira do motor... éraste. Andar de ônibus é um misto de humilhação e espanto. Pois bem, o aplicativo até que até. Corri pra parada.

No tempinho adiantado que cheguei ao ponto, um pedinte emparelhou comigo e me demandou dois Reais. Com um olho no ônibus que já despontava pra’li além do sinal, e o outro no demandante, mostrei a ele o meu passe fácil de velhinho que me isenta de pagar passagem e justifiquei que de ativo financiador, só tinha mesma era aquele cartão. Já se ouvia o balangandaço do ônibus se aproximando quando ele me voltou inconformado, lamentando em tom alterado a minha secura de grana e ainda me perguntando se o passe era motivo para que eu não andasse com pelo menos dois Reais para partilhar com os que precisam. Dito isto, afastou-se enfezado, batendo as chinelas gastas no calcanhar.

Não soube responder àquela pergunta. Enquanto o ônibus pelejava pela avenida vencendo os déficits de conforto e qualidade que ostentava, em meio àquele difusor de ruídos metálicos, imaginava...

Achei nas minhas reflexões, a menina franzina que se distanciava no vuco-vuco de visitantes da Feira do Livro, em puro encantamento, por carregar o pesado volume 01 de O Capital na sacola de papel. Ao descer na minha parada me veio um estalo. Talvez em uma página densa entre as tantas daquele livro a menina encontre a resposta para o fenômeno neoliberal de um cidadão abandonado pelo sistema, pedir dinheiro na parada de ônibus a outro cidadão que não tinha sequer uma amostra mínima impressa em papel ou em liga metálica, da moeda corrente do país.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

crônica da semana : zé pererequeté

 Zé Pererequeté

Morava numa casa bem estiolada, nos interflúvios da baixa da Pedreira. Vivia com a mãe, a irmã e uma bicicleta toda esmerilada. O lugar ficava a um trisca dos alagados de inverno. Durante as chuvas inteiriçadas do março pra trás um pouco e do março pra frente o que desse, aquele terreninho resistia e a casa ficava em tempo, mas não enchia. A água não invadia, a chamichuga não procurava pernas nuas, não precisavam subir as coisas. Poucas coisas. Mas a estrutura sentia. O terreno encharcava, ficava molengão. Aos poucos, a casa foi deitando. O movimento que não se sentia no ato e na vez, aos poucos ia revelando a inclinação. E produzindo conseqüências. Por causa dos silenciosos e traiçoeiros solavancos, o enchimento ia cedendo. Vez e vez, se encontrava um torrão no chão, saltado da parede. E as varas trançadas se mostravam e expunham o oco do quadrado. Dava pra gente ver lá dentro da casa, pelos buracos que se formavam. No verão, toda a estrutura sossegava. Era hora de remendar os buracos com barro dali da frente mesmo e, o melhor de tudo, era o tempo que o igarapé aparecia lá no quintal. A água grande passava e ficava só aquele reguinho, com um fiozinho correndo o tempo todo. Havia uns quantos olhos d’água por ali, desde lá de cima, da Lomas.

O Zé Pererequeté tinha um primo que mexia com coisas velhas de carro. E no verão a baixa da Pedreira ficava uma pista de piçarra muito firme. A gente aproveitava o declive da rua pras bandas da Itororó, o Zé conseguia pneus de carro e “jances” de bicicleta e nossa diversão era bater “jance” e pneu ladeira abaixo, uns com um pedaço de madeira ou uma haste de ferro, outros, batiam e tareavam os aros e pneus era com a mão mesmo.  

Era, o Zé, o fornecedor e o organizador das brincadeiras da tarde, depois da aula do intermediário e do episódio de “Perdidos no espaço”. Tinha também o pendor do conto e da fantasia, o menino. Repetia uma história das pedras falantes. Dizia que quando o nível do igarapé descia, apareciam vários pontos que acumulavam uma variedade de pedras. Roladas, pontudinhas, quadradinhas, brilhantes como diamantes, coloridas, transparentes. E as que mais impressionavam, aquelas que falavam. Um dia da semana, sempre nos convidava para varar os quintais pelo leito do igarapé, pra ver se a gente encontrava alguma pedra falante. E caso a gente encontrasse, para saber qual o papo delas.

Era uma aventura. Embora verão, havia um trecho na parte da Pedreira constantemente alagado. O igarapé que passava atrás da casa inclinada do Zé Pererequeté cruzava vários quintais e se embrenhava por paisagens ainda diversas por aquele lado do bairro. Uma hora atravessávamos uma mata alta com castanheira e mangueiras, noutro ponto já dávamos de encontra com um açaizal, em algumas margens, pés de café, urucum, jaca e cacau. Mais lá na frente, era a hora de subirmos pela ponte e sem cerimônia, passar rente às retretes e jiraus das casas que se amontoavam em becos e vilas. Até que a gente saia no capinzal. O igarapé terminava ali. Era um terreno sempre úmido e que quando dava, a gente socava de caroço de açaí e arremedava um campinho. Durava pouco porque do nada o terreno se movia e isso prejudicava o nosso bom futebol. Parece que a gente jogava em cima de um colchão d’água. Dali em diante não tinha mais um leito, um fiozinho pra seguir. Era tudo aquele ensopado.

Fizemos muitas caminhadas de exploração, incentivados pelo Zé Pererequeté. Tinha era muita pedra bonita mesmo ao longo do igarapé. Até hoje tenho as minhas guardadas. Nunca encontramos pedra qualquer que falasse ou um oi sequer pronunciasse. Era tudo por conta dos contos do Zé.

Zé mudou-se. Casou-se. Constituiu família. A casa da baixa da Pedreira, como se diz, encruou. Nem foi ao chão, nem se reergueu em tijolo. Reina de banda sustentada por varas em quadrado, enchimento de barro e a tagarelice das pedras lá atrás, no igarapé da memória.

 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

crônica da semana - ler é viver feira do livro

 Ler é viver

Mais uma Feira do Livro na minha conta. E este assunto me traz um pouco de nostalgia. Mexe lá dentro do meu puro íntimo porque mistura um monte de coisa bacana. Traz à memória o Arraial de Nazaré, os meus companheiros do Sindicato, o Dr. Geraldo... A espontaneidade dos artistas que se revelava nos arrastões poéticos durante a Feira, os primeiros passos para um estande exclusivo destinado aos escritores paraenses, a docilidade do querido escritor Benedito Monteiro, a presença da literatura operária minha e do Dr. Sérgio Pandolfo, a energia e a desenvoltura de Juracy Siqueira, a poesia envolvente da Malta Folhas e Ervas.

Calha de alguém perguntar: e o que tem a ver o sindicato com as valsas? É que nas primeiras versões, a Feira do Livro era realizada no Centur, que é ao pegado do prédio da Fiepa, nicho empresarial onde aconteciam, naquela época, entre outubro e novembro, as negociações para o Acordo Coletivo dos trabalhadores que representávamos em Barcarena. As reuniões iam até tarde. Na saída, sempre dávamos uma banda pelo arraial pra fazer um lanche na barraca do Ciro e depois, terminávamos a jornada visitando os estandes da Feira. As visitas me fizeram tomar gosto, coragem e logo logo, cuidei de lançar meu primeiro livro também na Feira do Livro do Centur. Isso é lá pelos anos de milinovecentos e naninani. Hoje, a Feira se realiza no Hangar, que oferece um ambiente até mais aquele de amplo e confortável.

Daqueles anos pra trás aos de hoje, participei de todas as panamazônicas. Fazendo lançamento de livros de minha lavra, como visitante ou prestigiando as sessões de autógrafos d’outros autores.

Este ano, além de comparecer com minha mais recente publicação (tô esperando vocês lá, heim, pra autografar minha nova obra, a coletânea de crônicas ambientais, sociais e quetais científicas “Parece até que vai chover”), vou experimentar o ingresso no mundo dos livreiros. Fiz uma parceria com o amigo Juarez e vou viver, no estande da livraria Ifá, o universo daqueles abnegados, daqueles heróis que acreditam ainda que ler é viver.

Se a gente for reparar, os estandes da Feira são ocupados por negócios gráficos vários e outros, aparentados dos livros. Mas chamo atenção àqueles que apresentam, efetivamente, a produção do livro físico, aqui em nossa região. Penso que poucos resistem. As livrarias desaparecem e a gente nem malda. Vão passando. Algumas deixam saudades. As que ficam, e aqui em Belém contam-nas nos dedos de uma única mão, chapinham na inconstância da demanda. As multimídias, o desapego pelo prazer que vem da escrita, a negação do conhecimento, e a anuência a fatos, enlevos e informações fáceis e ágeis, ainda que sem sal ou mentirosas, têm derrubado de ruma, o exército de leitores.  Estes são fatores que afastam as pessoas dos livros, além, né, das coisas da idade.

O Brasil lê pouco, se comparado com outros países, mas sempre lutei contra a média. Fui leitor de devorar de dois a três livros por mês. Na própria livraria Ifá, mantenho uma rotina, há anos, de adquirir por lá pelo menos uma publicação a cada mês, inclusive com critérios. Paraenses, biografias, literatura feita por mulheres, mulheres pretas, homens pretos, cultura e religiosidade afro, histórias do samba, das crenças e das ciências. Mas confesso que com o passar do tempo, os meus acessos aos livros exigem superação e adaptação. A vista começou a turvar. Antes já tinha uma dificuldade. Nunca me acostumei com óculos. Me dá uma agonia. Um desconforto contornável. Mas agora, com este turvamento, senti a limitação. Mantenho minhas aquisições só que no momento, priorizo edições que tenham as letras porrudas.

Digo: se tem a vista boa, se não tem agoniação, aproveite. Rogo que vá à Feira do Livro, visite os livreiros, as heróicas livrarias. Ler faz a gente viver mais, porque vivemos vidas outras, sentimentos outros, vitórias, prazeres entre as mãos.  Espero vocês lá.

sábado, 22 de agosto de 2026

crônica da semana - régua tê

 A anatomia (e a psicologia) da régua Tê

Nos primeiros dias de aula e ainda por um bom tempo, mesmo às vésperas de mudar o bolso de ‘básico’ para ‘profissional’, a galera pegava no pé de quem chegava à Escola agarrado a uma régua Tê. A encarnação, ou, que seja, o bullying era certo.

O ensino do Desenho Técnico era traço (ops!) essencial na formação de quem ingressava na Escola Técnica, na minha época. Exigia uma estrutura de sala de aula diferente, dotada de mesas especiais (pranchetas), professores destacados, bancos altões pra gente alcançar as mesas. E uma série de componentes, os ditos materiais de desenho. Dentre eles, a perseguida e bulinada régua Tê.

Tratava-se de uma peça bem indiscreta e representava uma disciplina de entrada na Escola. Sinalizava um aluno novato, calouro ou no dialeto preconceituoso da época, ‘aluno mobral’. Era inevitável. No caminho para as salas de Desenho, ali pela pracinha que ficava em frente à biblioteca, aquela romaria de novatos portando régua Tê era homenageada com vaias, afrontas e dizeres impublicáveis. Era um ciclo, sabíamos. Dali a algum tempo, os alunos xingados passariam a ser os xingadores.

Fosse eu um estudiosos dos interstícios da mente, cavucaria termos e conceitos que explicassem estes comportamentos naquele ambiente, no esperado, de aprendizado. E também, pesquisaria os efeitos psicológicos resultantes daquelas encarnações. Eu, por mim, tenho é trauma. Sofri pacas. Uma porque custei a abandonar a régua Tê (outro sinal. Significava pouca destreza no traço). E noutra, porque na minha vez ainda ocorreu de a minha régua, ao contrário de todas as outras dos meus colegas que eram de acrílico, ser de madeira. Além de ‘mobral’, a minha régua indicava ali um aluno que não tinha dinheiro para comprar uma régua de acrílico. E, pelo certo, nem de madeira. A régua, chegou até mim, como fruto de uma doação. Me entanguia de vergonha entre os meus colegas, para que não me localizassem, toda vez que tínhamos que passar pela pracinha.

A realidade daquelas afrontas era que refletiam diferenças de aprendizado. O uso da régua Tê significava pouco desprendimento na disciplina e necessidade do amparo daquele componente. Com o tempo, os alunos iam ficando mais ‘safos’ e abandonando aquele artifício. A maturidade dispensava a régua Tê e as atividades de Desenho passavam a ser regidas pelo charme e pela caté no manejo do par de esquadros. A maturidade ensejava a gabolice e o preconceito. Demorou, penei que só, mas quando me dei com os esquadros, adorei. Até um dia desses, na minha caminhada profissional, mesmo ante as tecnologias, me acudia ao charme do par de esquadros para conferir traços.

Os esquadros integravam o que chamo de anatomia da régua Tê.

A régua era a peça mais robusta. Pelo comum era uma haste com 5 a 7cm de largura por 50cm de comprimento, finalizada em uma das pontas, com uma cabeça em tê. Este formato proporcionava o ajuntamento ordenado das outras peças, no corpo do acrílico (ou da madeira, no meu caso). Deixa eu ver se me lembro a organização direitinho. Ali, cabia todo o nosso material. Primeiro, o transferidor. Com a régua em pé e de cabeça pra baixo, o transferidor era introduzido e despencava até encontrar o tê, depois, o par de esquadros deslizava ao longo da lâmina, até chegar no transferidor lá na ponta. A seguir, com a fita isolante, que na aula servia para fixar o papel na prancheta, colávamos o escalímetro no corpo da régua. Acima do escalímetro colávamos a borracha branca e a flanela. Concluindo, posicionávamos o rolo de fita e o tubo montado com o papel A2, colado com durex para não abrir, e lançávamos os dois envolvendo boa porção da haste. Os lápis de vários traços e durezas iam no bolso da bata. O compasso, na mochila, porque era sempre um risco com aquela ponta fina. No coração da gente, uma batucada de nervoso porque passaríamos pela pracinha minada de moleques pouco atentados!

 

sábado, 15 de agosto de 2026

crônica da semana - juta e malva

 Juta e malva

Confesso que me encolhi de vergonha ao menor risco de ver-me representado ali naquela afirmação. A professora sem alisar o couro do paciente, disparou ferina a citação de um filósofo aquele não menos severo, que ante o impacto da carapuça, me desprendi do nome: “Não fale dos mitos aos incautos. Eles acreditarão em tudo ao pé da letra”.

O inocente aqui confessa e se enquadra: por vezes a gente vê os tempos e as artes com os olhos do simples.

Por isso a luta insistente para nos libertarmos, para nos esforçarmos espreitar além das faces explícitas e do lustro dos símbolos. A professora enriqueceu a palestra com passagens da Odisseia. Reconheço. Identifiquei ali só as pelejas com monstros, sereias, divindades. Olhos furados, ossos quebrados, beijos enfeitiçados e mar revolto. Mas tudo aquilo, ressalvou a professora, condensava uma única mensagem. Era a viagem de volta, de Ulisses, para dentro de si.

A poética lança mão de artifícios que buscam alcançar além dos sentidos. É necessário que a gente esteja de coração aberto para sermos atingidos. Daí o escape do óbvio, daí o potencial humano de aprender. E discernir.

A arte abre portas e corações e, olha só, nos aproxima da juta e da malva...

Naquela parte da discreta apreensão, lá pelos idos passados no ginásio, juta e malva eram para mim apenas a resposta para uma questão de prova. Apareciam no ponto das aulas de Estudos Regionais quando se falava de produtos importantes para a nossa economia. Juta e malva eram das principais mercadorias incluídas no pacote das produções da região Norte. Mesmo sem saber o que era aquela dupla e nem pra que servia nosso expoente de negócios, cravava sem dúvida na resposta.

Anos depois, lendo Milton Hatoum é que fui sacar a natureza dos produtos. Mais a juta. Malva sei o que é, por tabela, mas o que tem destaque no romance Cinzas do Norte, do escritor amazonense é a plantação de juta. A partir do romance, conheci uma penca de detalhes relacionados à juta. A narrativa de que a planta foi trazida no cambalacho, da Índia; o sucesso das técnicas de cultivo nos baixios amazônicos, os riscos nas operações de coleta, que por vezes impõem mergulho e jeito de corpo aos coletores, além de coragem pra enfrentar sucuris e aparentados aquáticos pouco amistosos.

Naqueles longes ginasianos de chumbo, o Brasil vivia uma fase de poucos aléns nas palavras. Os livros didáticos distribuídos pelos governos traçavam roteiros acanhados, circunscritos aos artificiais entusiasmos do momento. Ilustravam com exagerado esmero avanços e desenvolvimento. Na quarta capa traziam o hino do Pará e nos davam o simples para respondermos a questão da prova.

Outra fonte que traz detalhes enriquecedores do manejo da juta é o romance “Sementes do sol”, do escritor obidense Ademar Ayres do Amaral. Ele nos conta: “mal alimentado, o lavador de juta passa o dia inteiro dentro d’água, os dedos das mãos e dos pés terminam a jornada enrugados pelo tempo de imersão e o resto do corpo fica horas exposto ao sol... Um sol... que toma conta de tudo e de todos, como se fosse a lanterna de Deus.”

O filósofo, Platão ele, lembrei agora, é previdente quando nos alerta que a régia aspereza, a concretude insuspeita de horrores, monstros e sinistros cenários podem esconder a busca por uma paz interior. As artes, e a literatura em especial, têm mesmo esta missão de transportar juta e malva para além de uma linha de resposta curta de prova ginasiana. Aqui, acolá, a trama literária diz uma coisa quando quer dizer outra. Apresenta sucuris dentro d’água quando as ameaças aquáticas nada amistosas estão é nos justos alagados das gentes, dentro do coletor de fibras. A arte sugere viagens pelos mares sem fim quando a viagem é só uma volta em torno da gente mesmo. Tem hora que é estratégia; outra, estilo.Vai da gente sacar e escapar do simples.

Sobre o uso, a juta serve para produzir sacarias e fibras ecológicas

 

 

sábado, 8 de agosto de 2026

crônica da semana - estreito de messina

 O Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu

Fosse comigo, eu me revoltaria logo. Não, ninguém num vai! Sugeriria sem tremer os beiços. Vamos lá só tu! Eu, heim! Eu é que não iria me meter nessas bocadas. Esse herói grego pôs a turma dele em cada encalacre.

O herói é um personagem da narrativa épica grega que eu chamei a vida toda de Ulisses e agora, por causa do neorenascimento provocado pelo lançamento do filme, passei a conhecer como Odisseu. A história conta as aventuras do rei de Ítaca logo que termina a guerra de Tróia. No quê de voltar pra casa, o herói se mete numa arenga com o gigante de um olho só e pega uma senhora de uma prenda do pai dele, Poseidon, um deus enfezado que só ele. Só de mau o fanchão dos oceanos faz de um tudo para Odisseu vagar de água grande em água sem fim dos mares por dez anos, se virando nos trinta de tantos perigos que ele encontra pela frente. Corta um dobrado nessa aventura. Perde o barco, toda a tripulação tem um fim trágico e o herói se vê atado a um nó difícil de desatar. E é aí que o Xingu entra na parada.

Fosse no trancoso poético, dava era o desdobro. Mas na vera, nas desobrigas do trampo brabo, tive que encarar os desafios do Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu.

Um dos perrengues que Odisseu passa, aquele no dito aperreio em que ele perde meia penca de marujos que navegavam perdidos com ele, acontece no estreito de Messina. A história fala que é um canal solitário, perdido no oceano que guarda numa das bandas, um monstro horrível que tem seis bocas esfomeadas e na outra banda um funil de água que engole quem passa por lá. Dizem até que o ditado popular que põe uma pessoa “entre a cruz e a espada”, vem desse afogueado do herói se meter entre estas duas bandas malinas. Mas o Xingu nem entra na história por causa desses monstros bandados e medonhos. Dá o tom e o verso é no exato formato do canal. Um caminho de água estreito ladeado por imensas paredes rochosas.

Pois bem. Eis que certa vez, desenrolando a vida na minha odisseia amazônica, varei, na minha canoa, em um estirado de água apertado, profundo, silencioso, e aparado de um lado e de outro por uma potência de pedra monstruosa de alta e amedrontadora. Na hora lembrei da sequência que tinha visto em Ulisses (naquele tempo era Ulisses ainda), um filme que era vezeiro de passar na sessão da tarde. E que apresentava um cenário, uma movimentação, uma tensão escritinha àquele que eu sentia ao cruzar aquele canal que corria escondido pela margem direita do Xingu.

No filme que enreda esta minha passagem, me ocorreu que as paredes de pedra se mexiam, indo uma contra a outra, em tempo de amassar o barco do Ulisses bem amassadinho. Esse era meu medo. Eu e minha turma nos aviamos nos remos. Ninguém deu uma palavra. Não houve partilha de medo ou mal’impressão, desde que entramos naquele desvio. Mas foi automática a nossa decisão de acelerar o ritmo. A gente a bom remar. Olhávamos uns pros outros, lançávamos olhares salteados para cima e para frente do caminho para nos certificarmos que as paredes rochosas não estavam ensaiando nos espremer e... a gente a bom remar.

Era um lugar encantador. Fascinante. Como outros lugares fantásticos que conheci ao longo da mítica Volta Grande do Xingu. A semelhança com uma alegoria épica só temperou aquele dia. Pôs um adianto de emoção em uma jornada de trabalho que tendia ser rotineira. Aquele ponto do rio era objeto de estudo porque se localizava em uma estrutura, digamos, bandada (olha aí, os monstros de Messina). Acima, as corredeiras assanhadíssimas da Volta Grande. Abaixo, um encaixado de 70 metros de largura por onde passava toda a água que corria num largo de mais de 2 quilômetros lá atrás. E no meio, o poético Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu com suas gigantescas paredes de pedra, o silêncio, o medo contido. E a gente numa aventura (a bom remar) inesquecível.

sábado, 1 de agosto de 2026

crônica da semana - paradoxo das samaúmas

 O Paradoxo das samaúmas

Eis que caminhando ali pela Duque de Caxias, avistei a samaúma completamente pelada. Só a casqueta. Nenhuma ramazinha pra remédio. Nenhuma flolhazinha de lembrança. Deixa que nem me adiantei o tanto que desse na pisada pra pingar o suor da testa e logo que bem na esquina da Marquês de Herval com a Barão do Triunfo, constatei de palmo em cima a samaúma que reina por ali estar minada de folhas. Uma árvore rica, toda composta na prodigalidade exuberante de uma copa saturada de verde. Como é que pode, né, distância que não denuncia sequer o caminhar de três estirões bem contados, mesmo sol que nos cabe a todos, época do ano do pleno julho, Terra inclinada do eixo, no mínimo do nem bem lá e nem bem cá e as duas árvores exibindo-se em roupagem completamente diferente. Uma no mais puro liso do tronqueio enquanto a outra têi têi, esbanjando clorofilamento na folhagem do cá do embaixo ao lá do muito em cima. Por que será? Eis a questão.

Nem lembro em que passagem da vida eu obtive esta informação. Acho que foi numa das minhas tentativas de passar no vestibular. Sem fazer cursinho, migrava de um livro emprestado pra outro e com alguma urgência. Tinha pressa em conhecer os assuntos e sempre pouco tempo pra aprofundar. Em alguma publicação de Biologia, dei com uma explicação, que até hoje acho de uma elegância impecável, para o fato de, em determinada época do ano, as árvores perderem as folhas. Esta época, conjugada com a posição geográfica da região e a inclinação da Terra, é conhecida como outono. É um período que compõe as estações do ano. Vem depois do verão e antecede o inverno. Aí é que vem o tico de elegância. Nos parâmetros geográficos e atmosféricos que marcam as estações, consta que no inverno registra-se pouca chuva e no verão, o pampeiro não alivia a carga. Ocorre que durante o tempo de chuvas abundantes, as árvores são bem hidratadas e também, naquilo que dá de sol, liberam água para a atmosfera (em quantidades tantas que geram os rios voadores). Para cravar no estilo de deduzir as coisas, li no livro, e reconhecemos este fato no simples caminhar no bosquinho, que a água acumulada nas árvores é transferida para o ambiente através das folhas, num processo conhecido como transpiração. Uma troca de tal forma responsável que na época de pouca chuva, as plantas para não ficarem desidratadas recorrem a uma arte radical da evolução: perdem as folhas. Assim, a via de dispersão de água é cortada e as árvores garantem reserva de suprimento para hidratação até a volta das grandes águas. Estas regras, observo, são controladas pelas particularidades espaciais do planeta. E valem mesmo na vera, para regiões mais perto dos polos. Quanto mais sentida a inclinação da Terra, quanto mais próximo dos polos, mais impacto o ambiente produz nos eventos naturais. Quanto mais distante dos polos, vindo aqui para os arredores do Equador, a gente mal percebe as mudanças ou se percebe, elas são mínimas. Uma época chove muito, em outra, chove pouco e estamos conversados. Aqui a samaúma dá o papo. E de uma forma desafiadora.

Como meus conhecimentos do metabolismo das árvores e do suspiro dos vegetais se resumem àquelas páginas encarreiradas que li no livro de Biologia, numa consulta às vésperas da prova do vestibular, provoco aqui os entendidos para me aliviarem desta dor atroz que a dúvida me impõe.

Agora na Amazônia, entramos na fase do ano que chove pouco. É de se esperar uma vuca de árvores desfolhadas dominando o cenário. E a bem do dizer, a samaúma é a mais amostradinha. Aquela que do longe mesmo das vistas a gente dá definição.

Ocorre que quando miro e vejo, dou é de encontro com o paradoxo, do o que é não sendo. Com a família das samaúmas em descompasso, de uma amostradinha esbanjar as folhas prendidas na unidade da árvore e a outra bem ali no perto constar no observado como a mais pura carência de folhagem e ramas. Por que será?

sábado, 25 de julho de 2026

crônica da semana - ouvido de mercador

 Ouvido de mercador

Eu sou um. Quando saio para a caminhada ou para uma prenda rápida na rua, enfio o fone no ouvido.

O ditado surgiu lá pelas quantas do tempo e se refere ao fato de comerciantes e caixeiros evitarem dar atenção às reclamações que a freguesia expressava em comentários e interpelações aqui e ali. A intenção era ficar na deles. Passar o produto, receber o numerário, dar a volta de troco, caso o caso exigisse, e tornar ao mundo das vendas. Fazer ouvido de mercador é priorizar o negócio e a paz interior. Atualmente, mais a paz interior.

Para um contador de casos não é um bom termo sair por aí dando uma de mouco para o vulgo ou para o erudito. Afinal, o alarido fiel, a tempestuosa fofoca... os imponderáveis reclamos, as retóricas proclamas e até mesmo o discreto cochichado do dia formam a matéria-prima do cronista. Tenho, então, que me fiar nos conceitos e na sempre amiga imaginação para desenvolver temas e situações por causa deste anteparo circunstante que é o fone de ouvido.

Mas nem sempre foi assim. Meus ouvidos já se dispuseram à larga. Em outros tempos. Sem o risco do melindre ideológico, sem a ditadura da rasa opinião ou a insanidade moralista. Minha atenção já foi ampla, atenta às simpatias da comunicação.

Ocorreu certa vez, quando da minha volta, desde que saí de lá com 5 anos, ao Acre. Eu já estava taludinho, trampando ali perto, em Rondônia, quando numa folga, dei uma escapulida pra conhecer minhas origens. Foi um bate-volta extraordinário. Todas as minhas fantasias embarcaram comigo no ônibus que saiu da rodoviária de Rio Branco e se largou na direção do Xapuri, ali pros lados do poente. A sensação era de que o dia nunca acabava. O oeste era um fim de tarde sem fim. O ônibus naquela velocidade fantasiosa não deixava o sol se distanciar, não deixava o crepúsculo se realizar. Estávamos envolvidos num portal de momento único. Dominador. Que não permitia o sol se pôr. Não admitia que o tempo passasse. Em termos de coisa e de loisa, aquele motorista conduzia uma máquina que alcançava a façanha de fazer a Terra parar. Daí, numa parada de beira de estrada, o homem embarcou.

Eu, sentado numa das poltronas na frente, me certificando a cada instante que o sol nem seu Souza, não se mexia, não embicava no horizonte de jeito e maneira. Íamos ao encontro do sol e aquela bolona alaranjada lá no céu, nos esperava. O homem acomodou-se na poltrona parelha à minha, do outro lado do corredor. Numa posição oblíqua à nossa, um menino, acompanhado da mãe. Do que entrou no ônibus, até bem mais perto do horizonte, no ponto em que desceu, o homem da estrada não parou de falar. Falou mais que o homem da cobra. Em dado momento atinou que o menino olhava pra ele com um ar de curioso. Enviesou o olhar, inclinou-se e se dirigiu ao menino, meio pândego, meio inquiridor: “tás me olhando, heim! Tá me conhecendo de onde, do jornal ou de uma lata de banha?”.

Para um contador de casos com os ouvidos ligados no mundo, aquela pergunta foi um verso abonador de que vale a pena escutar a voz que vem dos vetores esquecidos que levam ao oeste. Não mais descolei daquelas palavras sem grau algum de etilo ou significado. Doce bandalha entre poltronas de um ônibus que não voava, não cortava meridianos, não deixava o céu escurecer e nenhuma estrela nos guiar, quer dizer, deixava sim. O sol, a nossa estrela, estava ali vermelhão só na espia.

O mundo era bem melhor quando as latas de banha traziam o rosto das pessoas humildes e sinceras estampadas na chapa gordurenta. Quando uma foto no jornal inspirava curiosidade ou admiração e quando o corredor de um ônibus era inundado de conversas jogadas sem a severidade da lógica, para dentro da gente.

Esses dias fui ao supermercado sem fone de ouvido. Uma música gritada saturava o ambiente. À saída dois homens discutiam o destino de um terceiro. Papo de macho alfa. Eu ouvi tudo. E foi tudo sem sol pra dentro de mim.

 

domingo, 19 de julho de 2026

crônica da semana - não vai ter capa

 Não vai ter copa

Para alguns, até amanhã, ainda vai ter copa. Para nós apaixonados pela seleção canarinho, não. Apesar da fé, não adiantou. Caímos fora foi cedo. E põe cedo nisso. Conforme a atualização da tabela, e também a depender de uma comparação entre os modelos de classificação adotados ao longo das edições anteriores, podemos sair da competição com a pior colocação do escrete brasileiro em todos os tempos de copa do mundo. Após uma passagem discreta e sem empolgação pela fase de grupos, ainda nas oitavas de final fomos tomados por uma certeza: para a imensa torcida brasileira, não vai ter copa. Este torneio mundial foi para a nossa seleção um 7 a 1 sem trauma, um fiasco sutilmente fracionado, diluído em sonhos que, sabíamos, não se realizariam. Diria que, ao menos, foi um fim piedoso, sem o choque e o baque bruto provocados por uma goleada. Ao contrário. Nossa atuação nos preparou, nos deu perceber um revés se anunciando aos poucos, carregando a frustração crescente e se desenhando a cada passe mal resolvido, a cada jogada ineficaz, a cada arremedo tático executado dentro das quatro linhas. Um fracasso a passos lentos. Não nos restou o consolo da nobreza na derrota nem há vez para a dignidade na tragédia. Toalha ao chão, não nos interessa o discurso da queda com a cabeça erguida. Magoamos. Queríamos mesmo era o caneco!

A saída precoce da seleção brasileira da copa do mundo tem conseqüências para um país que respira futebol. O ar benfazejo e salutar das conquistas nos faltou. Mas não foi só esta perda que nos abalou. Prejuízos foram acumulados. Calendários comerciais foram redimensionados, um número incontável de camisas amarelinhas foi posto ao largo tão logo o artilheiro nórdico nos imobilizou com aquele chute um tanto displicente, selando o placar que nos mandaria de volta pra casa. Dali, parte dos torcedores desligaram a atenção do campeonato e foram cuidar da vida. Até sem dor, é possível admitir. O Brasil não prometia tanto. Embora nomes consagrados compondo a equipe, técnico com histórico de vencedor, e uma empafiazinha residual vingando, os números não abonavam a cega confiança. Além das crises no comando do futebol brasileiro, o próprio time no período preparatório para a copa, não deu sinais que teria um bom desempenho. Encarreirou resultados desfavoráveis, repetiu erros de convocação e de esquema tático, não adensou o conjunto. Chegou à copa sem personalidade e sem corpo. E abonado por um, tempo atrás impensado, quinto lugar alcançado no aperreio das eliminatórias pela zona sul-americana, na fase de classificação para o campeonato mundial. Avaliando sem paixão, a equipe não estava com essa bola toda mesmo.

É uma desconfortante realidade. Desde a última conquista, em 2002, não houve um respiro aliviado. O futebol brasileiro vem pelejando à margem das grandes equipes. Mesmo no âmbito dos clubes. Observamos uma organização no futebol internacional que concentra talentos. O Brasil, na contramão, dispersa os bons valores que aparecem por aqui. O resultado é um elevado padrão competitivo encontrado na Europa e até Oriente Médio e Ásia, enquanto que no Brasil, o futebol caminha nos limites do tecnicamente razoável.

Amanhã não vai ter copa para o Brasil. Daqui a quatro anos, porém, esperamos disputar a final. Urgem medidas que garantam a certeza de uma vitoriosa participação no próximo mundial. Movimentos imediatos que compreendam a efetivação de um técnico competente, uma agenda de convocações racional. Ainda, oportunidade a jogadores que se destaquem no cenário doméstico e que possam compor planos de amistosos e treinamentos mais freqüentes. Necessário também, paciência. Baixa pressão na cobrança por resultados, em um primeiro momento. O trabalho deve crescer e aparecer a partir da integração dos fatores que favoreçam e reanimem a excelência do futebol brasileiro. Talento, ginga, calendário, gestão e sim, sim, paixão.


sábado, 11 de julho de 2026

crônica da semana - sapato da hermes

 Pisante marrom

O sapato, no original, nem era preto. Era marrom. Mamãe ganhou numa daquelas premiações que a Hermes dava para as vendedoras que se destacavam no mês. Podia escolher, no catálogo, os produtos que satisfizessem a pontuação que ela alcançara nas vendas. Como eu estava na pira de sapatos, largou mão de outras precisões e me autorizou escolher um par do meu agrado. Bati o olho no marronzinho com o bico saliente, costura em relevo nas laterais, sem cadarço, em modelo só de enfiar o pé mesmo; e que quando chegou, valorizou minha escolha porque o bichinho era macio, confortável que só ele. Me dei.

Era comum, naqueles anos 80, diante dos aperreios diários, a família se agarrar a qualquer oportunidade de faturar um numerário. Teve a fase dos catálogos, ou como enfatizado na corruptela de mamãe, ‘catálago’. Pra tudo em quanto a gente tinha uma revistinha apinhada de ofertas. Mamãe oferecia seus préstimos empreendedores a todas as franquias da onda. O custo era ter o catálogo. Tivesse, estava dentro. Batia esta Pedreira velha todinha, fizesse sol, chuva fizesse, com a sacola debaixo do braço, sortida de amostras grátis de batons, perfumes, e ainda, acrescida de peças íntimas femininas, e toda a sorte de estímulos visuais contidos nos mostruários ilustrados.

Calhou que dessa arrumação toda de artigos e produtos, me saísse um alento que me acompanhou até eu me formar. Não foi assim de prima. Houve a alteração da cor. A Escola Técnica tinha seus controles e não admitia desvio no uniforme. Era a tradicional bata azulzinha, com o bolso identificando semestre e curso, calça preta e sapato preto. Eu segurei o que pude o meu Bamba na lida. Aliás, durante o reinado do Bamba, fui beneficiado com a vista grossa dos inspetores, pois que não podia. Era preto com detalhe branco na biqueira e no solado. Tive que ser muito rapaz umas quantas vezes para poder entrar na Escola com ele, apesar das bacanagens dos bedéis. A linha era dura. Até que o pobre rasgou de não ter jeito. Eu tinha lá o meu sapato da Hermes, mais que depressa consegui uma graxa preta com minha pariceirada da rua e dei-lhe uma mão dupla da pasta até o pisante tisnar por inteiro. Ficou no jeito.

Estava na reta final da Escola, dois ou três semestres para encerrar o curso. Exatamente a pior fase de grana na família. Sustentar quatro bocas não estava sendo fácil. Mamãe ainda ficou na venda dos catálogos, mas acumulou outras fontes de renda. Conseguiu uma barraca na feira. Lá era o nosso ponto de apoio, a matriz das nossas marretagens. Revezávamos os turnos da barraca, a venda nas ruas, ocupações no lar e os deveres escolares. Ainda assim, na viração intensa em escala 7 x 0, a maré banzerou pro meu lado. Nessa época, as atividades no curso ganharam componentes mais técnicos e caros. Papel vegetal, tintas e canetas Nanquim, papel milimetrado, cópias fotostáticas de mapas e imagens de radar landsat, além de viagens de campo com parte do custo jogada nas nossas costas. Tudo ia muito além das minhas posses. Eu não dava mais conta. Faltando tão pouco, desvaneci.

É nessa hora que a gente sente que não está só. Os inspetores, meus colegas de turma, professores e simpatizantes do meu jeito de ser e ter fé na vida uniram-se e seguraram a minha onda. Do meio pro fim, eu não gastava mais era nada com os trabalhos ou uniforme. Cheguei a ter mais batas que os meus colegas porque dona Joaquina, que era a inspetora do nosso bloco, recolhia de cada turma que se formava o que desse de material e uniforme e me dava. Terminei o curso como um pequeno Frankestein, construído com a bata de um, a calça de outro, a caneta nanquim daquele, o papel vegetal deste... A única posse que me era original, não na cor, era o sapato que mamãe resgatara da Hermes.

Essa semana,vi na reportagem que os milionários jogadores brasileiros da copa usam os produtos da Hermès. Comentei com a família: temos algo em comum.

 

 

 

 

sábado, 4 de julho de 2026

crônica da semana - último romântico

 O último romântico

Há um mundo imenso espalhado, salpicado de escondidos e surpresas. De forma tal que até espanta. Ainda mais quando vêm dos reinos amazônicos, os assombros. Criam abalos por vezes tristes, tingidos de descaso com a nossa gente. Formam realidades que, em nosso mundo (Rai)mundinho, nem maldamos existir, mas existem.

O encontro se deu num acampamento temporário, por isso, desprovido do básico. Para mim, aquele jeito precarizado das acomodações, com barraco coberto de lona sobre débeis estruturas de madeira, já me dava gastura, pois que minhas jornadas no campo eram sempre em locais de estrutura razoável, equipe robusta e com este ou aquele apoio. Daquela vez foi diferente. Era, como diz o outro, tudo no bruto, na base do imperioso improviso. O cozinheiro não se podia dizer que era um cozinheiro de verdade. Era aquele um que apanhava lenha, completava a equipe de cortador de mata quando necessidade havia ou ainda ajeitava um curativo, um cuidado a alguém acometido de uma bifede ou algum tipo de passamento. O chefe era um geólogo romântico. Achava ele que aquelas dificuldades eram sinônimos de fortes emoções. Acreditava que os resultados, os indicadores, os avanços na pesquisa validavam toda e qualquer mazela própria daqueles abrigos mal-ajambrados. Eu heim, estranhei. A campanha era dinâmica. A equipe armava o acampamento aqui, passava uma semana, as frentes de trabalho iam-se distanciando. Então, era hora de desarmar tudo, colocar as tralhas nas costas, caminhar o tanto que fosse mata adentro, e erguer os barracos novamente mais adiante para mais uns diazinhos de peleja. Quando da minha vez de entrar para esta campanha, cismei logo. Só para chegar à área, ali, do ponto em que o carro nos deixava, era uma caminhada que batia perto de duas horas em ritmo acelerado. Entrei junto com o rancho e a equipe estava toda lá pra carregar os mantimentos. Inclusive o geólogo e o cozinheiro. No caminho fui orientado a prestar atenção nas árvores próximas, de tronco linheiro e alto. A elas deveria me acudir caso aparecesse uma onça. Neste caso, a orientação era largar a carga, correr, subir na árvore e esperar a bicha, desesperançada de rango farto, bater em retirada. A equipe era diferenciada. Aquele tipo de serviço era quase um castigo. Havia um entendimento de que a turma que ia para aquela campanha era formada pelos caras mais péssimos de comportamento e humor. Encarar aquela missão era quase um castigo para os brabos. Encarei a parada. Cada qual pegou seu fardo e tomou rumo torcendo para não precisar de árvores linheiras. Um pequeno me chamou a atenção. Era o puro louro do olho azul e fala estranha. Bem dizer um alemão ali no meio da peãozada amazônida.

Era rústico de dar na vista. Ao passar do tempo e pelos sinais que ele emitia, me interessei em saber mais. Vinha dos abandonados rurais do Paraná para ocupar a intacta floresta amazônica. Não sabia ler, nem escrever; contar, contava muito pouco e o que me pareceu mais assustador. Era descolado do tempo. Não dominava a sequência dos dias da semana, do mês. Pra ele todo dia era qualquer dia naquele enfurnado de mata. Nem a idade sabia no certo. Vinha de costumes sem eira de modos ou moral. A turma dava corda e nas noites, se esmerava em detalhar relações, diria não naturais, que estabelecia com os animais da fazenda que os pais mantinham ao pé da serra dos Parecis. Era um exemplar incivilizado. Protocidadão. Hábitos e conceitos forjados no abandono. Nunca pensei na vida, eu mesmo um pedreirense das baixadas, carente dos bens do mundo, encontrar um semelhante com pendores e valores tão minguados.

E aí, me inquieta ainda hoje, o tamanho do mundo e seus escondidos. Realidades que nem maldamos existir, mas existem.

Depois que saí da campanha, soube que numa entrada de rancho, entrou também uma caixa de conhaque, clandestinamente, para o acampamento. Não sobrou nem o barraco, que dirá o romantismo.

 

 

 

 

 

sábado, 27 de junho de 2026

crônica da semana ´meu signo é onça

 Meu aparentado iauaretê

O meu signo é onça... E o fluxo inimputável de informações da Internet fez parar na minha caixa de mensagem, nos últimos dias, umas quantas notícias contendo passagens espetaculares relatando a ocorrência de onças em áreas urbanas e em vilas rurais isoladas. Um dos vídeos jura de pé junto que uma Pintada bem porruda desfilava felinamente impávida pela margem da recém-inaugurada Avenida Liberdade, bem aqui, no ao pegado da Grande Belém.

Dando os descontos às imagens criadas artificialmente, ligeiro me veio o exercício do crivo. Uma oportunidade também se achegou, tendo como inspiração a canção sinteticamente reveladora de nossas misturas culturais e ecológicas ‘bichosgentesamazônidas’. Com a referência poética contida no verso de Pedrinho Callado, inicio esta crônica avisando logo: meu signo é onça. Tenho, no rol de minhas valências, uma sintonia, penso que parental, e faço gosto por uma interação que procure ser equilibradamente positiva, ao contrário de temerária, com o maior felino das Américas.

Havendo verdade nas aparições registradas, temos um sinal. Um anúncio de arredores desequilibrados. Porque não é de interesse das onças exposições e publicidades levianas. Dou até meu testemunho. Em mais de dez anos me embrenhando pelos insondáveis escaninhos da floresta, nunca, em ocasião ou repente nenhum, vi uma onça. Embora as tenha sentido em presenças, odores e esturros alhures, nos afiançamos em harmonia, os nossos cada quais de território. Tenho em conta para contar, se muito, três ou quatro casos em que as onças rondaram em paz, o lugar em que eu estava. E destaco um caso bem típico quando o desequilíbrio acontece enredando surpresa e tensão. Foi em Rondônia.

Havia por lá um camarada posudo, tido e assumido como grande caçador. Trabalhava na lavra de cassiterita. Rondônia ainda não exibia esta faixa enorme de terra nua, devastada que tem hoje. Estava ainda, no início da década de 80, no caminho de, segundo algumas fontes, ser o Estado da região norte com maior perda de floresta nativa para os projetos de desenvolvimento pautados na intensiva atividade agropecuária. As onças ainda minavam por lá.

O caçador era peão de mina, e nas raras horas dos contraturnos, de posse de uma lustrada espingarda, ganhava a mata a espreitar os bichos andantes. Gostava de se valer da soberbia colonialista. Sentia-se um conquistador. Tez branca, envergadura esticada, dizia ser diferente das gentes da terra em tudo, inclusive na coragem. Passava horas no mutá até uma paca gorda aparecer. Bom de mira, quando voltava pra casa ostentando como troféu um animal morto, era como se se confirmasse superior aos naturais da região.

Certa vez, ao margear o lago artificial que acumulava água de serviço para as minas, a uma distância dos movimentos e maquinários não recomendada para se andar sozinho, no que contornou um balseiro que fora produzido pela derrubada de grande quantidade de árvores e que ali jaziam esturricadas, deu numa picada larga, antes utilizada por tratores no transporte de madeira. Distraiu-se avaliando uma ponta de mato batido e quando ergueu os olhos à frente, deparou-se com a bichona. Ela estava com os filhotes. Apontou na picada de repente, relatava sempre que lhe era solicitado, o causo. A Pintada demorou-se em fitar-lhe com os olhos brilhantes. Ele, destemido caçador, aprumou a 12, fez a mira. Nunca soube explicar, mas naquele momento, olhando no fundo dos olhos da onça ali adiante, percebeu-se paralisado, tomado por um torpor, um transe insuperável. Não atirou. A seguir a onça atravessou a picada, as crias enfileiradas, atrás. Neste momento, um medo descomunal se apossou dele. Chorou, cedeu ao descontrole, sofreu desmanche e humilhação.

Andei por esta mesma picada algumas vezes com minha equipe. Ao longe, ouvíamos o esturro do aparentado iuaretê nos alertando sobre nossos cada quais ‘bichosgentesamazônidas’.

 

sábado, 20 de junho de 2026

crônica da semana - terremoto... lago de tucuruí

 O espírito do rio

Aquele vuco-vuco acabou entrando para a minha memória como uma diversão, uma inesperada folga nos costumes. Mesmo atinando para os medos e pareceres assustados, achava legal aquela gente no meio da rua plena alta madrugada. Muitos descontentes por pularem da cama, da rede ou dos braços da amada no aperreado da pressa; outros desconfiados de que ainda coisa ruim poderia vir. Uma banda mais séria que bode embarcado, sem entender nada. De certo, muitos moradores testemunhavam a experiência. Este, zonzeira e anuviamento no entressono; aquele, desequilíbrio no exato momento que se retirava aliviado da retrete; aquel’outro, estranhamento por ver coisas e chão se mexendo do nada, quando da visita à geladeira para tomar um gole d’água. Belém acabara de ser atingida por um abalo sísmico. Eu não senti nada (mas no outro dia na escola contei foi muita mentira. Fantasiei que só). Fui tirado do sossego no agoniado do instinto de sobrevivência pela minha mãe. Zanzamos pelos escuros da Marquês de Herval dos anos 70 por um tempo, como, acho eu, toda a população de Belém. Os rádios ligados eram a esperança de notícias. Um noticiário do plantão registrava a preocupação com o prédio mais alto da cidade. Havia relatos de moradores do Manoel Pinto sendo evacuados só de pijama, dos apartamentos (Não sei se foi verdade. Sei que desceram também para a rua). Todo mundo procurando segurança no descampado das avenidas e praças. Burburinhos, diz-que-me-disse e uma certeza entre os notívagos da Marquês. Foi um tremor de terra e já passou. Aos poucos os moradores foram retornando. E eu, com uma vontadezinha de usufruir mais um pouco o ar livre da madrugada...

Era início dos anos 70, o clima político inspirava cuidados. Fenômenos eram forjados, verdades ocultadas, milagre econômico anunciado sem uma prova sequer de ser possível. Um bolo fazendo às vezes de galo duro de cozer, que dirá dividir. Um tremor de terra, abalo sísmico que seja, teria a razão creditada aos caprichos da divindade (foi porque Deus quis). Não tinha nem quê nem porquê de acontecer nesta terra abençoada. E se aconteceu foi porque o Homi lá em cima permitiu. Aquele balançado de terra seria um aviso.

Para mim, chegado dos longes do Acre por aqueles dias, e com mina de invencionices e histórias fantásticas a tiracolo, foi um isso para apimentar o cenário. Tinha aquela herança dos ermos, a fácil explicação para tudo amparada nos mistérios e nas crenças. (A minha invenção mais constante era a justificativa de ser tão pequenininho, para a minha idade. Os moleques da escola não davam folga. Na hora da fila, do menor para o maior, aproveitavam a escadinha para me bulinar. E para me enfurecer mais ainda, se revezavam perguntando porque eu era tão baixinho. No início eu até arranjava, com as palavras e versões que a idade me permitia, uma justificativa pescada na genética, no calibre, nos hormônios... mas depois de um tempo, me adiantava com um ‘porque Deus quis’ e pronto. Fechava a cara, não dava mais papo. Quando me largavam de mão, eu me soltava e me danava a contar causos do Acre. A chuva de peixe, a areia movediça do rio Ina, os vampiros do seringal, o frio glacial que faz no Xapuri e as pedras transparentes que calçam o leito do rio Acre). No dia seguinte ao terremoto, ligeiro, eu acrescentei ao meu repertório uma razão para aquela tremedeira. Era a água grande do Amazonas em combate com as margens, era o braço de águas pesando sobre nossas ilhas baixas. Naquele início dos anos 70, a minha fantasia mencionando a água grande errou por pouco.

A Terra é um organismo que se realiza no equilíbrio. Ante qualquer alteração, busca uma compensação. A quantidade extraordinária de água represada no lago de Tucuruí sufocou o espírito do Tocantins. E de vez em quando ele se ajeita para respirar sob a pressão daquele mundo de água. Por esses dias, se ajeitou. E a terra tremeu por lá.

sábado, 13 de junho de 2026

crônica da semana - vai trabalhar...

Vai trabalhar...

Não era o céu que espalhava cores e horizontes sobre mim. Era canção. Não era a porta dos tempos a abrir-se generosa à minha frente. Era um desejo. Não era o poder das coisas e das gentes me arengando a toda hora, a todo instante, a todo suspiro aperreado. Era fogo pelejando com a água por paz.

Daí que eu me mexi e quase caí da rede. Havia um rio lá embaixo. A cada embalo na rede, rio. A cada embalo, rio. A cada embalo... Desatei os punhos da escápula, enrolei a rede e pulei nas águas melodiosas do rio que corre em mim. E cantei banzeiros inquietos, pororocas nervosas, marés sem tento.

O canto não era o samba que excitava, nem o carimbó que até é da minha natureza. Era um vago na memória e no gingado. Não era o andamento romântico acariciando meus pertos. Era a dúvida que reina em mim. Quero, não quero. Quero, não sei se quero.

Atei a rede de novo. O rio me espiando e umedecendo a aridez que arde lá de dentro de mim:

(Acionei os músculos nos aparelhos da academia ao ar livre da grande avenida. Três séries de 15 movimentos. Peito agitado. Coração tuco-tuco acelerado. Puxa a respiração. Solta devagar. Uma gotinha de suor se anima rés à fronte. Trânsito pesado nos dois sentidos da avenida. Entre uma puxada de ferro e outra, reconheço o estresse dominando o movimento da rua. Do nada, mas do nada mesmo, um motorista passa no limite de velocidade que a avenida permite, num relance vira o rosto, mira as pessoas que utilizavam os aparelhos da academia, lá em cima no canteiro e ordena agressivo: “vão trabalhar bando de vagabundos”. Todos nós que nos exercitávamos tentando ganhar mais um isso de vida com qualidade, cabeça branca, ali de boa com a idade. Todos arrumando um tempo depois de uma lida de anos e anos, na intenção de recuperar a força nas pernas, nos braços, melhorar a respiração, arejar a cuca. Fazendo por onde não cair, éramos vagabundos, para aquele motorista de espírito hostil).

Era manhã. A canção, pluft, sumiu do meu pensamento e das minhas intenções. Água e fogo decidiram-se pela arenga, pelos inconciliáveis conflitos. Vagabundos!

Caí da rede. Emboletei os punhos. Esmerilei a escápula até não restar uma fagulha sequer. Aridez. Não há lirismo neste rio vagabundo.

Anos e anos madrugando, despertador obediente à chamada desde às 4 e meia. Escuro estrelado lá fora. Viv’alma na rua. Mais de 45 anos batendo ponto. Sem tempo nem vagas para um isso de extravagância. Compromisso, dedicação, humilhação, engolindo sapo, perereca, gafanhoto, lesminhas gosmentas, sem lavar os pés, sem rir, sem falar, sem as mãos para negar, sem a voz para sugerir, sem alma para decidir. Quase meio século de botas e disposição para acordar às 4 e meia da manhã e seguir o rumo das valias, dos valores.  Cabeça branca, e olha só no que deu. Procurei oxigenar a vida, desopilar o fígado, irrigar as veredas do coração. Saí para embalar dicunforça a rede da rotina, despistar as dores das juntas e da alma. Era minha intenção desfazer dúvidas. Sim, eu quero. Eu sei que quero. Aí me vem o cidadão irritado, sem amor pelo que faz, provavelmente, no seu carro turbinado de ódio e me rotula a mim e a turma que estava comigo na academia pública, de vagabundos, porque era manhã e nossos cabelos estavam brancos e tínhamos dedicado uma vida ao trabalho. E aí me chega o consciente leitor de conjuntura e nos taxa de vagabundos.

Não era um sonho. Era o rio dentro de mim secando. Era a voz emudecendo. Era o remorso deitando e rolando no meu cocuruto, meus Deus, estamos todos errados, vilipendiamos os credos e costumes quando  empregamos a nossa pouca força nestes aparelhos de academia. Temos que calçar as botas e sair para o mundo dos lucros e das oportunidades. Temos que dar um agrado ao espírito daquele motorista atormentado que passou pela avenida no limite da velocidade permitida.

Não era sonho. Era um pesadelo. Gente do céu! É hora de acordar.

 

sábado, 6 de junho de 2026

crônica da semana - a vida imita a arte - Altamira

 A vida imita a arte

Para mim, o filme Bye Bye Brasil tem um sentido especial. Boa parte foi filmada aqui no Pará, com cenas rodadas às margens do rio Guamá, no Veropa, nos ermos da Transamazônica e nos pontais do rio Xingu. É arte próxima da gente. Faz menções, traz lembranças, emoções.

Foi produzido no final dos anos 70. E, verdade, estivemos bem próximos. Na minha turma da Escola Técnica, tinha um aluno que fazia figuração, dizia aparecer em cenas rodadas na Condor. De prima, ninguém acreditou nele. Achávamos que era lorota. Um calouro de Mineração no cinema? O filme estava em cartaz. Dava corda pra gente assistir. Ele fornecia detalhes e argumentava que tinha sido selecionado por atuar no teatro. Se dava com atores, diretores, grupos tradicionais com atividades em Belém. A turma foi conferir. Tiramos um dia, demos um desdobro nas últimas aulas e corremos para a sessão das 5 no Iracema. E não era o pequeno mesmo, dividindo o take com a musa Betty Faria! Assanhado que só ele, em agarra-agarra no salão com as meninas, nos relances das aparições, entregue às seduções da Condor. Tenho pra mim que ganhou o mundo e seguiu carreira porque fez só o primeiro semestre com a gente. Dali pra frente, não apareceu mais na Escola.

Bye Bye Brasil sempre esteve disponível pra gente ver na TV, nas plataformas grátis da internet, em casas de exibições alternativas. É um clássico. Nunca mais tinha me abalado. Daí que semana passada topei com o reclame dele. Cliquei e olha, fiquei bestinha. Uma qualidade! Definição de som, de cores. Uma produção beirando 50 anos e a padronagem  dá de se pensar que foi feita ontem. A tecnologia é fera mesmo.

Deixei dito que o filme traz uma carga de emoção. Por nos mostrar dentro da nossa casa. Senti mesmo uns estremecimentos e afetos quando percebi que estive em todos os lugares que a trupe da Caravana Rolidei aprontou das suas e, em alguns casos, aprontando também das minhas e vivenciando as mesmas aventuras e desafios. Veropa e aquela beirada da Condor, nem falo nada, até hoje dou minhas bandas por ali. Agora a Transamazônica e Altamira têm lá seus merecimentos mais aqueles de distintos. Duas cenas em especial se alinharam aos meus dias passados naquelas paragens.

Destaco como a mais legal, a mais acarinhada nas minhas lembranças, aquela em que o personagem do José Wilker desce do caminhão com um macaquinho no ombro, na parte alta da estrada imediatamente anterior à entrada da cidade e lá de cima apresenta Altamira, o rio Xingu. Que fofura no meu coração! Foi por ali, acho que uma ladeira antes, que morei durante um tempo. E aquele ponto era também a hora que a gente tinha um alívio. Já via a cidade. Estava perto. Uma visão muitas de conforto porque, chegar até ali pela Transamazônica, na maioria das vezes, não era nada fácil. Quando não era vencendo um infinito horizonte empoeirado, era ao custo de luta selvagem contra os atoleiros. Ali, naquele ponto estávamos, bem dizer, sob os auspícios da cidade.

A outra passagem tem a ver exatamente com os atoleiros. É quando a caravana se encontra com um grupo de indígenas e ouve da matriarca que ela quer andar de avião. Ainda se virando com os atoleiros Wilker alerta que avião só passa lá em cima no céu, e o céu era longe pacas.

Foi o mesmo desalento que ouvi na vez em que voltava do campo, estava saindo de férias, passagem comprada, voo saindo às sete da noite. Pelas quatro da tarde travamos no fim de uma fila imensa. Era um movimento de caminhoneiros obstruindo a cabeça de uma ponte. Protestavam contra os atoleiros invencíveis da Transamazônica. Perderia o voo se não liberassem. Saí lá do fim da fila, fui me puxando com lama no joelho, localizei o líder. Expliquei que iria perder meu avião que estava marcado para daqui a poucas horas. “Avião?!”, ele me voltou nervoso. “Avião só passa lá em cima no céu, e o céu era longe pacas”, e me apontou o fim da fila.

 

 

sábado, 30 de maio de 2026

crônica da semana - nenhum de nós

 Nenhum de nós

Não temos mais o horário brasileiro de verão. Desde 2019 esta medida de adiantar os relógios em uma hora deixou de ser adotada no Brasil. Tenho pra mim que para os lados do sul e sudeste é um procedimento válido. Por lá, em determinada época, o sol custa mesmo a se pôr. Virou um pouquinho pra cá, perde o sentido. Não nos dá vantagem. A não ser no causo e na prosa. Neste campo, temos um legado valendo. Colecionamos preciosismos desde lá do início quando nos referíamos aos horários em termos beirando os requintes do etarismo: “no novo ou no velho?”. Depois, nos emboletados de tino gerados pela exclusão, quando o horário mudava somente em determinada região. Quem viajava de avião se embananava todo. “O vôo era no horário de cá ou no de lá?”. E mais adiante, nos episódios que nos desnorteavam por causa da mudança de lógica no relógio dos celulares. De um dia pro outro, mudavam a hora e nem seu Souza pra gente. Ou não mudavam. Deste impacto, tenho um causo...

Durante um tempo, nas viagens diárias para o pólo industrial de Barcarena, minha parada de ônibus era na Marquês de Herval. E era certa a turminha madrugadora no ponto. Nosso carro era o primeiro. Passava às cinco e vinte e cinco da manhã, um isso a mais, talvez. Nunca um isso a menos. Em tudo previdente, chegávamos antes, eu e um senhor que morava na Itororó. Dava tempo pra desenrolar um papo. Era porteiro. Do baixo Tocantins. Vinha de uma família de apanhadores de açaí.

O causo: o relógio despertou. Me aprontei como de costume e rumei pra parada. Em lá chegando, ninguém. Nem o amigo porteiro. Aquilo não era normal. Pensei o ônibus já ter passado. Adiantou. Dando a minha hora, me adiantei às carreiras em dois quarteirões, para outro ponto da Marquês, onde contava com mais opções de ônibus. Nada. É greve! Liguei pra casa. Esquina, escuridão e vi’valma na rua. Me aninhei no escondido de uma árvore. Agoniado, tive coragem e saquei o celular. Solicitei, desesperadamente, resgate. Meu filho atendeu, um tanto mal humorado, diga-se, e me perguntou o que eu fazia na rua plena quatro e meia da manhã. O que se deu foi que o relógio do meu celular patetou e não notificou o término do horário de verão na virada da meia-noite. Naquela volta ao normal, comi mosca e saí de casa uma hora antes. Vivi foi momentos tensos, eraste! Mas o que lamentei mesmo foi não encontrar mais o amigo porteiro.

Soube depois que meu companheiro da madrugada havia sido transferido. O administrador do prédio em que trabalhava, simplesmente, em conversa informal, durante o intervalo do almoço, indagou um monte de coisas da vida dele. Posição política, costumes, família. Ficou chocado ao perceber alguma consciência de classe nele e mais ainda quando o porteiro lhe falou que tinha dois filhos doutores, um oficial do exército e uma menina pesquisadora de Biologia. Quando chegou nas posses, maldou lá com seus credos. Uma casa perto da Aldeia Cabana!!!! Como pode um porteiro, que vem lá do baixão do Tocantins, escalador de açaizeiro, que mal sabia o beabá, ter casa num bairro estruturado, no padrão de classe mais aquela de vida? O prédio em que exercia o ofício mesmo era na avenida principal do bairro. Morador do prédio, o chefe não admitia um retirante da beira ter um lar no mesmo bairro que ele. Pensava que gente daquela origem, daquele tipo, tinha que morar era nos cafundós dos arrabaldes. E aquele negócio de filhos formados, deduzia, só podia ser balela. O porteiro poderia até ter as posses, mas era de desconfiar que não fosse fruto do trabalho. Suportado por seus conceitos prévios e rasos e ainda pelo juízo que fez dos fatos, para preservar a segurança dos moradores, os bons costumes e as boas origens do bairro, achou justo e pertinente transferir, para bem longe da Pedreira, meu amigo porteiro que pegava o ônibus comigo às 5 e 25 da manhã. No horário novo ou no velho, que fosse.