Espelho sem aço
Ai de quem passasse na
frente da TV na hora aquela que minha avó estivesse ligada na novela. Pegava um
carão e recebia a ordem eivada de nocivo enfezamento: “sai da frente, espelho
sem aço”. Queria dizer com este ralho que a pessoa se presumia transparente, e
poderia estacionar ali de confronte à TV sem atrapalhar ninguém.
O aço que minha avó se
referia é uma demão de produto metálico aplicada a uma face da placa de vidro e
que lhe permite a propriedade da reflexão. Esta composição produz a superfície
que, na regra, chamamos de espelho. Sem esta camada metálica resta a
transparência do vidro. Era este o entendimento de minha avó: o intrometido da
vez se achava penetrável, sem segredos. Oferecia, através de si a fantasia, a
tensão, a emoção e as esperanças apregoadas pelos dramas da novela.
Foi assim, sem camadas de
aço a espelhar personalidades, dramas e jeito de ser de outras pessoas que meu
amigo tentou viver, nos tempos plúmbeos do regime militar, lá no esquecido
vilarejo que margeava o rio Pium, interior do Amapá.
Encontrei com ele por agora,
num evento cultural realizado na Praça da República. Anos e anos sem notícia.
Bem mais velho que eu, era meu companheiro nos movimentos de resistência à
Ditadura, ali pelos idos de 1979. Naquela época, ainda bombas explodiam em
bancas de jornais, e militantes sumiam assim...
Ele era bem visado e numa de
nossas mobilizações, reunindo estudantes da Escola Técnica ele foi
identificado, monitorado, seguido. Por pouco não foi preso. Conseguiu escapar
varando os quintais apinhados de camapu que ainda grassavam na Pedreira.
Conseguiu apoio, fez contatos, tirou novos documentos, pegou a família e saiu
de cena.
Reapareceu com outra
identidade e profissão naquela comunidade nos estirões do rio Pium.
Eu só o reencontrei agora,
passados quarenta e tantos anos, por uma sucessão de coincidências. E valeu a
pena. O homem, avô hoje, assim como eu, tem história. Uma em especial me tocou
bastante. Ouvi atento, enquanto tomávamos um café com tapioca, ao pegado do Teatro
da Paz.
Ele contou que, embora o
Amapá pudesse representar segurança por ter difícil acesso, à época, era área
de segurança nacional e este fato levava uma boa quantidade de agentes e também
um contingente significativo da repressão pra lá.
Ressabiado, largou-se às
brenhas. Subiu o Pium.
Na comunidade, primou por
uma conduta vítrea sem camada de aço que o mimetizasse. Era um ser único,
transparente. Professor, casado com a enfermeira, dois filhos que jogavam bola
até bem; de vez em quando viajava até Macapá e de lá trazia novidades, mimos
importados, brinquedos para distribuir no Natal à criançada da beira.
Alugavam a casa de uma
senhora bem dada, esperta que só ela.
Viveram por lá o tempo que
deu para a anistia. Quando os ventos da democratização sopraram, resolveram
voltar pra Belém.
À hora da despedida, decidiram contar a verdade para a senhoria. Revelaram que estavam ali como clandestinos, que eram mantidos pelas aulas e atendimentos que prestavam na região, que estavam fugidos da repressão, que levavam a vida na comunidade mostrando um comportamento baseado nas idéias que defendiam. No meio da conversa, a senhoria fez uma declaração. Sabia desde que tempo da situação deles. Os filhos muito inteligentes, observou ela, a mulher generosa, que por vezes nem cobrava pelo trabalho de enfermeira; ele lia muito, jornais, livros grossos, tratava a mulher muito bem, dividia as tarefas da casa, não reclamava se ela saísse e se demorasse pela noite, a vitrola tocava músicas bonitas mas que ela não entendia; uma família que partilhava o que tinha com os outros. Gente assim, só pode ser da laia subversiva, concluiu conformada, a senhoria. Ao se despedirem, um morador da vila postou-se entre eles. O barco estava de partida. A senhoria ralhou. “Sai da frente, espelho sem aço”. O morador não saiu. Ficou ali, refletindo a inconveniente realidade.