Meu aparentado iauaretê
O
meu signo é onça... E o fluxo inimputável de informações da Internet fez parar
na minha caixa de mensagem, nos últimos dias, umas quantas notícias contendo
passagens espetaculares relatando a ocorrência de onças em áreas urbanas e em
vilas rurais isoladas. Um dos vídeos jura de pé junto que uma Pintada bem
porruda desfilava felinamente impávida pela margem da recém-inaugurada Avenida
Liberdade, bem aqui, no ao pegado da Grande Belém.
Dando
os descontos às imagens criadas artificialmente, ligeiro me veio o exercício do
crivo. Uma oportunidade também se achegou, tendo como inspiração a canção
sinteticamente reveladora de nossas misturas culturais e ecológicas ‘bichosgentesamazônidas’.
Com a referência poética contida no verso de Pedrinho Callado, inicio esta
crônica avisando logo: meu signo é onça. Tenho, no rol de minhas valências, uma
sintonia, penso que parental, e faço gosto por uma interação que procure ser
equilibradamente positiva, ao contrário de temerária, com o maior felino das
Américas.
Havendo
verdade nas aparições registradas, temos um sinal. Um anúncio de arredores
desequilibrados. Porque não é de interesse das onças exposições e publicidades
levianas. Dou até meu testemunho. Em mais de dez anos me embrenhando pelos
insondáveis escaninhos da floresta, nunca, em ocasião ou repente nenhum, vi uma
onça. Embora as tenha sentido em presenças, odores e esturros alhures, nos
afiançamos em harmonia, os nossos cada quais de território. Tenho em conta para
contar, se muito, três ou quatro casos em que as onças rondaram em paz, o lugar
em que eu estava. E destaco um caso bem típico quando o desequilíbrio acontece
enredando surpresa e tensão. Foi em Rondônia.
Havia
por lá um camarada posudo, tido e assumido como grande caçador. Trabalhava na
lavra de cassiterita. Rondônia ainda não exibia esta faixa enorme de terra nua,
devastada que tem hoje. Estava ainda, no início da década de 80, no caminho de,
segundo algumas fontes, ser o Estado da região norte com maior perda de
floresta nativa para os projetos de desenvolvimento pautados na intensiva
atividade agropecuária. As onças ainda minavam por lá.
O
caçador era peão de mina, e nas raras horas dos contraturnos, de posse de uma
lustrada espingarda, ganhava a mata a espreitar os bichos andantes. Gostava de
se valer da soberbia colonialista. Sentia-se um conquistador. Tez branca,
envergadura esticada, dizia ser diferente das gentes da terra em tudo,
inclusive na coragem. Passava horas no mutá até uma paca gorda aparecer. Bom de
mira, quando voltava pra casa ostentando como troféu um animal morto, era como
se se confirmasse superior aos naturais da região.
Certa
vez, ao margear o lago artificial que acumulava água de serviço para as minas,
a uma distância dos movimentos e maquinários não recomendada para se andar
sozinho, no que contornou um balseiro que fora produzido pela derrubada de
grande quantidade de árvores e que ali jaziam esturricadas, deu numa picada
larga, antes utilizada por tratores no transporte de madeira. Distraiu-se
avaliando uma ponta de mato batido e quando ergueu os olhos à frente,
deparou-se com a bichona. Ela estava com os filhotes. Apontou na picada de
repente, relatava sempre que lhe era solicitado, o causo. A Pintada demorou-se
em fitar-lhe com os olhos brilhantes. Ele, destemido caçador, aprumou a 12, fez
a mira. Nunca soube explicar, mas naquele momento, olhando no fundo dos olhos
da onça ali adiante, percebeu-se paralisado, tomado por um torpor, um transe
insuperável. Não atirou. A seguir a onça atravessou a picada, as crias
enfileiradas, atrás. Neste momento, um medo descomunal se apossou dele. Chorou,
cedeu ao descontrole, sofreu desmanche e humilhação.
Andei
por esta mesma picada algumas vezes com minha equipe. Ao longe, ouvíamos o
esturro do aparentado iuaretê nos alertando sobre nossos cada quais ‘bichosgentesamazônidas’.
Nenhum comentário:
Postar um comentário