sábado, 6 de junho de 2026

crônica da semana - a vida imita a arte - Altamira

 A vida imita a arte

Para mim, o filme Bye Bye Brasil tem um sentido especial. Boa parte foi filmada aqui no Pará, com cenas rodadas às margens do rio Guamá, no Veropa, nos ermos da Transamazônica e nos pontais do rio Xingu. É arte próxima da gente. Faz menções, traz lembranças, emoções.

Foi produzido no final dos anos 70. E, verdade, estivemos bem próximos. Na minha turma da Escola Técnica, tinha um aluno que fazia figuração, dizia aparecer em cenas rodadas na Condor. De prima, ninguém acreditou nele. Achávamos que era lorota. Um calouro de Mineração no cinema? O filme estava em cartaz. Dava corda pra gente assistir. Ele fornecia detalhes e argumentava que tinha sido selecionado por atuar no teatro. Se dava com atores, diretores, grupos tradicionais com atividades em Belém. A turma foi conferir. Tiramos um dia, demos um desdobro nas últimas aulas e corremos para a sessão das 5 no Iracema. E não era o pequeno mesmo, dividindo o take com a musa Betty Faria! Assanhado que só ele, em agarra-agarra no salão com as meninas, nos relances das aparições, entregue às seduções da Condor. Tenho pra mim que ganhou o mundo e seguiu carreira porque fez só o primeiro semestre com a gente. Dali pra frente, não apareceu mais na Escola.

Bye Bye Brasil sempre esteve disponível pra gente ver na TV, nas plataformas grátis da internet, em casas de exibições alternativas. É um clássico. Nunca mais tinha me abalado. Daí que semana passada topei com o reclame dele. Cliquei e olha, fiquei bestinha. Uma qualidade! Definição de som, de cores. Uma produção beirando 50 anos e a padronagem  dá de se pensar que foi feita ontem. A tecnologia é fera mesmo.

Deixei dito que o filme traz uma carga de emoção. Por nos mostrar dentro da nossa casa. Senti mesmo uns estremecimentos e afetos quando percebi que estive em todos os lugares que a trupe da Caravana Rolidei aprontou das suas e, em alguns casos, aprontando também das minhas e vivenciando as mesmas aventuras e desafios. Veropa e aquela beirada da Condor, nem falo nada, até hoje dou minhas bandas por ali. Agora a Transamazônica e Altamira têm lá seus merecimentos mais aqueles de distintos. Duas cenas em especial se alinharam aos meus dias passados naquelas paragens.

Destaco como a mais legal, a mais acarinhada nas minhas lembranças, aquela em que o personagem do José Wilker desce do caminhão com um macaquinho no ombro, na parte alta da estrada imediatamente anterior à entrada da cidade e lá de cima apresenta Altamira, o rio Xingu. Que fofura no meu coração! Foi por ali, acho que uma ladeira antes, que morei durante um tempo. E aquele ponto era também a hora que a gente tinha um alívio. Já via a cidade. Estava perto. Uma visão muitas de conforto porque, chegar até ali pela Transamazônica, na maioria das vezes, não era nada fácil. Quando não era vencendo um infinito horizonte empoeirado, era ao custo de luta selvagem contra os atoleiros. Ali, naquele ponto estávamos, bem dizer, sob os auspícios da cidade.

A outra passagem tem a ver exatamente com os atoleiros. É quando a caravana se encontra com um grupo de indígenas e ouve da matriarca que ela quer andar de avião. Ainda se virando com os atoleiros Wilker alerta que avião só passa lá em cima no céu, e o céu era longe pacas.

Foi o mesmo desalento que ouvi na vez em que voltava do campo, estava saindo de férias, passagem comprada, voo saindo às sete da noite. Pelas quatro da tarde travamos no fim de uma fila imensa. Era um movimento de caminhoneiros obstruindo a cabeça de uma ponte. Protestavam contra os atoleiros invencíveis da Transamazônica. Perderia o voo se não liberassem. Saí lá do fim da fila, fui me puxando com lama no joelho, localizei o líder. Expliquei que iria perder meu avião que estava marcado para daqui a poucas horas. “Avião?!”, ele me voltou nervoso. “Avião só passa lá em cima no céu, e o céu era longe pacas”, e me apontou o fim da fila.