sábado, 27 de junho de 2026

crônica da semana ´meu signo é onça

 Meu aparentado iauaretê

O meu signo é onça... E o fluxo inimputável de informações da Internet fez parar na minha caixa de mensagem, nos últimos dias, umas quantas notícias contendo passagens espetaculares relatando a ocorrência de onças em áreas urbanas e em vilas rurais isoladas. Um dos vídeos jura de pé junto que uma Pintada bem porruda desfilava felinamente impávida pela margem da recém-inaugurada Avenida Liberdade, bem aqui, no ao pegado da Grande Belém.

Dando os descontos às imagens criadas artificialmente, ligeiro me veio o exercício do crivo. Uma oportunidade também se achegou, tendo como inspiração a canção sinteticamente reveladora de nossas misturas culturais e ecológicas ‘bichosgentesamazônidas’. Com a referência poética contida no verso de Pedrinho Callado, inicio esta crônica avisando logo: meu signo é onça. Tenho, no rol de minhas valências, uma sintonia, penso que parental, e faço gosto por uma interação que procure ser equilibradamente positiva, ao contrário de temerária, com o maior felino das Américas.

Havendo verdade nas aparições registradas, temos um sinal. Um anúncio de arredores desequilibrados. Porque não é de interesse das onças exposições e publicidades levianas. Dou até meu testemunho. Em mais de dez anos me embrenhando pelos insondáveis escaninhos da floresta, nunca, em ocasião ou repente nenhum, vi uma onça. Embora as tenha sentido em presenças, odores e esturros alhures, nos afiançamos em harmonia, os nossos cada quais de território. Tenho em conta para contar, se muito, três ou quatro casos em que as onças rondaram em paz, o lugar em que eu estava. E destaco um caso bem típico quando o desequilíbrio acontece enredando surpresa e tensão. Foi em Rondônia.

Havia por lá um camarada posudo, tido e assumido como grande caçador. Trabalhava na lavra de cassiterita. Rondônia ainda não exibia esta faixa enorme de terra nua, devastada que tem hoje. Estava ainda, no início da década de 80, no caminho de, segundo algumas fontes, ser o Estado da região norte com maior perda de floresta nativa para os projetos de desenvolvimento pautados na intensiva atividade agropecuária. As onças ainda minavam por lá.

O caçador era peão de mina, e nas raras horas dos contraturnos, de posse de uma lustrada espingarda, ganhava a mata a espreitar os bichos andantes. Gostava de se valer da soberbia colonialista. Sentia-se um conquistador. Tez branca, envergadura esticada, dizia ser diferente das gentes da terra em tudo, inclusive na coragem. Passava horas no mutá até uma paca gorda aparecer. Bom de mira, quando voltava pra casa ostentando como troféu um animal morto, era como se se confirmasse superior aos naturais da região.

Certa vez, ao margear o lago artificial que acumulava água de serviço para as minas, a uma distância dos movimentos e maquinários não recomendada para se andar sozinho, no que contornou um balseiro que fora produzido pela derrubada de grande quantidade de árvores e que ali jaziam esturricadas, deu numa picada larga, antes utilizada por tratores no transporte de madeira. Distraiu-se avaliando uma ponta de mato batido e quando ergueu os olhos à frente, deparou-se com a bichona. Ela estava com os filhotes. Apontou na picada de repente, relatava sempre que lhe era solicitado, o causo. A Pintada demorou-se em fitar-lhe com os olhos brilhantes. Ele, destemido caçador, aprumou a 12, fez a mira. Nunca soube explicar, mas naquele momento, olhando no fundo dos olhos da onça ali adiante, percebeu-se paralisado, tomado por um torpor, um transe insuperável. Não atirou. A seguir a onça atravessou a picada, as crias enfileiradas, atrás. Neste momento, um medo descomunal se apossou dele. Chorou, cedeu ao descontrole, sofreu desmanche e humilhação.

Andei por esta mesma picada algumas vezes com minha equipe. Ao longe, ouvíamos o esturro do aparentado iuaretê nos alertando sobre nossos cada quais ‘bichosgentesamazônidas’.

 

sábado, 20 de junho de 2026

crônica da semana - terremoto... lago de tucuruí

 O espírito do rio

Aquele vuco-vuco acabou entrando para a minha memória como uma diversão, uma inesperada folga nos costumes. Mesmo atinando para os medos e pareceres assustados, achava legal aquela gente no meio da rua plena alta madrugada. Muitos descontentes por pularem da cama, da rede ou dos braços da amada no aperreado da pressa; outros desconfiados de que ainda coisa ruim poderia vir. Uma banda mais séria que bode embarcado, sem entender nada. De certo, muitos moradores testemunhavam a experiência. Este, zonzeira e anuviamento no entressono; aquele, desequilíbrio no exato momento que se retirava aliviado da retrete; aquel’outro, estranhamento por ver coisas e chão se mexendo do nada, quando da visita à geladeira para tomar um gole d’água. Belém acabara de ser atingida por um abalo sísmico. Eu não senti nada (mas no outro dia na escola contei foi muita mentira. Fantasiei que só). Fui tirado do sossego no agoniado do instinto de sobrevivência pela minha mãe. Zanzamos pelos escuros da Marquês de Herval dos anos 70 por um tempo, como, acho eu, toda a população de Belém. Os rádios ligados eram a esperança de notícias. Um noticiário do plantão registrava a preocupação com o prédio mais alto da cidade. Havia relatos de moradores do Manoel Pinto sendo evacuados só de pijama, dos apartamentos (Não sei se foi verdade. Sei que desceram também para a rua). Todo mundo procurando segurança no descampado das avenidas e praças. Burburinhos, diz-que-me-disse e uma certeza entre os notívagos da Marquês. Foi um tremor de terra e já passou. Aos poucos os moradores foram retornando. E eu, com uma vontadezinha de usufruir mais um pouco o ar livre da madrugada...

Era início dos anos 70, o clima político inspirava cuidados. Fenômenos eram forjados, verdades ocultadas, milagre econômico anunciado sem uma prova sequer de ser possível. Um bolo fazendo às vezes de galo duro de cozer, que dirá dividir. Um tremor de terra, abalo sísmico que seja, teria a razão creditada aos caprichos da divindade (foi porque Deus quis). Não tinha nem quê nem porquê de acontecer nesta terra abençoada. E se aconteceu foi porque o Homi lá em cima permitiu. Aquele balançado de terra seria um aviso.

Para mim, chegado dos longes do Acre por aqueles dias, e com mina de invencionices e histórias fantásticas a tiracolo, foi um isso para apimentar o cenário. Tinha aquela herança dos ermos, a fácil explicação para tudo amparada nos mistérios e nas crenças. (A minha invenção mais constante era a justificativa de ser tão pequenininho, para a minha idade. Os moleques da escola não davam folga. Na hora da fila, do menor para o maior, aproveitavam a escadinha para me bulinar. E para me enfurecer mais ainda, se revezavam perguntando porque eu era tão baixinho. No início eu até arranjava, com as palavras e versões que a idade me permitia, uma justificativa pescada na genética, no calibre, nos hormônios... mas depois de um tempo, me adiantava com um ‘porque Deus quis’ e pronto. Fechava a cara, não dava mais papo. Quando me largavam de mão, eu me soltava e me danava a contar causos do Acre. A chuva de peixe, a areia movediça do rio Ina, os vampiros do seringal, o frio glacial que faz no Xapuri e as pedras transparentes que calçam o leito do rio Acre). No dia seguinte ao terremoto, ligeiro, eu acrescentei ao meu repertório uma razão para aquela tremedeira. Era a água grande do Amazonas em combate com as margens, era o braço de águas pesando sobre nossas ilhas baixas. Naquele início dos anos 70, a minha fantasia mencionando a água grande errou por pouco.

A Terra é um organismo que se realiza no equilíbrio. Ante qualquer alteração, busca uma compensação. A quantidade extraordinária de água represada no lago de Tucuruí sufocou o espírito do Tocantins. E de vez em quando ele se ajeita para respirar sob a pressão daquele mundo de água. Por esses dias, se ajeitou. E a terra tremeu por lá.

sábado, 13 de junho de 2026

crônica da semana - vai trabalhar...

Vai trabalhar...

Não era o céu que espalhava cores e horizontes sobre mim. Era canção. Não era a porta dos tempos a abrir-se generosa à minha frente. Era um desejo. Não era o poder das coisas e das gentes me arengando a toda hora, a todo instante, a todo suspiro aperreado. Era fogo pelejando com a água por paz.

Daí que eu me mexi e quase caí da rede. Havia um rio lá embaixo. A cada embalo na rede, rio. A cada embalo, rio. A cada embalo... Desatei os punhos da escápula, enrolei a rede e pulei nas águas melodiosas do rio que corre em mim. E cantei banzeiros inquietos, pororocas nervosas, marés sem tento.

O canto não era o samba que excitava, nem o carimbó que até é da minha natureza. Era um vago na memória e no gingado. Não era o andamento romântico acariciando meus pertos. Era a dúvida que reina em mim. Quero, não quero. Quero, não sei se quero.

Atei a rede de novo. O rio me espiando e umedecendo a aridez que arde lá de dentro de mim:

(Acionei os músculos nos aparelhos da academia ao ar livre da grande avenida. Três séries de 15 movimentos. Peito agitado. Coração tuco-tuco acelerado. Puxa a respiração. Solta devagar. Uma gotinha de suor se anima rés à fronte. Trânsito pesado nos dois sentidos da avenida. Entre uma puxada de ferro e outra, reconheço o estresse dominando o movimento da rua. Do nada, mas do nada mesmo, um motorista passa no limite de velocidade que a avenida permite, num relance vira o rosto, mira as pessoas que utilizavam os aparelhos da academia, lá em cima no canteiro e ordena agressivo: “vão trabalhar bando de vagabundos”. Todos nós que nos exercitávamos tentando ganhar mais um isso de vida com qualidade, cabeça branca, ali de boa com a idade. Todos arrumando um tempo depois de uma lida de anos e anos, na intenção de recuperar a força nas pernas, nos braços, melhorar a respiração, arejar a cuca. Fazendo por onde não cair, éramos vagabundos, para aquele motorista de espírito hostil).

Era manhã. A canção, pluft, sumiu do meu pensamento e das minhas intenções. Água e fogo decidiram-se pela arenga, pelos inconciliáveis conflitos. Vagabundos!

Caí da rede. Emboletei os punhos. Esmerilei a escápula até não restar uma fagulha sequer. Aridez. Não há lirismo neste rio vagabundo.

Anos e anos madrugando, despertador obediente à chamada desde às 4 e meia. Escuro estrelado lá fora. Viv’alma na rua. Mais de 45 anos batendo ponto. Sem tempo nem vagas para um isso de extravagância. Compromisso, dedicação, humilhação, engolindo sapo, perereca, gafanhoto, lesminhas gosmentas, sem lavar os pés, sem rir, sem falar, sem as mãos para negar, sem a voz para sugerir, sem alma para decidir. Quase meio século de botas e disposição para acordar às 4 e meia da manhã e seguir o rumo das valias, dos valores.  Cabeça branca, e olha só no que deu. Procurei oxigenar a vida, desopilar o fígado, irrigar as veredas do coração. Saí para embalar dicunforça a rede da rotina, despistar as dores das juntas e da alma. Era minha intenção desfazer dúvidas. Sim, eu quero. Eu sei que quero. Aí me vem o cidadão irritado, sem amor pelo que faz, provavelmente, no seu carro turbinado de ódio e me rotula a mim e a turma que estava comigo na academia pública, de vagabundos, porque era manhã e nossos cabelos estavam brancos e tínhamos dedicado uma vida ao trabalho. E aí me chega o consciente leitor de conjuntura e nos taxa de vagabundos.

Não era um sonho. Era o rio dentro de mim secando. Era a voz emudecendo. Era o remorso deitando e rolando no meu cocuruto, meus Deus, estamos todos errados, vilipendiamos os credos e costumes quando  empregamos a nossa pouca força nestes aparelhos de academia. Temos que calçar as botas e sair para o mundo dos lucros e das oportunidades. Temos que dar um agrado ao espírito daquele motorista atormentado que passou pela avenida no limite da velocidade permitida.

Não era sonho. Era um pesadelo. Gente do céu! É hora de acordar.

 

sábado, 6 de junho de 2026

crônica da semana - a vida imita a arte - Altamira

 A vida imita a arte

Para mim, o filme Bye Bye Brasil tem um sentido especial. Boa parte foi filmada aqui no Pará, com cenas rodadas às margens do rio Guamá, no Veropa, nos ermos da Transamazônica e nos pontais do rio Xingu. É arte próxima da gente. Faz menções, traz lembranças, emoções.

Foi produzido no final dos anos 70. E, verdade, estivemos bem próximos. Na minha turma da Escola Técnica, tinha um aluno que fazia figuração, dizia aparecer em cenas rodadas na Condor. De prima, ninguém acreditou nele. Achávamos que era lorota. Um calouro de Mineração no cinema? O filme estava em cartaz. Dava corda pra gente assistir. Ele fornecia detalhes e argumentava que tinha sido selecionado por atuar no teatro. Se dava com atores, diretores, grupos tradicionais com atividades em Belém. A turma foi conferir. Tiramos um dia, demos um desdobro nas últimas aulas e corremos para a sessão das 5 no Iracema. E não era o pequeno mesmo, dividindo o take com a musa Betty Faria! Assanhado que só ele, em agarra-agarra no salão com as meninas, nos relances das aparições, entregue às seduções da Condor. Tenho pra mim que ganhou o mundo e seguiu carreira porque fez só o primeiro semestre com a gente. Dali pra frente, não apareceu mais na Escola.

Bye Bye Brasil sempre esteve disponível pra gente ver na TV, nas plataformas grátis da internet, em casas de exibições alternativas. É um clássico. Nunca mais tinha me abalado. Daí que semana passada topei com o reclame dele. Cliquei e olha, fiquei bestinha. Uma qualidade! Definição de som, de cores. Uma produção beirando 50 anos e a padronagem  dá de se pensar que foi feita ontem. A tecnologia é fera mesmo.

Deixei dito que o filme traz uma carga de emoção. Por nos mostrar dentro da nossa casa. Senti mesmo uns estremecimentos e afetos quando percebi que estive em todos os lugares que a trupe da Caravana Rolidei aprontou das suas e, em alguns casos, aprontando também das minhas e vivenciando as mesmas aventuras e desafios. Veropa e aquela beirada da Condor, nem falo nada, até hoje dou minhas bandas por ali. Agora a Transamazônica e Altamira têm lá seus merecimentos mais aqueles de distintos. Duas cenas em especial se alinharam aos meus dias passados naquelas paragens.

Destaco como a mais legal, a mais acarinhada nas minhas lembranças, aquela em que o personagem do José Wilker desce do caminhão com um macaquinho no ombro, na parte alta da estrada imediatamente anterior à entrada da cidade e lá de cima apresenta Altamira, o rio Xingu. Que fofura no meu coração! Foi por ali, acho que uma ladeira antes, que morei durante um tempo. E aquele ponto era também a hora que a gente tinha um alívio. Já via a cidade. Estava perto. Uma visão muitas de conforto porque, chegar até ali pela Transamazônica, na maioria das vezes, não era nada fácil. Quando não era vencendo um infinito horizonte empoeirado, era ao custo de luta selvagem contra os atoleiros. Ali, naquele ponto estávamos, bem dizer, sob os auspícios da cidade.

A outra passagem tem a ver exatamente com os atoleiros. É quando a caravana se encontra com um grupo de indígenas e ouve da matriarca que ela quer andar de avião. Ainda se virando com os atoleiros Wilker alerta que avião só passa lá em cima no céu, e o céu era longe pacas.

Foi o mesmo desalento que ouvi na vez em que voltava do campo, estava saindo de férias, passagem comprada, voo saindo às sete da noite. Pelas quatro da tarde travamos no fim de uma fila imensa. Era um movimento de caminhoneiros obstruindo a cabeça de uma ponte. Protestavam contra os atoleiros invencíveis da Transamazônica. Perderia o voo se não liberassem. Saí lá do fim da fila, fui me puxando com lama no joelho, localizei o líder. Expliquei que iria perder meu avião que estava marcado para daqui a poucas horas. “Avião?!”, ele me voltou nervoso. “Avião só passa lá em cima no céu, e o céu era longe pacas”, e me apontou o fim da fila.