sábado, 25 de abril de 2026

crônica da semana - sobrenatual - mar sem fim

 Mar sem fim

Tenho até vontade. Mas, para meu desencanto, não me aconteceu nenhum encontro com o sobrenatural. Então, me dou inventar. Semana passada mesmo, aqui, forjei uma aventura com a Matinta.

Não, minto! Me enxiro sim no rol dos excepcionais.  Verso por cá que sou agraciado com o dom da premonição. A mais incrível foi aquela em que sonhei com os números que comporiam a extração da noite no jogo do bicho. Partilhei com mamãe, ela jogou no Corujão e quebrou a banca. Uma pena que não são freqüentes essas dicas de jogo, e diria até mesmo, mais ousadas. Se pululassem aqui e ali adensadas, obviamente estaria redigindo esta crônica de um ponto qualquer do globo, embarcado num interminável cruzeiro, só torrando meu apurado na mega-sena da virada.

Por outra, só tive contato com esquisitices e aparições na Universidade. Um único caso, assim de palmo em cima. Um testemunho categórico de um operador da TV universitária. Ele atuava num programa, Academia Amazônia, que eu gostava e satisfazia umas curiosidades da produção com ele. E foi ali no intervalo das aulas que nos encontramos naquela pracinha que fazia fronteira com os blocos da Geologia. Conversa vai, conversa vem, me confessou jurando de pé junto, o pequeno, ter sido abduzinho. E chipado. Mostrou até uma ressalto na pele do braço, exatamente no lugar em que teve o chip instalado. Dava pra sentir, quer ver pega aqui, estimulava. E mandava eu pressionar o braço dele para sentir o chip. Eu declinava dessa prova, na caté. Não precisava. Cria mesmo sem tatear, diante dele, sustentava. Por dentro: Eu, heim. Vou me meter! Vai que dá choque. Maldava.

Tirando um medo de choque aqui, uma cisma sideral ali, faço é gosto de topar com umas estranhezas, mesmo que sejam traçadas na base da boa mentira. Da doce lorota.

Casos contados e jurados com jeito e curso de invencionice pura, entretanto, também me são raros. Mesmo nos meus tempos de vastas relações com gente de tudo quanto é canto, pelos ermos amazônicos, ainda que ali na convivência diária com a peãozada (e olha que peão é peça que inventa moda) não trago na bagagem casos relevantes.

Relevando cá e lá, destaco a minha passagem por Altamira. Ali sim, pingaram uns causos. Muitos ligados ao Curupira. Alguns outros não exatamente ligados aos mistérios, mas ao processo de ocupação daquela região, aos enfrentamentos entre gateiros, seringueiros e as comunidades indígenas dominantes no estirão do Xingu e seus longes. Soube também do caso da sucuri que engoliu um boi, do jacaré que se estendia por metros, de grande que era; e de gases que brotavam do fundo dos barrancos dos igarapés, e mundiavam os visitantes. Contavam também sobre relações familiares formadas a custos revolucionários entre seringueiros e indígenas. Mas estas eram narrações antes dramáticas que fantásticas.

A mais legal, a mais genuinamente abrigada no campo da magia e do mistério, que conheci e que convivi com os protagonistas dela, foi a história do trabalhador do nosso projeto que passou 15 dias perdido na mata que margeava a Transamazônica e foi salvo por um coelhinho cintilante. Segundo relatos do sobrevivente, quando ele já estava nas últimas, cansado, com fome, sede e sem forças, o coelhinho apareceu e durante alguns dias se tornou seu cuidador. Fez com que ele o seguisse no frio das noites (era cintilante, operava no escuro) e no caminho, como que por milagre, aparecia tudo que ele precisava. Água boa, árvores frutíferas, palmito e coquinhos para comer, locas de pedras varridas e aquecidas para descansar. E nos últimos dias, o direcionou para a picada que o levou a uma fazenda de onde foi resgatado. Um poder de espanto tem este caso, mais porque põe em cena o coelho, que é espécie rara na Amazônia e que imprime mais impacto à prosa, por cintilar.

Sigo na vontade de contatos e experiências sensacionais. Um sonho, um sonho! Um cruzeiro pelos mares sem fim!

 

 

 

domingo, 19 de abril de 2026

crônica da semana : A solidão é ralado - Matinta

 A solidão é ralado (medo da Matinta)

Antigamente quando a gente reclamava de alguma dificuldade, dizia no bom paraensês: “égua, tá ralado, olha”. Não se variava o termo ‘ralado’. Ao flagrarmos a vizinha bandando a nossa bola, cravávamos, “eita que essa vizinha é ralado” e não ‘ralada’ como, na sua hora e vez, prevê a flexão de gênero.

O que se torna e o que se deixa é que já me bati com a solidão do jeito de um ralado só...

Conto e destaco que, recentemente, me inclui num exclusivo, me achei num vasto vazio. Tive uma obra na categoria crônica publicada em edição nacional por um selo que se articula em torno da Flip, potente feira literária que se realiza em Paraty, no Rio de Janeiro. Quando recebi minha premiação em casa, notei nosso apartamento, nossa alienação dos grandes eventos e da tímida participação de nossa cultura amazônica em projetos de repercussão nacional. No livro, contei pra mais de trezentas obras e, ora veja que frustração, apenas três autores representando a literatura do Norte do Brasil. A se contar nos dedos. A minha crônica de Belém, uma de Rio Branco, outra de Santarém. E só. Outras categorias, nem o cheiro. Poema nenhum, Conto nenhum. Podemos especular as causas de tão poucas participações dos autores da banda de cá. E capaz de aparecerem razões quantas e justas. Não muito diferentes, imagino, das motivações do Nordeste, que por sua voz e vez, foi região que emplacou mais de 47 textos na coletânea. Bem mais que nossos três’zinhos amazônicos.  A composição desta coletânea fala comigo, lá no fundo do meu coração e me lança ao ermo, e me impõe o sal da solidão, do acanhamento, me deixa ao largado do isolamento junto com meus pares do Acre e do oeste do Pará. Romper barreiras é ralado.

Desafiar conjunturas é coisa de artista mesmo. E este sentimento que tive de isolamento pode até vir de um desencanto que se desenvolve no campo vasto do idealismo, dos sonhos. Mas torne a isso, se ligue, que aquele estado de um ser solitário de horizontes e beiras se abateu sobre mim no real e ordinário mesmo foi dia desses, depois do show do Gilberto Gil aqui no Hangar.

Bem pertinho aqui de casa, o centro de convenções. Coisa de dois quarteirões bem medidos. Na ida, a noite se achegando, fui caminhando pra lá. É tão perto, a uma meia distância da padaria onde pego meu pão da tarde. Era uma batidinha que eu, na rotina, dominava. Além do quê, estava cedo ainda, a noite caía e esfriava o tempo. Tirei a pisada, de subida, numa boa. Já na volta, a situação se deu na tensão. Mina de gente naquele show. Quando acabou, vi a galera naquela romaria se dirigindo pra saída, pensei na disputa por transporte, nos preços cobrados, na escassez de ofertas, me adiantei e vi que uma boa parte da galera estava indo a pé ali pras minhas bandas. Era perto de meia-noite, pela quantidade de gente, avaliei que teria uma companhia adensada, e me misturei. O custo foi chegar à primeira esquina. Antes da Visconde de Inhaúma mesmo, muitos já tinham abandonado o cortejo e seguido o rumo nos carros que haviam estacionado por ali. O resto, quando chegou à Visconde, dobrou e também sumiu pelo canteiro central atrás dos carros. Sobramos eu e um casal que ia à minha frente. E ainda tinha mais um quarteirão a vencer, de baixada. Alguns metros pra chegar ao canal da Marquês, o casal desviou e entrou numa casa. Meu pai eterno! Segui sozinho (a solidão é ralado!). Passei apressado pelo canal e ainda dei uma espiada lá pras matas da aeronáutica, onde nasce o Igarapé do Zé. Nessa hora me ocorreu o alerta que mamãe fazia afirmando que ali habitam os encantados, a Matinta, o Vira-porco, o Homem do saco. Reinei correr. Desisti. Nem carro estava passando, mas vai se corro, passa um e me tem como um meliante em fuga, posto que sou da cor. Tornei e mirei à frente na fé. Andando meio penso de tenso, perna tremendo.

Desembestei foi na carreira, porém, quando ouvi um assobio.

 

sábado, 11 de abril de 2026

crônica da semana- o abelhudo (equinócio)

 O abelhudo

Bom pra gente falar dessas coisas é na hora. Tá quentinho ainda o fato. Né que a lua cheia aconteceu na quarta-feira, dia primeiro? Então, vamos vendo. No domingo agora dia 5 de abril, foi a Páscoa. Aí, por esta sequência a gente já tem uma lógica que aponta parcialmente o jeito como se define a data do carnaval. Pera que tem a ver sim. O carnaval se realiza 40 dias antes da Páscoa. Para saber quando vamos nos entregar à pândega, primeiro temos que ter a certeza da remissão. Bora pra frente que ainda tem uma santa matemática pra gente desenvolver. Porque sei que fica tiquetateando em dúvida de tempo no nosso cocuruto o porquê justo e acertado de a Páscoa, assim como o carnaval mudar de data... (Aquela, que inspira reza e contrição, ocorre entre março e abril. Enquanto este que é da folia acontece em fevereiro, ou março)... E mudar também de datas dentro dos meses. A Páscoa este ano foi no dia 5 de abril, mas dependendo do andor, pode ocorrer lá pelo longe do dia 22 de abril. Depende da lua.

Este ano resolvi, no quentinho da hora, abelhudar fatos e dados. Fucei o calendário de 2020 a 2026 e me deparei com o que chamo de datas limites para os eventos acontecerem. E como quem define o carnaval é a Páscoa, bora entender esta passagem.

A regra é clara e diz que a Páscoa ocorre no primeiro domingo após a lua cheia que nasce depois do Equinócio. Boa. Tá vendo? Vale a pena bisbilhotar. Fato novo: Equinócio. Sabemos o que é. Trata-se de um evento astronômico e parariparará, que tem data certa na folhinha do ano. É no dia 20 de março. Devemos focar o cuidado nesta informação. Ao contrário do carnaval e da Páscoa que são eventos de datas variáveis, o Equinócio não varia (até que varia por causa do período sideral, do tempo que a Terra leva pra dar uma volta em torno do sol e coisa e loisa e mariposa), mas como sai do dia 20 para o dia 21 de março, coisa de um giro gito da Terra, a gente aqui na nossa continha não malda. Agarra e despreza. Melhor pra nós. Vamos nos aquietar no dia 20 de março e não se fala mais nisso. Aí vamos olhar pro céu. Entre os anos que pesquisei, a data mais adiantada que teve lua cheia após o equinócio foi o dia 16 de abril. Então... teve o Equinócio no dia 20 de março, passou, passou, e a lua só deu o ar da graça cheiona, 27 dias depois. Se considerarmos este limite e a esperança de um domingo na sequência, a Páscoa pode acontecer até o dia 23 de abril, já o mês indo pro fim. Neste caso o carnaval, quarenta dias antes, seria puxado pra frente e se realizaria pelos meados de março.

Na outra ponta, vi também na pesquisa, uma situação em que o carnaval cairia em fevereiro. Constatei que a lua cheia depois do Equinócio despontou no céu dia 25 de março, apenas 5 dias após o Equinócio. E no limite, na hipótese de o domingo vir no dia seguinte, 26, o carnaval cairia bem nos primeiros dias de fevereiro.

A gente percebe uma distância que chega perto de completar mês nas possibilidades dos eventos acontecerem. Esta inconstância, a ausência de datas fixas nos prega surpresas algumas. E desconcertos. A gente tá bem assim, programando os feriadões, quando dá fé, nem é o que pensávamos. Muda tudo. Ou por outra, exagera na pândega e quando pisca, tá é na hora da penitência. Podia sair dessa prosa com uma dica, um jeito de saber direitinho as datas futuras para não perder a eira (taí, sei que a lua cheia do ano que vem vai ser em 22 de março. Quem se arrisca? Tá fácil. A lua dois dias depois do Equinócio, logo o carnaval será em...). No entanto, me escapa uma função ajeitadinha no xis da questão, que formule continhas seguras ante variáveis tão condicionadas aos humores astronômicos. Melhor e mais garantido é abelhudar a folhinha dos anos que nos restam, espero que certos, pela frente.

 

 

 

 

sábado, 4 de abril de 2026

crônica da semana

 O alpendre

Nem era assim, minha amiga de rocha mesmo. A coisa foi acontecendo aos poucos. Fazia parte de outra turma. Vez em quando nos topávamos pela noite, no restaurante da japonesa, ali pela beira do rio, no balneário do Pedral. E assim, nessa batidinha, fomos nos envolvendo. Mesclamos as turmas. Dava até de nem maldarmos, e de repente, um estava na programação do outro sem combina. Formamos uma terceira via. Mais diversa, bem mais liberal, avançadinha, diria, para os prazeres mundanos. Um grupo que discutia política, apreciava alguma arte, e fazia questão de se perder pelos escondidinhos alternativos por ali, pelas ruas descendo a Manoel Umbuzeiro. Fechávamos bares, na superação; ainda, fazíamos trilhas, explorávamos cachoeiras, cavernas, acordávamos uns aos outros jogando pedra na janela do quarto e depois é que pampampam, batíamos na porta. Quando dei fé, já tomava conta do sofá da casa da minha amiga, comparecia na horinha certa do almoço, e de manhã, me enxeria para dizque, experimentar as combinações de jerimum com leite e aquelas tapiocas grossonas que a mãe dela fazia. Nos tornamos unha e carne. Tinha ciúmes dela com um sujeito que ela, aqui, ali, namorava. Do sul e que fazia parte daquela outra turma. Calhou que ele não se deu com as novas composições, com a terceira via, daí ela se saiu e namorou um amigo chegado meu. Menos pior.

Foi a primeira a chegar a minha casa, de tardezinha, já a noite caindo.

A casa era um brinco. Um refinado traçado na arquitetura de Altamira. Alugada pela empresa, abrigou o engenheiro residente, depois o administrador e já o projeto em risco, fomos nós, da área técnica pra lá. Com pouco mais, veio uma onda de demissão, e levou o bocado que morava comigo. Fiquei morando sozinho um bom tempo naquela mansão. Eu, na companhia do cachorro e do Verdugo, que era o vigia da noite e passava o turno no alpendre. Um tempo suficiente para roteirizar dias e noites de folgas e folguedos pra lá de animados. Verdugo ficava piriricas diante das liberdades exageradas oficiadas em nossas contumazes celebrações. O detalhe é que esta casa de extremado bom gosto era de um dos primeiros garimpeiros a enriquecer em Serra Pelada. Voltou pra cidade que era o puro ouro, o homi. Contratou engenheiros, arquitetos. Tinha quatro quartos, a casa, jardim, e um simpático alpendre de onde eu via Helena passar todo início de noite. O primeiro dono garimpeiro torrou toda a grana, perdeu a casa, foi morar na Brasília e por fim, trabalhava como cozinheiro do meu acampamento no Xingu. Era baixo, gordinho, cara redonda e ganhou um apelido lá no campo, indo lá e vindo cá no recato, de toda sorte, impublicável.

Naquele meu último dia, a casa esteve foi movimentada. Antes do anoitecer, a turma chegou. Os convidados trouxeram salgadinhos, bebidas e alguns instrumentos. Nos acomodamos na sala, fizemos brindes, iniciamos uma cantoria. Érica logo se desinibiu. Foi se achegando pro lado de Pedro. A moça era bela. Parecia uma boneca. Pele aporcelanada. Pose de miss. Namorava com Júlio, um dos mais cobiçados herdeiros da cidade. Pedro era bonito e pobre. Não deu nem a conta de mais um brinde e os dois sumiram lá pra dentro.

Já a noite se instalara. Minha melhor amiga pediu que eu largasse o violão um instante e fosse lá fora. Era Júlio atrás da Érica. Não entrou, não passou além do alpendre. Era distante da gente, de outra laia. Eu disse que não sabia dela, andava com esta galera mesmo, mas por aqui, não está não, afirmei. Não voltei pra sala. Fiquei no alpendre esperando Helena passar na sua motinha. Quando ela chegou, viu aquela arrumação e deu pra trás. Nem desligou o motor. Falou pra eu me arrumar.

Conheci Helena revelando filmes da minha Olympus Trip 35. Trabalhava numa loja da Sete. Me engracei. Não era bonita, nem sedutora, nem espevitada como as meninas da nossa turma. Tinha um olhar triste, e um jeito extraordinariamente acolhedor. Vivia num mundo muito, mas muito distante do meu. E isso me encantava. Morava ali na estrada do aeroporto, pros meus lados. Quando estava na cidade, todo dia a esperava para nosso namoro de porta. Sempre parava, desligava a moto e se demorava. Falava pouco e se denunciava em banalidades e medos. Não aprofundava assuntos, nem enxerimentos. Jamais ousou avançar o sinal, nunca se adiantou além do alpendre...

Verdugo chegou e isso era sinal de que já estava na hora. Com a ajuda de minha melhor amiga encerrei a festinha de despedida. Fomos recolhendo a turma que estava lá pra dentro. Pedro e Érica estavam exaustos, curtindo a convalescência daquela aventura proibida. A galera foi embora, minha melhor amiga foi com eles, com cara de choro. Depois, peguei minha mochila, fechei a casa e dei a chave para Verdugo. Mandei um tiau pro cachorro e desci pra calçada.

Helena foi me buscar e me levou pro aeroporto na mobylette dela. Nunca arriscou avançar além do alpendre.