A chuva belemense, as matinas e o bloco da Anita
O
calendário que determina o carnaval, uma envolvente defesa de tese (sim, temos
um doutor na família), e o aniversário da netinha justificaram minha vinda ao
Rio de Janeiro neste início de ano. Tempo este, rente os movimentos da folia.
Cheio de detalhes e surpresas.
Destaque
para o clima, ou melhor, os humores do clima. Eu já tinha cantado a pedra,
revelando, dizque, meu poder sobrenatural de ensejar extremos por onde passo.
Especialmente as minhas duas experiências no Rio, atestam esta presunção. Nesta
mesma época, o ano passado evidenciou-se em um dos verões mais quentes já
registrados, com sensação térmica de 46 graus em algumas regiões. Também no dito
ano passado, em junho, houve de minha presença ser necessária para as prendas
de vô de novo. E não é que o Rio bateu recorde de dias encarreirados de frio!
Tive então experiência cariocas, que me levaram a dois amofinamentos capazes de
me prender em casa, o frio contínuo e o intenso calor. E eis que topei com os caprichos do clima, por
agora. Desde o início de fevereiro, o Rio é a pura Belém. Céu nublado, pinga-pinga o dia
todo, pampeiros pródigos em coriscos, medos; e volume suficiente para deixar
bairros inteiros debaixo d’água. Que nem a nossa Belore, de vez em vez submergida. Agora,
chegando o carnaval é que a chuva deu um tempo e os dias se dão de esturricar,
mas até então, o ano já tinha sido marcado por uma variação considerável com
relação ao mesmo período de 2025. Naquela ocasião, ao deixar os dias tórridos
do Rio e voltar para Belém, saí dizendo não ter visto chuva, uma gota sequer,
por aqui. Este ano vi e ela se mostrou foi dicunforça. Na versão belemense.
Não
tínhamos data certa para viajar, dependíamos da confirmação da defesa de nosso
doutor, das promoções de passagens... daí que, perdemos a oportunidade de
comprar os ingressos para o desfile na Sapucaí. Sequer, como aconteceu no ano
passado, fomos aos ensaios, que já fazem as vezes. No dia que nos assanhamos,
foi tanta chuva que nos arredores de casa, a água deu no joelho. Para cumprir a
missão de buscar a netinha na escola, nos pegamos com mina de santos, Iemanjá,
Iansã e com as energias boas das águas. A gente não é da barra, né. Não pode
encarar os desafios de um quarteirão todinho alagado, sem as múltiplas proteções.
Se
de um lado, deu uma banzo por perdermos a chance de ver de perto o espetáculo
das grandes escolas, da estreante Acadêmicos de Niterói, da verde e rosa do
coração, Mangueira; por outro lado foi a vez de conhecermos a graça, a alegria,
espontaneidade e a personalidade singular dos blocos de rua.
Os
blocos são bem organizados, muitos históricos, tradicionais, acarinhados pelos
bairros de origem. De pitoresco, as matinas. No ano passado, teve circuito que
iniciou às 5 horas da manhã (lembro do recorde de temperaturas altas de 2025.
Procuraram driblar o calor). Agora, não madrugaram. Saem às 7 horas. Acompanhei
o legendário “Cordão do bola preta”, que é mesmo limitado por um cordão, até a
afogueada apoteose, ao meio dia. Lembrei do nosso “Crias do Aguenta o tombo”,
que botávamos na rua, pela manhã, no vácuo dos bambas da Mauriti, e que também
se organizava entre cordinhas emendadas umas nas outras. A natureza insurgente
dos blocos se exibe nos looks dos foliões. Saem de casa, andam na rua, cruzam a
cidade, de boa, montados na sunga, os rapazes; biquínis, as moças. E brilho.
Não vi ninguém maldizer os cortejos de jovens, animados nos ensaios das
coreografias mesmo que nos apertados nichos do metrô, e também ninguém implicar
com os figurinos pra lá de desinibidos. O carnaval enseja a tolerância.
Passados
os desfiles oficiais e o “circuito Belém” de dias chuvosos, reina o céu sem
nenhuma nuvem. Amofinei em casa aperreado de calor. Os blocos continuam nas
ruas do Rio. Hoje a matinas é com a Anita. Começou às 7 horas e vai até o
afogueado do meio dia.