Live Earth
Se
for para salvar o planeta, pode contar comigo pra tudo.
Mas
tem que mudar o idioma.
Não
é por nada não. Mas Terra, em inglês, não tem combate. Para mim é uma palavra
indizível, impronunciável, inarticulável (e ao mesmo tempo, silenciosa, tímida,
perigosamente inexata). Duvido que um falante aqui das nossas bandas, com o
conjunto de suas cordas vocais no lugar, tudo bem direitinho, afinadinho, acostumado
a respeitar a forma e o conteúdo de vogais e consoantes, consiga pronunciar a
palavra Terra em inglês sem correr o risco iminente de ter uma síncope por
falta de respiração. Duvido.
No
mínimo, vai passar por um cruel constrangimento.
Ô
palavrinhazinha difícil de pronunciar. Não acredito que alguém, mesmo neste
mundo americanizado, digo, globalizado, se desenrole na boa em uma prosa,
quando entra na parada a tal da ‘earth’. Para mim, acaba o papo aí mesmo. Até
porque não acho que uma palavra que tem duas vogais juntas capitaneando o som
possa conter a força do discernimento.
Pior
não é nada, depois, o indisciplinado vocábulo, mesmo amparado num desenxabido
érre, na seqüência, não desata. Fica no mesmo lugar. E, quase desfalece, quase
que desaparece no espaço das ondas sonoras, no final, quando se apega num
tê-agá pra tirar a bronca. A fonética, lá deles, ainda complica pregando que
este tê-agá tem som de éfe. Assim, não propaga. Não propaga! Para mim, a
palavra quando me chega pelas ondas globalizadas, em vez de me levar à
segurança, aos encantos e aos mistérios de nosso planeta, parece representar mais
uma situação de inquietante instabilidade. Antes que uma palavra, earth, para
mim, parece mais um espasmo. Um soluço. Um desacerto na respiração, que seja.
O
nosso planeta, em inglês, me chega indeciso, indefinível, com sérios problemas
de identidade (mas como então já, um tê com som de éfe...Ainda mais!)
Tá
bom, tá bom. Tô sendo injusto. Tô sendo parcial. Quero porque quero mudar o
idioma da resistência ecológica porque sou anti-americano, anti-isso,
anti-aquilo, anti-aquil’outro. Então vai lá, vê se cola: a gente, no calor da
luta, como um bom falante da última flor do Lácio, acostumado com um Tesão ali,
firme, decidido, fortalecendo, encorpando, dando graça à nossa Terra. Vamos
nós, lá no furdunço de uma manifestação de protesto lá pelas terras geladas de
Davos, gritar uma palavra de ordem assim ‘save the earth, ‘save the earth’. Mas
quando que rola! Vão é trazer oxigênio pensando que já somos umas das sofridas
vítimas do aquecimento global. Vão pensar que estamos tendo um piripaque. Que
estamos lá só arfando, agonizando. O coro não dá o grau da indignação. Em
inglês, não pinta o clima de revolta.
Agora,
se a gente der uma levada latina...valorizando o Tê linguodental (daquele jeito
como em tacacá, tipiti, vatapá, matapi. Daquele jeito, fiel ao som da letra,
como prevê a estimada fonologia brasileira) já era: Seria uma coisa assim, do
tipo “ salve a Terra’, ‘salve a Terra” ou ‘Tierra’, mesmo, vá lá que seja. Aí
sim, aposto como o Bush logo, logo não ia se aviar para assinar o tratado de
Kyoto (e outros tantos que houvessem).
Live
Earth foi um evento realizado no início de julho com o objetivo de chamar a
atenção para o problema do aquecimento global.
Achei
bacana a idéia
Se
for para salvar o planeta, pode contar comigo pra tudo.
Mas
tem que pôr legenda.
Olha,
não é querer falar mal da língua de ninguém, mas, Terra, em inglês, para mim é
uma palavra indizível, impronunciável, inarticulável (e ao mesmo tempo,
silenciosa, tímida, perigosamente inexata).