sexta-feira, 18 de setembro de 2026

crônica da semana - Espelho sem aço

 Espelho sem aço

Ai de quem passasse na frente da TV na hora aquela que minha avó estivesse ligada na novela. Pegava um carão e recebia a ordem eivada de nocivo enfezamento: “sai da frente, espelho sem aço”. Queria dizer com este ralho que a pessoa se presumia transparente, e poderia estacionar ali de confronte à TV sem atrapalhar ninguém.

O aço que minha avó se referia é uma demão de produto metálico aplicada a uma face da placa de vidro e que lhe permite a propriedade da reflexão. Esta composição produz a superfície que, na regra, chamamos de espelho. Sem esta camada metálica resta a transparência do vidro. Era este o entendimento de minha avó: o intrometido da vez se achava penetrável, sem segredos. Oferecia, através de si a fantasia, a tensão, a emoção e as esperanças apregoadas pelos dramas da novela.

Foi assim, sem camadas de aço a espelhar personalidades, dramas e jeito de ser de outras pessoas que meu amigo tentou viver, nos tempos plúmbeos do regime militar, lá no esquecido vilarejo que margeava o rio Pium, interior do Amapá.

Encontrei com ele por agora, num evento cultural realizado na Praça da República. Anos e anos sem notícia. Bem mais velho que eu, era meu companheiro nos movimentos de resistência à Ditadura, ali pelos idos de 1979. Naquela época, ainda bombas explodiam em bancas de jornais, e militantes sumiam assim...

Ele era bem visado e numa de nossas mobilizações, reunindo estudantes da Escola Técnica ele foi identificado, monitorado, seguido. Por pouco não foi preso. Conseguiu escapar varando os quintais apinhados de camapu que ainda grassavam na Pedreira. Conseguiu apoio, fez contatos, tirou novos documentos, pegou a família e saiu de cena.

Reapareceu com outra identidade e profissão naquela comunidade nos estirões do rio Pium.

Eu só o reencontrei agora, passados quarenta e tantos anos, por uma sucessão de coincidências. E valeu a pena. O homem, avô hoje, assim como eu, tem história. Uma em especial me tocou bastante. Ouvi atento, enquanto tomávamos um café com tapioca, ao pegado do Teatro da Paz.

Ele contou que, embora o Amapá pudesse representar segurança por ter difícil acesso, à época, era área de segurança nacional e este fato levava uma boa quantidade de agentes e também um contingente significativo da repressão pra lá.

Ressabiado, largou-se às brenhas. Subiu o Pium.

Na comunidade, primou por uma conduta vítrea sem camada de aço que o mimetizasse. Era um ser único, transparente. Professor, casado com a enfermeira, dois filhos que jogavam bola até bem; de vez em quando viajava até Macapá e de lá trazia novidades, mimos importados, brinquedos para distribuir no Natal à criançada da beira.

Alugavam a casa de uma senhora bem dada, esperta que só ela.

Viveram por lá o tempo que deu para a anistia. Quando os ventos da democratização sopraram, resolveram voltar pra Belém.

À hora da despedida, decidiram contar a verdade para a senhoria. Revelaram que estavam ali como clandestinos, que eram mantidos pelas aulas e atendimentos que prestavam na região, que estavam fugidos da repressão, que levavam a vida na comunidade mostrando um comportamento baseado nas idéias que defendiam. No meio da conversa, a senhoria fez uma declaração. Sabia desde que tempo da situação deles. Os filhos muito inteligentes, observou ela, a mulher generosa, que por vezes nem cobrava pelo trabalho de enfermeira; ele lia muito, jornais, livros grossos, tratava a mulher muito bem, dividia as tarefas da casa, não reclamava se ela saísse e se demorasse pela noite, a vitrola tocava músicas bonitas mas que ela não entendia; uma família que partilhava o que tinha com os outros. Gente assim, só pode ser da laia subversiva, concluiu conformada, a senhoria. Ao se despedirem, um morador da vila postou-se entre eles. O barco estava de partida. A senhoria ralhou. “Sai da frente, espelho sem aço”. O morador não saiu. Ficou ali, refletindo a inconveniente realidade. 

 

 

sábado, 12 de setembro de 2026

crônica da semana - Karl Marx a resposta

 A resposta

Ela surgiu daquele vai e vem interminável, daquele povaréu sem destino certo que ocupa os corredores do Hangar em tempos de Feira do Livro. Era gitinha, aparentava não bater nem de perto os quinze anos. Desgarrou-se da correnteza de gente, arrastou a mãe. Foi certinho na estante que guardava as obras do filósofo alemão. Sacou de lá e abraçou com profunda afeição o volume 01 de O Capital. Convicta, sinalizou para a mãe: é este.

A cena chamou atenção. Uma menina ainda, sustentando no colo uma publicação volumosa. Um livro de dimensões impactantes, desproporcionais ao tamanho da garota. No entanto, ela exibia um sorriso de satisfação, de contentamento com aquele encontro. Para ela, aquele volume não pesava nada, não atentava contra a métrica da escala estabelecida entre os dois. Tinha nas mãos, sim, a densa interpretação do sistema capitalista, a compreensão elaborada de mercadoria e valor, a dissecação histórica dos registros de acumulação, a relação conflituosa entre lucro e mais-valia. Acomodava entre os braços a obra que estimulou a crítica da economia política. Um livro odiado e amado com a mesma intensidade. Texto analítico que mete medo e impõe curiosidade. Inspira reações, tomadas de consciência, substancia revoluções.

O que uma menina que na regra, pela fase ainda adolescente, estaria mais atenta aos vídeos do Instagran, aos livros juvenis da moda, a romances famosos, aqueles indicados no ginásio ou mesmo a textos ligados aos avanços tecnológicos quereria com a obra de Karl Marx? Nem imagino. Sei apenas que ela foi ao caixa, pagou, pegou o livro, guardou na sacola, saiu do estande e voltou a ser uma gota d’água naquele mar de gente, alegre que só ela, como se tivesse ganhado o melhor presente da vida.

Estava na biqueira do revezamento de almoço no estande. Abri meu aplicativo e visualizei meu ônibus se aproximando da parada que fica na Dr. Freitas um pouco adiante do Hangar. Taí uma coisa que funciona é este aplicativo. Dá impressão que temos um sistema de qualidade e fôlego. Neste aspecto do tempo é até aquele, o sistema, mas quando a gente entra no coletivo, meu pai do céu. Os bancos têm só o esqueleto, não têm o estofado, ou por outra, sequer o esqueleto têm. Os carros circulam com falta de bancos. A cordinha de solicitar parada é toda no remendo. Sujo, sujo, sujo. Uma batição de ferro, uma barulheira do motor... éraste. Andar de ônibus é um misto de humilhação e espanto. Pois bem, o aplicativo até que até. Corri pra parada.

No tempinho adiantado que cheguei ao ponto, um pedinte emparelhou comigo e me demandou dois Reais. Com um olho no ônibus que já despontava pra’li além do sinal, e o outro no demandante, mostrei a ele o meu passe fácil de velhinho que me isenta de pagar passagem e justifiquei que de ativo financiador, só tinha mesma era aquele cartão. Já se ouvia o balangandaço do ônibus se aproximando quando ele me voltou inconformado, lamentando em tom alterado a minha secura de grana e ainda me perguntando se o passe era motivo para que eu não andasse com pelo menos dois Reais para partilhar com os que precisam. Dito isto, afastou-se enfezado, batendo as chinelas gastas no calcanhar.

Não soube responder àquela pergunta. Enquanto o ônibus pelejava pela avenida vencendo os déficits de conforto e qualidade que ostentava, em meio àquele difusor de ruídos metálicos, imaginava...

Achei nas minhas reflexões, a menina franzina que se distanciava no vuco-vuco de visitantes da Feira do Livro, em puro encantamento, por carregar o pesado volume 01 de O Capital na sacola de papel. Ao descer na minha parada me veio um estalo. Talvez em uma página densa entre as tantas daquele livro a menina encontre a resposta para o fenômeno neoliberal de um cidadão abandonado pelo sistema, pedir dinheiro na parada de ônibus a outro cidadão que não tinha sequer uma amostra mínima impressa em papel ou em liga metálica, da moeda corrente do país.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

crônica da semana : zé pererequeté

 Zé Pererequeté

Morava numa casa bem estiolada, nos interflúvios da baixa da Pedreira. Vivia com a mãe, a irmã e uma bicicleta toda esmerilada. O lugar ficava a um trisca dos alagados de inverno. Durante as chuvas inteiriçadas do março pra trás um pouco e do março pra frente o que desse, aquele terreninho resistia e a casa ficava em tempo, mas não enchia. A água não invadia, a chamichuga não procurava pernas nuas, não precisavam subir as coisas. Poucas coisas. Mas a estrutura sentia. O terreno encharcava, ficava molengão. Aos poucos, a casa foi deitando. O movimento que não se sentia no ato e na vez, aos poucos ia revelando a inclinação. E produzindo conseqüências. Por causa dos silenciosos e traiçoeiros solavancos, o enchimento ia cedendo. Vez e vez, se encontrava um torrão no chão, saltado da parede. E as varas trançadas se mostravam e expunham o oco do quadrado. Dava pra gente ver lá dentro da casa, pelos buracos que se formavam. No verão, toda a estrutura sossegava. Era hora de remendar os buracos com barro dali da frente mesmo e, o melhor de tudo, era o tempo que o igarapé aparecia lá no quintal. A água grande passava e ficava só aquele reguinho, com um fiozinho correndo o tempo todo. Havia uns quantos olhos d’água por ali, desde lá de cima, da Lomas.

O Zé Pererequeté tinha um primo que mexia com coisas velhas de carro. E no verão a baixa da Pedreira ficava uma pista de piçarra muito firme. A gente aproveitava o declive da rua pras bandas da Itororó, o Zé conseguia pneus de carro e “jances” de bicicleta e nossa diversão era bater “jance” e pneu ladeira abaixo, uns com um pedaço de madeira ou uma haste de ferro, outros, batiam e tareavam os aros e pneus era com a mão mesmo.  

Era, o Zé, o fornecedor e o organizador das brincadeiras da tarde, depois da aula do intermediário e do episódio de “Perdidos no espaço”. Tinha também o pendor do conto e da fantasia, o menino. Repetia uma história das pedras falantes. Dizia que quando o nível do igarapé descia, apareciam vários pontos que acumulavam uma variedade de pedras. Roladas, pontudinhas, quadradinhas, brilhantes como diamantes, coloridas, transparentes. E as que mais impressionavam, aquelas que falavam. Um dia da semana, sempre nos convidava para varar os quintais pelo leito do igarapé, pra ver se a gente encontrava alguma pedra falante. E caso a gente encontrasse, para saber qual o papo delas.

Era uma aventura. Embora verão, havia um trecho na parte da Pedreira constantemente alagado. O igarapé que passava atrás da casa inclinada do Zé Pererequeté cruzava vários quintais e se embrenhava por paisagens ainda diversas por aquele lado do bairro. Uma hora atravessávamos uma mata alta com castanheira e mangueiras, noutro ponto já dávamos de encontra com um açaizal, em algumas margens, pés de café, urucum, jaca e cacau. Mais lá na frente, era a hora de subirmos pela ponte e sem cerimônia, passar rente às retretes e jiraus das casas que se amontoavam em becos e vilas. Até que a gente saia no capinzal. O igarapé terminava ali. Era um terreno sempre úmido e que quando dava, a gente socava de caroço de açaí e arremedava um campinho. Durava pouco porque do nada o terreno se movia e isso prejudicava o nosso bom futebol. Parece que a gente jogava em cima de um colchão d’água. Dali em diante não tinha mais um leito, um fiozinho pra seguir. Era tudo aquele ensopado.

Fizemos muitas caminhadas de exploração, incentivados pelo Zé Pererequeté. Tinha era muita pedra bonita mesmo ao longo do igarapé. Até hoje tenho as minhas guardadas. Nunca encontramos pedra qualquer que falasse ou um oi sequer pronunciasse. Era tudo por conta dos contos do Zé.

Zé mudou-se. Casou-se. Constituiu família. A casa da baixa da Pedreira, como se diz, encruou. Nem foi ao chão, nem se reergueu em tijolo. Reina de banda sustentada por varas em quadrado, enchimento de barro e a tagarelice das pedras lá atrás, no igarapé da memória.

 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

crônica da semana - ler é viver feira do livro

 Ler é viver

Mais uma Feira do Livro na minha conta. E este assunto me traz um pouco de nostalgia. Mexe lá dentro do meu puro íntimo porque mistura um monte de coisa bacana. Traz à memória o Arraial de Nazaré, os meus companheiros do Sindicato, o Dr. Geraldo... A espontaneidade dos artistas que se revelava nos arrastões poéticos durante a Feira, os primeiros passos para um estande exclusivo destinado aos escritores paraenses, a docilidade do querido escritor Benedito Monteiro, a presença da literatura operária minha e do Dr. Sérgio Pandolfo, a energia e a desenvoltura de Juracy Siqueira, a poesia envolvente da Malta Folhas e Ervas.

Calha de alguém perguntar: e o que tem a ver o sindicato com as valsas? É que nas primeiras versões, a Feira do Livro era realizada no Centur, que é ao pegado do prédio da Fiepa, nicho empresarial onde aconteciam, naquela época, entre outubro e novembro, as negociações para o Acordo Coletivo dos trabalhadores que representávamos em Barcarena. As reuniões iam até tarde. Na saída, sempre dávamos uma banda pelo arraial pra fazer um lanche na barraca do Ciro e depois, terminávamos a jornada visitando os estandes da Feira. As visitas me fizeram tomar gosto, coragem e logo logo, cuidei de lançar meu primeiro livro também na Feira do Livro do Centur. Isso é lá pelos anos de milinovecentos e naninani. Hoje, a Feira se realiza no Hangar, que oferece um ambiente até mais aquele de amplo e confortável.

Daqueles anos pra trás aos de hoje, participei de todas as panamazônicas. Fazendo lançamento de livros de minha lavra, como visitante ou prestigiando as sessões de autógrafos d’outros autores.

Este ano, além de comparecer com minha mais recente publicação (tô esperando vocês lá, heim, pra autografar minha nova obra, a coletânea de crônicas ambientais, sociais e quetais científicas “Parece até que vai chover”), vou experimentar o ingresso no mundo dos livreiros. Fiz uma parceria com o amigo Juarez e vou viver, no estande da livraria Ifá, o universo daqueles abnegados, daqueles heróis que acreditam ainda que ler é viver.

Se a gente for reparar, os estandes da Feira são ocupados por negócios gráficos vários e outros, aparentados dos livros. Mas chamo atenção àqueles que apresentam, efetivamente, a produção do livro físico, aqui em nossa região. Penso que poucos resistem. As livrarias desaparecem e a gente nem malda. Vão passando. Algumas deixam saudades. As que ficam, e aqui em Belém contam-nas nos dedos de uma única mão, chapinham na inconstância da demanda. As multimídias, o desapego pelo prazer que vem da escrita, a negação do conhecimento, e a anuência a fatos, enlevos e informações fáceis e ágeis, ainda que sem sal ou mentirosas, têm derrubado de ruma, o exército de leitores.  Estes são fatores que afastam as pessoas dos livros, além, né, das coisas da idade.

O Brasil lê pouco, se comparado com outros países, mas sempre lutei contra a média. Fui leitor de devorar de dois a três livros por mês. Na própria livraria Ifá, mantenho uma rotina, há anos, de adquirir por lá pelo menos uma publicação a cada mês, inclusive com critérios. Paraenses, biografias, literatura feita por mulheres, mulheres pretas, homens pretos, cultura e religiosidade afro, histórias do samba, das crenças e das ciências. Mas confesso que com o passar do tempo, os meus acessos aos livros exigem superação e adaptação. A vista começou a turvar. Antes já tinha uma dificuldade. Nunca me acostumei com óculos. Me dá uma agonia. Um desconforto contornável. Mas agora, com este turvamento, senti a limitação. Mantenho minhas aquisições só que no momento, priorizo edições que tenham as letras porrudas.

Digo: se tem a vista boa, se não tem agoniação, aproveite. Rogo que vá à Feira do Livro, visite os livreiros, as heróicas livrarias. Ler faz a gente viver mais, porque vivemos vidas outras, sentimentos outros, vitórias, prazeres entre as mãos.  Espero vocês lá.

sábado, 22 de agosto de 2026

crônica da semana - régua tê

 A anatomia (e a psicologia) da régua Tê

Nos primeiros dias de aula e ainda por um bom tempo, mesmo às vésperas de mudar o bolso de ‘básico’ para ‘profissional’, a galera pegava no pé de quem chegava à Escola agarrado a uma régua Tê. A encarnação, ou, que seja, o bullying era certo.

O ensino do Desenho Técnico era traço (ops!) essencial na formação de quem ingressava na Escola Técnica, na minha época. Exigia uma estrutura de sala de aula diferente, dotada de mesas especiais (pranchetas), professores destacados, bancos altões pra gente alcançar as mesas. E uma série de componentes, os ditos materiais de desenho. Dentre eles, a perseguida e bulinada régua Tê.

Tratava-se de uma peça bem indiscreta e representava uma disciplina de entrada na Escola. Sinalizava um aluno novato, calouro ou no dialeto preconceituoso da época, ‘aluno mobral’. Era inevitável. No caminho para as salas de Desenho, ali pela pracinha que ficava em frente à biblioteca, aquela romaria de novatos portando régua Tê era homenageada com vaias, afrontas e dizeres impublicáveis. Era um ciclo, sabíamos. Dali a algum tempo, os alunos xingados passariam a ser os xingadores.

Fosse eu um estudiosos dos interstícios da mente, cavucaria termos e conceitos que explicassem estes comportamentos naquele ambiente, no esperado, de aprendizado. E também, pesquisaria os efeitos psicológicos resultantes daquelas encarnações. Eu, por mim, tenho é trauma. Sofri pacas. Uma porque custei a abandonar a régua Tê (outro sinal. Significava pouca destreza no traço). E noutra, porque na minha vez ainda ocorreu de a minha régua, ao contrário de todas as outras dos meus colegas que eram de acrílico, ser de madeira. Além de ‘mobral’, a minha régua indicava ali um aluno que não tinha dinheiro para comprar uma régua de acrílico. E, pelo certo, nem de madeira. A régua, chegou até mim, como fruto de uma doação. Me entanguia de vergonha entre os meus colegas, para que não me localizassem, toda vez que tínhamos que passar pela pracinha.

A realidade daquelas afrontas era que refletiam diferenças de aprendizado. O uso da régua Tê significava pouco desprendimento na disciplina e necessidade do amparo daquele componente. Com o tempo, os alunos iam ficando mais ‘safos’ e abandonando aquele artifício. A maturidade dispensava a régua Tê e as atividades de Desenho passavam a ser regidas pelo charme e pela caté no manejo do par de esquadros. A maturidade ensejava a gabolice e o preconceito. Demorou, penei que só, mas quando me dei com os esquadros, adorei. Até um dia desses, na minha caminhada profissional, mesmo ante as tecnologias, me acudia ao charme do par de esquadros para conferir traços.

Os esquadros integravam o que chamo de anatomia da régua Tê.

A régua era a peça mais robusta. Pelo comum era uma haste com 5 a 7cm de largura por 50cm de comprimento, finalizada em uma das pontas, com uma cabeça em tê. Este formato proporcionava o ajuntamento ordenado das outras peças, no corpo do acrílico (ou da madeira, no meu caso). Deixa eu ver se me lembro a organização direitinho. Ali, cabia todo o nosso material. Primeiro, o transferidor. Com a régua em pé e de cabeça pra baixo, o transferidor era introduzido e despencava até encontrar o tê, depois, o par de esquadros deslizava ao longo da lâmina, até chegar no transferidor lá na ponta. A seguir, com a fita isolante, que na aula servia para fixar o papel na prancheta, colávamos o escalímetro no corpo da régua. Acima do escalímetro colávamos a borracha branca e a flanela. Concluindo, posicionávamos o rolo de fita e o tubo montado com o papel A2, colado com durex para não abrir, e lançávamos os dois envolvendo boa porção da haste. Os lápis de vários traços e durezas iam no bolso da bata. O compasso, na mochila, porque era sempre um risco com aquela ponta fina. No coração da gente, uma batucada de nervoso porque passaríamos pela pracinha minada de moleques pouco atentados!

 

sábado, 15 de agosto de 2026

crônica da semana - juta e malva

 Juta e malva

Confesso que me encolhi de vergonha ao menor risco de ver-me representado ali naquela afirmação. A professora sem alisar o couro do paciente, disparou ferina a citação de um filósofo aquele não menos severo, que ante o impacto da carapuça, me desprendi do nome: “Não fale dos mitos aos incautos. Eles acreditarão em tudo ao pé da letra”.

O inocente aqui confessa e se enquadra: por vezes a gente vê os tempos e as artes com os olhos do simples.

Por isso a luta insistente para nos libertarmos, para nos esforçarmos espreitar além das faces explícitas e do lustro dos símbolos. A professora enriqueceu a palestra com passagens da Odisseia. Reconheço. Identifiquei ali só as pelejas com monstros, sereias, divindades. Olhos furados, ossos quebrados, beijos enfeitiçados e mar revolto. Mas tudo aquilo, ressalvou a professora, condensava uma única mensagem. Era a viagem de volta, de Ulisses, para dentro de si.

A poética lança mão de artifícios que buscam alcançar além dos sentidos. É necessário que a gente esteja de coração aberto para sermos atingidos. Daí o escape do óbvio, daí o potencial humano de aprender. E discernir.

A arte abre portas e corações e, olha só, nos aproxima da juta e da malva...

Naquela parte da discreta apreensão, lá pelos idos passados no ginásio, juta e malva eram para mim apenas a resposta para uma questão de prova. Apareciam no ponto das aulas de Estudos Regionais quando se falava de produtos importantes para a nossa economia. Juta e malva eram das principais mercadorias incluídas no pacote das produções da região Norte. Mesmo sem saber o que era aquela dupla e nem pra que servia nosso expoente de negócios, cravava sem dúvida na resposta.

Anos depois, lendo Milton Hatoum é que fui sacar a natureza dos produtos. Mais a juta. Malva sei o que é, por tabela, mas o que tem destaque no romance Cinzas do Norte, do escritor amazonense é a plantação de juta. A partir do romance, conheci uma penca de detalhes relacionados à juta. A narrativa de que a planta foi trazida no cambalacho, da Índia; o sucesso das técnicas de cultivo nos baixios amazônicos, os riscos nas operações de coleta, que por vezes impõem mergulho e jeito de corpo aos coletores, além de coragem pra enfrentar sucuris e aparentados aquáticos pouco amistosos.

Naqueles longes ginasianos de chumbo, o Brasil vivia uma fase de poucos aléns nas palavras. Os livros didáticos distribuídos pelos governos traçavam roteiros acanhados, circunscritos aos artificiais entusiasmos do momento. Ilustravam com exagerado esmero avanços e desenvolvimento. Na quarta capa traziam o hino do Pará e nos davam o simples para respondermos a questão da prova.

Outra fonte que traz detalhes enriquecedores do manejo da juta é o romance “Sementes do sol”, do escritor obidense Ademar Ayres do Amaral. Ele nos conta: “mal alimentado, o lavador de juta passa o dia inteiro dentro d’água, os dedos das mãos e dos pés terminam a jornada enrugados pelo tempo de imersão e o resto do corpo fica horas exposto ao sol... Um sol... que toma conta de tudo e de todos, como se fosse a lanterna de Deus.”

O filósofo, Platão ele, lembrei agora, é previdente quando nos alerta que a régia aspereza, a concretude insuspeita de horrores, monstros e sinistros cenários podem esconder a busca por uma paz interior. As artes, e a literatura em especial, têm mesmo esta missão de transportar juta e malva para além de uma linha de resposta curta de prova ginasiana. Aqui, acolá, a trama literária diz uma coisa quando quer dizer outra. Apresenta sucuris dentro d’água quando as ameaças aquáticas nada amistosas estão é nos justos alagados das gentes, dentro do coletor de fibras. A arte sugere viagens pelos mares sem fim quando a viagem é só uma volta em torno da gente mesmo. Tem hora que é estratégia; outra, estilo.Vai da gente sacar e escapar do simples.

Sobre o uso, a juta serve para produzir sacarias e fibras ecológicas

 

 

sábado, 8 de agosto de 2026

crônica da semana - estreito de messina

 O Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu

Fosse comigo, eu me revoltaria logo. Não, ninguém num vai! Sugeriria sem tremer os beiços. Vamos lá só tu! Eu, heim! Eu é que não iria me meter nessas bocadas. Esse herói grego pôs a turma dele em cada encalacre.

O herói é um personagem da narrativa épica grega que eu chamei a vida toda de Ulisses e agora, por causa do neorenascimento provocado pelo lançamento do filme, passei a conhecer como Odisseu. A história conta as aventuras do rei de Ítaca logo que termina a guerra de Tróia. No quê de voltar pra casa, o herói se mete numa arenga com o gigante de um olho só e pega uma senhora de uma prenda do pai dele, Poseidon, um deus enfezado que só ele. Só de mau o fanchão dos oceanos faz de um tudo para Odisseu vagar de água grande em água sem fim dos mares por dez anos, se virando nos trinta de tantos perigos que ele encontra pela frente. Corta um dobrado nessa aventura. Perde o barco, toda a tripulação tem um fim trágico e o herói se vê atado a um nó difícil de desatar. E é aí que o Xingu entra na parada.

Fosse no trancoso poético, dava era o desdobro. Mas na vera, nas desobrigas do trampo brabo, tive que encarar os desafios do Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu.

Um dos perrengues que Odisseu passa, aquele no dito aperreio em que ele perde meia penca de marujos que navegavam perdidos com ele, acontece no estreito de Messina. A história fala que é um canal solitário, perdido no oceano que guarda numa das bandas, um monstro horrível que tem seis bocas esfomeadas e na outra banda um funil de água que engole quem passa por lá. Dizem até que o ditado popular que põe uma pessoa “entre a cruz e a espada”, vem desse afogueado do herói se meter entre estas duas bandas malinas. Mas o Xingu nem entra na história por causa desses monstros bandados e medonhos. Dá o tom e o verso é no exato formato do canal. Um caminho de água estreito ladeado por imensas paredes rochosas.

Pois bem. Eis que certa vez, desenrolando a vida na minha odisseia amazônica, varei, na minha canoa, em um estirado de água apertado, profundo, silencioso, e aparado de um lado e de outro por uma potência de pedra monstruosa de alta e amedrontadora. Na hora lembrei da sequência que tinha visto em Ulisses (naquele tempo era Ulisses ainda), um filme que era vezeiro de passar na sessão da tarde. E que apresentava um cenário, uma movimentação, uma tensão escritinha àquele que eu sentia ao cruzar aquele canal que corria escondido pela margem direita do Xingu.

No filme que enreda esta minha passagem, me ocorreu que as paredes de pedra se mexiam, indo uma contra a outra, em tempo de amassar o barco do Ulisses bem amassadinho. Esse era meu medo. Eu e minha turma nos aviamos nos remos. Ninguém deu uma palavra. Não houve partilha de medo ou mal’impressão, desde que entramos naquele desvio. Mas foi automática a nossa decisão de acelerar o ritmo. A gente a bom remar. Olhávamos uns pros outros, lançávamos olhares salteados para cima e para frente do caminho para nos certificarmos que as paredes rochosas não estavam ensaiando nos espremer e... a gente a bom remar.

Era um lugar encantador. Fascinante. Como outros lugares fantásticos que conheci ao longo da mítica Volta Grande do Xingu. A semelhança com uma alegoria épica só temperou aquele dia. Pôs um adianto de emoção em uma jornada de trabalho que tendia ser rotineira. Aquele ponto do rio era objeto de estudo porque se localizava em uma estrutura, digamos, bandada (olha aí, os monstros de Messina). Acima, as corredeiras assanhadíssimas da Volta Grande. Abaixo, um encaixado de 70 metros de largura por onde passava toda a água que corria num largo de mais de 2 quilômetros lá atrás. E no meio, o poético Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu com suas gigantescas paredes de pedra, o silêncio, o medo contido. E a gente numa aventura (a bom remar) inesquecível.