sábado, 16 de maio de 2026

crônica da semana - ao mestre com carinho II

 Ao mestre com carinho (II)

Era professor de matemática. Tinha um jeito especial. Atencioso, delicado no trato, paciente, voz mansa. De tal forma fértil de afetos e atenção; inspirava de um jeito tão eficiente a paz, que por vezes achava que ele deveria ser o professor não de matemática (disciplina alheia à mansidão), mas de Religião, matéria mais aquela de sensível e de transcendente. Era um apaixonado pela missão. Não admitia perder aluno para as dificuldades. Ensinava tudo direitinho. Até hoje, é só me dar um feixe de números grandes que sejam eles, e logo os despedaço em fatores primos sem um deslize sequer. Graças àquele professor.

Fosse nos tempos de agora, à luz da LDB, seria um dos principais agentes da busca ativa. Porque, olha que me buscou...

E eu estava daquele jeito. Miudado pelo trabalho. Não me recordo muito o regime que o supermercado adotava. Provavelmente, pela escala, rolava uma hora extra. O que lembro é que trabalhava das 3 da tarde às 11 da noite até sexta. Sábado, o dia todo, e domingo, até meio dia. A dita folga semanal era essa, do meio dia pra tarde do domingo e te conforma. Nem com todos os livros de auto-ajuda debaixo do braço, nem com os augúrios do sistema me sugerindo sucesso na vida, nem com os vitaminés e emulsão de Scott que eu tomava na hora do lanche com os meninos, na calçada do estacionamento do supermercado (porque não tinha refeitório) eu achava ânimo, eu angariava força para, às seis da matina, ir para a escola. Cuidava era de era de zanzar nos ônibus pra cima e pra baixo, dando uma forra para o corpo, em um exercício de restauração física tido pelos maledicentes como sendo expressão da mais indisfarçável gazeta. No entanto se a gente aprofundar... Era o anúncio da minha capitulação.  O alerta da minha não desejada, mas inevitável rendição. Um grito de socorro. Estava desistindo de estudar.

Aqui, ali, os deuses cutucavam e eu aparecia na escola. Sadim, Sandim... Meu pai! A falha na conexão dos meus neurônios, as enzimas, os ácidos corrosivos da razão apagaram a exatidão do nome daquele professor. Não perdôo o tempo por isso. Embora faça confusão com o nome, não esqueço a generosidade daquele verdadeiro mestre. Quando eu aparecia, não economizava atenção. Ocupava a turma, sentava ao meu lado e repassava as matérias atrasadas exclusivamente comigo. E eu, ‘intelixente!’, mandava era bem. Ia decompondo em primos aquela oportunidade. Quando não, eu já aparecia com uma parte copiada. É que uns garotos da minha sala que moravam ali pros lados do shen ou da 25 acompanhavam os pais na ida ao supermercado, me viam por lá e combinavam de uma hora voltar com as matérias pra mim. Deles, o professor também catava notícias. Como eu estava, se os meninos tinham me visto, se eu tinha dado previsão de quando apareceria. Sempre perguntava.

Os outros professores não me davam muita trela. Mas Sandim, Sadim, articulava com eles, os convencia passar trabalhos pra mim, mostrava meus avanços e conferia com os resultados que eu tinha nas outras disciplinas. No final do ano, com toda a derrota, obtive média pra passar (ainda que arrastado) em todas as matérias.

Mandava recado pelos meninos, pra eu dar um jeito, arrumar uma energia extra e não desistir.

Ainda conseguiu, com uma negociação, que eu fizesse a segunda época como forma de compensar minhas faltas. Não deu. A recuperação era em dezembro. Exatamente no mês de maior movimento no supermercado. Chegava em casa estiolado. Não fui um único dia pra recuperação. Nem pra assinar a lista. E nunca mais vi Sandim, Sadim.

No ano seguinte, repeti a sexta, o juiz de menor deu em cima do trabalho infantil. O supermercado substituiu os garotos por adultos. Antes de sair, ainda com doze anos e uns caroços, passei meus fregueses pro seu Sandoval, que tinha sessenta anos e assumiria minha vaga. Voltei, então para o empreendedorismo da marretagem. Ainda havia uma chance de ficar rico.

 

sábado, 9 de maio de 2026

crônica da semana - A rainha do lar

 A rainha do lar

Minha mãe chegou do Acre com uma penca de crianças agarradas à barra da saia. Acudiu-se à minha avó (que, viúva, já se batia no controle de um lar com 5 pessoas. Mais a turma da mamãe, somaríamos 10, numa única e compacta casa alugada, comandada por mulheres)...

(O Censo de 2022 realizado pelo IBGE registrou um aumento representativo do número de mulheres na condução dos lares no Brasil. Mostra, a contagem, as mulheres assumindo quase 50% dos domicílios no país.

Nenhuma novidade. Na hora de assumir compromissos, prover futuros, cuidar e produzir afetos, sobra mesmo é para as mulheres. Entendo que por vários motivos. Viuvez, separação amigável, arrependimentos, desilusões... A razão mais dramática e aquela da qual tenho mais exemplos no meu dia a dia segue o roteiro das mulheres que são vitimadas pelos princípios renitentes do patriarcalismo. Quando a rainha do lar é alvo de abandono, desdém, maus tratos. Desfechos que resumem quadros reincidentes de agressões, submissões, violência de toda sorte e resultam no desmembramento das famílias. O homem escapa de tudo. Deixa mulher e filhos à sorte ou a salteados e minguados lenitivos financeiros e, sem dor, volta-se a outras aventuras. Resta à mulher, assumir sozinha o controle da casa. Aí, entra pra estatística).

... Mamãe, também viúva cedo, alimentava uma beirinha de esperança de uma providência que poderia vir das ruas de seringa do Xapuri. Que nunca veio. Impôs-se então estratégias de sobrevivência. Muita coragem, uma resistência incrível, o jeito ferrenho de conquistar os dias a cada amanhecer. Eram muitas as valências a que mamãe recorria. Minha avó e o resto da família ajudaram o tanto que deu, mas minha mãe percebeu que o fardo era nosso, tínhamos que nos aviar por nós. Ousou. Passamos a morar sozinhos, e também a nos sustentar a partir de nossos suores. Arrumar o di cumê todo dia, o de vestir, o de calçar, crédito para fiar mercadorias que dariam o impulso ao nosso empreendedorismo. Não podia arrumar tudo só ela. Naquela época, tempos duros de governo militar, não se cogitava qualquer tipo de programa de proteção social. Benefício nenhum nos alcançou. Nada, além das lidas diárias de mamãe, garantia nossa sobrevivência. Sem reforço nenhum, não teve outra alternativa a não ser contar com a gente, os pequenos. Tão logo ganhávamos um tutano, caíamos também no mundo do trabalho. E mesmo com as nossas virações, o ganho era muito pouco. Vivíamos de um dinheiro vindo da informalidade, de trabalhos em casas de família e ocupações periódicas em pequenos comércios. Aos doze anos, fui a primeira pessoa lá de casa a ter um emprego com carteira assinada. Com todo sacrifício, todo mundo estudou (e até hoje não sei como). E mesmo cursar o ensino fundamental, tirar o segundo grau, naquele tempo eram metas muito difíceis. Pra se conseguir uma vaga nas escolas do governo, a gente tinha que dormir na fila.

Eu era um único homem, um homenzinho, numa casa com quatro mulheres. Como acreditava mamãe, era um menino ‘intelixente’ que só. Mas viu que não bastava a sabedoria das coisas. O mundo raso que vivíamos nos dava a sina. Não se conformava com o fato de trabalharmos. Caía na real quando algum de nós ficava sem renda. Desinterava nisso ou naquilo de necessário. Logo tínhamos que arrumar outro trampo.Todo mundo tirou o segundo grau e daí não passamos. Adiante, alcançamos o emprego formal que nos coube. Que nos exigia metas e alta produtividade, embora, o ganho pouco. Nossa rainha até o dia em que a vida lhe valeu, comandou nosso lar com altivez de uma vencedora e ainda empreendendo em renda mínima e salteada. Até os últimos dias fazia as vendinhas dela, mesmo que, limitada, dessa vez, à porta da rua. Compôs com dignidade, sabedoria e uma quantidade de amor imensa, desde lá atrás, desde o dia que, vindos do Acre, desembarcamos no galpão Mosqueiro-Soure, as estatísticas do IBGE.

 

 

sábado, 2 de maio de 2026

crônica da semana - merecendência

 Merecendências

Fosse hoje, uma galera aí alterada, e de tino envenenado dispararia de prima tratar-se de um menino molengo, sem foco, desleixado dos objetivos, desprovido de inspiração ou anseios. Um garoto de costumes bárbaros e que não faz por onde subir na vida porque não tem interesse. Está tudo aí. Só não tem um futuro de sucesso porque não quer.

Pra dizer que este menino sou eu, então.

E nem de todo descolado dos anseios. Bem que tentei sonhar... Não fui um repetente no costume. Atrasei um ano nos estudos porque não passei e tive que fazer a sexta série de novo. Bem feita a localização no tempo, primeira vez em 1975, e o repeteco da série foi em 1976.

Pavimentando a minha trajetória, na primeira tentativa, tive a estréia valendo, no mudo do trabalho. Exatamente em 1975, assinava a carteira pela primeira vez, o menino. Tinha 12 anos. Devo destacar que aquela vivência escolar, naquele momento, era ainda um fato novo. A fase precisava de atenção e dedicação. Era só meu segundo ano no ginásio. Muitas novidades. Ainda experimentava e definia meus garranchinhos agora de caneta, me engatava para substituir a incógnita representada pelo quadradinho, um dia desses, lá no primário, pelo xis; e me aviava nos arremedos, oui, oui, de outras línguas: quinta e sexta série, francês. Lá na frente, a partir da sétima série, o inglês. E estava até indo bem. Confirmando o entusiasmo de minha mamãe quando me rotulava como uma criança muito ‘intelixente!’.

Até então, me virava nas vendas de picolé, flores de plástico, batonzinhos da Avon, e até de carnê do Sílvio. Sem grandes impactos na escola porque, na marretagem, eu empreendia eivado de empáfia: definia se ia encarar o solão e quanto iria faturar no dia. Fazia meu horário, dizque, e minhas expectativas para o pouco ganho.

A parada desandou quando fichei no supermercado. Tinha horário fixo, salário tabelado e era disponível pra tudo quanto de trampo. Aí, bambeei, dobrei as pernas. Minha jornada iniciava às 3 da tarde e ia até as 11 da noite. De domingo a domingo. Escala 7 x 0. Não esqueçamos. Eu era um menino de 12 anos. Embalava as compras no paneiro, levava quantos volumes somassem até o estacionamento para o carro dos fregueses ou até as casas, no longe que distassem; varria o salão, passava pano molhado, ajudava no galpão do estoque, fazia mandado... Tinha uma chefe que folgava em me mandar cuidar de coisas aleatórias e só pra fazer o mal, na hora do movimento, na vez de faturar com gorjetas ela me tirava da frente dos caixas, a péssima. Era sádica, ela. Até repor mercadoria nas gôndolas, lá na prateleira mais alta, ela mandava eu repor. Não estava no meu escopo, mas não podia negar. Fazia parte da minha carreira, ousar. Superar expectativas. Subiria de cargo, ficaria rico assim, me entregando desse jeito ao destino dos explorados.

Não aguentei. Decepcionei os teóricos da prosperidade, defensores do esforço sobre-humano. Batia o cartão às 11 da noite, corria pra pegar o Cristo lá na parada no entorno da rodoviária e que me deixava em frente à vila que eu morava na Mauriti, onde minha mãe, ligada no radinho de pilha, toda noite, me esperava. Banho e o sono reparador. Dormia já passando da uma da manhã. Às seis tinha que estar aceso para o desafio da sexta série.

Mas quando! Saía de casa feito um Zumbi, tino variando, olhos remelentos, apáticos estímulos para o dia.

O ônibus para a escola, atrás do Bosque, era deste lado da rua. Eu atravessava e pegava do outro. Dava a volta no centro e ia até o final da linha, lá atrás, dormindo. Completado o trajeto, ainda na antecâmara do sono, pegava outro, me ajeitava lá atrás e dormia de novo. Outra volta. Inventava sempre uma desculpa pra minha mãe, do meu regresso tão cedo. Um cedo providente, pois que mais com pouco já tinha que me arrumar para o trabalho.

Como era ‘intelixente!’, não tomei bomba pela métrica da merecendência. Fui reprovado por faltas.

sábado, 25 de abril de 2026

crônica da semana - sobrenatual - mar sem fim

 Mar sem fim

Tenho até vontade. Mas, para meu desencanto, não me aconteceu nenhum encontro com o sobrenatural. Então, me dou inventar. Semana passada mesmo, aqui, forjei uma aventura com a Matinta.

Não, minto! Me enxiro sim no rol dos excepcionais.  Verso por cá que sou agraciado com o dom da premonição. A mais incrível foi aquela em que sonhei com os números que comporiam a extração da noite no jogo do bicho. Partilhei com mamãe, ela jogou no Corujão e quebrou a banca. Uma pena que não são freqüentes essas dicas de jogo, e diria até mesmo, mais ousadas. Se pululassem aqui e ali adensadas, obviamente estaria redigindo esta crônica de um ponto qualquer do globo, embarcado num interminável cruzeiro, só torrando meu apurado na mega-sena da virada.

Por outra, só tive contato com esquisitices e aparições na Universidade. Um único caso, assim de palmo em cima. Um testemunho categórico de um operador da TV universitária. Ele atuava num programa, Academia Amazônia, que eu gostava e satisfazia umas curiosidades da produção com ele. E foi ali no intervalo das aulas que nos encontramos naquela pracinha que fazia fronteira com os blocos da Geologia. Conversa vai, conversa vem, me confessou jurando de pé junto, o pequeno, ter sido abduzinho. E chipado. Mostrou até uma ressalto na pele do braço, exatamente no lugar em que teve o chip instalado. Dava pra sentir, quer ver pega aqui, estimulava. E mandava eu pressionar o braço dele para sentir o chip. Eu declinava dessa prova, na caté. Não precisava. Cria mesmo sem tatear, diante dele, sustentava. Por dentro: Eu, heim. Vou me meter! Vai que dá choque. Maldava.

Tirando um medo de choque aqui, uma cisma sideral ali, faço é gosto de topar com umas estranhezas, mesmo que sejam traçadas na base da boa mentira. Da doce lorota.

Casos contados e jurados com jeito e curso de invencionice pura, entretanto, também me são raros. Mesmo nos meus tempos de vastas relações com gente de tudo quanto é canto, pelos ermos amazônicos, ainda que ali na convivência diária com a peãozada (e olha que peão é peça que inventa moda) não trago na bagagem casos relevantes.

Relevando cá e lá, destaco a minha passagem por Altamira. Ali sim, pingaram uns causos. Muitos ligados ao Curupira. Alguns outros não exatamente ligados aos mistérios, mas ao processo de ocupação daquela região, aos enfrentamentos entre gateiros, seringueiros e as comunidades indígenas dominantes no estirão do Xingu e seus longes. Soube também do caso da sucuri que engoliu um boi, do jacaré que se estendia por metros, de grande que era; e de gases que brotavam do fundo dos barrancos dos igarapés, e mundiavam os visitantes. Contavam também sobre relações familiares formadas a custos revolucionários entre seringueiros e indígenas. Mas estas eram narrações antes dramáticas que fantásticas.

A mais legal, a mais genuinamente abrigada no campo da magia e do mistério, que conheci e que convivi com os protagonistas dela, foi a história do trabalhador do nosso projeto que passou 15 dias perdido na mata que margeava a Transamazônica e foi salvo por um coelhinho cintilante. Segundo relatos do sobrevivente, quando ele já estava nas últimas, cansado, com fome, sede e sem forças, o coelhinho apareceu e durante alguns dias se tornou seu cuidador. Fez com que ele o seguisse no frio das noites (era cintilante, operava no escuro) e no caminho, como que por milagre, aparecia tudo que ele precisava. Água boa, árvores frutíferas, palmito e coquinhos para comer, locas de pedras varridas e aquecidas para descansar. E nos últimos dias, o direcionou para a picada que o levou a uma fazenda de onde foi resgatado. Um poder de espanto tem este caso, mais porque põe em cena o coelho, que é espécie rara na Amazônia e que imprime mais impacto à prosa, por cintilar.

Sigo na vontade de contatos e experiências sensacionais. Um sonho, um sonho! Um cruzeiro pelos mares sem fim!

 

 

 

domingo, 19 de abril de 2026

crônica da semana : A solidão é ralado - Matinta

 A solidão é ralado (medo da Matinta)

Antigamente quando a gente reclamava de alguma dificuldade, dizia no bom paraensês: “égua, tá ralado, olha”. Não se variava o termo ‘ralado’. Ao flagrarmos a vizinha bandando a nossa bola, cravávamos, “eita que essa vizinha é ralado” e não ‘ralada’ como, na sua hora e vez, prevê a flexão de gênero.

O que se torna e o que se deixa é que já me bati com a solidão do jeito de um ralado só...

Conto e destaco que, recentemente, me inclui num exclusivo, me achei num vasto vazio. Tive uma obra na categoria crônica publicada em edição nacional por um selo que se articula em torno da Flip, potente feira literária que se realiza em Paraty, no Rio de Janeiro. Quando recebi minha premiação em casa, notei nosso apartamento, nossa alienação dos grandes eventos e da tímida participação de nossa cultura amazônica em projetos de repercussão nacional. No livro, contei pra mais de trezentas obras e, ora veja que frustração, apenas três autores representando a literatura do Norte do Brasil. A se contar nos dedos. A minha crônica de Belém, uma de Rio Branco, outra de Santarém. E só. Outras categorias, nem o cheiro. Poema nenhum, Conto nenhum. Podemos especular as causas de tão poucas participações dos autores da banda de cá. E capaz de aparecerem razões quantas e justas. Não muito diferentes, imagino, das motivações do Nordeste, que por sua voz e vez, foi região que emplacou mais de 47 textos na coletânea. Bem mais que nossos três’zinhos amazônicos.  A composição desta coletânea fala comigo, lá no fundo do meu coração e me lança ao ermo, e me impõe o sal da solidão, do acanhamento, me deixa ao largado do isolamento junto com meus pares do Acre e do oeste do Pará. Romper barreiras é ralado.

Desafiar conjunturas é coisa de artista mesmo. E este sentimento que tive de isolamento pode até vir de um desencanto que se desenvolve no campo vasto do idealismo, dos sonhos. Mas torne a isso, se ligue, que aquele estado de um ser solitário de horizontes e beiras se abateu sobre mim no real e ordinário mesmo foi dia desses, depois do show do Gilberto Gil aqui no Hangar.

Bem pertinho aqui de casa, o centro de convenções. Coisa de dois quarteirões bem medidos. Na ida, a noite se achegando, fui caminhando pra lá. É tão perto, a uma meia distância da padaria onde pego meu pão da tarde. Era uma batidinha que eu, na rotina, dominava. Além do quê, estava cedo ainda, a noite caía e esfriava o tempo. Tirei a pisada, de subida, numa boa. Já na volta, a situação se deu na tensão. Mina de gente naquele show. Quando acabou, vi a galera naquela romaria se dirigindo pra saída, pensei na disputa por transporte, nos preços cobrados, na escassez de ofertas, me adiantei e vi que uma boa parte da galera estava indo a pé ali pras minhas bandas. Era perto de meia-noite, pela quantidade de gente, avaliei que teria uma companhia adensada, e me misturei. O custo foi chegar à primeira esquina. Antes da Visconde de Inhaúma mesmo, muitos já tinham abandonado o cortejo e seguido o rumo nos carros que haviam estacionado por ali. O resto, quando chegou à Visconde, dobrou e também sumiu pelo canteiro central atrás dos carros. Sobramos eu e um casal que ia à minha frente. E ainda tinha mais um quarteirão a vencer, de baixada. Alguns metros pra chegar ao canal da Marquês, o casal desviou e entrou numa casa. Meu pai eterno! Segui sozinho (a solidão é ralado!). Passei apressado pelo canal e ainda dei uma espiada lá pras matas da aeronáutica, onde nasce o Igarapé do Zé. Nessa hora me ocorreu o alerta que mamãe fazia afirmando que ali habitam os encantados, a Matinta, o Vira-porco, o Homem do saco. Reinei correr. Desisti. Nem carro estava passando, mas vai se corro, passa um e me tem como um meliante em fuga, posto que sou da cor. Tornei e mirei à frente na fé. Andando meio penso de tenso, perna tremendo.

Desembestei foi na carreira, porém, quando ouvi um assobio.

 

sábado, 11 de abril de 2026

crônica da semana- o abelhudo (equinócio)

 O abelhudo

Bom pra gente falar dessas coisas é na hora. Tá quentinho ainda o fato. Né que a lua cheia aconteceu na quarta-feira, dia primeiro? Então, vamos vendo. No domingo agora dia 5 de abril, foi a Páscoa. Aí, por esta sequência a gente já tem uma lógica que aponta parcialmente o jeito como se define a data do carnaval. Pera que tem a ver sim. O carnaval se realiza 40 dias antes da Páscoa. Para saber quando vamos nos entregar à pândega, primeiro temos que ter a certeza da remissão. Bora pra frente que ainda tem uma santa matemática pra gente desenvolver. Porque sei que fica tiquetateando em dúvida de tempo no nosso cocuruto o porquê justo e acertado de a Páscoa, assim como o carnaval mudar de data... (Aquela, que inspira reza e contrição, ocorre entre março e abril. Enquanto este que é da folia acontece em fevereiro, ou março)... E mudar também de datas dentro dos meses. A Páscoa este ano foi no dia 5 de abril, mas dependendo do andor, pode ocorrer lá pelo longe do dia 22 de abril. Depende da lua.

Este ano resolvi, no quentinho da hora, abelhudar fatos e dados. Fucei o calendário de 2020 a 2026 e me deparei com o que chamo de datas limites para os eventos acontecerem. E como quem define o carnaval é a Páscoa, bora entender esta passagem.

A regra é clara e diz que a Páscoa ocorre no primeiro domingo após a lua cheia que nasce depois do Equinócio. Boa. Tá vendo? Vale a pena bisbilhotar. Fato novo: Equinócio. Sabemos o que é. Trata-se de um evento astronômico e parariparará, que tem data certa na folhinha do ano. É no dia 20 de março. Devemos focar o cuidado nesta informação. Ao contrário do carnaval e da Páscoa que são eventos de datas variáveis, o Equinócio não varia (até que varia por causa do período sideral, do tempo que a Terra leva pra dar uma volta em torno do sol e coisa e loisa e mariposa), mas como sai do dia 20 para o dia 21 de março, coisa de um giro gito da Terra, a gente aqui na nossa continha não malda. Agarra e despreza. Melhor pra nós. Vamos nos aquietar no dia 20 de março e não se fala mais nisso. Aí vamos olhar pro céu. Entre os anos que pesquisei, a data mais adiantada que teve lua cheia após o equinócio foi o dia 16 de abril. Então... teve o Equinócio no dia 20 de março, passou, passou, e a lua só deu o ar da graça cheiona, 27 dias depois. Se considerarmos este limite e a esperança de um domingo na sequência, a Páscoa pode acontecer até o dia 23 de abril, já o mês indo pro fim. Neste caso o carnaval, quarenta dias antes, seria puxado pra frente e se realizaria pelos meados de março.

Na outra ponta, vi também na pesquisa, uma situação em que o carnaval cairia em fevereiro. Constatei que a lua cheia depois do Equinócio despontou no céu dia 25 de março, apenas 5 dias após o Equinócio. E no limite, na hipótese de o domingo vir no dia seguinte, 26, o carnaval cairia bem nos primeiros dias de fevereiro.

A gente percebe uma distância que chega perto de completar mês nas possibilidades dos eventos acontecerem. Esta inconstância, a ausência de datas fixas nos prega surpresas algumas. E desconcertos. A gente tá bem assim, programando os feriadões, quando dá fé, nem é o que pensávamos. Muda tudo. Ou por outra, exagera na pândega e quando pisca, tá é na hora da penitência. Podia sair dessa prosa com uma dica, um jeito de saber direitinho as datas futuras para não perder a eira (taí, sei que a lua cheia do ano que vem vai ser em 22 de março. Quem se arrisca? Tá fácil. A lua dois dias depois do Equinócio, logo o carnaval será em...). No entanto, me escapa uma função ajeitadinha no xis da questão, que formule continhas seguras ante variáveis tão condicionadas aos humores astronômicos. Melhor e mais garantido é abelhudar a folhinha dos anos que nos restam, espero que certos, pela frente.

 

 

 

 

sábado, 4 de abril de 2026

crônica da semana

 O alpendre

Nem era assim, minha amiga de rocha mesmo. A coisa foi acontecendo aos poucos. Fazia parte de outra turma. Vez em quando nos topávamos pela noite, no restaurante da japonesa, ali pela beira do rio, no balneário do Pedral. E assim, nessa batidinha, fomos nos envolvendo. Mesclamos as turmas. Dava até de nem maldarmos, e de repente, um estava na programação do outro sem combina. Formamos uma terceira via. Mais diversa, bem mais liberal, avançadinha, diria, para os prazeres mundanos. Um grupo que discutia política, apreciava alguma arte, e fazia questão de se perder pelos escondidinhos alternativos por ali, pelas ruas descendo a Manoel Umbuzeiro. Fechávamos bares, na superação; ainda, fazíamos trilhas, explorávamos cachoeiras, cavernas, acordávamos uns aos outros jogando pedra na janela do quarto e depois é que pampampam, batíamos na porta. Quando dei fé, já tomava conta do sofá da casa da minha amiga, comparecia na horinha certa do almoço, e de manhã, me enxeria para dizque, experimentar as combinações de jerimum com leite e aquelas tapiocas grossonas que a mãe dela fazia. Nos tornamos unha e carne. Tinha ciúmes dela com um sujeito que ela, aqui, ali, namorava. Do sul e que fazia parte daquela outra turma. Calhou que ele não se deu com as novas composições, com a terceira via, daí ela se saiu e namorou um amigo chegado meu. Menos pior.

Foi a primeira a chegar a minha casa, de tardezinha, já a noite caindo.

A casa era um brinco. Um refinado traçado na arquitetura de Altamira. Alugada pela empresa, abrigou o engenheiro residente, depois o administrador e já o projeto em risco, fomos nós, da área técnica pra lá. Com pouco mais, veio uma onda de demissão, e levou o bocado que morava comigo. Fiquei morando sozinho um bom tempo naquela mansão. Eu, na companhia do cachorro e do Verdugo, que era o vigia da noite e passava o turno no alpendre. Um tempo suficiente para roteirizar dias e noites de folgas e folguedos pra lá de animados. Verdugo ficava piriricas diante das liberdades exageradas oficiadas em nossas contumazes celebrações. O detalhe é que esta casa de extremado bom gosto era de um dos primeiros garimpeiros a enriquecer em Serra Pelada. Voltou pra cidade que era o puro ouro, o homi. Contratou engenheiros, arquitetos. Tinha quatro quartos, a casa, jardim, e um simpático alpendre de onde eu via Helena passar todo início de noite. O primeiro dono garimpeiro torrou toda a grana, perdeu a casa, foi morar na Brasília e por fim, trabalhava como cozinheiro do meu acampamento no Xingu. Era baixo, gordinho, cara redonda e ganhou um apelido lá no campo, indo lá e vindo cá no recato, de toda sorte, impublicável.

Naquele meu último dia, a casa esteve foi movimentada. Antes do anoitecer, a turma chegou. Os convidados trouxeram salgadinhos, bebidas e alguns instrumentos. Nos acomodamos na sala, fizemos brindes, iniciamos uma cantoria. Érica logo se desinibiu. Foi se achegando pro lado de Pedro. A moça era bela. Parecia uma boneca. Pele aporcelanada. Pose de miss. Namorava com Júlio, um dos mais cobiçados herdeiros da cidade. Pedro era bonito e pobre. Não deu nem a conta de mais um brinde e os dois sumiram lá pra dentro.

Já a noite se instalara. Minha melhor amiga pediu que eu largasse o violão um instante e fosse lá fora. Era Júlio atrás da Érica. Não entrou, não passou além do alpendre. Era distante da gente, de outra laia. Eu disse que não sabia dela, andava com esta galera mesmo, mas por aqui, não está não, afirmei. Não voltei pra sala. Fiquei no alpendre esperando Helena passar na sua motinha. Quando ela chegou, viu aquela arrumação e deu pra trás. Nem desligou o motor. Falou pra eu me arrumar.

Conheci Helena revelando filmes da minha Olympus Trip 35. Trabalhava numa loja da Sete. Me engracei. Não era bonita, nem sedutora, nem espevitada como as meninas da nossa turma. Tinha um olhar triste, e um jeito extraordinariamente acolhedor. Vivia num mundo muito, mas muito distante do meu. E isso me encantava. Morava ali na estrada do aeroporto, pros meus lados. Quando estava na cidade, todo dia a esperava para nosso namoro de porta. Sempre parava, desligava a moto e se demorava. Falava pouco e se denunciava em banalidades e medos. Não aprofundava assuntos, nem enxerimentos. Jamais ousou avançar o sinal, nunca se adiantou além do alpendre...

Verdugo chegou e isso era sinal de que já estava na hora. Com a ajuda de minha melhor amiga encerrei a festinha de despedida. Fomos recolhendo a turma que estava lá pra dentro. Pedro e Érica estavam exaustos, curtindo a convalescência daquela aventura proibida. A galera foi embora, minha melhor amiga foi com eles, com cara de choro. Depois, peguei minha mochila, fechei a casa e dei a chave para Verdugo. Mandei um tiau pro cachorro e desci pra calçada.

Helena foi me buscar e me levou pro aeroporto na mobylette dela. Nunca arriscou avançar além do alpendre.