A anatomia (e a psicologia) da régua Tê
Nos primeiros dias de aula e
ainda por um bom tempo, mesmo às vésperas de mudar o bolso de ‘básico’ para
‘profissional’, a galera pegava no pé de quem chegava à Escola agarrado a uma
régua Tê. A encarnação, ou, que seja, o bullying era certo.
O ensino do Desenho Técnico
era traço (ops!) essencial na formação de quem ingressava na Escola Técnica, na
minha época. Exigia uma estrutura de sala de aula diferente, dotada de mesas
especiais (pranchetas), professores destacados, bancos altões pra gente
alcançar as mesas. E uma série de componentes, os ditos materiais de desenho.
Dentre eles, a perseguida e bulinada régua Tê.
Tratava-se de uma peça bem
indiscreta e representava uma disciplina de entrada na Escola. Sinalizava um
aluno novato, calouro ou no dialeto preconceituoso da época, ‘aluno mobral’.
Era inevitável. No caminho para as salas de Desenho, ali pela pracinha que
ficava em frente à biblioteca, aquela romaria de novatos portando régua Tê era
homenageada com vaias, afrontas e dizeres impublicáveis. Era um ciclo, sabíamos.
Dali a algum tempo, os alunos xingados passariam a ser os xingadores.
Fosse eu um estudiosos dos
interstícios da mente, cavucaria termos e conceitos que explicassem estes
comportamentos naquele ambiente, no esperado, de aprendizado. E também,
pesquisaria os efeitos psicológicos resultantes daquelas encarnações. Eu, por
mim, tenho é trauma. Sofri pacas. Uma porque custei a abandonar a régua Tê
(outro sinal. Significava pouca destreza no traço). E noutra, porque na minha
vez ainda ocorreu de a minha régua, ao contrário de todas as outras dos meus
colegas que eram de acrílico, ser de madeira. Além de ‘mobral’, a minha régua
indicava ali um aluno que não tinha dinheiro para comprar uma régua de acrílico.
E, pelo certo, nem de madeira. A régua, chegou até mim, como fruto de uma
doação. Me entanguia de vergonha entre os meus colegas, para que não me
localizassem, toda vez que tínhamos que passar pela pracinha.
A realidade daquelas
afrontas era que refletiam diferenças de aprendizado. O uso da régua Tê
significava pouco desprendimento na disciplina e necessidade do amparo daquele
componente. Com o tempo, os alunos iam ficando mais ‘safos’ e abandonando
aquele artifício. A maturidade dispensava a régua Tê e as atividades de Desenho
passavam a ser regidas pelo charme e pela caté no manejo do par de esquadros. A
maturidade ensejava a gabolice e o preconceito. Demorou, penei que só, mas
quando me dei com os esquadros, adorei. Até um dia desses, na minha caminhada
profissional, mesmo ante as tecnologias, me acudia ao charme do par de
esquadros para conferir traços.
Os esquadros integravam o
que chamo de anatomia da régua Tê.
A régua era a peça mais
robusta. Pelo comum era uma haste com 5 a 7cm de largura por 50cm de
comprimento, finalizada em uma das pontas, com uma cabeça em tê. Este formato
proporcionava o ajuntamento ordenado das outras peças, no corpo do acrílico (ou
da madeira, no meu caso). Deixa eu ver se me lembro a organização direitinho.
Ali, cabia todo o nosso material. Primeiro, o transferidor. Com a régua em pé e
de cabeça pra baixo, o transferidor era introduzido e despencava até encontrar o
tê, depois, o par de esquadros deslizava ao longo da lâmina, até chegar no
transferidor lá na ponta. A seguir, com a fita isolante, que na aula servia
para fixar o papel na prancheta, colávamos o escalímetro no corpo da régua.
Acima do escalímetro colávamos a borracha branca e a flanela. Concluindo, posicionávamos
o rolo de fita e o tubo montado com o papel A2, colado com durex para não
abrir, e lançávamos os dois envolvendo boa porção da haste. Os lápis de vários
traços e durezas iam no bolso da bata. O compasso, na mochila, porque era
sempre um risco com aquela ponta fina. No coração da gente, uma batucada de
nervoso porque passaríamos pela pracinha minada de moleques pouco atentados!