Plinct, plonct, ploft
Quero crer que tenha sido apenas o desenrolar
de um acaso. Um daqueles ‘poxa vida” que nos quedam lastimosos, mas que
acontecem...
Nessa manhã, estava vasqueiro. Já tinha feito
minha caminhada de ida pelo canteiro da avenida só na manha, de vez em quando
trotando na ligeireza que o pulmão permite e as fibras musculares suportam, e
sempre com o olhar afiado, sensível aos pontinhos que se definiam no chão. Já
num desalentado trotar de volta, me largava ao conformismo. Minha sacolinha providenciada
ao sair de casa, abrigava apenas duas mangas das bem gitas e ainda madurando.
Estava sem esperança até que, lá na frente avistei. Uma porruda, rosada de dar
gosto. Cheirosa. Tinha caído na ventarola que age por ali, no correr da manhã.
Agachei, apanhei a bichinha do chão com carinho, reparei se não estava magoada,
sem uma trinca, um roído de passarinho. Estava saudável. Caiu bem na parte
rampada do canteiro. Graminha rala e por vezes, ausente. Limpei a terrinha no
short, e numa patetice imperdoável, quando fui acomodar dentro da minha
sacolinha, a manga, a sedutora, a maravilhosa manga escapuliu da minha mão,
rolou pelo declive num dramático ritmo plinct plonct e encontrou o seu destino
na impiedosa sonoridade. Ploft. O testemunho ficou lá no asfalto: a casca
rosadinha transformada em melancólica pasta adelgaçada. Enquanto o caroço num deslizado choramingo,
foi lançado de volta ao canteiro, mutilado, alienado das suas suculências. Aquilo
me doeu de uma forma devastadora. Mesmo porque era possível resgatar a manga do
asfalto. O trânsito estava dinâmico, o que me impediu de um resgate imediato.
Havia um bom espaço entre as trajetórias dos carros e a manga. Passou um, com
boa folga, passou outro, sem ameaçar minha frutinha. Postado estava eu no meio
fio, como se pedindo socorro pra bichinha. O próximo carro, é certo que me viu,
viu a manga no chão, entendeu a mensagem contida na composição da cena. Aí é
que desconfio da maldade. Parece que ajustou a direção só para espocar sem dó a
minha manguinha rosada. Meu pai que me alivie se eu estiver errado, mas... Tem
gente pra tudo!
Um caso envolvendo as mangas que grassam em
nossas ruas, eu já havia presenciado e o que se sucedeu me deixou tomado de um
justificável pavor.
Deu-se bem no tempo em que estes movimentos
que agem com ódio e intolerância começaram a ganhar fôlego. Foi a primeira
experiência que testemunhei com esta parcela da sociedade, que se julga
detentora de todos os valores e juízos, em plena e ameaçadora ação. Caminhava na
arborizada avenida quando vi um apanhador de mangas, aqueles que tiram a manga
da árvore com uma vara adaptada. Acompanhei em algumas voltas, o movimento
dele. Parava aqui, coletava, se adiantava, parava sob outra mangueira mais
ali... Eu, na minha caminhada. Em dado momento, vi que um homem se aproximou do
catador, arrancou-lhe da mão a vara coletora, a sacola que ele carregava,
chutou o carrinho de mão que ele conduzia. Gritava, ofendia. Falava com alguém
ao celular, como se combinando algo. E realmente, logo a seguir, parou um carro
e dele desceu o condutor para apoiá-lo. Agora eram os dois. Jovens, bem
vestidos. Tipos bem cuidados, bem alimentados, aqueles que não precisam das
mangas da rua para viver. O catador argumentava, mas era forçado a ganhar rumo dali
com o carrinho dele. Alguns moradores notaram o movimento e saíram para rua.
Chegaram próximo, interferiram em favor do coletor. Nessa hora, também eu estava
próximo. O comportamento dos homens dava medo. Humilhado, atacado, o catador
saiu para longe empurrando seu carrinho.
Lembrei deste caso, agora, quando minha manga
tão desejada foi espocada sem dó por um automóvel no asfalto. Num enredo
Plinct, plonct, ploft que ainda me dói.
Só não dói mais porque mais na frente, o bom
pai proveu. Achei outra rosada, cheirosa, dessa vez, redobrei os cuidados ao
lançá-la para dentro da minha sacolinha.