Mar sem fim
Tenho
até vontade. Mas, para meu desencanto, não me aconteceu nenhum encontro com o
sobrenatural. Então, me dou inventar. Semana passada mesmo, aqui, forjei uma
aventura com a Matinta.
Não,
minto! Me enxiro sim no rol dos excepcionais. Verso por cá que sou agraciado com o dom da premonição.
A mais incrível foi aquela em que sonhei com os números que comporiam a
extração da noite no jogo do bicho. Partilhei com mamãe, ela jogou no Corujão e
quebrou a banca. Uma pena que não são freqüentes essas dicas de jogo, e diria
até mesmo, mais ousadas. Se pululassem aqui e ali adensadas, obviamente estaria
redigindo esta crônica de um ponto qualquer do globo, embarcado num
interminável cruzeiro, só torrando meu apurado na mega-sena da virada.
Por
outra, só tive contato com esquisitices e aparições na Universidade. Um único
caso, assim de palmo em cima. Um testemunho categórico de um operador da TV
universitária. Ele atuava num programa, Academia Amazônia, que eu gostava e
satisfazia umas curiosidades da produção com ele. E foi ali no intervalo das
aulas que nos encontramos naquela pracinha que fazia fronteira com os blocos da
Geologia. Conversa vai, conversa vem, me confessou jurando de pé junto, o
pequeno, ter sido abduzinho. E chipado. Mostrou até uma ressalto na pele do
braço, exatamente no lugar em que teve o chip instalado. Dava pra sentir, quer
ver pega aqui, estimulava. E mandava eu pressionar o braço dele para sentir o
chip. Eu declinava dessa prova, na caté. Não precisava. Cria mesmo sem tatear,
diante dele, sustentava. Por dentro: Eu, heim. Vou me meter! Vai que dá choque.
Maldava.
Tirando
um medo de choque aqui, uma cisma sideral ali, faço é gosto de topar com umas
estranhezas, mesmo que sejam traçadas na base da boa mentira. Da doce lorota.
Casos
contados e jurados com jeito e curso de invencionice pura, entretanto, também
me são raros. Mesmo nos meus tempos de vastas relações com gente de tudo quanto
é canto, pelos ermos amazônicos, ainda que ali na convivência diária com a
peãozada (e olha que peão é peça que inventa moda) não trago na bagagem casos
relevantes.
Relevando
cá e lá, destaco a minha passagem por Altamira. Ali sim, pingaram uns causos.
Muitos ligados ao Curupira. Alguns outros não exatamente ligados aos mistérios,
mas ao processo de ocupação daquela região, aos enfrentamentos entre gateiros,
seringueiros e as comunidades indígenas dominantes no estirão do Xingu e seus
longes. Soube também do caso da sucuri que engoliu um boi, do jacaré que se
estendia por metros, de grande que era; e de gases que brotavam do fundo dos
barrancos dos igarapés, e mundiavam os visitantes. Contavam também sobre
relações familiares formadas a custos revolucionários entre seringueiros e
indígenas. Mas estas eram narrações antes dramáticas que fantásticas.
A
mais legal, a mais genuinamente abrigada no campo da magia e do mistério, que
conheci e que convivi com os protagonistas dela, foi a história do trabalhador
do nosso projeto que passou 15 dias perdido na mata que margeava a
Transamazônica e foi salvo por um coelhinho cintilante. Segundo relatos do
sobrevivente, quando ele já estava nas últimas, cansado, com fome, sede e sem
forças, o coelhinho apareceu e durante alguns dias se tornou seu cuidador. Fez
com que ele o seguisse no frio das noites (era cintilante, operava no escuro) e
no caminho, como que por milagre, aparecia tudo que ele precisava. Água boa,
árvores frutíferas, palmito e coquinhos para comer, locas de pedras varridas e
aquecidas para descansar. E nos últimos dias, o direcionou para a picada que o levou
a uma fazenda de onde foi resgatado. Um poder de espanto tem este caso, mais
porque põe em cena o coelho, que é espécie rara na Amazônia e que imprime mais
impacto à prosa, por cintilar.
Sigo
na vontade de contatos e experiências sensacionais. Um sonho, um sonho! Um
cruzeiro pelos mares sem fim!