terça-feira, 8 de setembro de 2026

crônica da semana : zé pererequeté

 Zé Pererequeté

Morava numa casa bem estiolada, nos interflúvios da baixa da Pedreira. Vivia com a mãe, a irmã e uma bicicleta toda esmerilada. O lugar ficava a um trisca dos alagados de inverno. Durante as chuvas inteiriçadas do março pra trás um pouco e do março pra frente o que desse, aquele terreninho resistia e a casa ficava em tempo, mas não enchia. A água não invadia, a chamichuga não procurava pernas nuas, não precisavam subir as coisas. Poucas coisas. Mas a estrutura sentia. O terreno encharcava, ficava molengão. Aos poucos, a casa foi deitando. O movimento que não se sentia no ato e na vez, aos poucos ia revelando a inclinação. E produzindo conseqüências. Por causa dos silenciosos e traiçoeiros solavancos, o enchimento ia cedendo. Vez e vez, se encontrava um torrão no chão, saltado da parede. E as varas trançadas se mostravam e expunham o oco do quadrado. Dava pra gente ver lá dentro da casa, pelos buracos que se formavam. No verão, toda a estrutura sossegava. Era hora de remendar os buracos com barro dali da frente mesmo e, o melhor de tudo, era o tempo que o igarapé aparecia lá no quintal. A água grande passava e ficava só aquele reguinho, com um fiozinho correndo o tempo todo. Havia uns quantos olhos d’água por ali, desde lá de cima, da Lomas.

O Zé Pererequeté tinha um primo que mexia com coisas velhas de carro. E no verão a baixa da Pedreira ficava uma pista de piçarra muito firme. A gente aproveitava o declive da rua pras bandas da Itororó, o Zé conseguia pneus de carro e “jances” de bicicleta e nossa diversão era bater “jance” e pneu ladeira abaixo, uns com um pedaço de madeira ou uma haste de ferro, outros, batiam e tareavam os aros e pneus era com a mão mesmo.  

Era, o Zé, o fornecedor e o organizador das brincadeiras da tarde, depois da aula do intermediário e do episódio de “Perdidos no espaço”. Tinha também o pendor do conto e da fantasia, o menino. Repetia uma história das pedras falantes. Dizia que quando o nível do igarapé descia, apareciam vários pontos que acumulavam uma variedade de pedras. Roladas, pontudinhas, quadradinhas, brilhantes como diamantes, coloridas, transparentes. E as que mais impressionavam, aquelas que falavam. Um dia da semana, sempre nos convidava para varar os quintais pelo leito do igarapé, pra ver se a gente encontrava alguma pedra falante. E caso a gente encontrasse, para saber qual o papo delas.

Era uma aventura. Embora verão, havia um trecho na parte da Pedreira constantemente alagado. O igarapé que passava atrás da casa inclinada do Zé Pererequeté cruzava vários quintais e se embrenhava por paisagens ainda diversas por aquele lado do bairro. Uma hora atravessávamos uma mata alta com castanheira e mangueiras, noutro ponto já dávamos de encontra com um açaizal, em algumas margens, pés de café, urucum, jaca e cacau. Mais lá na frente, era a hora de subirmos pela ponte e sem cerimônia, passar rente às retretes e jiraus das casas que se amontoavam em becos e vilas. Até que a gente saia no capinzal. O igarapé terminava ali. Era um terreno sempre úmido e que quando dava, a gente socava de caroço de açaí e arremedava um campinho. Durava pouco porque do nada o terreno se movia e isso prejudicava o nosso bom futebol. Parece que a gente jogava em cima de um colchão d’água. Dali em diante não tinha mais um leito, um fiozinho pra seguir. Era tudo aquele ensopado.

Fizemos muitas caminhadas de exploração, incentivados pelo Zé Pererequeté. Tinha era muita pedra bonita mesmo ao longo do igarapé. Até hoje tenho as minhas guardadas. Nunca encontramos pedra qualquer que falasse ou um oi sequer pronunciasse. Era tudo por conta dos contos do Zé.

Zé mudou-se. Casou-se. Constituiu família. A casa da baixa da Pedreira, como se diz, encruou. Nem foi ao chão, nem se reergueu em tijolo. Reina de banda sustentada por varas em quadrado, enchimento de barro e a tagarelice das pedras lá atrás, no igarapé da memória.

 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

crônica da semana - ler é viver feira do livro

 Ler é viver

Mais uma Feira do Livro na minha conta. E este assunto me traz um pouco de nostalgia. Mexe lá dentro do meu puro íntimo porque mistura um monte de coisa bacana. Traz à memória o Arraial de Nazaré, os meus companheiros do Sindicato, o Dr. Geraldo... A espontaneidade dos artistas que se revelava nos arrastões poéticos durante a Feira, os primeiros passos para um estande exclusivo destinado aos escritores paraenses, a docilidade do querido escritor Benedito Monteiro, a presença da literatura operária minha e do Dr. Sérgio Pandolfo, a energia e a desenvoltura de Juracy Siqueira, a poesia envolvente da Malta Folhas e Ervas.

Calha de alguém perguntar: e o que tem a ver o sindicato com as valsas? É que nas primeiras versões, a Feira do Livro era realizada no Centur, que é ao pegado do prédio da Fiepa, nicho empresarial onde aconteciam, naquela época, entre outubro e novembro, as negociações para o Acordo Coletivo dos trabalhadores que representávamos em Barcarena. As reuniões iam até tarde. Na saída, sempre dávamos uma banda pelo arraial pra fazer um lanche na barraca do Ciro e depois, terminávamos a jornada visitando os estandes da Feira. As visitas me fizeram tomar gosto, coragem e logo logo, cuidei de lançar meu primeiro livro também na Feira do Livro do Centur. Isso é lá pelos anos de milinovecentos e naninani. Hoje, a Feira se realiza no Hangar, que oferece um ambiente até mais aquele de amplo e confortável.

Daqueles anos pra trás aos de hoje, participei de todas as panamazônicas. Fazendo lançamento de livros de minha lavra, como visitante ou prestigiando as sessões de autógrafos d’outros autores.

Este ano, além de comparecer com minha mais recente publicação (tô esperando vocês lá, heim, pra autografar minha nova obra, a coletânea de crônicas ambientais, sociais e quetais científicas “Parece até que vai chover”), vou experimentar o ingresso no mundo dos livreiros. Fiz uma parceria com o amigo Juarez e vou viver, no estande da livraria Ifá, o universo daqueles abnegados, daqueles heróis que acreditam ainda que ler é viver.

Se a gente for reparar, os estandes da Feira são ocupados por negócios gráficos vários e outros, aparentados dos livros. Mas chamo atenção àqueles que apresentam, efetivamente, a produção do livro físico, aqui em nossa região. Penso que poucos resistem. As livrarias desaparecem e a gente nem malda. Vão passando. Algumas deixam saudades. As que ficam, e aqui em Belém contam-nas nos dedos de uma única mão, chapinham na inconstância da demanda. As multimídias, o desapego pelo prazer que vem da escrita, a negação do conhecimento, e a anuência a fatos, enlevos e informações fáceis e ágeis, ainda que sem sal ou mentirosas, têm derrubado de ruma, o exército de leitores.  Estes são fatores que afastam as pessoas dos livros, além, né, das coisas da idade.

O Brasil lê pouco, se comparado com outros países, mas sempre lutei contra a média. Fui leitor de devorar de dois a três livros por mês. Na própria livraria Ifá, mantenho uma rotina, há anos, de adquirir por lá pelo menos uma publicação a cada mês, inclusive com critérios. Paraenses, biografias, literatura feita por mulheres, mulheres pretas, homens pretos, cultura e religiosidade afro, histórias do samba, das crenças e das ciências. Mas confesso que com o passar do tempo, os meus acessos aos livros exigem superação e adaptação. A vista começou a turvar. Antes já tinha uma dificuldade. Nunca me acostumei com óculos. Me dá uma agonia. Um desconforto contornável. Mas agora, com este turvamento, senti a limitação. Mantenho minhas aquisições só que no momento, priorizo edições que tenham as letras porrudas.

Digo: se tem a vista boa, se não tem agoniação, aproveite. Rogo que vá à Feira do Livro, visite os livreiros, as heróicas livrarias. Ler faz a gente viver mais, porque vivemos vidas outras, sentimentos outros, vitórias, prazeres entre as mãos.  Espero vocês lá.

sábado, 22 de agosto de 2026

crônica da semana - régua tê

 A anatomia (e a psicologia) da régua Tê

Nos primeiros dias de aula e ainda por um bom tempo, mesmo às vésperas de mudar o bolso de ‘básico’ para ‘profissional’, a galera pegava no pé de quem chegava à Escola agarrado a uma régua Tê. A encarnação, ou, que seja, o bullying era certo.

O ensino do Desenho Técnico era traço (ops!) essencial na formação de quem ingressava na Escola Técnica, na minha época. Exigia uma estrutura de sala de aula diferente, dotada de mesas especiais (pranchetas), professores destacados, bancos altões pra gente alcançar as mesas. E uma série de componentes, os ditos materiais de desenho. Dentre eles, a perseguida e bulinada régua Tê.

Tratava-se de uma peça bem indiscreta e representava uma disciplina de entrada na Escola. Sinalizava um aluno novato, calouro ou no dialeto preconceituoso da época, ‘aluno mobral’. Era inevitável. No caminho para as salas de Desenho, ali pela pracinha que ficava em frente à biblioteca, aquela romaria de novatos portando régua Tê era homenageada com vaias, afrontas e dizeres impublicáveis. Era um ciclo, sabíamos. Dali a algum tempo, os alunos xingados passariam a ser os xingadores.

Fosse eu um estudiosos dos interstícios da mente, cavucaria termos e conceitos que explicassem estes comportamentos naquele ambiente, no esperado, de aprendizado. E também, pesquisaria os efeitos psicológicos resultantes daquelas encarnações. Eu, por mim, tenho é trauma. Sofri pacas. Uma porque custei a abandonar a régua Tê (outro sinal. Significava pouca destreza no traço). E noutra, porque na minha vez ainda ocorreu de a minha régua, ao contrário de todas as outras dos meus colegas que eram de acrílico, ser de madeira. Além de ‘mobral’, a minha régua indicava ali um aluno que não tinha dinheiro para comprar uma régua de acrílico. E, pelo certo, nem de madeira. A régua, chegou até mim, como fruto de uma doação. Me entanguia de vergonha entre os meus colegas, para que não me localizassem, toda vez que tínhamos que passar pela pracinha.

A realidade daquelas afrontas era que refletiam diferenças de aprendizado. O uso da régua Tê significava pouco desprendimento na disciplina e necessidade do amparo daquele componente. Com o tempo, os alunos iam ficando mais ‘safos’ e abandonando aquele artifício. A maturidade dispensava a régua Tê e as atividades de Desenho passavam a ser regidas pelo charme e pela caté no manejo do par de esquadros. A maturidade ensejava a gabolice e o preconceito. Demorou, penei que só, mas quando me dei com os esquadros, adorei. Até um dia desses, na minha caminhada profissional, mesmo ante as tecnologias, me acudia ao charme do par de esquadros para conferir traços.

Os esquadros integravam o que chamo de anatomia da régua Tê.

A régua era a peça mais robusta. Pelo comum era uma haste com 5 a 7cm de largura por 50cm de comprimento, finalizada em uma das pontas, com uma cabeça em tê. Este formato proporcionava o ajuntamento ordenado das outras peças, no corpo do acrílico (ou da madeira, no meu caso). Deixa eu ver se me lembro a organização direitinho. Ali, cabia todo o nosso material. Primeiro, o transferidor. Com a régua em pé e de cabeça pra baixo, o transferidor era introduzido e despencava até encontrar o tê, depois, o par de esquadros deslizava ao longo da lâmina, até chegar no transferidor lá na ponta. A seguir, com a fita isolante, que na aula servia para fixar o papel na prancheta, colávamos o escalímetro no corpo da régua. Acima do escalímetro colávamos a borracha branca e a flanela. Concluindo, posicionávamos o rolo de fita e o tubo montado com o papel A2, colado com durex para não abrir, e lançávamos os dois envolvendo boa porção da haste. Os lápis de vários traços e durezas iam no bolso da bata. O compasso, na mochila, porque era sempre um risco com aquela ponta fina. No coração da gente, uma batucada de nervoso porque passaríamos pela pracinha minada de moleques pouco atentados!

 

sábado, 15 de agosto de 2026

crônica da semana - juta e malva

 Juta e malva

Confesso que me encolhi de vergonha ao menor risco de ver-me representado ali naquela afirmação. A professora sem alisar o couro do paciente, disparou ferina a citação de um filósofo aquele não menos severo, que ante o impacto da carapuça, me desprendi do nome: “Não fale dos mitos aos incautos. Eles acreditarão em tudo ao pé da letra”.

O inocente aqui confessa e se enquadra: por vezes a gente vê os tempos e as artes com os olhos do simples.

Por isso a luta insistente para nos libertarmos, para nos esforçarmos espreitar além das faces explícitas e do lustro dos símbolos. A professora enriqueceu a palestra com passagens da Odisseia. Reconheço. Identifiquei ali só as pelejas com monstros, sereias, divindades. Olhos furados, ossos quebrados, beijos enfeitiçados e mar revolto. Mas tudo aquilo, ressalvou a professora, condensava uma única mensagem. Era a viagem de volta, de Ulisses, para dentro de si.

A poética lança mão de artifícios que buscam alcançar além dos sentidos. É necessário que a gente esteja de coração aberto para sermos atingidos. Daí o escape do óbvio, daí o potencial humano de aprender. E discernir.

A arte abre portas e corações e, olha só, nos aproxima da juta e da malva...

Naquela parte da discreta apreensão, lá pelos idos passados no ginásio, juta e malva eram para mim apenas a resposta para uma questão de prova. Apareciam no ponto das aulas de Estudos Regionais quando se falava de produtos importantes para a nossa economia. Juta e malva eram das principais mercadorias incluídas no pacote das produções da região Norte. Mesmo sem saber o que era aquela dupla e nem pra que servia nosso expoente de negócios, cravava sem dúvida na resposta.

Anos depois, lendo Milton Hatoum é que fui sacar a natureza dos produtos. Mais a juta. Malva sei o que é, por tabela, mas o que tem destaque no romance Cinzas do Norte, do escritor amazonense é a plantação de juta. A partir do romance, conheci uma penca de detalhes relacionados à juta. A narrativa de que a planta foi trazida no cambalacho, da Índia; o sucesso das técnicas de cultivo nos baixios amazônicos, os riscos nas operações de coleta, que por vezes impõem mergulho e jeito de corpo aos coletores, além de coragem pra enfrentar sucuris e aparentados aquáticos pouco amistosos.

Naqueles longes ginasianos de chumbo, o Brasil vivia uma fase de poucos aléns nas palavras. Os livros didáticos distribuídos pelos governos traçavam roteiros acanhados, circunscritos aos artificiais entusiasmos do momento. Ilustravam com exagerado esmero avanços e desenvolvimento. Na quarta capa traziam o hino do Pará e nos davam o simples para respondermos a questão da prova.

Outra fonte que traz detalhes enriquecedores do manejo da juta é o romance “Sementes do sol”, do escritor obidense Ademar Ayres do Amaral. Ele nos conta: “mal alimentado, o lavador de juta passa o dia inteiro dentro d’água, os dedos das mãos e dos pés terminam a jornada enrugados pelo tempo de imersão e o resto do corpo fica horas exposto ao sol... Um sol... que toma conta de tudo e de todos, como se fosse a lanterna de Deus.”

O filósofo, Platão ele, lembrei agora, é previdente quando nos alerta que a régia aspereza, a concretude insuspeita de horrores, monstros e sinistros cenários podem esconder a busca por uma paz interior. As artes, e a literatura em especial, têm mesmo esta missão de transportar juta e malva para além de uma linha de resposta curta de prova ginasiana. Aqui, acolá, a trama literária diz uma coisa quando quer dizer outra. Apresenta sucuris dentro d’água quando as ameaças aquáticas nada amistosas estão é nos justos alagados das gentes, dentro do coletor de fibras. A arte sugere viagens pelos mares sem fim quando a viagem é só uma volta em torno da gente mesmo. Tem hora que é estratégia; outra, estilo.Vai da gente sacar e escapar do simples.

Sobre o uso, a juta serve para produzir sacarias e fibras ecológicas

 

 

sábado, 8 de agosto de 2026

crônica da semana - estreito de messina

 O Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu

Fosse comigo, eu me revoltaria logo. Não, ninguém num vai! Sugeriria sem tremer os beiços. Vamos lá só tu! Eu, heim! Eu é que não iria me meter nessas bocadas. Esse herói grego pôs a turma dele em cada encalacre.

O herói é um personagem da narrativa épica grega que eu chamei a vida toda de Ulisses e agora, por causa do neorenascimento provocado pelo lançamento do filme, passei a conhecer como Odisseu. A história conta as aventuras do rei de Ítaca logo que termina a guerra de Tróia. No quê de voltar pra casa, o herói se mete numa arenga com o gigante de um olho só e pega uma senhora de uma prenda do pai dele, Poseidon, um deus enfezado que só ele. Só de mau o fanchão dos oceanos faz de um tudo para Odisseu vagar de água grande em água sem fim dos mares por dez anos, se virando nos trinta de tantos perigos que ele encontra pela frente. Corta um dobrado nessa aventura. Perde o barco, toda a tripulação tem um fim trágico e o herói se vê atado a um nó difícil de desatar. E é aí que o Xingu entra na parada.

Fosse no trancoso poético, dava era o desdobro. Mas na vera, nas desobrigas do trampo brabo, tive que encarar os desafios do Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu.

Um dos perrengues que Odisseu passa, aquele no dito aperreio em que ele perde meia penca de marujos que navegavam perdidos com ele, acontece no estreito de Messina. A história fala que é um canal solitário, perdido no oceano que guarda numa das bandas, um monstro horrível que tem seis bocas esfomeadas e na outra banda um funil de água que engole quem passa por lá. Dizem até que o ditado popular que põe uma pessoa “entre a cruz e a espada”, vem desse afogueado do herói se meter entre estas duas bandas malinas. Mas o Xingu nem entra na história por causa desses monstros bandados e medonhos. Dá o tom e o verso é no exato formato do canal. Um caminho de água estreito ladeado por imensas paredes rochosas.

Pois bem. Eis que certa vez, desenrolando a vida na minha odisseia amazônica, varei, na minha canoa, em um estirado de água apertado, profundo, silencioso, e aparado de um lado e de outro por uma potência de pedra monstruosa de alta e amedrontadora. Na hora lembrei da sequência que tinha visto em Ulisses (naquele tempo era Ulisses ainda), um filme que era vezeiro de passar na sessão da tarde. E que apresentava um cenário, uma movimentação, uma tensão escritinha àquele que eu sentia ao cruzar aquele canal que corria escondido pela margem direita do Xingu.

No filme que enreda esta minha passagem, me ocorreu que as paredes de pedra se mexiam, indo uma contra a outra, em tempo de amassar o barco do Ulisses bem amassadinho. Esse era meu medo. Eu e minha turma nos aviamos nos remos. Ninguém deu uma palavra. Não houve partilha de medo ou mal’impressão, desde que entramos naquele desvio. Mas foi automática a nossa decisão de acelerar o ritmo. A gente a bom remar. Olhávamos uns pros outros, lançávamos olhares salteados para cima e para frente do caminho para nos certificarmos que as paredes rochosas não estavam ensaiando nos espremer e... a gente a bom remar.

Era um lugar encantador. Fascinante. Como outros lugares fantásticos que conheci ao longo da mítica Volta Grande do Xingu. A semelhança com uma alegoria épica só temperou aquele dia. Pôs um adianto de emoção em uma jornada de trabalho que tendia ser rotineira. Aquele ponto do rio era objeto de estudo porque se localizava em uma estrutura, digamos, bandada (olha aí, os monstros de Messina). Acima, as corredeiras assanhadíssimas da Volta Grande. Abaixo, um encaixado de 70 metros de largura por onde passava toda a água que corria num largo de mais de 2 quilômetros lá atrás. E no meio, o poético Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu com suas gigantescas paredes de pedra, o silêncio, o medo contido. E a gente numa aventura (a bom remar) inesquecível.

sábado, 1 de agosto de 2026

crônica da semana - paradoxo das samaúmas

 O Paradoxo das samaúmas

Eis que caminhando ali pela Duque de Caxias, avistei a samaúma completamente pelada. Só a casqueta. Nenhuma ramazinha pra remédio. Nenhuma flolhazinha de lembrança. Deixa que nem me adiantei o tanto que desse na pisada pra pingar o suor da testa e logo que bem na esquina da Marquês de Herval com a Barão do Triunfo, constatei de palmo em cima a samaúma que reina por ali estar minada de folhas. Uma árvore rica, toda composta na prodigalidade exuberante de uma copa saturada de verde. Como é que pode, né, distância que não denuncia sequer o caminhar de três estirões bem contados, mesmo sol que nos cabe a todos, época do ano do pleno julho, Terra inclinada do eixo, no mínimo do nem bem lá e nem bem cá e as duas árvores exibindo-se em roupagem completamente diferente. Uma no mais puro liso do tronqueio enquanto a outra têi têi, esbanjando clorofilamento na folhagem do cá do embaixo ao lá do muito em cima. Por que será? Eis a questão.

Nem lembro em que passagem da vida eu obtive esta informação. Acho que foi numa das minhas tentativas de passar no vestibular. Sem fazer cursinho, migrava de um livro emprestado pra outro e com alguma urgência. Tinha pressa em conhecer os assuntos e sempre pouco tempo pra aprofundar. Em alguma publicação de Biologia, dei com uma explicação, que até hoje acho de uma elegância impecável, para o fato de, em determinada época do ano, as árvores perderem as folhas. Esta época, conjugada com a posição geográfica da região e a inclinação da Terra, é conhecida como outono. É um período que compõe as estações do ano. Vem depois do verão e antecede o inverno. Aí é que vem o tico de elegância. Nos parâmetros geográficos e atmosféricos que marcam as estações, consta que no inverno registra-se pouca chuva e no verão, o pampeiro não alivia a carga. Ocorre que durante o tempo de chuvas abundantes, as árvores são bem hidratadas e também, naquilo que dá de sol, liberam água para a atmosfera (em quantidades tantas que geram os rios voadores). Para cravar no estilo de deduzir as coisas, li no livro, e reconhecemos este fato no simples caminhar no bosquinho, que a água acumulada nas árvores é transferida para o ambiente através das folhas, num processo conhecido como transpiração. Uma troca de tal forma responsável que na época de pouca chuva, as plantas para não ficarem desidratadas recorrem a uma arte radical da evolução: perdem as folhas. Assim, a via de dispersão de água é cortada e as árvores garantem reserva de suprimento para hidratação até a volta das grandes águas. Estas regras, observo, são controladas pelas particularidades espaciais do planeta. E valem mesmo na vera, para regiões mais perto dos polos. Quanto mais sentida a inclinação da Terra, quanto mais próximo dos polos, mais impacto o ambiente produz nos eventos naturais. Quanto mais distante dos polos, vindo aqui para os arredores do Equador, a gente mal percebe as mudanças ou se percebe, elas são mínimas. Uma época chove muito, em outra, chove pouco e estamos conversados. Aqui a samaúma dá o papo. E de uma forma desafiadora.

Como meus conhecimentos do metabolismo das árvores e do suspiro dos vegetais se resumem àquelas páginas encarreiradas que li no livro de Biologia, numa consulta às vésperas da prova do vestibular, provoco aqui os entendidos para me aliviarem desta dor atroz que a dúvida me impõe.

Agora na Amazônia, entramos na fase do ano que chove pouco. É de se esperar uma vuca de árvores desfolhadas dominando o cenário. E a bem do dizer, a samaúma é a mais amostradinha. Aquela que do longe mesmo das vistas a gente dá definição.

Ocorre que quando miro e vejo, dou é de encontro com o paradoxo, do o que é não sendo. Com a família das samaúmas em descompasso, de uma amostradinha esbanjar as folhas prendidas na unidade da árvore e a outra bem ali no perto constar no observado como a mais pura carência de folhagem e ramas. Por que será?

sábado, 25 de julho de 2026

crônica da semana - ouvido de mercador

 Ouvido de mercador

Eu sou um. Quando saio para a caminhada ou para uma prenda rápida na rua, enfio o fone no ouvido.

O ditado surgiu lá pelas quantas do tempo e se refere ao fato de comerciantes e caixeiros evitarem dar atenção às reclamações que a freguesia expressava em comentários e interpelações aqui e ali. A intenção era ficar na deles. Passar o produto, receber o numerário, dar a volta de troco, caso o caso exigisse, e tornar ao mundo das vendas. Fazer ouvido de mercador é priorizar o negócio e a paz interior. Atualmente, mais a paz interior.

Para um contador de casos não é um bom termo sair por aí dando uma de mouco para o vulgo ou para o erudito. Afinal, o alarido fiel, a tempestuosa fofoca... os imponderáveis reclamos, as retóricas proclamas e até mesmo o discreto cochichado do dia formam a matéria-prima do cronista. Tenho, então, que me fiar nos conceitos e na sempre amiga imaginação para desenvolver temas e situações por causa deste anteparo circunstante que é o fone de ouvido.

Mas nem sempre foi assim. Meus ouvidos já se dispuseram à larga. Em outros tempos. Sem o risco do melindre ideológico, sem a ditadura da rasa opinião ou a insanidade moralista. Minha atenção já foi ampla, atenta às simpatias da comunicação.

Ocorreu certa vez, quando da minha volta, desde que saí de lá com 5 anos, ao Acre. Eu já estava taludinho, trampando ali perto, em Rondônia, quando numa folga, dei uma escapulida pra conhecer minhas origens. Foi um bate-volta extraordinário. Todas as minhas fantasias embarcaram comigo no ônibus que saiu da rodoviária de Rio Branco e se largou na direção do Xapuri, ali pros lados do poente. A sensação era de que o dia nunca acabava. O oeste era um fim de tarde sem fim. O ônibus naquela velocidade fantasiosa não deixava o sol se distanciar, não deixava o crepúsculo se realizar. Estávamos envolvidos num portal de momento único. Dominador. Que não permitia o sol se pôr. Não admitia que o tempo passasse. Em termos de coisa e de loisa, aquele motorista conduzia uma máquina que alcançava a façanha de fazer a Terra parar. Daí, numa parada de beira de estrada, o homem embarcou.

Eu, sentado numa das poltronas na frente, me certificando a cada instante que o sol nem seu Souza, não se mexia, não embicava no horizonte de jeito e maneira. Íamos ao encontro do sol e aquela bolona alaranjada lá no céu, nos esperava. O homem acomodou-se na poltrona parelha à minha, do outro lado do corredor. Numa posição oblíqua à nossa, um menino, acompanhado da mãe. Do que entrou no ônibus, até bem mais perto do horizonte, no ponto em que desceu, o homem da estrada não parou de falar. Falou mais que o homem da cobra. Em dado momento atinou que o menino olhava pra ele com um ar de curioso. Enviesou o olhar, inclinou-se e se dirigiu ao menino, meio pândego, meio inquiridor: “tás me olhando, heim! Tá me conhecendo de onde, do jornal ou de uma lata de banha?”.

Para um contador de casos com os ouvidos ligados no mundo, aquela pergunta foi um verso abonador de que vale a pena escutar a voz que vem dos vetores esquecidos que levam ao oeste. Não mais descolei daquelas palavras sem grau algum de etilo ou significado. Doce bandalha entre poltronas de um ônibus que não voava, não cortava meridianos, não deixava o céu escurecer e nenhuma estrela nos guiar, quer dizer, deixava sim. O sol, a nossa estrela, estava ali vermelhão só na espia.

O mundo era bem melhor quando as latas de banha traziam o rosto das pessoas humildes e sinceras estampadas na chapa gordurenta. Quando uma foto no jornal inspirava curiosidade ou admiração e quando o corredor de um ônibus era inundado de conversas jogadas sem a severidade da lógica, para dentro da gente.

Esses dias fui ao supermercado sem fone de ouvido. Uma música gritada saturava o ambiente. À saída dois homens discutiam o destino de um terceiro. Papo de macho alfa. Eu ouvi tudo. E foi tudo sem sol pra dentro de mim.