sábado, 6 de junho de 2026

crônica da semana - a vida imita a arte - Altamira

 A vida imita a arte

Para mim, o filme Bye Bye Brasil tem um sentido especial. Boa parte foi filmada aqui no Pará, com cenas rodadas às margens do rio Guamá, no Veropa, nos ermos da Transamazônica e nos pontais do rio Xingu. É arte próxima da gente. Faz menções, traz lembranças, emoções.

Foi produzido no final dos anos 70. E, verdade, estivemos bem próximos. Na minha turma da Escola Técnica, tinha um aluno que fazia figuração, dizia aparecer em cenas rodadas na Condor. De prima, ninguém acreditou nele. Achávamos que era lorota. Um calouro de Mineração no cinema? O filme estava em cartaz. Dava corda pra gente assistir. Ele fornecia detalhes e argumentava que tinha sido selecionado por atuar no teatro. Se dava com atores, diretores, grupos tradicionais com atividades em Belém. A turma foi conferir. Tiramos um dia, demos um desdobro nas últimas aulas e corremos para a sessão das 5 no Iracema. E não era o pequeno mesmo, dividindo o take com a musa Betty Faria! Assanhado que só ele, em agarra-agarra no salão com as meninas, nos relances das aparições, entregue às seduções da Condor. Tenho pra mim que ganhou o mundo e seguiu carreira porque fez só o primeiro semestre com a gente. Dali pra frente, não apareceu mais na Escola.

Bye Bye Brasil sempre esteve disponível pra gente ver na TV, nas plataformas grátis da internet, em casas de exibições alternativas. É um clássico. Nunca mais tinha me abalado. Daí que semana passada topei com o reclame dele. Cliquei e olha, fiquei bestinha. Uma qualidade! Definição de som, de cores. Uma produção beirando 50 anos e a padronagem  dá de se pensar que foi feita ontem. A tecnologia é fera mesmo.

Deixei dito que o filme traz uma carga de emoção. Por nos mostrar dentro da nossa casa. Senti mesmo uns estremecimentos e afetos quando percebi que estive em todos os lugares que a trupe da Caravana Rolidei aprontou das suas e, em alguns casos, aprontando também das minhas e vivenciando as mesmas aventuras e desafios. Veropa e aquela beirada da Condor, nem falo nada, até hoje dou minhas bandas por ali. Agora a Transamazônica e Altamira têm lá seus merecimentos mais aqueles de distintos. Duas cenas em especial se alinharam aos meus dias passados naquelas paragens.

Destaco como a mais legal, a mais acarinhada nas minhas lembranças, aquela em que o personagem do José Wilker desce do caminhão com um macaquinho no ombro, na parte alta da estrada imediatamente anterior à entrada da cidade e lá de cima apresenta Altamira, o rio Xingu. Que fofura no meu coração! Foi por ali, acho que uma ladeira antes, que morei durante um tempo. E aquele ponto era também a hora que a gente tinha um alívio. Já via a cidade. Estava perto. Uma visão muitas de conforto porque, chegar até ali pela Transamazônica, na maioria das vezes, não era nada fácil. Quando não era vencendo um infinito horizonte empoeirado, era ao custo de luta selvagem contra os atoleiros. Ali, naquele ponto estávamos, bem dizer, sob os auspícios da cidade.

A outra passagem tem a ver exatamente com os atoleiros. É quando a caravana se encontra com um grupo de indígenas e ouve da matriarca que ela quer andar de avião. Ainda se virando com os atoleiros Wilker alerta que avião só passa lá em cima no céu, e o céu era longe pacas.

Foi o mesmo desalento que ouvi na vez em que voltava do campo, estava saindo de férias, passagem comprada, voo saindo às sete da noite. Pelas quatro da tarde travamos no fim de uma fila imensa. Era um movimento de caminhoneiros obstruindo a cabeça de uma ponte. Protestavam contra os atoleiros invencíveis da Transamazônica. Perderia o voo se não liberassem. Saí lá do fim da fila, fui me puxando com lama no joelho, localizei o líder. Expliquei que iria perder meu avião que estava marcado para daqui a poucas horas. “Avião?!”, ele me voltou nervoso. “Avião só passa lá em cima no céu, e o céu era longe pacas”, e me apontou o fim da fila.

 

 

sábado, 30 de maio de 2026

crônica da semana - nenhum de nós

 Nenhum de nós

Não temos mais o horário brasileiro de verão. Desde 2019 esta medida de adiantar os relógios em uma hora deixou de ser adotada no Brasil. Tenho pra mim que para os lados do sul e sudeste é um procedimento válido. Por lá, em determinada época, o sol custa mesmo a se pôr. Virou um pouquinho pra cá, perde o sentido. Não nos dá vantagem. A não ser no causo e na prosa. Neste campo, temos um legado valendo. Colecionamos preciosismos desde lá do início quando nos referíamos aos horários em termos beirando os requintes do etarismo: “no novo ou no velho?”. Depois, nos emboletados de tino gerados pela exclusão, quando o horário mudava somente em determinada região. Quem viajava de avião se embananava todo. “O vôo era no horário de cá ou no de lá?”. E mais adiante, nos episódios que nos desnorteavam por causa da mudança de lógica no relógio dos celulares. De um dia pro outro, mudavam a hora e nem seu Souza pra gente. Ou não mudavam. Deste impacto, tenho um causo...

Durante um tempo, nas viagens diárias para o pólo industrial de Barcarena, minha parada de ônibus era na Marquês de Herval. E era certa a turminha madrugadora no ponto. Nosso carro era o primeiro. Passava às cinco e vinte e cinco da manhã, um isso a mais, talvez. Nunca um isso a menos. Em tudo previdente, chegávamos antes, eu e um senhor que morava na Itororó. Dava tempo pra desenrolar um papo. Era porteiro. Do baixo Tocantins. Vinha de uma família de apanhadores de açaí.

O causo: o relógio despertou. Me aprontei como de costume e rumei pra parada. Em lá chegando, ninguém. Nem o amigo porteiro. Aquilo não era normal. Pensei o ônibus já ter passado. Adiantou. Dando a minha hora, me adiantei às carreiras em dois quarteirões, para outro ponto da Marquês, onde contava com mais opções de ônibus. Nada. É greve! Liguei pra casa. Esquina, escuridão e vi’valma na rua. Me aninhei no escondido de uma árvore. Agoniado, tive coragem e saquei o celular. Solicitei, desesperadamente, resgate. Meu filho atendeu, um tanto mal humorado, diga-se, e me perguntou o que eu fazia na rua plena quatro e meia da manhã. O que se deu foi que o relógio do meu celular patetou e não notificou o término do horário de verão na virada da meia-noite. Naquela volta ao normal, comi mosca e saí de casa uma hora antes. Vivi foi momentos tensos, eraste! Mas o que lamentei mesmo foi não encontrar mais o amigo porteiro.

Soube depois que meu companheiro da madrugada havia sido transferido. O administrador do prédio em que trabalhava, simplesmente, em conversa informal, durante o intervalo do almoço, indagou um monte de coisas da vida dele. Posição política, costumes, família. Ficou chocado ao perceber alguma consciência de classe nele e mais ainda quando o porteiro lhe falou que tinha dois filhos doutores, um oficial do exército e uma menina pesquisadora de Biologia. Quando chegou nas posses, maldou lá com seus credos. Uma casa perto da Aldeia Cabana!!!! Como pode um porteiro, que vem lá do baixão do Tocantins, escalador de açaizeiro, que mal sabia o beabá, ter casa num bairro estruturado, no padrão de classe mais aquela de vida? O prédio em que exercia o ofício mesmo era na avenida principal do bairro. Morador do prédio, o chefe não admitia um retirante da beira ter um lar no mesmo bairro que ele. Pensava que gente daquela origem, daquele tipo, tinha que morar era nos cafundós dos arrabaldes. E aquele negócio de filhos formados, deduzia, só podia ser balela. O porteiro poderia até ter as posses, mas era de desconfiar que não fosse fruto do trabalho. Suportado por seus conceitos prévios e rasos e ainda pelo juízo que fez dos fatos, para preservar a segurança dos moradores, os bons costumes e as boas origens do bairro, achou justo e pertinente transferir, para bem longe da Pedreira, meu amigo porteiro que pegava o ônibus comigo às 5 e 25 da manhã. No horário novo ou no velho, que fosse.

sábado, 23 de maio de 2026

crônica da semana - tic tac aniversário

 Tic-tac

É comum a gente se referir às datas de aniversário como sendo a realização de mais uma volta em torno do sol. É uma abstração do tempo, tic-tac, tic-tac; ali, ali com uma intuição. Justo porque o sol não é um ponto no céu que a gente possa marcar e dali medir nosso deslocamento pelos vagares até chegar nele de novo. A gente não sabe quando dá a tal volta. Mas dizemos ‘mais um ciclo’. Mais um arrodeio no sol. Está, porém, abonada desde Kepler, a voltinha em torno de nossa estrela. Tá valendo. Nada demais em considerar esta translação.

Fiz minha revolução, dia desses. Novo trajeto se iniciando. E quando admito encarar este novo caminho, este novo giro pelo espaço, o faço a partir de uma decisão brotada ao custo de caprichada reflexão.

Sabemos, as datas marcadas, os dias xis alusivos ou comemorativos servem a muitos senhores, causam controvérsias, muitas vezes são taxados de mercantilistas, de incentivadores de consumo e ativadores de impulsos coletivos. Penso que nem tanto lá e nem tanto cá. Dou um desconto. Valem, também, pra gente dar mais atenção a fatos, cenários, intrincadas interações. O dia do meu aniversário não escapou. Meditei sobre a vida. E, cuide disso, o primeiro ponto de minhas indagações foi sobre a desconfiança dessa contagem de tempo a partir da dita volta em torno do sol.

O certo mesmo é contar o ano a partir das constelações do Zodíaco. Lembram né, são 12. E não são propriedades da astrologia não, somam pacas ao conhecimento humano em algumas das ciências mais complexas. Kepler sacou a parada, mas antes, os povos Antigos já utilizavam a paisagem do céu noturno para regrarem períodos importantes das atividades indispensáveis à vida. A agricultura foi o ofício que se desenvolveu bastante desde que o homem começou a prestar reparo no céu.

Então, para cravar no marcado, deveria eu saber qual constelação do zodíaco estava no horizonte no dia do meu nascimento. E daí, acompanhar no passar do tempo, quando o céu se apresentasse com aquele mesmo desenho, aí sim, se completaria um ano, o exato ciclo. Por exemplo, a estrela Aldebaran de Touro, é vista no ocaso, ao longo do mês de maio.

Não carece, no entanto, que a gente fique na bicora do céu por noites e noites até a paisagem se repetir pra gente adicionar mais um ano na vida. O Imperador Júlio César, 45aC , apud Papa Gregório XIII, 1582; matemáticos, filósofos da natureza, plantadores e coletores quebraram nosso galho e ajudaram  a consolidar a folhinha do ano. A do Sagrado resolve tudo num virar de página.

Superada esta implicação por causa da sensação de volta em torno do sol, virei-me para as voltas em torno de mim. Minhas reflexões sempre buscam inventariar todos os componentes que ensejam mais um ano de vida. Vou ao passado, reconstruo, peso meus erros, meus acertos. Lamento decisões não tomadas, regozijo-me, por outra, pelas vezes que pelejei e defendi o rumo do justo, do sensível, da arte e da luta incessante por dias melhores. No repente, me vem aquela certeza de que ali na frente tudo pode acabar. Que hoje vislumbro mais o ocaso que a aurora. Aí, bate uma saudade avassaladora do meu futuro. Um débito sentimental agudizado com o presente. Sinto falta de mim e de artes que me valem. Quedo-me à uma tristeza, a um amofinamento bem no dia de festa. Éraste! É, porém, um toque, uma dica indispensável para me voltar ao presente. E torno, e me vejo feliz junto aos meus agrados. Alcanço ali meu violão, leio um livro, abraço minha família, aceito o termo e o jeito das fiéis amizades, procuro um lugar na minha casa em que possa ver por uma brechinha que seja, a imagem mesmo que limitada da Pedreira. Meu bairro, meu cantinho, minha Belém. E me recomponho animado. Viro a página da folhinha do Sagrado, volto o olhar pro céu e flagro Aldebaran  deslizando no ocaso. A ciência, as leis da natureza sinalizam que é possível nos encontrarmos e contarmos o tempo no mesmo mês de maio, ainda por umas quantas vezes. Tic-tac.

sábado, 16 de maio de 2026

crônica da semana - ao mestre com carinho II

 Ao mestre com carinho (II)

Era professor de matemática. Tinha um jeito especial. Atencioso, delicado no trato, paciente, voz mansa. De tal forma fértil de afetos e atenção; inspirava de um jeito tão eficiente a paz, que por vezes achava que ele deveria ser o professor não de matemática (disciplina alheia à mansidão), mas de Religião, matéria mais aquela de sensível e de transcendente. Era um apaixonado pela missão. Não admitia perder aluno para as dificuldades. Ensinava tudo direitinho. Até hoje, é só me dar um feixe de números grandes que sejam eles, e logo os despedaço em fatores primos sem um deslize sequer. Graças àquele professor.

Fosse nos tempos de agora, à luz da LDB, seria um dos principais agentes da busca ativa. Porque, olha que me buscou...

E eu estava daquele jeito. Miudado pelo trabalho. Não me recordo muito o regime que o supermercado adotava. Provavelmente, pela escala, rolava uma hora extra. O que lembro é que trabalhava das 3 da tarde às 11 da noite até sexta. Sábado, o dia todo, e domingo, até meio dia. A dita folga semanal era essa, do meio dia pra tarde do domingo e te conforma. Nem com todos os livros de auto-ajuda debaixo do braço, nem com os augúrios do sistema me sugerindo sucesso na vida, nem com os vitaminés e emulsão de Scott que eu tomava na hora do lanche com os meninos, na calçada do estacionamento do supermercado (porque não tinha refeitório) eu achava ânimo, eu angariava força para, às seis da matina, ir para a escola. Cuidava era de era de zanzar nos ônibus pra cima e pra baixo, dando uma forra para o corpo, em um exercício de restauração física tido pelos maledicentes como sendo expressão da mais indisfarçável gazeta. No entanto se a gente aprofundar... Era o anúncio da minha capitulação.  O alerta da minha não desejada, mas inevitável rendição. Um grito de socorro. Estava desistindo de estudar.

Aqui, ali, os deuses cutucavam e eu aparecia na escola. Sadim, Sandim... Meu pai! A falha na conexão dos meus neurônios, as enzimas, os ácidos corrosivos da razão apagaram a exatidão do nome daquele professor. Não perdôo o tempo por isso. Embora faça confusão com o nome, não esqueço a generosidade daquele verdadeiro mestre. Quando eu aparecia, não economizava atenção. Ocupava a turma, sentava ao meu lado e repassava as matérias atrasadas exclusivamente comigo. E eu, ‘intelixente!’, mandava era bem. Ia decompondo em primos aquela oportunidade. Quando não, eu já aparecia com uma parte copiada. É que uns garotos da minha sala que moravam ali pros lados do shen ou da 25 acompanhavam os pais na ida ao supermercado, me viam por lá e combinavam de uma hora voltar com as matérias pra mim. Deles, o professor também catava notícias. Como eu estava, se os meninos tinham me visto, se eu tinha dado previsão de quando apareceria. Sempre perguntava.

Os outros professores não me davam muita trela. Mas Sandim, Sadim, articulava com eles, os convencia passar trabalhos pra mim, mostrava meus avanços e conferia com os resultados que eu tinha nas outras disciplinas. No final do ano, com toda a derrota, obtive média pra passar (ainda que arrastado) em todas as matérias.

Mandava recado pelos meninos, pra eu dar um jeito, arrumar uma energia extra e não desistir.

Ainda conseguiu, com uma negociação, que eu fizesse a segunda época como forma de compensar minhas faltas. Não deu. A recuperação era em dezembro. Exatamente no mês de maior movimento no supermercado. Chegava em casa estiolado. Não fui um único dia pra recuperação. Nem pra assinar a lista. E nunca mais vi Sandim, Sadim.

No ano seguinte, repeti a sexta, o juiz de menor deu em cima do trabalho infantil. O supermercado substituiu os garotos por adultos. Antes de sair, ainda com doze anos e uns caroços, passei meus fregueses pro seu Sandoval, que tinha sessenta anos e assumiria minha vaga. Voltei, então para o empreendedorismo da marretagem. Ainda havia uma chance de ficar rico.

 

sábado, 9 de maio de 2026

crônica da semana - A rainha do lar

 A rainha do lar

Minha mãe chegou do Acre com uma penca de crianças agarradas à barra da saia. Acudiu-se à minha avó (que, viúva, já se batia no controle de um lar com 5 pessoas. Mais a turma da mamãe, somaríamos 10, numa única e compacta casa alugada, comandada por mulheres)...

(O Censo de 2022 realizado pelo IBGE registrou um aumento representativo do número de mulheres na condução dos lares no Brasil. Mostra, a contagem, as mulheres assumindo quase 50% dos domicílios no país.

Nenhuma novidade. Na hora de assumir compromissos, prover futuros, cuidar e produzir afetos, sobra mesmo é para as mulheres. Entendo que por vários motivos. Viuvez, separação amigável, arrependimentos, desilusões... A razão mais dramática e aquela da qual tenho mais exemplos no meu dia a dia segue o roteiro das mulheres que são vitimadas pelos princípios renitentes do patriarcalismo. Quando a rainha do lar é alvo de abandono, desdém, maus tratos. Desfechos que resumem quadros reincidentes de agressões, submissões, violência de toda sorte e resultam no desmembramento das famílias. O homem escapa de tudo. Deixa mulher e filhos à sorte ou a salteados e minguados lenitivos financeiros e, sem dor, volta-se a outras aventuras. Resta à mulher, assumir sozinha o controle da casa. Aí, entra pra estatística).

... Mamãe, também viúva cedo, alimentava uma beirinha de esperança de uma providência que poderia vir das ruas de seringa do Xapuri. Que nunca veio. Impôs-se então estratégias de sobrevivência. Muita coragem, uma resistência incrível, o jeito ferrenho de conquistar os dias a cada amanhecer. Eram muitas as valências a que mamãe recorria. Minha avó e o resto da família ajudaram o tanto que deu, mas minha mãe percebeu que o fardo era nosso, tínhamos que nos aviar por nós. Ousou. Passamos a morar sozinhos, e também a nos sustentar a partir de nossos suores. Arrumar o di cumê todo dia, o de vestir, o de calçar, crédito para fiar mercadorias que dariam o impulso ao nosso empreendedorismo. Não podia arrumar tudo só ela. Naquela época, tempos duros de governo militar, não se cogitava qualquer tipo de programa de proteção social. Benefício nenhum nos alcançou. Nada, além das lidas diárias de mamãe, garantia nossa sobrevivência. Sem reforço nenhum, não teve outra alternativa a não ser contar com a gente, os pequenos. Tão logo ganhávamos um tutano, caíamos também no mundo do trabalho. E mesmo com as nossas virações, o ganho era muito pouco. Vivíamos de um dinheiro vindo da informalidade, de trabalhos em casas de família e ocupações periódicas em pequenos comércios. Aos doze anos, fui a primeira pessoa lá de casa a ter um emprego com carteira assinada. Com todo sacrifício, todo mundo estudou (e até hoje não sei como). E mesmo cursar o ensino fundamental, tirar o segundo grau, naquele tempo eram metas muito difíceis. Pra se conseguir uma vaga nas escolas do governo, a gente tinha que dormir na fila.

Eu era um único homem, um homenzinho, numa casa com quatro mulheres. Como acreditava mamãe, era um menino ‘intelixente’ que só. Mas viu que não bastava a sabedoria das coisas. O mundo raso que vivíamos nos dava a sina. Não se conformava com o fato de trabalharmos. Caía na real quando algum de nós ficava sem renda. Desinterava nisso ou naquilo de necessário. Logo tínhamos que arrumar outro trampo.Todo mundo tirou o segundo grau e daí não passamos. Adiante, alcançamos o emprego formal que nos coube. Que nos exigia metas e alta produtividade, embora, o ganho pouco. Nossa rainha até o dia em que a vida lhe valeu, comandou nosso lar com altivez de uma vencedora e ainda empreendendo em renda mínima e salteada. Até os últimos dias fazia as vendinhas dela, mesmo que, limitada, dessa vez, à porta da rua. Compôs com dignidade, sabedoria e uma quantidade de amor imensa, desde lá atrás, desde o dia que, vindos do Acre, desembarcamos no galpão Mosqueiro-Soure, as estatísticas do IBGE.

 

 

sábado, 2 de maio de 2026

crônica da semana - merecendência

 Merecendências

Fosse hoje, uma galera aí alterada, e de tino envenenado dispararia de prima tratar-se de um menino molengo, sem foco, desleixado dos objetivos, desprovido de inspiração ou anseios. Um garoto de costumes bárbaros e que não faz por onde subir na vida porque não tem interesse. Está tudo aí. Só não tem um futuro de sucesso porque não quer.

Pra dizer que este menino sou eu, então.

E nem de todo descolado dos anseios. Bem que tentei sonhar... Não fui um repetente no costume. Atrasei um ano nos estudos porque não passei e tive que fazer a sexta série de novo. Bem feita a localização no tempo, primeira vez em 1975, e o repeteco da série foi em 1976.

Pavimentando a minha trajetória, na primeira tentativa, tive a estréia valendo, no mudo do trabalho. Exatamente em 1975, assinava a carteira pela primeira vez, o menino. Tinha 12 anos. Devo destacar que aquela vivência escolar, naquele momento, era ainda um fato novo. A fase precisava de atenção e dedicação. Era só meu segundo ano no ginásio. Muitas novidades. Ainda experimentava e definia meus garranchinhos agora de caneta, me engatava para substituir a incógnita representada pelo quadradinho, um dia desses, lá no primário, pelo xis; e me aviava nos arremedos, oui, oui, de outras línguas: quinta e sexta série, francês. Lá na frente, a partir da sétima série, o inglês. E estava até indo bem. Confirmando o entusiasmo de minha mamãe quando me rotulava como uma criança muito ‘intelixente!’.

Até então, me virava nas vendas de picolé, flores de plástico, batonzinhos da Avon, e até de carnê do Sílvio. Sem grandes impactos na escola porque, na marretagem, eu empreendia eivado de empáfia: definia se ia encarar o solão e quanto iria faturar no dia. Fazia meu horário, dizque, e minhas expectativas para o pouco ganho.

A parada desandou quando fichei no supermercado. Tinha horário fixo, salário tabelado e era disponível pra tudo quanto de trampo. Aí, bambeei, dobrei as pernas. Minha jornada iniciava às 3 da tarde e ia até as 11 da noite. De domingo a domingo. Escala 7 x 0. Não esqueçamos. Eu era um menino de 12 anos. Embalava as compras no paneiro, levava quantos volumes somassem até o estacionamento para o carro dos fregueses ou até as casas, no longe que distassem; varria o salão, passava pano molhado, ajudava no galpão do estoque, fazia mandado... Tinha uma chefe que folgava em me mandar cuidar de coisas aleatórias e só pra fazer o mal, na hora do movimento, na vez de faturar com gorjetas ela me tirava da frente dos caixas, a péssima. Era sádica, ela. Até repor mercadoria nas gôndolas, lá na prateleira mais alta, ela mandava eu repor. Não estava no meu escopo, mas não podia negar. Fazia parte da minha carreira, ousar. Superar expectativas. Subiria de cargo, ficaria rico assim, me entregando desse jeito ao destino dos explorados.

Não aguentei. Decepcionei os teóricos da prosperidade, defensores do esforço sobre-humano. Batia o cartão às 11 da noite, corria pra pegar o Cristo lá na parada no entorno da rodoviária e que me deixava em frente à vila que eu morava na Mauriti, onde minha mãe, ligada no radinho de pilha, toda noite, me esperava. Banho e o sono reparador. Dormia já passando da uma da manhã. Às seis tinha que estar aceso para o desafio da sexta série.

Mas quando! Saía de casa feito um Zumbi, tino variando, olhos remelentos, apáticos estímulos para o dia.

O ônibus para a escola, atrás do Bosque, era deste lado da rua. Eu atravessava e pegava do outro. Dava a volta no centro e ia até o final da linha, lá atrás, dormindo. Completado o trajeto, ainda na antecâmara do sono, pegava outro, me ajeitava lá atrás e dormia de novo. Outra volta. Inventava sempre uma desculpa pra minha mãe, do meu regresso tão cedo. Um cedo providente, pois que mais com pouco já tinha que me arrumar para o trabalho.

Como era ‘intelixente!’, não tomei bomba pela métrica da merecendência. Fui reprovado por faltas.

sábado, 25 de abril de 2026

crônica da semana - sobrenatual - mar sem fim

 Mar sem fim

Tenho até vontade. Mas, para meu desencanto, não me aconteceu nenhum encontro com o sobrenatural. Então, me dou inventar. Semana passada mesmo, aqui, forjei uma aventura com a Matinta.

Não, minto! Me enxiro sim no rol dos excepcionais.  Verso por cá que sou agraciado com o dom da premonição. A mais incrível foi aquela em que sonhei com os números que comporiam a extração da noite no jogo do bicho. Partilhei com mamãe, ela jogou no Corujão e quebrou a banca. Uma pena que não são freqüentes essas dicas de jogo, e diria até mesmo, mais ousadas. Se pululassem aqui e ali adensadas, obviamente estaria redigindo esta crônica de um ponto qualquer do globo, embarcado num interminável cruzeiro, só torrando meu apurado na mega-sena da virada.

Por outra, só tive contato com esquisitices e aparições na Universidade. Um único caso, assim de palmo em cima. Um testemunho categórico de um operador da TV universitária. Ele atuava num programa, Academia Amazônia, que eu gostava e satisfazia umas curiosidades da produção com ele. E foi ali no intervalo das aulas que nos encontramos naquela pracinha que fazia fronteira com os blocos da Geologia. Conversa vai, conversa vem, me confessou jurando de pé junto, o pequeno, ter sido abduzinho. E chipado. Mostrou até uma ressalto na pele do braço, exatamente no lugar em que teve o chip instalado. Dava pra sentir, quer ver pega aqui, estimulava. E mandava eu pressionar o braço dele para sentir o chip. Eu declinava dessa prova, na caté. Não precisava. Cria mesmo sem tatear, diante dele, sustentava. Por dentro: Eu, heim. Vou me meter! Vai que dá choque. Maldava.

Tirando um medo de choque aqui, uma cisma sideral ali, faço é gosto de topar com umas estranhezas, mesmo que sejam traçadas na base da boa mentira. Da doce lorota.

Casos contados e jurados com jeito e curso de invencionice pura, entretanto, também me são raros. Mesmo nos meus tempos de vastas relações com gente de tudo quanto é canto, pelos ermos amazônicos, ainda que ali na convivência diária com a peãozada (e olha que peão é peça que inventa moda) não trago na bagagem casos relevantes.

Relevando cá e lá, destaco a minha passagem por Altamira. Ali sim, pingaram uns causos. Muitos ligados ao Curupira. Alguns outros não exatamente ligados aos mistérios, mas ao processo de ocupação daquela região, aos enfrentamentos entre gateiros, seringueiros e as comunidades indígenas dominantes no estirão do Xingu e seus longes. Soube também do caso da sucuri que engoliu um boi, do jacaré que se estendia por metros, de grande que era; e de gases que brotavam do fundo dos barrancos dos igarapés, e mundiavam os visitantes. Contavam também sobre relações familiares formadas a custos revolucionários entre seringueiros e indígenas. Mas estas eram narrações antes dramáticas que fantásticas.

A mais legal, a mais genuinamente abrigada no campo da magia e do mistério, que conheci e que convivi com os protagonistas dela, foi a história do trabalhador do nosso projeto que passou 15 dias perdido na mata que margeava a Transamazônica e foi salvo por um coelhinho cintilante. Segundo relatos do sobrevivente, quando ele já estava nas últimas, cansado, com fome, sede e sem forças, o coelhinho apareceu e durante alguns dias se tornou seu cuidador. Fez com que ele o seguisse no frio das noites (era cintilante, operava no escuro) e no caminho, como que por milagre, aparecia tudo que ele precisava. Água boa, árvores frutíferas, palmito e coquinhos para comer, locas de pedras varridas e aquecidas para descansar. E nos últimos dias, o direcionou para a picada que o levou a uma fazenda de onde foi resgatado. Um poder de espanto tem este caso, mais porque põe em cena o coelho, que é espécie rara na Amazônia e que imprime mais impacto à prosa, por cintilar.

Sigo na vontade de contatos e experiências sensacionais. Um sonho, um sonho! Um cruzeiro pelos mares sem fim!