sábado, 7 de março de 2026

crônica da semana - nosso doutor

 Nosso doutor

Rogério vez em vez me visita em memórias carregadas de significados, umidade matinal da floresta e mais ainda, em filosofias do raso mundano tão densas que sobrevivem por anos, dando causa às mais diversas vivências que experimentei nas caminhadas por esta Amazônia de meu Deus! Rogério era de Humaitá, no Amazonas, um habitante das beiras.

Era meu papo de início de trabalho, diário. Os pequenos se aviando nos preparos, gerando material, praticando o bruto da missão. Enquanto isso, eu acompanhava Rogério arrumando as suas simples tecnologias. Duas batéias, uma imensa e outra pequenina. Uma peneira, um fogareiro artesanal, o talento. O escritório dele era uma tina enorme de metal que todos os dias abastecíamos de água, às vezes, dependendo da característica do material, até duas vezes por dia. A água não podia ficar estragada, como dizia ele.

Rogério avaliava, dava a conta da qualidade da água que ele operava. Era um risco que ele assumia. O ideal era a tarefa dele ser realizada em água corrente ou à margem dos igarapés, com fluxo lento mas renovável; e quase sempre afastado do local da geração. Isso o levava a um trabalho solitário longe da equipe. Preferia se realizar ali nos seus saberes e na companhia dos parceiros. No pé da obra, podia ajudar, forcejar quando a força dele fosse necessária, ralhar com um, com outro mais afoito que lhe passava medições duvidosas. Também, naquele ambiente de esforço e alguma técnica, poderia trocar uma prosa comigo antes do grosso do trabalho começar, picando um fumo, tecendo um fininho e depois preservando o porronca em brasa mansa, quase apagado, nos pitos cadenciados de canto de boca, por um tempão. Podia também, naquele papo de manhãnzinha, tirar onda comigo, das vezes em que a força de todos era demandada e eu me metia no meio da empreitada. Nosso equipamento era uma coisa primitiva, arte de prover desumanidades, engenho bruto. Rompedor de solo absolutamente manual, com tubos pesados, chaves atracadoras de pegadas frágeis, manobras dependentes de muito jeito de corpo. Quando a tubulação prendia, era um sofrimento.

Todo mundo se juntava para liberar a tubulação. Nessa leva, subíamos numa plataforma para pôr força até a veia do pescoço tufar. Eu e Rogério que lidávamos noutras paradas, também. A turma dava sangue, mas eu, nem chegava a tufar a veia do pescoço. Na primeira tentativa, pegava o beco e me arriava por ali no mato suando frio, na baba. E esta era a reflexão que eu fazia toda manhã quando da resenha matinal com o Rogério. Ele me identificava como um esforçado mas acima de tudo, um beneficiado pelo grau de instrução que eu tinha e que não me exigia a força física para sobreviver. Avaliava com muita razão, e afirmava que se eu não estudasse um pouquinho, estaria era ferrado, porque aguentar o trampo bruto, eu não aguentava não.

Rogério engatava nas palavras, mal sabia escrever o nome, divisava poucos horizontes do conhecimento. Mas na batéia, era um gênio. Eu parava com ele, de vez em quando para a prosa, mas muitas e muitas vezes, para admirar a elegância, a altivez com que ele dominava os segredos da separação de minerais usando a propriedade da densidade. Praticava, no tino puro, a ciência. Aprendi um pouco com ele. Se me der uma batéia, ainda hoje, arraso. Embora sem elegância nenhuma.

Aqui, ali, deixava escapar uma confissão, uma frustração. Se reconhecia pessoa de poucos recursos, ralo entendimento. No entanto, recorria a um escape, uma compensação. Dizia ter nenhum estudo, saber quase nada, mas a irmã dele, não. A irmã dele, que morava  em Humaitá, era tilógrafa.

E lá daquele inconsciente criativo, disseminador de exatidões doloridas, Rogério impõe os rasantes de razões em minhas vivências. Não alcancei canudo, graduação ou avanços formais, mas agora neste 12 de fevereiro, após uma defesa brilhante, ganhamos um tilógrafo na família. Parabéns, doutor!

sábado, 28 de fevereiro de 2026

crônica da semana - Abert Camus

 Se fazendo de Albert Camus

Numa das minhas caminhadas matinais, batida a meta da aeróbica,  ali pelas oito da manhã, dei com uma cena curiosa. Sentado em um banco protegido do sol pela sombra das árvores, no canteiro da Duque de Caxias, um homem, se não da minha idade, um pouco mais ou um pouco menos, com o baque que nem o meu, de aposentado, apreciava a movimento da avenida, ao lado de uma latinha de cerveja. Plena de manhãzinha e já tomando uma, na manha. Colhi a imagem, guardei e dediquei o tempo restante da caminhada pensando nela. Naquela cervejinha. A conclusão viria do ensopado da minha camisa. Cada aposentado, com seu cada qual. Uns, optam suar em exercícios e pequenas carreiras, no canteiro da Duque. Outros se dão observar o alvoroço dos carros, a pressa das pessoas, a desenvoltura das aeróbicas, do ponto de vista de um sombreado acolhedor e um golinho aqui, outro ali de uma cerveja amornando sobre o banco.

Durante a reflexão me peguei a um fato de destaque. Pensei que seria um aposentado igual, sem horário, ordem, nem lei que me regrasse a vontade de tomar uma. Até pelo meu histórico de bom apreciador de uma gelada. Ainda às vésperas da minha despedida do mundo do trabalho, a regra era clara. Todo final de semana, tinha que fazer um derrame de cervejas. Tão logo batia a porta ao chegar em casa, na sexta, já abria a primeira. E assim varava os dias até a batida da campa do domingo. Aqui, ali, abrindo uma latinha. Desse jeitinho, assim, seguindo esta batidinha, ao me aposentar, pensava que seria um bebedor bem mais voraz e constante, já que me permitiria sextar todos os dias. Quite. O que se dá é que bebo hoje, bem menos que antes. Enfastiei-me.

Tirando em tudo por tudo, nunca fui mesmo um bebedor dos graúdos. Fazia das minhas nos fins de semana, mas era ali aos saltos. Na sexta, para despressurizar da jornada semanal; fazendo o almoço no sábado (me apraz picar uns temperos ao pegado de uma gelada) ou no ócio do domingo, de meio dia pra tarde ouvindo música paraense no rádio. Mas era uma cota mínima de efeito certeiro. Quatro, cinco latinhas, no máximo. Logo me dava um sono ou pegava o violão, tocava as minhas de sempre, me emocionava de chorar quando cantava canções que me lembravam mamãe e nesse momento, a família dava as dicas. Estava na hora do homi se aquietar.

Entendo que por me libertar deste argumento provocado pela distensão do trabalho (e que prega em nosso inconsciente que o álcool é a redenção para nossas broncas com os chefes, com os processos, com as companhias nem sempre cordiais... com a torturante missão de madrugar), me desapeguei das terapias baseadas no suporte etílico.

Deixo escapar, que, morando ao pegado do Caripi, já fui chegado à máxima adaptada: “escritor não vai à praia, escritor bebe”. Tinha até uma foto que fiz diante da minha Olivetti que expressava um pouco essa versão do chirrado inspirado. A foto me apresenta com uma caneta no canto da boca (que pela correlação, arremeda uma imagem famosa de Albert Camus com um cigarro aparado no flanco dos lábios), e uma garrafa de uísque sobre a mesa. Tive esse costume mesmo de escrever bebendo um uisquinho. Um dia, estava era animado, caneta no canto da boca para possíveis anotações, produzindo e bebendo bem, and rocks. A última coisa que lembro foi que levantei para pegar um gelinho na cozinha. Quando tornei, estava no hospital. O mais impressionante é que, ao acordar, vi meu amigo Evelino deitado na cama ao lado. Uma piração total considerando que Evelino era amigo de Escola Técnica que não encontrava há anos e até onde sabia, morava em Paragominas. Pronto, morri, deduzi, atordoado. Estou no céu dos ex-alunos da ETFPA.

Meu amigo estava em visita técnica em Barcarena, teve uma indisposição e ficou em observação junto comigo. Desfeito o malentendido, não morri, e desde aquela passagem, tenho medo que me pelo de uma garrafa de uísque.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

crônica da semana - matinas carnaval anita

 A chuva belemense, as matinas e o bloco da Anita

O calendário que determina o carnaval, uma envolvente defesa de tese (sim, temos um doutor na família), e o aniversário da netinha justificaram minha vinda ao Rio de Janeiro neste início de ano. Tempo este, rente os movimentos da folia. Cheio de detalhes e surpresas.

Destaque para o clima, ou melhor, os humores do clima. Eu já tinha cantado a pedra, revelando, dizque, meu poder sobrenatural de ensejar extremos por onde passo. Especialmente as minhas duas experiências no Rio, atestam esta presunção. Nesta mesma época, o ano passado evidenciou-se em um dos verões mais quentes já registrados, com sensação térmica de 46 graus em algumas regiões. Também no dito ano passado, em junho, houve de minha presença ser necessária para as prendas de vô de novo. E não é que o Rio bateu recorde de dias encarreirados de frio! Tive então experiência cariocas, que me levaram a dois amofinamentos capazes de me prender em casa, o frio contínuo e o intenso calor.  E eis que topei com os caprichos do clima, por agora. Desde o início de fevereiro, o Rio  é a pura Belém. Céu nublado, pinga-pinga o dia todo, pampeiros pródigos em coriscos, medos; e volume suficiente para deixar bairros inteiros debaixo d’água. Que nem a nossa  Belore, de vez em vez submergida. Agora, chegando o carnaval é que a chuva deu um tempo e os dias se dão de esturricar, mas até então, o ano já tinha sido marcado por uma variação considerável com relação ao mesmo período de 2025. Naquela ocasião, ao deixar os dias tórridos do Rio e voltar para Belém, saí dizendo não ter visto chuva, uma gota sequer, por aqui. Este ano vi e ela se mostrou foi dicunforça. Na versão belemense.

Não tínhamos data certa para viajar, dependíamos da confirmação da defesa de nosso doutor, das promoções de passagens... daí que, perdemos a oportunidade de comprar os ingressos para o desfile na Sapucaí. Sequer, como aconteceu no ano passado, fomos aos ensaios, que já fazem as vezes. No dia que nos assanhamos, foi tanta chuva que nos arredores de casa, a água deu no joelho. Para cumprir a missão de buscar a netinha na escola, nos pegamos com mina de santos, Iemanjá, Iansã e com as energias boas das águas. A gente não é da barra, né. Não pode encarar os desafios de um quarteirão todinho alagado, sem as múltiplas proteções.

Se de um lado, deu uma banzo por perdermos a chance de ver de perto o espetáculo das grandes escolas, da estreante Acadêmicos de Niterói, da verde e rosa do coração, Mangueira; por outro lado foi a vez de conhecermos a graça, a alegria, espontaneidade e a personalidade singular dos blocos de rua.

Os blocos são bem organizados, muitos históricos, tradicionais, acarinhados pelos bairros de origem. De pitoresco, as matinas. No ano passado, teve circuito que iniciou às 5 horas da manhã (lembro do recorde de temperaturas altas de 2025. Procuraram driblar o calor). Agora, não madrugaram. Saem às 7 horas. Acompanhei o legendário “Cordão do bola preta”, que é mesmo limitado por um cordão, até a afogueada apoteose, ao meio dia. Lembrei do nosso “Crias do Aguenta o tombo”, que botávamos na rua, pela manhã, no vácuo dos bambas da Mauriti, e que também se organizava entre cordinhas emendadas umas nas outras. A natureza insurgente dos blocos se exibe nos looks dos foliões. Saem de casa, andam na rua, cruzam a cidade, de boa, montados na sunga, os rapazes; biquínis, as moças. E brilho. Não vi ninguém maldizer os cortejos de jovens, animados nos ensaios das coreografias mesmo que nos apertados nichos do metrô, e também ninguém implicar com os figurinos pra lá de desinibidos. O carnaval enseja a tolerância.

Passados os desfiles oficiais e o “circuito Belém” de dias chuvosos, reina o céu sem nenhuma nuvem. Amofinei em casa aperreado de calor. Os blocos continuam nas ruas do Rio. Hoje a matinas é com a Anita. Começou às 7 horas e vai até o afogueado do meio dia.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

crônica da semana - buraco

 O buraco é mais embaixo

Todo mundo, uma horinha ou outra, já se viu num encalacre doce, assim desse jeitinho. Pode prestar reparo. Ao escrever, falar, ou até mesmo ouvir uma palavra comum, do vulgo e do vago dos dias, por questões além da nossa compreensão, exatamente naquele momento, estranha. Sem qualquer explicação, acha aquela palavra diferentona, dissonante, sem razão der ser ou estar. Sem um quê teórico que a valha, questiona a etimologia, a grafia, a tônica, a sonoridade, a incompreensível existência daquela palavra no mundo das relações verbais... Todas as intransigências emergem nessa hora, e a gente se inquieta por ali e pelos dias adiantes, na desconfiança...

Aconteceu comigo. Depois daquele inusitado curto circuito, desarrazoado de juízos e medidas, o buraco para mim, é sempre mais embaixo.

Fazia um trabalho de descrição de solo, em poços de inspeção. Tudo que via, tinha que registrar, mas o que exigia zelo e detalhamento era a ocorrência de buracos nas paredes do poço. Um item delicado por causa da dinâmica da água subterrânea. Pode indicar potencial de contaminação de mananciais urbanos e também de fuga indesejada de água, no caso de barragens ou diques.

Desci no poço, na boa, fiz as paradas nos horizontes orientados, caderneta e lápis na mão, tudo anotadinho, quando, eita eita, deu-se o tilte. Vi a marca na parede, sondei. Identifiquei. Quando fui descrever, simplesmente travei. Não compreendia uma palavra na língua portuguesa tão deselegante, tão despudorada. “Buraco!” Não. Não poderíamos ter produzido um termo de expressão tão impactante, que me chegava tão mal ao toutiço. Naquele momento não vi estética, nem arte, nem futuro, muito menos simetria linguística entre mim e o buraco. Por um momento, estacionado em um andar do poço, paralisado, caderneta na mão, pressão para terminar aquele trabalho, não conseguia dar sequência à minha atividade porque encasquetei com a palavra ‘buraco’. Num repente de despressurização, em uma tentativa de reconciliação comigo e com o mundo construído à base de erros, acertos e subversões, rabisquei na minha caderneta algo como “observada a ocorrência de ‘boracos’, na parede norte” e coisa e loisa, mariposa. Meu coração acusou um alívio, a alma desceu para o chão da realidade. Estava de bem comigo mesmo e com a minha capacidade de lidar com bugs linguísticos. Sei que aquela foi uma ação preconceituosa, intolerante. Negava ali as palavras como elas efetivamente são e o quanto contribuem, resistentes e indultadas na vocal, para a nossa evolução enquanto seres humanos limitados e metidões a besta. Foi porém, uma alternativa, senão ainda estaria em transe ali dentro daquele poço, que no final das contas, era um inofensivo e técnico buraco cavado no solo.

Superei esta incompatibilidade gratuita com o buraco. Hoje nos acertamos. E admito uma certa cumplicidade entre a gente. Embora a desconfiança não nos deixe e produza boas pautas.

O humorista Gregório Duvivier é artista que pauta o amplo espectro da língua num monólogo de abraços, transes, inconformismos semânticos, desafetos estéticos e declarações de amor pelo nosso bom e amigo português nas suas mais variadas coordenadas espaciais e temporais. Tira onda, corta e ara na familiaridade com a língua, num espetáculo de quase duas horas carregado de humor. Meu ídolo maior, Luís Fernando Veríssimo também era craque na reflexão sobre nossos conjuntos lexicais. Para mim, se supera na crônica “Defenestração”, um clássico no domínio dos significados e significantes.

Fui ver a peça, e a seguir, na entre amigos, me liguei ao io do Veríssimo e  ao chio de Duvivier, ilustrei a prosa contando que no bojo deste tema, também já me insinuei em umas crônicas metalinguísticas. Pera! “Insinuei!” Agorinha bateu que nem da vez com o supracitado buraco. Eita... As desconfianças... O tilte. O insinuante e desarrazoado curto circuito. Reinei trocar vogais.  

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

crônica remix - live earth

 Live Earth

Se for para salvar o planeta, pode contar comigo pra tudo.

Mas tem que mudar o idioma.

Não é por nada não. Mas Terra, em inglês, não tem combate. Para mim é uma palavra indizível, impronunciável, inarticulável (e ao mesmo tempo, silenciosa, tímida, perigosamente inexata). Duvido que um falante aqui das nossas bandas, com o conjunto de suas cordas vocais no lugar, tudo bem direitinho, afinadinho, acostumado a respeitar a forma e o conteúdo de vogais e consoantes, consiga pronunciar a palavra Terra em inglês sem correr o risco iminente de ter uma síncope por falta de respiração. Duvido.

No mínimo, vai passar por um cruel constrangimento.

Ô palavrinhazinha difícil de pronunciar. Não acredito que alguém, mesmo neste mundo americanizado, digo, globalizado, se desenrole na boa em uma prosa, quando entra na parada a tal da ‘earth’. Para mim, acaba o papo aí mesmo. Até porque não acho que uma palavra que tem duas vogais juntas capitaneando o som possa conter a força do discernimento.

Pior não é nada, depois, o indisciplinado vocábulo, mesmo amparado num desenxabido érre, na seqüência, não desata. Fica no mesmo lugar. E, quase desfalece, quase que desaparece no espaço das ondas sonoras, no final, quando se apega num tê-agá pra tirar a bronca. A fonética, lá deles, ainda complica pregando que este tê-agá tem som de éfe. Assim, não propaga. Não propaga! Para mim, a palavra quando me chega pelas ondas globalizadas, em vez de me levar à segurança, aos encantos e aos mistérios de nosso planeta, parece representar mais uma situação de inquietante instabilidade. Antes que uma palavra, earth, para mim, parece mais um espasmo. Um soluço. Um desacerto na respiração, que seja.

O nosso planeta, em inglês, me chega indeciso, indefinível, com sérios problemas de identidade (mas como então já, um tê com som de éfe...Ainda mais!)

Tá bom, tá bom. Tô sendo injusto. Tô sendo parcial. Quero porque quero mudar o idioma da resistência ecológica porque sou anti-americano, anti-isso, anti-aquilo, anti-aquil’outro. Então vai lá, vê se cola: a gente, no calor da luta, como um bom falante da última flor do Lácio, acostumado com um Tesão ali, firme, decidido, fortalecendo, encorpando, dando graça à nossa Terra. Vamos nós, lá no furdunço de uma manifestação de protesto lá pelas terras geladas de Davos, gritar uma palavra de ordem assim ‘save the earth, ‘save the earth’. Mas quando que rola! Vão é trazer oxigênio pensando que já somos umas das sofridas vítimas do aquecimento global. Vão pensar que estamos tendo um piripaque. Que estamos lá só arfando, agonizando. O coro não dá o grau da indignação. Em inglês, não pinta o clima de revolta.

Agora, se a gente der uma levada latina...valorizando o Tê linguodental (daquele jeito como em tacacá, tipiti, vatapá, matapi. Daquele jeito, fiel ao som da letra, como prevê a estimada fonologia brasileira) já era: Seria uma coisa assim, do tipo “ salve a Terra’, ‘salve a Terra” ou ‘Tierra’, mesmo, vá lá que seja. Aí sim, aposto como o Bush logo, logo não ia se aviar para assinar o tratado de Kyoto (e outros tantos que houvessem).

Live Earth foi um evento realizado no início de julho com o objetivo de chamar a atenção para o problema do aquecimento global.

Achei bacana a idéia

Se for para salvar o planeta, pode contar comigo pra tudo.

Mas tem que pôr legenda.

Olha, não é querer falar mal da língua de ninguém, mas, Terra, em inglês, para mim é uma palavra indizível, impronunciável, inarticulável (e ao mesmo tempo, silenciosa, tímida, perigosamente inexata).

 

 

 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

crônica da semana - rosquinhas de Abaeté

 Rosquinhas de Abaeté

A uma atenção e outra para os autógrafos, passava o pano no ambiente. Notava uma disposição, uma ocupação do espaço que lembrava de alguma forma uma pintura daquelas famosas retratando encontros ou mesmo pequenas aglomerações. Uma cena entre moderna e renascentista. Prosas nucleadas, pertinentes cada uma a seu cada qual de afinidades. Ali, o grupo dos aquilatados jornalistas; acolá, a militância política, social e minha turminha salesiana; adiante, a família e meus companheiros das lidas operárias; um pouco além, o saber acadêmico e os fiéis leitores. Todos reunidos naquela sexta chuvosa de lua cheia para dar aquele peso emocional ao lançamento do meu nono livro de crônicas. Sobre a mesa onde fazia os autógrafos, os livros disponíveis. E uma terrina até a borda de rosquinhas de Abaeté.

Era promessa de campanha. Nos convites divulgados para a sessão de autógrafos, me comprometi com um pequeno coquetel em que os atrativos principais seriam o velho e sentimental Q-suco de groselha e um punhado de rosquinhas de Abaeté. Resultou que a ideia do açucarado e colorido refresco foi, em boa hora, descartada por questões de novos hábitos e também porque, nesses outros tempos acho que nem existe mais no mercado (pelo menos eu, em favor das dietas, não tenho feito procuração). Agora, os circulinhos de massa salgada, afamados e queridos, que têm o sistema de geração e produção creditado às terras abaetetubenses, estes fizeram a alegria dos presentes.

A proposta de inserir as rosquinhas no cardápio da merenda que programamos à guisa de um coquetel veio como uma reverência, sinal de respeito a este acompanhante essencial que tive sempre comigo nas quantas travessias que fiz da baía do Guajará. O produto é vendido à larga no atacado, em barracas e bancas específicas, diria até, especializadas, não é em qualquer banca não, do Ver-o-Peso. Mas tem uma função social imensa mesmo, quando vendido em pequenas porções pelos ambulantes em sedutoras embalagens transparentes, na hora do embarque para a travessia.

Já foi meu almoço.

As rosquinhas me deram valência na broca várias vezes. Principalmente numa fase extremamente afogueada que passei durante o período que morei em Barcarena. Meu dia contava muito mais que 24 horas. Tinha vez, que nem de comer tinha tempo. Nessa época eu me dividia em várias personalidades. A maioria das vezes, eu era operário. Uma parte, pai de família e cidadão do bem. Em outra, dirigente sindical dos mais agendados e, entremeando tudo, estudante temporão do curso de Geologia na UFPA. E sim, sim, escritor. Já tinha a coluna aqui no jornal. A conta do espaço e do tempo não fechava.

(Aí eu me vejo, hoje, diante de um debate ordinário sobre meritocracia e outras asneiras, capitaneado por ungidos que não têm ideia do que seja uma jornada noturna de trabalho. Essa gente não sabe o que é um couro!).

Havia uma sequência especial de dias que era particularmente desgastante. Acontecia a partir de duas jornadas noturnas que eu completava no trabalho. Aproveitava e durante o dia, me mandava pra UFPA. Era tempo certo de assistir às aulas da manhã e que eu tinha pouca chance de frequentar. Isso resultava em mais de 36 horas sem dormir direito, naquele picado do sono agoniado e cheio de sustos, e ainda, se tornava uma virada que me fazia comer pouco. Nessa aventura, como eu tinha que correr e dar adiantos, saía voado da aula. Quando chegava no Veropa pra atravessar, dizque já almoçava por ali. O menu: um saquinho de rosquinhas ou um completo no JR ou ainda, cinco pupunhas. Comia rápido e me avexava para dormir um picadinho na viagem, porque do outro lado, outra missão me esperava.

A rosquinha e Abaeté durante um tempo cumpriu a função psicológica, nutricional que me proporcionou chegar, na sexta-feira passada, ao meu nono livro. A terrina têi têi, ali na mesa compôs com brilho aquela cena meio moderna, meio renascentista

sábado, 31 de janeiro de 2026

crônica da semana - amor impresso

 Amor impresso

Amar a cidade significa também, enfeixar razões que creditem à Belém motivos de sobrevivência e formação de personalidade.

O meu feixe se compõe a partir daquela visão (inesquecível) das torres do mercado de ferro do Ver-o-Peso, quando despontamos no horizonte da baía do Guajará, depois de uma fantástica viagem do rio Acre até aqui.

E foram tantas as interações, incontáveis e incríveis os aprendizados em Belém! Com o tempo, o DNA da cidade foi se acomodando em mim, meus compartimentos foram criando forma ante esta planície úmida, desafiadora, cativante.

Uma definição de como me vejo hoje, e como o amor entre mim e a cidade se atualiza, começou a tomar jeito mesmo, ali pela metade da década de 70, no condado da Mauriti. Era o tempo de olhar o mundo e pensar no futuro. Nesse período, penso que iniciei meu processo de tomada de consciência. Mirei para um sentido e uma conivência com Belém. Este movimento resultaria no que hoje realizo como arte. Minha arte é, nos indos e nos vindos, nos modos e termos, nos cantos e recantos, um dengo à cidade; o que produzo de literal ou sentimental, mesmo que às vezes aparente ser uma peça distante, ou descolada da minha Belém, é, tenho plena certeza, a reiterada confissão de minha paixão por esta terra. Ainda que anuviada pelas metáforas da vida, minha palavra tem sempre a missão de homenagear, de reverenciar esta cidade que me seduz, me mundia, me inspira e que a cada dia me convence que aqui, aqui é o meu lugar.

Houve de naquele tempo, quando o futuro se desenhava nos horizontes da Mauriti, havia um movimento expressivo no trecho que eu morava. Tínhamos as patotas. Já à época eu fazia as minhas classificações. Havia a turma dos grandes. Era o grupo que já se adiantava na idade. Exibiam a voz já definida, facultavam-se ter barba. Uma parte já namorava de porta. Organizavam reuniões embaixo da castanhola, não todo dia, que fazia as vezes de confessionário. Em combinas especiais marcavam competições elaboradas de petecas. Coisa grande. Duzentas, trezentas petecas no triângulo, o que no final nunca produzia um vencedor. As partidas terminavam sempre na algazarra do ‘alaúça’. Eles mesmos avacalhavam. Vez ou outra formavam na bola da tarde nas disputadas peladas da Marquês. E quando eles iam, era muito firme!

No outro extremo, tínhamos a petizada. Os pequenos da Aparecida, do Donatila. A criançada. Estes não apareciam sob a castanhola. A mãe não deixava. Orbitavam os outros grupos com discrição. Ficavam mais na deles, brincando de pira alta, pira s’esconde e fura-fura neném, nos terrenos baldios agregados às vilas ou invadiam os quintais pelos buracos das cercas.

A minha turma era aquela intermediária. Adolescentes, voz rouca, hormônios por acolá. Já ganhávamos o mundo sozinhos para bater bola no gramado da Duque ou nas areias infindáveis do Areal. Da sombra da castanhola, apreciávamos com indisfarçável interesse, as meninas passarem para o Justo. Batíamos ponto toda noite na frente do Paraíso para entabular vulgares conversas, e desafiar a sisudez da madame que controlava a roleta do cinema, com afrontosas gaiatices. Deu-se que fui pra Escola Técnica, outros migraram para o segundo grau em outros bairros. Nos deparamos com a diversidade, outras realidades além da Pedreira. De nossas experiências, passamos por aquela fase em que todo mundo queria inventar uma moda bandeada para a criação artística. O violão foi a febre da rua. Grassou desafinado, passou. Eu me dei com a coisa da arte. Na ETFPA, um mundo de opções se abriu para mim. Os livros da biblioteca, o teatro do Barradas, a banda do Nery Filho. Um dia, fiz um poema...

Anos mais tarde, escreveria minha primeira crônica nascida, listada e catalogada em Altamira. Falava sobre... a saudade de Belém. Por agora, outros tantos anos além, ontem até, observo, lancei meu nono livro individual de crônicas.

Meu amor por Belém, impresso.