Nosso doutor
Rogério
vez em vez me visita em memórias carregadas de significados, umidade matinal da
floresta e mais ainda, em filosofias do raso mundano tão densas que sobrevivem
por anos, dando causa às mais diversas vivências que experimentei nas caminhadas
por esta Amazônia de meu Deus! Rogério era de Humaitá, no Amazonas, um
habitante das beiras.
Era
meu papo de início de trabalho, diário. Os pequenos se aviando nos preparos,
gerando material, praticando o bruto da missão. Enquanto isso, eu acompanhava
Rogério arrumando as suas simples tecnologias. Duas batéias, uma imensa e outra
pequenina. Uma peneira, um fogareiro artesanal, o talento. O escritório dele
era uma tina enorme de metal que todos os dias abastecíamos de água, às vezes,
dependendo da característica do material, até duas vezes por dia. A água não
podia ficar estragada, como dizia ele.
Rogério
avaliava, dava a conta da qualidade da água que ele operava. Era um risco que
ele assumia. O ideal era a tarefa dele ser realizada em água corrente ou à
margem dos igarapés, com fluxo lento mas renovável; e quase sempre afastado do
local da geração. Isso o levava a um trabalho solitário longe da equipe.
Preferia se realizar ali nos seus saberes e na companhia dos parceiros. No pé
da obra, podia ajudar, forcejar quando a força dele fosse necessária, ralhar
com um, com outro mais afoito que lhe passava medições duvidosas. Também,
naquele ambiente de esforço e alguma técnica, poderia trocar uma prosa comigo
antes do grosso do trabalho começar, picando um fumo, tecendo um fininho e
depois preservando o porronca em brasa mansa, quase apagado, nos pitos
cadenciados de canto de boca, por um tempão. Podia também, naquele papo de
manhãnzinha, tirar onda comigo, das vezes em que a força de todos era demandada
e eu me metia no meio da empreitada. Nosso equipamento era uma coisa primitiva,
arte de prover desumanidades, engenho bruto. Rompedor de solo absolutamente
manual, com tubos pesados, chaves atracadoras de pegadas frágeis, manobras dependentes
de muito jeito de corpo. Quando a tubulação prendia, era um sofrimento.
Todo
mundo se juntava para liberar a tubulação. Nessa leva, subíamos numa plataforma
para pôr força até a veia do pescoço tufar. Eu e Rogério que lidávamos noutras
paradas, também. A turma dava sangue, mas eu, nem chegava a tufar a veia do
pescoço. Na primeira tentativa, pegava o beco e me arriava por ali no mato
suando frio, na baba. E esta era a reflexão que eu fazia toda manhã quando da
resenha matinal com o Rogério. Ele me identificava como um esforçado mas acima
de tudo, um beneficiado pelo grau de instrução que eu tinha e que não me exigia
a força física para sobreviver. Avaliava com muita razão, e afirmava que se eu
não estudasse um pouquinho, estaria era ferrado, porque aguentar o trampo
bruto, eu não aguentava não.
Rogério
engatava nas palavras, mal sabia escrever o nome, divisava poucos horizontes do
conhecimento. Mas na batéia, era um gênio. Eu parava com ele, de vez em quando
para a prosa, mas muitas e muitas vezes, para admirar a elegância, a altivez
com que ele dominava os segredos da separação de minerais usando a propriedade
da densidade. Praticava, no tino puro, a ciência. Aprendi um pouco com ele. Se
me der uma batéia, ainda hoje, arraso. Embora sem elegância nenhuma.
Aqui,
ali, deixava escapar uma confissão, uma frustração. Se reconhecia pessoa de
poucos recursos, ralo entendimento. No entanto, recorria a um escape, uma
compensação. Dizia ter nenhum estudo, saber quase nada, mas a irmã dele, não. A
irmã dele, que morava em Humaitá, era tilógrafa.
E
lá daquele inconsciente criativo, disseminador de exatidões doloridas, Rogério
impõe os rasantes de razões em minhas vivências. Não alcancei canudo, graduação
ou avanços formais, mas agora neste 12 de fevereiro, após uma defesa brilhante,
ganhamos um tilógrafo na família. Parabéns, doutor!