Saída de rede
No voleibol, o modelo atual
de apuração de pontos, sem a interpretação da vantagem, aliado ao advento do
quinto set de 15 pontos acabou com o risco de termos jogos intermináveis, como
o que aconteceu com minha equipe em um dos torneios curriculares que disputamos
na Escola Técnica. Meu time fez uma partida que ficou conhecida como ‘o jogo
mais longo da história’.
O último jogo de voleibol
que tinha visto assim, ao vivo, de palmo em cima foi por aqueles dias na
programação dos Jogos Internos da ETFPA. Dali, só agora, sábado passado, tornei
a ver o jogo da bola ao ar, assim, de pertinho. Fui ao Mangueirinho acompanhar
a final da Brasil Cup de vôlei feminino. Esse tempo todo passado no entremeio de
lá a cá, só pela televisão. Estranhei que só. Acostumado com as transmissões
pela TV, senti a falta do replay, dos comentários, escalação, detalhes
circunstantes, trajetória das jogadoras, no geral lamentei a falta dessas
informações que o jornalismo ensanduícha nas edições esportivas e também de um
controle remoto para tarear a temperatura na arquibancada do ginásio. Teve uma
hora que me deu foi um frio.
No presencial, valeu o tanto
que eu previa. Atualizei umas impressões ali, junto à quadra, dos jeitos e
fundamentos no nível de toques e manchetes, que não se alcança, acomodado no
sofá da sala.
Um item que já é antigo, mas
que me impôs reflexão quando constatei a potência da jogada realizada à minha
frente, foi o saque. Lá dos tempos da Escola Técnica até aqui, o saque sofreu
uma evolução incrível (sou do tempo do saque bebê) e provocou uma mudança
fundamental na regra. Acabou com o sistema de ‘vantagem’. O que se interpretava
era que mesmo um saque balãozinho, doce, inocente, tinha a chance de resultar
num ponto e como uma equipe sempre começava sacando, levava vantagem: era como
se uma injustiça definisse o destino do jogo. Daí, que, caso ocorresse o ponto no
primeiro saque, utilizava-se o expediente da vantagem como elemento de
equilíbrio. O ponto era invalidado e a contagem só começaria a partir do
segundo saque. A seguir, reequilibradas as chances, a ideia continuava a mesma,
só contava ponto para o time que sacava. Quem recebia podia até contra-atacar e
pôr a bola no chão do adversário, mas não levava o ponto. Apenas estragava o
saque do outro e ganhava a vantagem de sacar.
Boa. Eu concordava com essa interpretação. Achava justa. A grande virada
de chave ocorreu na inversão da oportunidade. Com o aprimoramento da defesa, a
partir da alteração nos fundamentos da recepção (agora pode receber de toque,
antes não, antes era só de manchete, de pé, de ombro...), o saque, embora
também tenha saído do estágio bebê para uma potente cortada, também enfrenta
mais resistência e a chance de um ponto se realizar para a equipe que recebe,
passou a ser a origem normal dos pontos conquistados na partida.
Nosso jogo mais longo da
história, contou como avaliação do semestre. Minha equipe era a reserva da
reserva da turma que estudava com o professor Serjão. Enfrentamos a também
reserva da reserva do professor Serginho. Na disputa pedagógica dos Sérgios, eu,
com meu metro e cinqüenta, bem medido, de altura, figurava como saída de rede.
Os mais aquinhoados física e tecnicamente ainda enfatizavam: “saída, bem na
saída de rede, quase fora da quadra”. O jogo era na regra da vantagem. Dois
times ruinzinhos. Ninguém fazia ponto. Era só vantagem. Começamos a peleja com
o sol das quatro ardendo no cocuruto. Pelas oito da noite, com muita peleja
avançamos dois sets. Mas a fome já se anunciava, a sede era daqui pra’li e para
alguns de costumes mais austeros, estava era dando a hora de dormir. Os Sérgios
se deram por satisfeitos no método e no enredo. Lançaram R pra todo mundo, acordaram
promulgar um diplomático empate e encerrar a partida ao arrepio da regra. Eu
que bem na saída da rede estava, fui um dos primeiros a procurar o caminho de
casa.