Rogai por nós, ó Santa Mãe, pois que no pleno do calor de outubro, (eu sei, eu sei, tem a tradicional chuva da Santa, aquela que chega providente pelos ao pegados dos dias, senão no dia mesmo da procissão, na valência do nublado no horário mais afogueado do trajeto ou mesmo no pampeiro pra regar o almoço em família após a romaria. Eu sei, eu sei, Mãezinha, que sempre a tua bondade nos refresca, acode e nos conforta), me abismei foi no horizonte de agora, ainda nesta segunda-feira, na distância de uma semana para o nosso encontro, com o céu, no vigor normal da torridez do meio dia, sem quê nem pra quê, mudar tisnado para puras nuvens carregadas, e mais com pouco, mais surpreso ainda me vi, com a companhia de uma chuva lastimosa e triste. Não foi chuva de querência ou do conforto. Foi chuva de Mãe sofrida, Mãe descalça no meio fio, Mãe esquecida de marido e maltratada dentro de casa. Foram gotas de dor derramadas pela Mãe que vê a nação em risco de perder-se no profundo do vale pranteado. Olha que cuidei de espiar com carinho os sinais. Chuva sem vento, com uns trovões de ralho ao fundo. Uma semana antes de nos encontramos na Corda, o céu chora um choro de um coração apertado de Mãe.
Os dias apontam para a necessidade de muita reflexão. Entendo a mensagem. O céu plúmbeo é um aconselhamento na linguagem cifrada nos códigos da natureza, que nossa Mãezinha nos envia. Penso indicar, o céu, que o caminhar pelas ruas de Belém, em todos os eventos que compõem o Círio, no leve a atos de fé e comprometimento. Que o amor nos guie e se sobreponha ao discurso de ódio, que vença o preconceito, que enfrente as desigualdades, que derrote a mentira, a fraude, o desprezo pelos avanços e pelas proteções sociais tão necessárias ao nosso povo. A natureza fala pela Rainha da Amazônia, tenho certeza, pedindo proteção contra os ataques que se anunciam e que miram a floresta, os rios, os territórios indígenas, os ribeirinhos e as comunidades urbanas mais vulneráveis. Os ralhos dos trovões ao fundo, neste meio dia, pelo comum, de sol e calor, alertam para destruição da compreensão, para o escasseamento da generosidade e da delicadeza e para a mutilação da razão, da educação, do decoro. Precisamos das bênçãos, do amor de Nossa Senhora de Nazaré, nos revela a chuva atípica no início de outubro, embalada a trovões; e das mãos da Santinha para nos agarrarmos e nos livrarmos do fundo do precipício. Rogai por nós, ó Mãe. Valei-nos. Livra-nos do mal tão perto e de todo perigo. Dá-nos, ó Mãe de Deus, Rainha da Amazônia, a força, a clareza, o discernimento para ajudarmos a construir e a manter a serenidade em nossas vidas. Afasta-nos deste precipício e nos aponte o caminho da luz. Mostre-nos todo o bem para que nossas escolhas sejam sempre no sentido da paz. Caminhe junto com os mais pobres, cante com os poetas e com os amantes das artes, nos ensine a dividir com aqueles que não tiveram acesso aos saberes comuns e às posses.
Sei que olhando para este horizonte povoado de ralhos e nuvens, espreitando os sinais que as gotas de chuva trazem consigo, posso ser apenas um fiel a pedir, e até mesmo, reconheço sendo o pecador que sou, sem os créditos para pedir, mas sei que és dadivosa, és piedosa, misericordiosa...
Sei que estas lágrimas de chuva nos contam que padecemos da falta de amor e humanidade. Sei que sinto uma dor enorme porque muitas famílias se apartaram no almoço do Círio e também na vida, sei que sentimos uma saudade gigantesca de nossos irmãos, irmãs, tios, sobrinhos... Confesso que...
“... não sei quantas vezes, nem tempos, nem anos, ficaremos
juntos, eu e tu, Santa Mãezinha, rezando para que a dor da saudade, esta saudade sofrida, inclemente, que consome os meus dias, passe...
...E depois deste desterro mostrai-me Jesus, Para que nunca mais eu me sinta tão só.
Ora pro nobis, sancta Dei Genitrix.
O clemens, O pia, O dulcis Virgo Maria.”