domingo, 25 de outubro de 2026

crônica da semana - Plinct plonct ploft

 Plinct, plonct, ploft

Quero crer que tenha sido apenas o desenrolar de um acaso. Um daqueles ‘poxa vida” que nos quedam lastimosos, mas que acontecem...

Nessa manhã, estava vasqueiro. Já tinha feito minha caminhada de ida pelo canteiro da avenida só na manha, de vez em quando trotando na ligeireza que o pulmão permite e as fibras musculares suportam, e sempre com o olhar afiado, sensível aos pontinhos que se definiam no chão. Já num desalentado trotar de volta, me largava ao conformismo. Minha sacolinha providenciada ao sair de casa, abrigava apenas duas mangas das bem gitas e ainda madurando. Estava sem esperança até que, lá na frente avistei. Uma porruda, rosada de dar gosto. Cheirosa. Tinha caído na ventarola que age por ali, no correr da manhã. Agachei, apanhei a bichinha do chão com carinho, reparei se não estava magoada, sem uma trinca, um roído de passarinho. Estava saudável. Caiu bem na parte rampada do canteiro. Graminha rala e por vezes, ausente. Limpei a terrinha no short, e numa patetice imperdoável, quando fui acomodar dentro da minha sacolinha, a manga, a sedutora, a maravilhosa manga escapuliu da minha mão, rolou pelo declive num dramático ritmo plinct plonct e encontrou o seu destino na impiedosa sonoridade. Ploft. O testemunho ficou lá no asfalto: a casca rosadinha transformada em melancólica pasta adelgaçada.  Enquanto o caroço num deslizado choramingo, foi lançado de volta ao canteiro, mutilado, alienado das suas suculências. Aquilo me doeu de uma forma devastadora. Mesmo porque era possível resgatar a manga do asfalto. O trânsito estava dinâmico, o que me impediu de um resgate imediato. Havia um bom espaço entre as trajetórias dos carros e a manga. Passou um, com boa folga, passou outro, sem ameaçar minha frutinha. Postado estava eu no meio fio, como se pedindo socorro pra bichinha. O próximo carro, é certo que me viu, viu a manga no chão, entendeu a mensagem contida na composição da cena. Aí é que desconfio da maldade. Parece que ajustou a direção só para espocar sem dó a minha manguinha rosada. Meu pai que me alivie se eu estiver errado, mas... Tem gente pra tudo!

Um caso envolvendo as mangas que grassam em nossas ruas, eu já havia presenciado e o que se sucedeu me deixou tomado de um justificável pavor.

Deu-se bem no tempo em que estes movimentos que agem com ódio e intolerância começaram a ganhar fôlego. Foi a primeira experiência que testemunhei com esta parcela da sociedade, que se julga detentora de todos os valores e juízos, em plena e ameaçadora ação. Caminhava na arborizada avenida quando vi um apanhador de mangas, aqueles que tiram a manga da árvore com uma vara adaptada. Acompanhei em algumas voltas, o movimento dele. Parava aqui, coletava, se adiantava, parava sob outra mangueira mais ali... Eu, na minha caminhada. Em dado momento, vi que um homem se aproximou do catador, arrancou-lhe da mão a vara coletora, a sacola que ele carregava, chutou o carrinho de mão que ele conduzia. Gritava, ofendia. Falava com alguém ao celular, como se combinando algo. E realmente, logo a seguir, parou um carro e dele desceu o condutor para apoiá-lo. Agora eram os dois. Jovens, bem vestidos. Tipos bem cuidados, bem alimentados, aqueles que não precisam das mangas da rua para viver. O catador argumentava, mas era forçado a ganhar rumo dali com o carrinho dele. Alguns moradores notaram o movimento e saíram para rua. Chegaram próximo, interferiram em favor do coletor. Nessa hora, também eu estava próximo. O comportamento dos homens dava medo. Humilhado, atacado, o catador saiu para longe empurrando seu carrinho.

Lembrei deste caso, agora, quando minha manga tão desejada foi espocada sem dó por um automóvel no asfalto. Num enredo Plinct, plonct, ploft que ainda me dói.

Só não dói mais porque mais na frente, o bom pai proveu. Achei outra rosada, cheirosa, dessa vez, redobrei os cuidados ao lançá-la para dentro da minha sacolinha.

teste

 Despertador

Agora, vivendo os dias de um senhorzinho aposentado, me pego ainda na teima de acordar cedo. Não curto acordar cedo!

Justifico esta cisma de madrugador garimpando benefícios desta prática. Faço as minhas caminhadas. E, pelo início da manhã é mais friinho, os passarinhos animam a caminhada, o trânsito é rarefeito, dá pra coletar umas mangas que caíram nas ventarolas noturnas, antes da chegada dos catadores profissas; e ainda tem na conta a possibilidade de observar o deslocamento da sombra das árvores, dos postes, dos prédios, com o sol em baixa inclinação, avisando que a Terra é redonda.

Por essas e por outras, mantenho este desafio de acordar cedo. E eu odeio acordar cedo! Já pensei em outras alternativas, mas por enquanto dou vaga à teimosia.

É peleja que regrou meus costumes por longos anos e que criou em mim uma aversão, um entojo, uma ira nada santa, uma inimizade colossal com o despertador. E durante todos esses anos, alimentou em mim um desejo recorrente: espalhar todos os despertadores do mundo no chão e passar um rolo compressor sobre eles. Destruir, esbandalhar tudinho, até não sobrar uma molinha animada sequer. Esta era a minha ilusão de liberdade, de insurreição redentora, de desapego total das dores provocadas pelo desperta-dor. Mas quando que, liberto de bater ponto, me veria sem trégua neste tempo de agora, quando poderia esticar a soneca e não estico. Égua, chega me dá buscar um desatrapalho na mente.

Deixa estar que hoje, o custo nem é tanto. O meu cedo já bate a campa beirando as seis, bem além dos meus últimos anos na ativa quando o zinho tocava aquela música traumatizante no justo das quatro e meia da madrugada. E eu ainda operava no modo de choque. Provocava, deixava o celular tocar fora do meu alcance para forçar que eu me levantasse, me espertasse logo de prima e evitasse aquele velho e tentador ‘touche’ de desativar ainda em meio sono a campainha para dar mais aquele minutinho de morga. Eu é que não confiava. O bicho tocava, eu dava era um pulo e o dia já estava valendo. Do meio pro fim esta tática ficou meio ineficaz e mesmo no modo pavor, eu levantava, mas remancheava, corria pro sofá, reinava recostar a cabeça e apelava para a resistência. A um custo, mas mantendo a opinião, partia para passar um café quentinho. Fui levando na força e na coragem, até sentir que aquilo não dava mais para mim. Recorri a lenitivos. Adotei a regra do sono interrompido. Na luta, seguia. Tomava café, me arrumava, punha o uniforme, a bota, supria a mochila, ganhava o rumo do porto. A lancha para Barcarena saía às 6 e meia. Em toda a minha história nessa travessia, o tempo de viagem até o trabalho era dedicado à leitura. Deu-se que aos quarenta e cinco do segundo tempo, com o argumento do sono interrompido (não mais um despertar completo), abandonei a leitura matinal, e dei pra tirar um soninho de 45 a 50 minutos, na viagem. Para mim, significava continuar o barato daquela soneca boa das 4 e meia cortado pela gasguitagem do desperta-dor. O efeito colateral do cansaço foi que passei a ler menos. E aí, rapazinho, foi um prejó. Senti falta, magoei.

Passou. Dei baixa na carteira, entrei para o time dos aposentados e tenho o tempo, a vez, do jeito que bem entenda. Adeus despertador.

Quite! Logo nos primeiros dias, o que fiz foi dar um adianto porque 4 e meia não é um horário que indique alguma lucidez num cristão avesso a penitências (e também porque não me apraz acordar cedo). Calibrei para as seis horas que, embora não seja um horário que um aposentado se obrigue a acordar, não dói tanto; e lá s’estava eu levantando de novo ao som do desditoso despertador. De igual maneira. Modo pavor. Ô sina, que resignado aceito! Entretanto, vendo assim por outro lado, a contemplação da aurora não deixa morrer em mim o desejo de esmigalhar os aparelhos despertadores e seus traumatizantes cocoricós tudinho debaixo de um rolo compressor.

 

 

sábado, 17 de outubro de 2026

crônica da semana - Sidney Raiol

 Homenagem a um artista de Barcarena

Sidney Raiol é mestre. Apaixonado pela vida, professor da rede pública. De par com o exercício da docência, professa a beleza das palavras, a harmonização das letras, o desenredo elegante de versos, rimas e prosas.

Eu o conheci, de prima, virtualmente. No tempo do e-mail. Era um dos meus heróicos 13 leitores logo que comecei a escrever aqui pra coluna, em milinovecentos e naninani. Interagia, contribuía, acrescentava detalhes aos causos contados, sempre com muita propriedade e desenvoltura. Consolava-me quando eu machucava a gramática (por ele, caprichei na ênclise agora). Na época, lecionava em Barcarena. Éramos próximos, mas, olha só, longes. Nunca nos encontramos. Passou, passou, o email quedou-se démodé, e nos silenciamos num sumiço indolor, um para o outro. Depois de a bom atravessar esta baía num prá lá e pra cá sem medidas, mudei de Barcarena para Belém, pendurei as chuteiras da fábrica, pus os tênis e a roupa de física e fui malhar. Nos encontramos de vera, no físico, de palmo em cima mesmo, na Academia Barcarenense de Letras, quando ele se juntou a nós, no silogeu. É confrade eleito e imprescindível. Um encontro pra lá de agradável. Sidney é muito papo firme. Conversa fácil. Contador de causos mis. Voz potente, tom erudito, locução solene, quase uma ode. De lá, a cá, da posse de Sidney, ele vem nos regalando com seu doce contar em publicações no grupo de whatsapp da Academia. Prima por um estilo memorialista (aqui, ali, atuando também no presente dinâmico que se realiza no condado do Tapanã). Explora cenas e cenários de Belém (as boemias!), Barcarena (as boemias!), episódios prosaicos da carreira de professor. Demonstra e revela admirações. Partilha conosco um arquivo espetacular de imagens, textos e publicações literárias raras. Nos demos e nos entendemos como filhos adotados de Barcarena. Veio a idéia de trazer aqui uma recordação, um recorte do que esta travessia, que fizemos, cada um ao seu termo e tempo, nos deu de impressão e riqueza. E ele nos deu Artur.

Fiquem com as adoráveis lembranças de Sidney Raiol:

[Escutando as músicas interpretadas por Patrícia Marques, cantora de Barcarena, em seu CD acústico, pego a caneta para escrever sobre um amigo de Barcarena que nos deixou e levantou voo para outros lados.

No dizer do escritor paraense Vicente Franz Cecim, em seu livro A Asa e a Serpente:

 “Voou para alturas espantosas, com uma energia inesperada para a sua idade.”

Sempre foi alegre e talentoso, desde quando o conheci, na década de 1980. Seu ser não transmitia tristezas; também não levava desaforos para casa, como todo bom paraense.

Foi um passarinho autêntico, cuja liberdade de viver era suave, e quem estava ao seu lado era absorvido por esse carisma singular, não atrelado a ninguém.

Era um cabano zelador, por amor à sua terra, tantas vezes celebrada e transmitida pelas inúmeras manifestações artísticas que soube desempenhar com sucesso.

Ninguém dançava o carimbó tão bem quanto ele, voltando com perfeição rítmica, a caboca dança.

Foi com esse rodopiar performático que, certa vez, o vi em uma apresentação, dançando com seu grupo folclórico numa casa de shows na Doca de Souza Franco.

No final, os turistas alienígenas que estavam presentes, entusiasmados, foram até o palco para acompanhar o vibrante grupo, naturalmente liderado por ele.

Mais importante, entretanto, foi sua atuação como educador — estava terminando o curso de Letras —, artista múltiplo, colega e bom amigo. Escrevia também poesias e soube conquistar a todos nós que tivemos a permissão especial de conhecê-lo em Barcarena, terra cabana.

Simplesmente, ARTUR SILVA PEREIRA foi embora. Mas, onde quer que esteja ou chegue, não deixará ninguém parado, tampouco macambúzio.

Como disse Max Ernst:

“Os homens nunca saberão.”

O CD de Patrícia Marques acabou. A vela da sala apagou].

domingo, 11 de outubro de 2026

crônica da semana - Círio 2026 - Rogai por nós

    Nossa Senhora de Nazaré, rogai por nós
Rogai por nós, ó Santa Mãe, pois que no pleno do calor de outubro, (eu sei, eu sei, tem a tradicional chuva da Santa, aquela que chega providente pelos ao pegados dos dias, senão no dia mesmo da procissão, na valência do nublado no horário mais afogueado do trajeto ou mesmo no pampeiro pra regar o almoço em família após a romaria. Eu sei, eu sei, Mãezinha, que sempre a tua bondade nos refresca, acode e nos conforta), me abismei foi no horizonte de agora, ainda nesta segunda-feira, na distância de uma semana para o nosso encontro, com o céu, no vigor normal da torridez do meio dia, sem quê nem pra quê, mudar tisnado para puras nuvens carregadas, e mais com pouco, mais surpreso ainda me vi, com a companhia de uma chuva lastimosa e triste. Não foi chuva de querência ou do conforto. Foi chuva de Mãe sofrida, Mãe descalça no meio fio, Mãe esquecida de marido e maltratada dentro de casa. Foram gotas de dor derramadas pela Mãe que vê a nação em risco de perder-se no profundo do vale pranteado. Olha que cuidei de espiar com carinho os sinais. Chuva sem vento, com uns trovões de ralho ao fundo. Uma semana antes de nos encontramos na Corda, o céu chora um choro de um coração apertado de Mãe.
Os dias apontam para a necessidade de muita reflexão. Entendo a mensagem. O céu plúmbeo é um aconselhamento na linguagem cifrada nos códigos da natureza, que nossa Mãezinha nos envia. Penso indicar, o céu, que o caminhar pelas ruas de Belém, em todos os eventos que compõem o Círio, no leve a atos de fé e comprometimento. Que o amor nos guie e se sobreponha ao discurso de ódio, que vença o preconceito, que enfrente as desigualdades, que derrote a mentira, a fraude, o desprezo pelos avanços e pelas proteções sociais tão necessárias ao nosso povo. A natureza fala pela Rainha da Amazônia, tenho certeza, pedindo proteção contra os ataques que se anunciam e que miram a floresta, os rios, os territórios indígenas, os ribeirinhos e as comunidades urbanas mais vulneráveis. Os ralhos dos trovões ao fundo, neste meio dia, pelo comum, de sol e calor, alertam para destruição da compreensão, para o escasseamento da generosidade e da delicadeza e para a mutilação da razão, da educação, do decoro. Precisamos das bênçãos, do amor de Nossa Senhora de Nazaré, nos revela a chuva atípica no início de outubro, embalada a trovões; e das mãos da Santinha para nos agarrarmos e nos livrarmos do fundo do precipício. Rogai por nós, ó Mãe. Valei-nos. Livra-nos do mal tão perto e de todo perigo. Dá-nos, ó Mãe de Deus, Rainha da Amazônia, a força, a clareza, o discernimento para ajudarmos a construir e a manter a serenidade em nossas vidas. Afasta-nos deste precipício e nos aponte o caminho da luz. Mostre-nos todo o bem para que nossas escolhas sejam sempre no sentido da paz. Caminhe junto com os mais pobres, cante com os poetas e com os amantes das artes, nos ensine a dividir com aqueles que não tiveram acesso aos saberes comuns e às posses.
Sei que olhando para este horizonte povoado de ralhos e nuvens, espreitando os sinais que as gotas de chuva trazem consigo, posso ser apenas um fiel a pedir, e até mesmo, reconheço sendo o pecador que sou, sem os créditos para pedir, mas sei que és dadivosa, és piedosa, misericordiosa...
Sei que estas lágrimas de chuva nos contam que padecemos da falta de amor e humanidade. Sei que sinto uma dor enorme porque muitas famílias se apartaram no almoço do Círio e também na vida, sei que sentimos uma saudade gigantesca de nossos irmãos, irmãs, tios, sobrinhos... Confesso que...
“... não sei quantas vezes, nem tempos, nem anos, ficaremos
juntos, eu e tu, Santa Mãezinha, rezando para que a dor da saudade, esta saudade sofrida, inclemente, que consome os meus dias, passe...
...E depois deste desterro mostrai-me Jesus, Para que nunca mais eu me sinta tão só.
Ora pro nobis, sancta Dei Genitrix.

O clemens, O pia, O dulcis Virgo Maria.”

 

sábado, 3 de outubro de 2026

crônica da semana - vai a dois

 Linha de passe

Essa foi minha filha que me contou. Vinha na boa pela Catorze. ônibus com ar condicionado, sem muita gente, no horário. Quando na curva da Ferreira Pena para cambar para a Sacramenta, o coletivo esbarrou num motoqueiro apressado. Sem grandes transtornos na batida, o motora retomou o volante e se arrumou para sair. Nessa hora o motoqueiro, sentindo-se prejudicado, postou-se no meio da rua e sacramentou: ninguém não sai. Rolou o para pra acertar. Criou-se a linha de impasse. Ninguém não sai. Foi o jeito o esmaecimento dos humores. Conformado, aquele passageiro de tiradas instantâneas cravou “ihhh, vai a dois”. Um outro, lá de trás arriscou um palpite, alheio à vigência de proibição em apostas. Provocou. 10 pra 1 que o motociclista não desocupa a pista. Sol do meio dia. Fome se assanhando no estômago. A questão ficou no vai não vai. A turma tirou por menos. A solução foi esperar outro veículo para seguir viagem.

No futebol, a linha de passe é aquela possibilidade de jogada certeira, de pé em pé até a culminância. Na vida, é um fiozinho quebradiço se esticando em uma retranca resistente e muitas vezes, forjada na têxtil insensatez. O resultado dessa peleja é o impasse, é uma dor tão dolorida que a gente nem sabe explicar. Pelo pleno e pelo geral, experimentei duas situações que, olha, me derrubaram.

Houve de certa vez, ainda o ovo sendo gerado no ventre da serpente, eu entabulei prosa com um colega de trabalho que por sinal, havia conseguido a vaga por meio de uma ação sindical que exigia da empresa contratação de mão de obra, preferencialmente ligada a trabalhadores efetivados, e que residissem na região, já que a política da indústria, à época, era trazer gente de fora.

Pois bem, este um, cria de uma ‘política de cotas’, naquela conversa, puxou o tema da formação. Eu alertei que por aqueles dias, 2018, 2019, por aí assim, a educação sofria golpes sucessivos e isso precisava ser rebatido pelos trabalhadores. Fui nocauteado na sequência quando ele afirmou que não necessitava de educação. Os filhos seguiriam a vida como ele, sem precisar habilitações especiais e se fossem uma hora dessas pra universidade, dispensaria a universidade pública já que em cada esquina podia contar com uma faculdade boa de preço, que lhe atendesse. Até hoje, perco o sono quando lembro esse diálogo. Um aperreio justificado já que por aquela ocasião, atuando em várias frentes das construções populares, em momento algum da vida tinha me deparado com tamanha descrença (infelizmente, foi só a primeira vez) e também de toda sorte ingrato, já que o pequeno veio de uma parcela da sociedade beneficiada com uma mobilização que visava elevar o nível econômico da comunidade como suporte, exatamente para que alcançassem mais oportunidades de crescimento através da educação (nós os pais éramos peões, chão da fábrica, mas nossos filhos poderiam ser doutores). Por causa desse diálogo conto aquele episódio como um dos dias mais tristes da minha vida. Sofro ainda.

Depois veio a desilusão da direitaesquerdadireira. Impressioante. As pessoas misturam, confundem. Também no chão da fábrica, uma companheira discorria sobre o que definia como as brutalidades da Esquerda. Homofobia, misoginia, restrições com programas sociais. Indignada, relacionava para mim, estes itens com os quais tinha discordância. Pautas, pelo usual, identificadas com grupos conservadores. Eu fiquei azuruotinho. Nem soube o que dizer. Depois racionalizei. Meu pai do céu, quantos embaralhos são maliciosamente formados na mente da gente. Vieses são enviesados, vetores redirecionados, tendências e ideologias jogadas num liquidificador esmigalhador de sensatezes. Este foi outro dia que me faz pôr o pano de imaginar no ladinho da cuca e esperar em vão o sono, de tantos dos absurdos que carrega em si.

Mas quando que alcançarei ser da linha daquele passageiro de tiradas instantâneas do tipo vai a dois.

 

 

sábado, 26 de setembro de 2026

crônica da semana - Saída de rede

 Saída de rede

No voleibol, o modelo atual de apuração de pontos, sem a interpretação da vantagem, aliado ao advento do quinto set de 15 pontos acabou com o risco de termos jogos intermináveis, como o que aconteceu com minha equipe em um dos torneios curriculares que disputamos na Escola Técnica. Meu time fez uma partida que ficou conhecida como ‘o jogo mais longo da história’.

O último jogo de voleibol que tinha visto assim, ao vivo, de palmo em cima foi por aqueles dias na programação dos Jogos Internos da ETFPA. Dali, só agora, sábado passado, tornei a ver o jogo da bola ao ar, assim, de pertinho. Fui ao Mangueirinho acompanhar a final da Brasil Cup de vôlei feminino. Esse tempo todo passado no entremeio de lá a cá, só pela televisão. Estranhei que só. Acostumado com as transmissões pela TV, senti a falta do replay, dos comentários, escalação, detalhes circunstantes, trajetória das jogadoras, no geral lamentei a falta dessas informações que o jornalismo ensanduícha nas edições esportivas e também de um controle remoto para tarear a temperatura na arquibancada do ginásio. Teve uma hora que me deu foi um frio.

No presencial, valeu o tanto que eu previa. Atualizei umas impressões ali, junto à quadra, dos jeitos e fundamentos no nível de toques e manchetes, que não se alcança, acomodado no sofá da sala.

Um item que já é antigo, mas que me impôs reflexão quando constatei a potência da jogada realizada à minha frente, foi o saque. Lá dos tempos da Escola Técnica até aqui, o saque sofreu uma evolução incrível (sou do tempo do saque bebê) e provocou uma mudança fundamental na regra. Acabou com o sistema de ‘vantagem’. O que se interpretava era que mesmo um saque balãozinho, doce, inocente, tinha a chance de resultar num ponto e como uma equipe sempre começava sacando, levava vantagem: era como se uma injustiça definisse o destino do jogo. Daí, que, caso ocorresse o ponto no primeiro saque, utilizava-se o expediente da vantagem como elemento de equilíbrio. O ponto era invalidado e a contagem só começaria a partir do segundo saque. A seguir, reequilibradas as chances, a ideia continuava a mesma, só contava ponto para o time que sacava. Quem recebia podia até contra-atacar e pôr a bola no chão do adversário, mas não levava o ponto. Apenas estragava o saque do outro e ganhava a vantagem de sacar.  Boa. Eu concordava com essa interpretação. Achava justa. A grande virada de chave ocorreu na inversão da oportunidade. Com o aprimoramento da defesa, a partir da alteração nos fundamentos da recepção (agora pode receber de toque, antes não, antes era só de manchete, de pé, de ombro...), o saque, embora também tenha saído do estágio bebê para uma potente cortada, também enfrenta mais resistência e a chance de um ponto se realizar para a equipe que recebe, passou a ser a origem normal dos pontos conquistados na partida.  

Nosso jogo mais longo da história, contou como avaliação do semestre. Minha equipe era a reserva da reserva da turma que estudava com o professor Serjão. Enfrentamos a também reserva da reserva do professor Serginho. Na disputa pedagógica dos Sérgios, eu, com meu metro e cinqüenta, bem medido, de altura, figurava como saída de rede. Os mais aquinhoados física e tecnicamente ainda enfatizavam: “saída, bem na saída de rede, quase fora da quadra”. O jogo era na regra da vantagem. Dois times ruinzinhos. Ninguém fazia ponto. Era só vantagem. Começamos a peleja com o sol das quatro ardendo no cocuruto. Pelas oito da noite, com muita peleja avançamos dois sets. Mas a fome já se anunciava, a sede era daqui pra’li e para alguns de costumes mais austeros, estava era dando a hora de dormir. Os Sérgios se deram por satisfeitos no método e no enredo. Lançaram R pra todo mundo, acordaram promulgar um diplomático empate e encerrar a partida ao arrepio da regra. Eu que bem na saída da rede estava, fui um dos primeiros a procurar o caminho de casa.

 

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

crônica da semana - Espelho sem aço

 Espelho sem aço

Ai de quem passasse na frente da TV na hora aquela que minha avó estivesse ligada na novela. Pegava um carão e recebia a ordem eivada de nocivo enfezamento: “sai da frente, espelho sem aço”. Queria dizer com este ralho que a pessoa se presumia transparente, e poderia estacionar ali de confronte à TV sem atrapalhar ninguém.

O aço que minha avó se referia é uma demão de produto metálico aplicada a uma face da placa de vidro e que lhe permite a propriedade da reflexão. Esta composição produz a superfície que, na regra, chamamos de espelho. Sem esta camada metálica resta a transparência do vidro. Era este o entendimento de minha avó: o intrometido da vez se achava penetrável, sem segredos. Oferecia, através de si a fantasia, a tensão, a emoção e as esperanças apregoadas pelos dramas da novela.

Foi assim, sem camadas de aço a espelhar personalidades, dramas e jeito de ser de outras pessoas que meu amigo tentou viver, nos tempos plúmbeos do regime militar, lá no esquecido vilarejo que margeava o rio Pium, interior do Amapá.

Encontrei com ele por agora, num evento cultural realizado na Praça da República. Anos e anos sem notícia. Bem mais velho que eu, era meu companheiro nos movimentos de resistência à Ditadura, ali pelos idos de 1979. Naquela época, ainda bombas explodiam em bancas de jornais, e militantes sumiam assim...

Ele era bem visado e numa de nossas mobilizações, reunindo estudantes da Escola Técnica ele foi identificado, monitorado, seguido. Por pouco não foi preso. Conseguiu escapar varando os quintais apinhados de camapu que ainda grassavam na Pedreira. Conseguiu apoio, fez contatos, tirou novos documentos, pegou a família e saiu de cena.

Reapareceu com outra identidade e profissão naquela comunidade nos estirões do rio Pium.

Eu só o reencontrei agora, passados quarenta e tantos anos, por uma sucessão de coincidências. E valeu a pena. O homem, avô hoje, assim como eu, tem história. Uma em especial me tocou bastante. Ouvi atento, enquanto tomávamos um café com tapioca, ao pegado do Teatro da Paz.

Ele contou que, embora o Amapá pudesse representar segurança por ter difícil acesso, à época, era área de segurança nacional e este fato levava uma boa quantidade de agentes e também um contingente significativo da repressão pra lá.

Ressabiado, largou-se às brenhas. Subiu o Pium.

Na comunidade, primou por uma conduta vítrea sem camada de aço que o mimetizasse. Era um ser único, transparente. Professor, casado com a enfermeira, dois filhos que jogavam bola até bem; de vez em quando viajava até Macapá e de lá trazia novidades, mimos importados, brinquedos para distribuir no Natal à criançada da beira.

Alugavam a casa de uma senhora bem dada, esperta que só ela.

Viveram por lá o tempo que deu para a anistia. Quando os ventos da democratização sopraram, resolveram voltar pra Belém.

À hora da despedida, decidiram contar a verdade para a senhoria. Revelaram que estavam ali como clandestinos, que eram mantidos pelas aulas e atendimentos que prestavam na região, que estavam fugidos da repressão, que levavam a vida na comunidade mostrando um comportamento baseado nas idéias que defendiam. No meio da conversa, a senhoria fez uma declaração. Sabia desde que tempo da situação deles. Os filhos muito inteligentes, observou ela, a mulher generosa, que por vezes nem cobrava pelo trabalho de enfermeira; ele lia muito, jornais, livros grossos, tratava a mulher muito bem, dividia as tarefas da casa, não reclamava se ela saísse e se demorasse pela noite, a vitrola tocava músicas bonitas mas que ela não entendia; uma família que partilhava o que tinha com os outros. Gente assim, só pode ser da laia subversiva, concluiu conformada, a senhoria. Ao se despedirem, um morador da vila postou-se entre eles. O barco estava de partida. A senhoria ralhou. “Sai da frente, espelho sem aço”. O morador não saiu. Ficou ali, refletindo a inconveniente realidade.