O Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu
Fosse comigo, eu me
revoltaria logo. Não, ninguém num vai! Sugeriria sem tremer os beiços. Vamos lá
só tu! Eu, heim! Eu é que não iria me meter nessas bocadas. Esse herói grego
pôs a turma dele em cada encalacre.
O herói é um personagem da
narrativa épica grega que eu chamei a vida toda de Ulisses e agora, por causa
do neorenascimento provocado pelo lançamento do filme, passei a conhecer como
Odisseu. A história conta as aventuras do rei de Ítaca logo que termina a guerra
de Tróia. No quê de voltar pra casa, o herói se mete numa arenga com o gigante
de um olho só e pega uma senhora de uma prenda do pai dele, Poseidon, um deus enfezado
que só ele. Só de mau o fanchão dos oceanos faz de um tudo para Odisseu vagar
de água grande em água sem fim dos mares por dez anos, se virando nos trinta de
tantos perigos que ele encontra pela frente. Corta um dobrado nessa aventura.
Perde o barco, toda a tripulação tem um fim trágico e o herói se vê atado a um
nó difícil de desatar. E é aí que o Xingu entra na parada.
Fosse no trancoso poético,
dava era o desdobro. Mas na vera, nas desobrigas do trampo brabo, tive que
encarar os desafios do Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu.
Um dos perrengues que
Odisseu passa, aquele no dito aperreio em que ele perde meia penca de marujos
que navegavam perdidos com ele, acontece no estreito de Messina. A história
fala que é um canal solitário, perdido no oceano que guarda numa das bandas, um
monstro horrível que tem seis bocas esfomeadas e na outra banda um funil de
água que engole quem passa por lá. Dizem até que o ditado popular que põe uma
pessoa “entre a cruz e a espada”, vem desse afogueado do herói se meter entre
estas duas bandas malinas. Mas o Xingu nem entra na história por causa desses
monstros bandados e medonhos. Dá o tom e o verso é no exato formato do canal.
Um caminho de água estreito ladeado por imensas paredes rochosas.
Pois bem. Eis que certa vez,
desenrolando a vida na minha odisseia amazônica, varei, na minha canoa, em um
estirado de água apertado, profundo, silencioso, e aparado de um lado e de outro
por uma potência de pedra monstruosa de alta e amedrontadora. Na hora lembrei
da sequência que tinha visto em Ulisses (naquele tempo era Ulisses ainda), um
filme que era vezeiro de passar na sessão da tarde. E que apresentava um
cenário, uma movimentação, uma tensão escritinha àquele que eu sentia ao cruzar
aquele canal que corria escondido pela margem direita do Xingu.
No filme que enreda esta
minha passagem, me ocorreu que as paredes de pedra se mexiam, indo uma contra a
outra, em tempo de amassar o barco do Ulisses bem amassadinho. Esse era meu
medo. Eu e minha turma nos aviamos nos remos. Ninguém deu uma palavra. Não houve
partilha de medo ou mal’impressão, desde que entramos naquele desvio. Mas foi
automática a nossa decisão de acelerar o ritmo. A gente a bom remar. Olhávamos
uns pros outros, lançávamos olhares salteados para cima e para frente do
caminho para nos certificarmos que as paredes rochosas não estavam ensaiando
nos espremer e... a gente a bom remar.
Era um lugar encantador.
Fascinante. Como outros lugares fantásticos que conheci ao longo da mítica Volta
Grande do Xingu. A semelhança com uma alegoria épica só temperou aquele dia.
Pôs um adianto de emoção em uma jornada de trabalho que tendia ser rotineira.
Aquele ponto do rio era objeto de estudo porque se localizava em uma estrutura,
digamos, bandada (olha aí, os monstros de Messina). Acima, as corredeiras
assanhadíssimas da Volta Grande. Abaixo, um encaixado de 70 metros de largura
por onde passava toda a água que corria num largo de mais de 2 quilômetros lá
atrás. E no meio, o poético Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu com
suas gigantescas paredes de pedra, o silêncio, o medo contido. E a gente numa
aventura (a bom remar) inesquecível.