sábado, 22 de agosto de 2026

crônica da semana - régua tê

 A anatomia (e a psicologia) da régua Tê

Nos primeiros dias de aula e ainda por um bom tempo, mesmo às vésperas de mudar o bolso de ‘básico’ para ‘profissional’, a galera pegava no pé de quem chegava à Escola agarrado a uma régua Tê. A encarnação, ou, que seja, o bullying era certo.

O ensino do Desenho Técnico era traço (ops!) essencial na formação de quem ingressava na Escola Técnica, na minha época. Exigia uma estrutura de sala de aula diferente, dotada de mesas especiais (pranchetas), professores destacados, bancos altões pra gente alcançar as mesas. E uma série de componentes, os ditos materiais de desenho. Dentre eles, a perseguida e bulinada régua Tê.

Tratava-se de uma peça bem indiscreta e representava uma disciplina de entrada na Escola. Sinalizava um aluno novato, calouro ou no dialeto preconceituoso da época, ‘aluno mobral’. Era inevitável. No caminho para as salas de Desenho, ali pela pracinha que ficava em frente à biblioteca, aquela romaria de novatos portando régua Tê era homenageada com vaias, afrontas e dizeres impublicáveis. Era um ciclo, sabíamos. Dali a algum tempo, os alunos xingados passariam a ser os xingadores.

Fosse eu um estudiosos dos interstícios da mente, cavucaria termos e conceitos que explicassem estes comportamentos naquele ambiente, no esperado, de aprendizado. E também, pesquisaria os efeitos psicológicos resultantes daquelas encarnações. Eu, por mim, tenho é trauma. Sofri pacas. Uma porque custei a abandonar a régua Tê (outro sinal. Significava pouca destreza no traço). E noutra, porque na minha vez ainda ocorreu de a minha régua, ao contrário de todas as outras dos meus colegas que eram de acrílico, ser de madeira. Além de ‘mobral’, a minha régua indicava ali um aluno que não tinha dinheiro para comprar uma régua de acrílico. E, pelo certo, nem de madeira. A régua, chegou até mim, como fruto de uma doação. Me entanguia de vergonha entre os meus colegas, para que não me localizassem, toda vez que tínhamos que passar pela pracinha.

A realidade daquelas afrontas era que refletiam diferenças de aprendizado. O uso da régua Tê significava pouco desprendimento na disciplina e necessidade do amparo daquele componente. Com o tempo, os alunos iam ficando mais ‘safos’ e abandonando aquele artifício. A maturidade dispensava a régua Tê e as atividades de Desenho passavam a ser regidas pelo charme e pela caté no manejo do par de esquadros. A maturidade ensejava a gabolice e o preconceito. Demorou, penei que só, mas quando me dei com os esquadros, adorei. Até um dia desses, na minha caminhada profissional, mesmo ante as tecnologias, me acudia ao charme do par de esquadros para conferir traços.

Os esquadros integravam o que chamo de anatomia da régua Tê.

A régua era a peça mais robusta. Pelo comum era uma haste com 5 a 7cm de largura por 50cm de comprimento, finalizada em uma das pontas, com uma cabeça em tê. Este formato proporcionava o ajuntamento ordenado das outras peças, no corpo do acrílico (ou da madeira, no meu caso). Deixa eu ver se me lembro a organização direitinho. Ali, cabia todo o nosso material. Primeiro, o transferidor. Com a régua em pé e de cabeça pra baixo, o transferidor era introduzido e despencava até encontrar o tê, depois, o par de esquadros deslizava ao longo da lâmina, até chegar no transferidor lá na ponta. A seguir, com a fita isolante, que na aula servia para fixar o papel na prancheta, colávamos o escalímetro no corpo da régua. Acima do escalímetro colávamos a borracha branca e a flanela. Concluindo, posicionávamos o rolo de fita e o tubo montado com o papel A2, colado com durex para não abrir, e lançávamos os dois envolvendo boa porção da haste. Os lápis de vários traços e durezas iam no bolso da bata. O compasso, na mochila, porque era sempre um risco com aquela ponta fina. No coração da gente, uma batucada de nervoso porque passaríamos pela pracinha minada de moleques pouco atentados!

 

sábado, 15 de agosto de 2026

crônica da semana - juta e malva

 Juta e malva

Confesso que me encolhi de vergonha ao menor risco de ver-me representado ali naquela afirmação. A professora sem alisar o couro do paciente, disparou ferina a citação de um filósofo aquele não menos severo, que ante o impacto da carapuça, me desprendi do nome: “Não fale dos mitos aos incautos. Eles acreditarão em tudo ao pé da letra”.

O inocente aqui confessa e se enquadra: por vezes a gente vê os tempos e as artes com os olhos do simples.

Por isso a luta insistente para nos libertarmos, para nos esforçarmos espreitar além das faces explícitas e do lustro dos símbolos. A professora enriqueceu a palestra com passagens da Odisseia. Reconheço. Identifiquei ali só as pelejas com monstros, sereias, divindades. Olhos furados, ossos quebrados, beijos enfeitiçados e mar revolto. Mas tudo aquilo, ressalvou a professora, condensava uma única mensagem. Era a viagem de volta, de Ulisses, para dentro de si.

A poética lança mão de artifícios que buscam alcançar além dos sentidos. É necessário que a gente esteja de coração aberto para sermos atingidos. Daí o escape do óbvio, daí o potencial humano de aprender. E discernir.

A arte abre portas e corações e, olha só, nos aproxima da juta e da malva...

Naquela parte da discreta apreensão, lá pelos idos passados no ginásio, juta e malva eram para mim apenas a resposta para uma questão de prova. Apareciam no ponto das aulas de Estudos Regionais quando se falava de produtos importantes para a nossa economia. Juta e malva eram das principais mercadorias incluídas no pacote das produções da região Norte. Mesmo sem saber o que era aquela dupla e nem pra que servia nosso expoente de negócios, cravava sem dúvida na resposta.

Anos depois, lendo Milton Hatoum é que fui sacar a natureza dos produtos. Mais a juta. Malva sei o que é, por tabela, mas o que tem destaque no romance Cinzas do Norte, do escritor amazonense é a plantação de juta. A partir do romance, conheci uma penca de detalhes relacionados à juta. A narrativa de que a planta foi trazida no cambalacho, da Índia; o sucesso das técnicas de cultivo nos baixios amazônicos, os riscos nas operações de coleta, que por vezes impõem mergulho e jeito de corpo aos coletores, além de coragem pra enfrentar sucuris e aparentados aquáticos pouco amistosos.

Naqueles longes ginasianos de chumbo, o Brasil vivia uma fase de poucos aléns nas palavras. Os livros didáticos distribuídos pelos governos traçavam roteiros acanhados, circunscritos aos artificiais entusiasmos do momento. Ilustravam com exagerado esmero avanços e desenvolvimento. Na quarta capa traziam o hino do Pará e nos davam o simples para respondermos a questão da prova.

Outra fonte que traz detalhes enriquecedores do manejo da juta é o romance “Sementes do sol”, do escritor obidense Ademar Ayres do Amaral. Ele nos conta: “mal alimentado, o lavador de juta passa o dia inteiro dentro d’água, os dedos das mãos e dos pés terminam a jornada enrugados pelo tempo de imersão e o resto do corpo fica horas exposto ao sol... Um sol... que toma conta de tudo e de todos, como se fosse a lanterna de Deus.”

O filósofo, Platão ele, lembrei agora, é previdente quando nos alerta que a régia aspereza, a concretude insuspeita de horrores, monstros e sinistros cenários podem esconder a busca por uma paz interior. As artes, e a literatura em especial, têm mesmo esta missão de transportar juta e malva para além de uma linha de resposta curta de prova ginasiana. Aqui, acolá, a trama literária diz uma coisa quando quer dizer outra. Apresenta sucuris dentro d’água quando as ameaças aquáticas nada amistosas estão é nos justos alagados das gentes, dentro do coletor de fibras. A arte sugere viagens pelos mares sem fim quando a viagem é só uma volta em torno da gente mesmo. Tem hora que é estratégia; outra, estilo.Vai da gente sacar e escapar do simples.

Sobre o uso, a juta serve para produzir sacarias e fibras ecológicas

 

 

sábado, 8 de agosto de 2026

crônica da semana - estreito de messina

 O Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu

Fosse comigo, eu me revoltaria logo. Não, ninguém num vai! Sugeriria sem tremer os beiços. Vamos lá só tu! Eu, heim! Eu é que não iria me meter nessas bocadas. Esse herói grego pôs a turma dele em cada encalacre.

O herói é um personagem da narrativa épica grega que eu chamei a vida toda de Ulisses e agora, por causa do neorenascimento provocado pelo lançamento do filme, passei a conhecer como Odisseu. A história conta as aventuras do rei de Ítaca logo que termina a guerra de Tróia. No quê de voltar pra casa, o herói se mete numa arenga com o gigante de um olho só e pega uma senhora de uma prenda do pai dele, Poseidon, um deus enfezado que só ele. Só de mau o fanchão dos oceanos faz de um tudo para Odisseu vagar de água grande em água sem fim dos mares por dez anos, se virando nos trinta de tantos perigos que ele encontra pela frente. Corta um dobrado nessa aventura. Perde o barco, toda a tripulação tem um fim trágico e o herói se vê atado a um nó difícil de desatar. E é aí que o Xingu entra na parada.

Fosse no trancoso poético, dava era o desdobro. Mas na vera, nas desobrigas do trampo brabo, tive que encarar os desafios do Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu.

Um dos perrengues que Odisseu passa, aquele no dito aperreio em que ele perde meia penca de marujos que navegavam perdidos com ele, acontece no estreito de Messina. A história fala que é um canal solitário, perdido no oceano que guarda numa das bandas, um monstro horrível que tem seis bocas esfomeadas e na outra banda um funil de água que engole quem passa por lá. Dizem até que o ditado popular que põe uma pessoa “entre a cruz e a espada”, vem desse afogueado do herói se meter entre estas duas bandas malinas. Mas o Xingu nem entra na história por causa desses monstros bandados e medonhos. Dá o tom e o verso é no exato formato do canal. Um caminho de água estreito ladeado por imensas paredes rochosas.

Pois bem. Eis que certa vez, desenrolando a vida na minha odisseia amazônica, varei, na minha canoa, em um estirado de água apertado, profundo, silencioso, e aparado de um lado e de outro por uma potência de pedra monstruosa de alta e amedrontadora. Na hora lembrei da sequência que tinha visto em Ulisses (naquele tempo era Ulisses ainda), um filme que era vezeiro de passar na sessão da tarde. E que apresentava um cenário, uma movimentação, uma tensão escritinha àquele que eu sentia ao cruzar aquele canal que corria escondido pela margem direita do Xingu.

No filme que enreda esta minha passagem, me ocorreu que as paredes de pedra se mexiam, indo uma contra a outra, em tempo de amassar o barco do Ulisses bem amassadinho. Esse era meu medo. Eu e minha turma nos aviamos nos remos. Ninguém deu uma palavra. Não houve partilha de medo ou mal’impressão, desde que entramos naquele desvio. Mas foi automática a nossa decisão de acelerar o ritmo. A gente a bom remar. Olhávamos uns pros outros, lançávamos olhares salteados para cima e para frente do caminho para nos certificarmos que as paredes rochosas não estavam ensaiando nos espremer e... a gente a bom remar.

Era um lugar encantador. Fascinante. Como outros lugares fantásticos que conheci ao longo da mítica Volta Grande do Xingu. A semelhança com uma alegoria épica só temperou aquele dia. Pôs um adianto de emoção em uma jornada de trabalho que tendia ser rotineira. Aquele ponto do rio era objeto de estudo porque se localizava em uma estrutura, digamos, bandada (olha aí, os monstros de Messina). Acima, as corredeiras assanhadíssimas da Volta Grande. Abaixo, um encaixado de 70 metros de largura por onde passava toda a água que corria num largo de mais de 2 quilômetros lá atrás. E no meio, o poético Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu com suas gigantescas paredes de pedra, o silêncio, o medo contido. E a gente numa aventura (a bom remar) inesquecível.

sábado, 1 de agosto de 2026

crônica da semana - paradoxo das samaúmas

 O Paradoxo das samaúmas

Eis que caminhando ali pela Duque de Caxias, avistei a samaúma completamente pelada. Só a casqueta. Nenhuma ramazinha pra remédio. Nenhuma flolhazinha de lembrança. Deixa que nem me adiantei o tanto que desse na pisada pra pingar o suor da testa e logo que bem na esquina da Marquês de Herval com a Barão do Triunfo, constatei de palmo em cima a samaúma que reina por ali estar minada de folhas. Uma árvore rica, toda composta na prodigalidade exuberante de uma copa saturada de verde. Como é que pode, né, distância que não denuncia sequer o caminhar de três estirões bem contados, mesmo sol que nos cabe a todos, época do ano do pleno julho, Terra inclinada do eixo, no mínimo do nem bem lá e nem bem cá e as duas árvores exibindo-se em roupagem completamente diferente. Uma no mais puro liso do tronqueio enquanto a outra têi têi, esbanjando clorofilamento na folhagem do cá do embaixo ao lá do muito em cima. Por que será? Eis a questão.

Nem lembro em que passagem da vida eu obtive esta informação. Acho que foi numa das minhas tentativas de passar no vestibular. Sem fazer cursinho, migrava de um livro emprestado pra outro e com alguma urgência. Tinha pressa em conhecer os assuntos e sempre pouco tempo pra aprofundar. Em alguma publicação de Biologia, dei com uma explicação, que até hoje acho de uma elegância impecável, para o fato de, em determinada época do ano, as árvores perderem as folhas. Esta época, conjugada com a posição geográfica da região e a inclinação da Terra, é conhecida como outono. É um período que compõe as estações do ano. Vem depois do verão e antecede o inverno. Aí é que vem o tico de elegância. Nos parâmetros geográficos e atmosféricos que marcam as estações, consta que no inverno registra-se pouca chuva e no verão, o pampeiro não alivia a carga. Ocorre que durante o tempo de chuvas abundantes, as árvores são bem hidratadas e também, naquilo que dá de sol, liberam água para a atmosfera (em quantidades tantas que geram os rios voadores). Para cravar no estilo de deduzir as coisas, li no livro, e reconhecemos este fato no simples caminhar no bosquinho, que a água acumulada nas árvores é transferida para o ambiente através das folhas, num processo conhecido como transpiração. Uma troca de tal forma responsável que na época de pouca chuva, as plantas para não ficarem desidratadas recorrem a uma arte radical da evolução: perdem as folhas. Assim, a via de dispersão de água é cortada e as árvores garantem reserva de suprimento para hidratação até a volta das grandes águas. Estas regras, observo, são controladas pelas particularidades espaciais do planeta. E valem mesmo na vera, para regiões mais perto dos polos. Quanto mais sentida a inclinação da Terra, quanto mais próximo dos polos, mais impacto o ambiente produz nos eventos naturais. Quanto mais distante dos polos, vindo aqui para os arredores do Equador, a gente mal percebe as mudanças ou se percebe, elas são mínimas. Uma época chove muito, em outra, chove pouco e estamos conversados. Aqui a samaúma dá o papo. E de uma forma desafiadora.

Como meus conhecimentos do metabolismo das árvores e do suspiro dos vegetais se resumem àquelas páginas encarreiradas que li no livro de Biologia, numa consulta às vésperas da prova do vestibular, provoco aqui os entendidos para me aliviarem desta dor atroz que a dúvida me impõe.

Agora na Amazônia, entramos na fase do ano que chove pouco. É de se esperar uma vuca de árvores desfolhadas dominando o cenário. E a bem do dizer, a samaúma é a mais amostradinha. Aquela que do longe mesmo das vistas a gente dá definição.

Ocorre que quando miro e vejo, dou é de encontro com o paradoxo, do o que é não sendo. Com a família das samaúmas em descompasso, de uma amostradinha esbanjar as folhas prendidas na unidade da árvore e a outra bem ali no perto constar no observado como a mais pura carência de folhagem e ramas. Por que será?

sábado, 25 de julho de 2026

crônica da semana - ouvido de mercador

 Ouvido de mercador

Eu sou um. Quando saio para a caminhada ou para uma prenda rápida na rua, enfio o fone no ouvido.

O ditado surgiu lá pelas quantas do tempo e se refere ao fato de comerciantes e caixeiros evitarem dar atenção às reclamações que a freguesia expressava em comentários e interpelações aqui e ali. A intenção era ficar na deles. Passar o produto, receber o numerário, dar a volta de troco, caso o caso exigisse, e tornar ao mundo das vendas. Fazer ouvido de mercador é priorizar o negócio e a paz interior. Atualmente, mais a paz interior.

Para um contador de casos não é um bom termo sair por aí dando uma de mouco para o vulgo ou para o erudito. Afinal, o alarido fiel, a tempestuosa fofoca... os imponderáveis reclamos, as retóricas proclamas e até mesmo o discreto cochichado do dia formam a matéria-prima do cronista. Tenho, então, que me fiar nos conceitos e na sempre amiga imaginação para desenvolver temas e situações por causa deste anteparo circunstante que é o fone de ouvido.

Mas nem sempre foi assim. Meus ouvidos já se dispuseram à larga. Em outros tempos. Sem o risco do melindre ideológico, sem a ditadura da rasa opinião ou a insanidade moralista. Minha atenção já foi ampla, atenta às simpatias da comunicação.

Ocorreu certa vez, quando da minha volta, desde que saí de lá com 5 anos, ao Acre. Eu já estava taludinho, trampando ali perto, em Rondônia, quando numa folga, dei uma escapulida pra conhecer minhas origens. Foi um bate-volta extraordinário. Todas as minhas fantasias embarcaram comigo no ônibus que saiu da rodoviária de Rio Branco e se largou na direção do Xapuri, ali pros lados do poente. A sensação era de que o dia nunca acabava. O oeste era um fim de tarde sem fim. O ônibus naquela velocidade fantasiosa não deixava o sol se distanciar, não deixava o crepúsculo se realizar. Estávamos envolvidos num portal de momento único. Dominador. Que não permitia o sol se pôr. Não admitia que o tempo passasse. Em termos de coisa e de loisa, aquele motorista conduzia uma máquina que alcançava a façanha de fazer a Terra parar. Daí, numa parada de beira de estrada, o homem embarcou.

Eu, sentado numa das poltronas na frente, me certificando a cada instante que o sol nem seu Souza, não se mexia, não embicava no horizonte de jeito e maneira. Íamos ao encontro do sol e aquela bolona alaranjada lá no céu, nos esperava. O homem acomodou-se na poltrona parelha à minha, do outro lado do corredor. Numa posição oblíqua à nossa, um menino, acompanhado da mãe. Do que entrou no ônibus, até bem mais perto do horizonte, no ponto em que desceu, o homem da estrada não parou de falar. Falou mais que o homem da cobra. Em dado momento atinou que o menino olhava pra ele com um ar de curioso. Enviesou o olhar, inclinou-se e se dirigiu ao menino, meio pândego, meio inquiridor: “tás me olhando, heim! Tá me conhecendo de onde, do jornal ou de uma lata de banha?”.

Para um contador de casos com os ouvidos ligados no mundo, aquela pergunta foi um verso abonador de que vale a pena escutar a voz que vem dos vetores esquecidos que levam ao oeste. Não mais descolei daquelas palavras sem grau algum de etilo ou significado. Doce bandalha entre poltronas de um ônibus que não voava, não cortava meridianos, não deixava o céu escurecer e nenhuma estrela nos guiar, quer dizer, deixava sim. O sol, a nossa estrela, estava ali vermelhão só na espia.

O mundo era bem melhor quando as latas de banha traziam o rosto das pessoas humildes e sinceras estampadas na chapa gordurenta. Quando uma foto no jornal inspirava curiosidade ou admiração e quando o corredor de um ônibus era inundado de conversas jogadas sem a severidade da lógica, para dentro da gente.

Esses dias fui ao supermercado sem fone de ouvido. Uma música gritada saturava o ambiente. À saída dois homens discutiam o destino de um terceiro. Papo de macho alfa. Eu ouvi tudo. E foi tudo sem sol pra dentro de mim.

 

domingo, 19 de julho de 2026

crônica da semana - não vai ter capa

 Não vai ter copa

Para alguns, até amanhã, ainda vai ter copa. Para nós apaixonados pela seleção canarinho, não. Apesar da fé, não adiantou. Caímos fora foi cedo. E põe cedo nisso. Conforme a atualização da tabela, e também a depender de uma comparação entre os modelos de classificação adotados ao longo das edições anteriores, podemos sair da competição com a pior colocação do escrete brasileiro em todos os tempos de copa do mundo. Após uma passagem discreta e sem empolgação pela fase de grupos, ainda nas oitavas de final fomos tomados por uma certeza: para a imensa torcida brasileira, não vai ter copa. Este torneio mundial foi para a nossa seleção um 7 a 1 sem trauma, um fiasco sutilmente fracionado, diluído em sonhos que, sabíamos, não se realizariam. Diria que, ao menos, foi um fim piedoso, sem o choque e o baque bruto provocados por uma goleada. Ao contrário. Nossa atuação nos preparou, nos deu perceber um revés se anunciando aos poucos, carregando a frustração crescente e se desenhando a cada passe mal resolvido, a cada jogada ineficaz, a cada arremedo tático executado dentro das quatro linhas. Um fracasso a passos lentos. Não nos restou o consolo da nobreza na derrota nem há vez para a dignidade na tragédia. Toalha ao chão, não nos interessa o discurso da queda com a cabeça erguida. Magoamos. Queríamos mesmo era o caneco!

A saída precoce da seleção brasileira da copa do mundo tem conseqüências para um país que respira futebol. O ar benfazejo e salutar das conquistas nos faltou. Mas não foi só esta perda que nos abalou. Prejuízos foram acumulados. Calendários comerciais foram redimensionados, um número incontável de camisas amarelinhas foi posto ao largo tão logo o artilheiro nórdico nos imobilizou com aquele chute um tanto displicente, selando o placar que nos mandaria de volta pra casa. Dali, parte dos torcedores desligaram a atenção do campeonato e foram cuidar da vida. Até sem dor, é possível admitir. O Brasil não prometia tanto. Embora nomes consagrados compondo a equipe, técnico com histórico de vencedor, e uma empafiazinha residual vingando, os números não abonavam a cega confiança. Além das crises no comando do futebol brasileiro, o próprio time no período preparatório para a copa, não deu sinais que teria um bom desempenho. Encarreirou resultados desfavoráveis, repetiu erros de convocação e de esquema tático, não adensou o conjunto. Chegou à copa sem personalidade e sem corpo. E abonado por um, tempo atrás impensado, quinto lugar alcançado no aperreio das eliminatórias pela zona sul-americana, na fase de classificação para o campeonato mundial. Avaliando sem paixão, a equipe não estava com essa bola toda mesmo.

É uma desconfortante realidade. Desde a última conquista, em 2002, não houve um respiro aliviado. O futebol brasileiro vem pelejando à margem das grandes equipes. Mesmo no âmbito dos clubes. Observamos uma organização no futebol internacional que concentra talentos. O Brasil, na contramão, dispersa os bons valores que aparecem por aqui. O resultado é um elevado padrão competitivo encontrado na Europa e até Oriente Médio e Ásia, enquanto que no Brasil, o futebol caminha nos limites do tecnicamente razoável.

Amanhã não vai ter copa para o Brasil. Daqui a quatro anos, porém, esperamos disputar a final. Urgem medidas que garantam a certeza de uma vitoriosa participação no próximo mundial. Movimentos imediatos que compreendam a efetivação de um técnico competente, uma agenda de convocações racional. Ainda, oportunidade a jogadores que se destaquem no cenário doméstico e que possam compor planos de amistosos e treinamentos mais freqüentes. Necessário também, paciência. Baixa pressão na cobrança por resultados, em um primeiro momento. O trabalho deve crescer e aparecer a partir da integração dos fatores que favoreçam e reanimem a excelência do futebol brasileiro. Talento, ginga, calendário, gestão e sim, sim, paixão.


sábado, 11 de julho de 2026

crônica da semana - sapato da hermes

 Pisante marrom

O sapato, no original, nem era preto. Era marrom. Mamãe ganhou numa daquelas premiações que a Hermes dava para as vendedoras que se destacavam no mês. Podia escolher, no catálogo, os produtos que satisfizessem a pontuação que ela alcançara nas vendas. Como eu estava na pira de sapatos, largou mão de outras precisões e me autorizou escolher um par do meu agrado. Bati o olho no marronzinho com o bico saliente, costura em relevo nas laterais, sem cadarço, em modelo só de enfiar o pé mesmo; e que quando chegou, valorizou minha escolha porque o bichinho era macio, confortável que só ele. Me dei.

Era comum, naqueles anos 80, diante dos aperreios diários, a família se agarrar a qualquer oportunidade de faturar um numerário. Teve a fase dos catálogos, ou como enfatizado na corruptela de mamãe, ‘catálago’. Pra tudo em quanto a gente tinha uma revistinha apinhada de ofertas. Mamãe oferecia seus préstimos empreendedores a todas as franquias da onda. O custo era ter o catálogo. Tivesse, estava dentro. Batia esta Pedreira velha todinha, fizesse sol, chuva fizesse, com a sacola debaixo do braço, sortida de amostras grátis de batons, perfumes, e ainda, acrescida de peças íntimas femininas, e toda a sorte de estímulos visuais contidos nos mostruários ilustrados.

Calhou que dessa arrumação toda de artigos e produtos, me saísse um alento que me acompanhou até eu me formar. Não foi assim de prima. Houve a alteração da cor. A Escola Técnica tinha seus controles e não admitia desvio no uniforme. Era a tradicional bata azulzinha, com o bolso identificando semestre e curso, calça preta e sapato preto. Eu segurei o que pude o meu Bamba na lida. Aliás, durante o reinado do Bamba, fui beneficiado com a vista grossa dos inspetores, pois que não podia. Era preto com detalhe branco na biqueira e no solado. Tive que ser muito rapaz umas quantas vezes para poder entrar na Escola com ele, apesar das bacanagens dos bedéis. A linha era dura. Até que o pobre rasgou de não ter jeito. Eu tinha lá o meu sapato da Hermes, mais que depressa consegui uma graxa preta com minha pariceirada da rua e dei-lhe uma mão dupla da pasta até o pisante tisnar por inteiro. Ficou no jeito.

Estava na reta final da Escola, dois ou três semestres para encerrar o curso. Exatamente a pior fase de grana na família. Sustentar quatro bocas não estava sendo fácil. Mamãe ainda ficou na venda dos catálogos, mas acumulou outras fontes de renda. Conseguiu uma barraca na feira. Lá era o nosso ponto de apoio, a matriz das nossas marretagens. Revezávamos os turnos da barraca, a venda nas ruas, ocupações no lar e os deveres escolares. Ainda assim, na viração intensa em escala 7 x 0, a maré banzerou pro meu lado. Nessa época, as atividades no curso ganharam componentes mais técnicos e caros. Papel vegetal, tintas e canetas Nanquim, papel milimetrado, cópias fotostáticas de mapas e imagens de radar landsat, além de viagens de campo com parte do custo jogada nas nossas costas. Tudo ia muito além das minhas posses. Eu não dava mais conta. Faltando tão pouco, desvaneci.

É nessa hora que a gente sente que não está só. Os inspetores, meus colegas de turma, professores e simpatizantes do meu jeito de ser e ter fé na vida uniram-se e seguraram a minha onda. Do meio pro fim, eu não gastava mais era nada com os trabalhos ou uniforme. Cheguei a ter mais batas que os meus colegas porque dona Joaquina, que era a inspetora do nosso bloco, recolhia de cada turma que se formava o que desse de material e uniforme e me dava. Terminei o curso como um pequeno Frankestein, construído com a bata de um, a calça de outro, a caneta nanquim daquele, o papel vegetal deste... A única posse que me era original, não na cor, era o sapato que mamãe resgatara da Hermes.

Essa semana,vi na reportagem que os milionários jogadores brasileiros da copa usam os produtos da Hermès. Comentei com a família: temos algo em comum.