sábado, 4 de abril de 2026

crônica da semana

 O alpendre

Nem era assim, minha amiga de rocha mesmo. A coisa foi acontecendo aos poucos. Fazia parte de outra turma. Vez em quando nos topávamos pela noite, no restaurante da japonesa, ali pela beira do rio, no balneário do Pedral. E assim, nessa batidinha, fomos nos envolvendo. Mesclamos as turmas. Dava até de nem maldarmos, e de repente, um estava na programação do outro sem combina. Formamos uma terceira via. Mais diversa, bem mais liberal, avançadinha, diria, para os prazeres mundanos. Um grupo que discutia política, apreciava alguma arte, e fazia questão de se perder pelos escondidinhos alternativos por ali, pelas ruas descendo a Manoel Umbuzeiro. Fechávamos bares, na superação; ainda, fazíamos trilhas, explorávamos cachoeiras, cavernas, acordávamos uns aos outros jogando pedra na janela do quarto e depois é que pampampam, batíamos na porta. Quando dei fé, já tomava conta do sofá da casa da minha amiga, comparecia na horinha certa do almoço, e de manhã, me enxeria para dizque, experimentar as combinações de jerimum com leite e aquelas tapiocas grossonas que a mãe dela fazia. Nos tornamos unha e carne. Tinha ciúmes dela com um sujeito que ela, aqui, ali, namorava. Do sul e que fazia parte daquela outra turma. Calhou que ele não se deu com as novas composições, com a terceira via, daí ela se saiu e namorou um amigo chegado meu. Menos pior.

Foi a primeira a chegar a minha casa, de tardezinha, já a noite caindo.

A casa era um brinco. Um refinado traçado na arquitetura de Altamira. Alugada pela empresa, abrigou o engenheiro residente, depois o administrador e já o projeto em risco, fomos nós, da área técnica pra lá. Com pouco mais, veio uma onda de demissão, e levou o bocado que morava comigo. Fiquei morando sozinho um bom tempo naquela mansão. Eu, na companhia do cachorro e do Verdugo, que era o vigia da noite e passava o turno no alpendre. Um tempo suficiente para roteirizar dias e noites de folgas e folguedos pra lá de animados. Verdugo ficava piriricas diante das liberdades exageradas oficiadas em nossas contumazes celebrações. O detalhe é que esta casa de extremado bom gosto era de um dos primeiros garimpeiros a enriquecer em Serra Pelada. Voltou pra cidade que era o puro ouro, o homi. Contratou engenheiros, arquitetos. Tinha quatro quartos, a casa, jardim, e um simpático alpendre de onde eu via Helena passar todo início de noite. O primeiro dono garimpeiro torrou toda a grana, perdeu a casa, foi morar na Brasília e por fim, trabalhava como cozinheiro do meu acampamento no Xingu. Era baixo, gordinho, cara redonda e ganhou um apelido lá no campo, indo lá e vindo cá no recato, de toda sorte, impublicável.

Naquele meu último dia, a casa esteve foi movimentada. Antes do anoitecer, a turma chegou. Os convidados trouxeram salgadinhos, bebidas e alguns instrumentos. Nos acomodamos na sala, fizemos brindes, iniciamos uma cantoria. Érica logo se desinibiu. Foi se achegando pro lado de Pedro. A moça era bela. Parecia uma boneca. Pele aporcelanada. Pose de miss. Namorava com Júlio, um dos mais cobiçados herdeiros da cidade. Pedro era bonito e pobre. Não deu nem a conta de mais um brinde e os dois sumiram lá pra dentro.

Já a noite se instalara. Minha melhor amiga pediu que eu largasse o violão um instante e fosse lá fora. Era Júlio atrás da Érica. Não entrou, não passou além do alpendre. Era distante da gente, de outra laia. Eu disse que não sabia dela, andava com esta galera mesmo, mas por aqui, não está não, afirmei. Não voltei pra sala. Fiquei no alpendre esperando Helena passar na sua motinha. Quando ela chegou, viu aquela arrumação e deu pra trás. Nem desligou o motor. Falou pra eu me arrumar.

Conheci Helena revelando filmes da minha Olympus Trip 35. Trabalhava numa loja da Sete. Me engracei. Não era bonita, nem sedutora, nem espevitada como as meninas da nossa turma. Tinha um olhar triste, e um jeito extraordinariamente acolhedor. Vivia num mundo muito, mas muito distante do meu. E isso me encantava. Morava ali na estrada do aeroporto, pros meus lados. Quando estava na cidade, todo dia a esperava para nosso namoro de porta. Sempre parava, desligava a moto e se demorava. Falava pouco e se denunciava em banalidades e medos. Não aprofundava assuntos, nem enxerimentos. Jamais ousou avançar o sinal, nunca se adiantou além do alpendre...

Verdugo chegou e isso era sinal de que já estava na hora. Com a ajuda de minha melhor amiga encerrei a festinha de despedida. Fomos recolhendo a turma que estava lá pra dentro. Pedro e Érica estavam exaustos, curtindo a convalescência daquela aventura proibida. A galera foi embora, minha melhor amiga foi com eles, com cara de choro. Depois, peguei minha mochila, fechei a casa e dei a chave para Verdugo. Mandei um tiau pro cachorro e desci pra calçada.

Helena foi me buscar e me levou pro aeroporto na mobylette dela. Nunca arriscou avançar além do alpendre.

 

 

 

 

sábado, 28 de março de 2026

crônica da semana - vinte anos

 Meus vinte anos

Por uma beiradinha de tempo não publiquei esta crônica na justa data daquela primeira vez, posto que foi no dia 27 de março de 2006, um dia como ontem, que estreei aqui na coluna. E daqui não desapreguei. Bati a conta dos 20 anos num repente de admirar. Quem diria. Todo sábado, durante tanto tempo!

Nesses vinte anos, me dou é por satisfeito por manter uma coluna fiel aos meus pendores literários; e por me encontrar consciente de uma possível representatividade. Na humildade, porém, botando fé no meu fraseado.

Tenho pra mim que, na minha vez, posso dar voz a uns quantos escritores, poetas, criadores da nossa terra. Considero que trago a marca da Academia de Letras que me acolheu, e tento, com o meu baquezinho, com o estilo que dou às minhas prosas, homenagear uma mina de gente que veio antes de mim, que abriu caminhos para um contar próprio regional, ou belemense, que seja. Puxo a brasa do regionalismo para minha sardinha.

Eu me sinto, de vera, uma pessoa afortunada, enriquecida da graça ao manifestar minha arte, imprimir meu talento nas páginas do jornal. Fosse aqui ou ali, já seria uma senhora duma lisonja, imagine só por esses longos vinte anos. Vale que só uma pavulagem.

Passados esses vinte anos, também me imponho reflexões mais práticas, coladas às realidades nada fáceis que vivemos (nunca que iria imaginar que a minha escrita fosse dar de encontra com guerras tão ameaçadoras neste mundo espremido em interesses, nem se bater com a beligerância de zap, neste nosso Brasil varonil que a insanidade engoliu).

Da parte da lida criativa, o cenário nos aponta que os desafios enfrentados pela cultura são inúmeros. Destaco então que a existência de uma coluna, um espaço destinado à literatura, especificamente à crônica, ocupado por escritores da terra, incorporado à rotina editorial de um jornal, por anos e anos, chega a ser uma profissão de fé, um compromisso ousado, sério, em favor de uma tradição estilística. Por aí a gente tira... Escrever é sim, libertar a alma, entregar-se ao lirismo, ao sentimento, às fantasias, à poética erudita ou mundana, mas é também, uma responsa.

Quando penso dessa forma, dando tino à produção literária, os meus primeiros dias na coluna, lá em 2006, me voltam contextualizando.

Naqueles dias, a coluna era minada de bambas. Jornalistas, escritores de primeira linha. Um dia pra cada. Peguei a terça-feira. Dali em diante, fui me enxerindo entre as estrelas. E que bom, fui bem aceito. Embora houvesse uma turma aquilatada, com qualidades literárias expressivas e eu, um desconhecido no meio, não tive um melindre sequer. Muito pelo contrário, fui acolhido e me dei conhecer os outros trabalhos, os estilos, as técnicas. E vi que poderia cavar espaço para o meu jeitinho de escrever. Havia vaga.

E fui varando, rente como pão quente. Passei pro sábado. Fazendo a conta no justo da matemática e no desfolhar da folhinha do Sagrado Coração de Jesus, seriam 960 crônicas publicadas. Dando o desconto de umas ausências programadas e participações especiais de outros escritores; vamos estimar publicadas mesmo no jornal impresso, umas 900 crônicas. Vá lá que seja. Um número que considero porrudo já. Temas diversos, umas crônicas mais aquelas, outras nem tanto; umas tímidas e outras até premiadas. Em tudo por tudo, e por fim, é minha obra. Que me envaidece e, olha só, dizque arranca deste filho de seringueiro uma lasquinha de orgulho. Um acreaninho que correu o risco de nem aprender a ler, naquelas lonjuras ocidentais, e como dizia a mamãe, perigava não vingar porque sofreu com uma paralisia infantil e teve um tempo que nem andar andava... Pr’aquele Raimundinho amofinado, marcar as páginas de um veículo de comunicação de nome, atingir leitores em todos os cantos, provocar empatia com histórias comuns, em tantos anos encarreirados, são artes que dão uma teba duma forra, uma monstra duma valência.

 

 

sexta-feira, 27 de março de 2026

crônica da semana

 Escala 6 x 4

 

... A empresa nos apertou em um nó que levou muitos anos para ser desatado. Como parte desta manobra ‘na calada da noite’, constava a mudança imediata da tabela de turno. Item de negociação devidamente referendado no novo Acordo Coletivo, agora celebrado com o nosso novo representante.

O resultado dramático para nós foi que trocamos a dinâmica de nosso trabalho de turno, admitindo uma tabela de ritmo absolutamente cruel. Passamos a trabalhar na malfadada escala    9 x 9 x 6, composta por apenas quatro turmas e, consequentemente, com período de folga reduzidíssimo. Trabalhávamos 7 dias, folgávamos 1dia. Mais 7 dias, folgávamos 1 dia; Mais 7 dias, folgávamos 2 dias. Sendo os horários de trabalho de até 9 horas para as jornadas diurnas e vespertinas e de 6 horas, para o turno da noite.

A relação de dias trabalhados para dias de folga era no patamar asfixiante de 5,25/1. Um ritmo que denunciamos insistentemente, como desumano. Só como comparação, hoje a nossa tabela, bem mais humanizada, compreende jornada de 6 dias, seguidos de 4 dias de folga, perfazendo uma relação de 1,5/1. Anos mais tarde, quando recuperamos a tabela francesa, o que conquistamos, verdadeiramente, foi a retirada de um fardo pesadíssimo das costas do trabalhador.

Aquela tabela inicial imposta, com a fábrica ainda se ajustando, com manobras operacionais exaustivas e jornadas longas provocava um desgaste enorme nos trabalhadores. Vivíamos praticamente para a fábrica e depositando lá boa parte de nossas energias. Aguentávamos porque éramos fortes e precisávamos, mas fácil, fácil, não era.

A mudança impositiva da tabela foi o item mais traumático quando da independência da empresa, mas outros benefícios ou foram diminuídos ou foram retirados, como por exemplo, a concessão de tíquetes alimentação, que sumiu do novo Acordo; as progressões salariais, que seriam, ainda definidas desvinculando-se do padrão anterior; o valor das horas extras, que por ser normativo foi adotado pelo mínimo; e a ausência de representante da fábrica no sindicato, entre outras tantas perdas.

Iniciávamos a nossa relação de trabalho com a empresa, quase que do zero. Ao contrário de nos desanimar, a investida mexeu com nossos valores. A luta, mesmo sem sindicato presente, e com uma categoria ‘até aqui’ de trabalho, dedicada quase que exclusivamente à rotina fabril, não nos arrefeceu. Era a hora de reiniciar tudo. Partir do zero. Contabilizar as perdas e tentar reaver direitos e benefícios. Começamos a nos organizar...

domingo, 22 de março de 2026

crônica da semana - confraria do vinho

 Confraria do vinho

Outra prenda não era sugerida senão comparecer àquele encontro com uma garrafa de vinho de rótulo bem bonito.  Era este mesmo o critério. Não era preciso vinho caro, de marca famosa, suave, seco, translúcido ou encarnado num avinagrado simpático. O que importava era estarmos juntos e apreciarmos ainda o atrativo da etiqueta que a garrafa exibia. E, reconhecendo: eu me amarro mesmo na estética dos rótulos. Curto explorar as prateleiras só para admirar esta arte. Em nossa confraria, o fino da estampa era componente de valor.

(Vivia um momento de transição. Estava na biqueira de voltar para Belém depois de 15 anos morando na Vila dos Cabanos. Nos últimos tempos, me batia com a solidão. Família já havia mudado. Ficava pouco em casa. Passava o dia todo no trabalho, só parava ali para dormir. Na folga do final de semana, me picava para Belém na primeira lancha do sábado. Mas antes, na sexta de noite, tinha a nossa confraria.

A casa já se mostrava naquela fase de despedida, um tanto descuidada, marcada pela minha ausência. Lembranças mofadas rolavam pelos cantos. Teias de aranha enredavam eternas felicidades, móveis adormecidos convertiam-se em confissões e saudades, o ranger do vai e vem da rede fazendo a trilha de minhas insônias, soluçava lembranças na escápula. Um azulejo subversivo, intrometido na arquitetura padrão de habitação operária, azulava-se desolado.  Compreensível não haver mais o animus de permanência. Minha casinha me anunciava a distância que nos espreitava, no estalar misterioso do telhado e no cricrilar dos grilos ali fora no alpendre. De saída, ainda me valia da palavra entoada e das amizades que ia deixando por ali. Dos versos da sexta, regados a vinho barato, de rótulo vistoso... e da companhia).

Na certa, ali na reuniãozinha, como sem falta, fizesse noite estrelada ou a chuvarada grassasse, éramos três. O operário, o professor e o economista. Fiéis guardadores do compromisso com a poesia. Toda sexta era contado como garantido, nosso encontro. Com o tempo o reconhecemos com a confraria do vinho. Naquela noite, a casa se iluminava, o silêncio compulsório dava vaga às declamações, às canções, ao ritual de sacar a rolha da próxima garrafa de vinho amigo.

O arranjo era praticamente o mesmo. Cada participante levava uma ou duas ofertas para a partilha. Levantávamos as taças e celebrávamos nossa amizade com um brinde. Uma canção ao violão, alguém recitava um poema que sabia de cor, quando não, acudia-se a um livro, sempre perto; outra pessoa sugeria mais música, levantávamos as taças, outro brinde. O violão, as canções, os poemas.

Por vezes a confraria recebeu convidados e convidadas, e muitos, e muitas, de não ter cadeira pra todo mundo e nos espalhávamos pelo alpendre a fora. Por aí a gente tira quantas garrafas, quantos rótulos bonitos para a nossa coleção. E quantas canções, quantos violeiros e poetas. Quando aparecia muita gente assim, o encontro ganhava envergadura, havia coro, outros instrumentos, além do violão; fazíamos arranjos abonáveis para músicas famosas, jograis melódicos com poemas longos, a mesa se enchia de petiscos, queijinhos. A casa se renovava em carinhos.

Era um tempo que eu estava me despedindo da minha casinha de operário, na Vila dos Cabanos. E, intimamente, entendíamos que cada encontro encenava esta despedida. Por isso, nossa confraria se realizava com intensidade, emoção e também com a sutil intenção de ser semente.

O futuro me mostrou que aconteceu sim, um apartamento. Do ambiente, do ingrediente geográfico casinha operária; mas do componente sugestivo garrafa de vinho com rótulo bonito e da palavra, não. Tenho pra mim que nossos encontros, que poderiam ter passado por coisas vãs desprovidas de razão, deram causa a tantos e belos poemas que hoje nos aprazem, e de maneira igual, nossa confraria é legado que me leva ainda a explorar prateleiras... 

 

sábado, 14 de março de 2026

crônica da semana - os últimos serão os primeiros avião

 Os últimos serão os primeiros

A cena é comum. Passageiros se agitam, conferem os pertences e se preparam para entrar no avião. Um funcionário levanta a voz e expõe a ordem de embarque. De imediato, as prioridades legais. Nesse momento sopra uma brisa de compromisso com a inclusão. Passada esta simpática ventarola, a tempestade da segregação arria.

A chamada para o embarque é a partir da importância imputada ao passageiro. A escolha é amparada, imagino eu, em critérios baseados no preço pago pela passagem, no contrato de fidelidade ou outros que me fogem. Ou seja, vai do bolso do freguês. E ainda tem mais esta já, quedada a presunção: a discriminação é ilustrada pelas designações de classes aplicadas aos diversos padrões de passagens, não raras, elaboradas com títulos emprestados do inglês (tal as estirpes “business class”, “first class”, “tal e coisa e coisa e loisa class”). Uma gabolice só, de caráter anglicista, bestice exagerada no simples ato de admitir o passageiro na aeronave. Este método hierarquizado resulta ainda em um trânsito caótico no corredor do avião, já que o modelo não favorece o fluxo tanto na localização das poltronas, quanto na acomodação da bagagem. Naquela horinha avexada, ali na boca da boiúna, é uma bagunça só. Se um único passageiro der com a poltrona dele logo na frente da cabine, até ele decidir sobre qual ou quais gavetões usar, arrumar as malas, e se posicionar no seu lugar, alguns tantos outros são represados à porta do avião sem poder se adiantar no trajeto. É só um estressezinho a mais. Esta ocupação aleatória potencializa humores já alterados de passageiros e, pode provocar atrasos na decolagem. E é um pé para criar um clima tenso no meio de gente que, ora veja, forma fila ainda no salão de embarque, na frente do portão da companhia, ainda que sequer o horário do voo esteja confirmado. Ali naquele momento se move a névoa do dolo, da luta para superar o outro, para entrar primeiro, para dominar o gavetão de bagagem, para dar um soninho de boca aberta antes do carrinho do minguado lanche passar. E se o voo dá aquela velha atrasada, é só mais lenha na fogueira das vaidades.

Para amenizar os pitis, outras medidas que permitam um embarque descolado de vergonhas, sentimentos de inferioridade e repentes beligerantes, e que ainda, transformem a localização dos assentos e a acomodação do cliente em momentos de alívio e conforto, penso eu que podem ser consideradas. Note-se que, ainda há um tempo não muito distante, havia um modelo mais eficaz para a operação de embarque. A entrada era sim organizada por grupos, porém, não era pautada em critérios de posse ou diferença social. Era de forma ordenada, seguindo a numeração das poltronas identificadas nos bilhetes. E valorizava o corredor desimpedido. Assim, embarcavam primeiro, os passageiros do fundo, ocupantes do último terço de poltronas; a seguir, o terço do meio da aeronave, e depois o restante dos passageiros da frente. Dessa forma, a cada sequência, os passageiros da vez tinham sempre um bom espaço do corredor sem movimentação agoniada ou alguma trava. O tempo de embarque também era bem otimizado.

Num outro viés, evidenciava-se que os números frios das poltronas não acusavam discriminação outra senão a de uma sequência obediente à inócua sucessão dos números nos terços a serem ocupados.

Tinha-se então, com uma medida sequencial, a abreviação de permanência no solo, a distensão e o abrandamento de humores já comumente alterados por outras causas, nas viagens de avião.  

Este jeito de embarcar, de trás pra frente, foi ao ar e perdeu a vez. Deu lugar à pataquada atual. Método talvez pressionado por um tilte de uma elite que não achou bacana, mesmo comprando passagem na primeira classe, embarcar por último. Por este motivo deve ter julgado que a honra lhe caía. Mesmo sabendo que os últimos serão os primeiros na hora de desembarcar.

sábado, 7 de março de 2026

crônica da semana - nosso doutor

 Nosso doutor

Rogério vez em vez me visita em memórias carregadas de significados, umidade matinal da floresta e mais ainda, em filosofias do raso mundano tão densas que sobrevivem por anos, dando causa às mais diversas vivências que experimentei nas caminhadas por esta Amazônia de meu Deus! Rogério era de Humaitá, no Amazonas, um habitante das beiras.

Era meu papo de início de trabalho, diário. Os pequenos se aviando nos preparos, gerando material, praticando o bruto da missão. Enquanto isso, eu acompanhava Rogério arrumando as suas simples tecnologias. Duas batéias, uma imensa e outra pequenina. Uma peneira, um fogareiro artesanal, o talento. O escritório dele era uma tina enorme de metal que todos os dias abastecíamos de água, às vezes, dependendo da característica do material, até duas vezes por dia. A água não podia ficar estragada, como dizia ele.

Rogério avaliava, dava a conta da qualidade da água que ele operava. Era um risco que ele assumia. O ideal era a tarefa dele ser realizada em água corrente ou à margem dos igarapés, com fluxo lento mas renovável; e quase sempre afastado do local da geração. Isso o levava a um trabalho solitário longe da equipe. Preferia se realizar ali nos seus saberes e na companhia dos parceiros. No pé da obra, podia ajudar, forcejar quando a força dele fosse necessária, ralhar com um, com outro mais afoito que lhe passava medições duvidosas. Também, naquele ambiente de esforço e alguma técnica, poderia trocar uma prosa comigo antes do grosso do trabalho começar, picando um fumo, tecendo um fininho e depois preservando o porronca em brasa mansa, quase apagado, nos pitos cadenciados de canto de boca, por um tempão. Podia também, naquele papo de manhãnzinha, tirar onda comigo, das vezes em que a força de todos era demandada e eu me metia no meio da empreitada. Nosso equipamento era uma coisa primitiva, arte de prover desumanidades, engenho bruto. Rompedor de solo absolutamente manual, com tubos pesados, chaves atracadoras de pegadas frágeis, manobras dependentes de muito jeito de corpo. Quando a tubulação prendia, era um sofrimento.

Todo mundo se juntava para liberar a tubulação. Nessa leva, subíamos numa plataforma para pôr força até a veia do pescoço tufar. Eu e Rogério que lidávamos noutras paradas, também. A turma dava sangue, mas eu, nem chegava a tufar a veia do pescoço. Na primeira tentativa, pegava o beco e me arriava por ali no mato suando frio, na baba. E esta era a reflexão que eu fazia toda manhã quando da resenha matinal com o Rogério. Ele me identificava como um esforçado mas acima de tudo, um beneficiado pelo grau de instrução que eu tinha e que não me exigia a força física para sobreviver. Avaliava com muita razão, e afirmava que se eu não estudasse um pouquinho, estaria era ferrado, porque aguentar o trampo bruto, eu não aguentava não.

Rogério engatava nas palavras, mal sabia escrever o nome, divisava poucos horizontes do conhecimento. Mas na batéia, era um gênio. Eu parava com ele, de vez em quando para a prosa, mas muitas e muitas vezes, para admirar a elegância, a altivez com que ele dominava os segredos da separação de minerais usando a propriedade da densidade. Praticava, no tino puro, a ciência. Aprendi um pouco com ele. Se me der uma batéia, ainda hoje, arraso. Embora sem elegância nenhuma.

Aqui, ali, deixava escapar uma confissão, uma frustração. Se reconhecia pessoa de poucos recursos, ralo entendimento. No entanto, recorria a um escape, uma compensação. Dizia ter nenhum estudo, saber quase nada, mas a irmã dele, não. A irmã dele, que morava  em Humaitá, era tilógrafa.

E lá daquele inconsciente criativo, disseminador de exatidões doloridas, Rogério impõe os rasantes de razões em minhas vivências. Não alcancei canudo, graduação ou avanços formais, mas agora neste 12 de fevereiro, após uma defesa brilhante, ganhamos um tilógrafo na família. Parabéns, doutor!

sábado, 28 de fevereiro de 2026

crônica da semana - Abert Camus

 Se fazendo de Albert Camus

Numa das minhas caminhadas matinais, batida a meta da aeróbica,  ali pelas oito da manhã, dei com uma cena curiosa. Sentado em um banco protegido do sol pela sombra das árvores, no canteiro da Duque de Caxias, um homem, se não da minha idade, um pouco mais ou um pouco menos, com o baque que nem o meu, de aposentado, apreciava a movimento da avenida, ao lado de uma latinha de cerveja. Plena de manhãzinha e já tomando uma, na manha. Colhi a imagem, guardei e dediquei o tempo restante da caminhada pensando nela. Naquela cervejinha. A conclusão viria do ensopado da minha camisa. Cada aposentado, com seu cada qual. Uns, optam suar em exercícios e pequenas carreiras, no canteiro da Duque. Outros se dão observar o alvoroço dos carros, a pressa das pessoas, a desenvoltura das aeróbicas, do ponto de vista de um sombreado acolhedor e um golinho aqui, outro ali de uma cerveja amornando sobre o banco.

Durante a reflexão me peguei a um fato de destaque. Pensei que seria um aposentado igual, sem horário, ordem, nem lei que me regrasse a vontade de tomar uma. Até pelo meu histórico de bom apreciador de uma gelada. Ainda às vésperas da minha despedida do mundo do trabalho, a regra era clara. Todo final de semana, tinha que fazer um derrame de cervejas. Tão logo batia a porta ao chegar em casa, na sexta, já abria a primeira. E assim varava os dias até a batida da campa do domingo. Aqui, ali, abrindo uma latinha. Desse jeitinho, assim, seguindo esta batidinha, ao me aposentar, pensava que seria um bebedor bem mais voraz e constante, já que me permitiria sextar todos os dias. Quite. O que se dá é que bebo hoje, bem menos que antes. Enfastiei-me.

Tirando em tudo por tudo, nunca fui mesmo um bebedor dos graúdos. Fazia das minhas nos fins de semana, mas era ali aos saltos. Na sexta, para despressurizar da jornada semanal; fazendo o almoço no sábado (me apraz picar uns temperos ao pegado de uma gelada) ou no ócio do domingo, de meio dia pra tarde ouvindo música paraense no rádio. Mas era uma cota mínima de efeito certeiro. Quatro, cinco latinhas, no máximo. Logo me dava um sono ou pegava o violão, tocava as minhas de sempre, me emocionava de chorar quando cantava canções que me lembravam mamãe e nesse momento, a família dava as dicas. Estava na hora do homi se aquietar.

Entendo que por me libertar deste argumento provocado pela distensão do trabalho (e que prega em nosso inconsciente que o álcool é a redenção para nossas broncas com os chefes, com os processos, com as companhias nem sempre cordiais... com a torturante missão de madrugar), me desapeguei das terapias baseadas no suporte etílico.

Deixo escapar, que, morando ao pegado do Caripi, já fui chegado à máxima adaptada: “escritor não vai à praia, escritor bebe”. Tinha até uma foto que fiz diante da minha Olivetti que expressava um pouco essa versão do chirrado inspirado. A foto me apresenta com uma caneta no canto da boca (que pela correlação, arremeda uma imagem famosa de Albert Camus com um cigarro aparado no flanco dos lábios), e uma garrafa de uísque sobre a mesa. Tive esse costume mesmo de escrever bebendo um uisquinho. Um dia, estava era animado, caneta no canto da boca para possíveis anotações, produzindo e bebendo bem, and rocks. A última coisa que lembro foi que levantei para pegar um gelinho na cozinha. Quando tornei, estava no hospital. O mais impressionante é que, ao acordar, vi meu amigo Evelino deitado na cama ao lado. Uma piração total considerando que Evelino era amigo de Escola Técnica que não encontrava há anos e até onde sabia, morava em Paragominas. Pronto, morri, deduzi, atordoado. Estou no céu dos ex-alunos da ETFPA.

Meu amigo estava em visita técnica em Barcarena, teve uma indisposição e ficou em observação junto comigo. Desfeito o malentendido, não morri, e desde aquela passagem, tenho medo que me pelo de uma garrafa de uísque.