O alpendre
Nem
era assim, minha amiga de rocha mesmo. A coisa foi acontecendo aos poucos.
Fazia parte de outra turma. Vez em quando nos topávamos pela noite, no
restaurante da japonesa, ali pela beira do rio, no balneário do Pedral. E
assim, nessa batidinha, fomos nos envolvendo. Mesclamos as turmas. Dava até de
nem maldarmos, e de repente, um estava na programação do outro sem combina.
Formamos uma terceira via. Mais diversa, bem mais liberal, avançadinha, diria,
para os prazeres mundanos. Um grupo que discutia política, apreciava alguma
arte, e fazia questão de se perder pelos escondidinhos alternativos por ali,
pelas ruas descendo a Manoel Umbuzeiro. Fechávamos bares, na superação; ainda,
fazíamos trilhas, explorávamos cachoeiras, cavernas, acordávamos uns aos outros
jogando pedra na janela do quarto e depois é que pampampam, batíamos na porta. Quando
dei fé, já tomava conta do sofá da casa da minha amiga, comparecia na horinha
certa do almoço, e de manhã, me enxeria para dizque, experimentar as combinações
de jerimum com leite e aquelas tapiocas grossonas que a mãe dela fazia. Nos
tornamos unha e carne. Tinha ciúmes dela com um sujeito que ela, aqui, ali,
namorava. Do sul e que fazia parte daquela outra turma. Calhou que ele não se
deu com as novas composições, com a terceira via, daí ela se saiu e namorou um
amigo chegado meu. Menos pior.
Foi
a primeira a chegar a minha casa, de tardezinha, já a noite caindo.
A
casa era um brinco. Um refinado traçado na arquitetura de Altamira. Alugada
pela empresa, abrigou o engenheiro residente, depois o administrador e já o
projeto em risco, fomos nós, da área técnica pra lá. Com pouco mais, veio uma
onda de demissão, e levou o bocado que morava comigo. Fiquei morando sozinho um
bom tempo naquela mansão. Eu, na companhia do cachorro e do Verdugo, que era o
vigia da noite e passava o turno no alpendre. Um tempo suficiente para
roteirizar dias e noites de folgas e folguedos pra lá de animados. Verdugo
ficava piriricas diante das liberdades exageradas oficiadas em nossas
contumazes celebrações. O detalhe é que esta casa de extremado bom gosto era de
um dos primeiros garimpeiros a enriquecer em Serra Pelada. Voltou pra cidade
que era o puro ouro, o homi. Contratou engenheiros, arquitetos. Tinha quatro
quartos, a casa, jardim, e um simpático alpendre de onde eu via Helena passar
todo início de noite. O primeiro dono garimpeiro torrou toda a grana, perdeu a
casa, foi morar na Brasília e por fim, trabalhava como cozinheiro do meu
acampamento no Xingu. Era baixo, gordinho, cara redonda e ganhou um apelido lá
no campo, indo lá e vindo cá no recato, de toda sorte, impublicável.
Naquele
meu último dia, a casa esteve foi movimentada. Antes do anoitecer, a turma
chegou. Os convidados trouxeram salgadinhos, bebidas e alguns instrumentos. Nos
acomodamos na sala, fizemos brindes, iniciamos uma cantoria. Érica logo se
desinibiu. Foi se achegando pro lado de Pedro. A moça era bela. Parecia uma
boneca. Pele aporcelanada. Pose de miss. Namorava com Júlio, um dos mais
cobiçados herdeiros da cidade. Pedro era bonito e pobre. Não deu nem a conta de
mais um brinde e os dois sumiram lá pra dentro.
Já
a noite se instalara. Minha melhor amiga pediu que eu largasse o violão um
instante e fosse lá fora. Era Júlio atrás da Érica. Não entrou, não passou além
do alpendre. Era distante da gente, de outra laia. Eu disse que não sabia dela,
andava com esta galera mesmo, mas por aqui, não está não, afirmei. Não voltei
pra sala. Fiquei no alpendre esperando Helena passar na sua motinha. Quando ela
chegou, viu aquela arrumação e deu pra trás. Nem desligou o motor. Falou pra eu
me arrumar.
Conheci
Helena revelando filmes da minha Olympus Trip 35. Trabalhava numa loja da Sete.
Me engracei. Não era bonita, nem sedutora, nem espevitada como as meninas da
nossa turma. Tinha um olhar triste, e um jeito extraordinariamente acolhedor.
Vivia num mundo muito, mas muito distante do meu. E isso me encantava. Morava
ali na estrada do aeroporto, pros meus lados. Quando estava na cidade, todo dia
a esperava para nosso namoro de porta. Sempre parava, desligava a moto e se
demorava. Falava pouco e se denunciava em banalidades e medos. Não aprofundava
assuntos, nem enxerimentos. Jamais ousou avançar o sinal, nunca se adiantou
além do alpendre...
Verdugo
chegou e isso era sinal de que já estava na hora. Com a ajuda de minha melhor
amiga encerrei a festinha de despedida. Fomos recolhendo a turma que estava lá
pra dentro. Pedro e Érica estavam exaustos, curtindo a convalescência daquela
aventura proibida. A galera foi embora, minha melhor amiga foi com eles, com
cara de choro. Depois, peguei minha mochila, fechei a casa e dei a chave para Verdugo.
Mandei um tiau pro cachorro e desci pra calçada.
Helena
foi me buscar e me levou pro aeroporto na mobylette dela. Nunca arriscou
avançar além do alpendre.