Meus vinte anos
Por
uma beiradinha de tempo não publiquei esta crônica na justa data daquela
primeira vez, posto que foi no dia 27 de março de 2006, um dia como ontem, que
estreei aqui na coluna. E daqui não desapreguei. Bati a conta dos 20 anos num
repente de admirar. Quem diria. Todo sábado, durante tanto tempo!
Nesses
vinte anos, me dou é por satisfeito por manter uma coluna fiel aos meus
pendores literários; e por me encontrar consciente de uma possível representatividade.
Na humildade, porém, botando fé no meu fraseado.
Tenho
pra mim que, na minha vez, posso dar voz a uns quantos escritores, poetas,
criadores da nossa terra. Considero que trago a marca da Academia de Letras que
me acolheu, e tento, com o meu baquezinho, com o estilo que dou às minhas
prosas, homenagear uma mina de gente que veio antes de mim, que abriu caminhos
para um contar próprio regional, ou belemense, que seja.
Puxo a brasa do regionalismo para minha sardinha.
Eu
me sinto, de vera, uma pessoa afortunada, enriquecida da graça ao manifestar
minha arte, imprimir meu talento nas páginas do jornal. Fosse aqui ou ali, já
seria uma senhora duma lisonja, imagine só por esses longos vinte anos. Vale
que só uma pavulagem.
Passados
esses vinte anos, também me imponho reflexões mais práticas, coladas às
realidades nada fáceis que vivemos (nunca que iria imaginar que a minha escrita
fosse dar de encontra com guerras tão ameaçadoras neste mundo espremido em
interesses, nem se bater com a beligerância de zap, neste nosso Brasil varonil
que a insanidade engoliu).
Da
parte da lida criativa, o cenário nos aponta que os desafios enfrentados pela
cultura são inúmeros. Destaco então que a existência de uma coluna, um espaço
destinado à literatura, especificamente à crônica, ocupado por escritores da
terra, incorporado à rotina editorial de um jornal, por anos e anos, chega a
ser uma profissão de fé, um compromisso ousado, sério, em favor de uma tradição
estilística. Por aí a gente tira... Escrever é sim, libertar a alma,
entregar-se ao lirismo, ao sentimento, às fantasias, à poética erudita ou mundana,
mas é também, uma responsa.
Quando
penso dessa forma, dando tino à produção literária, os meus primeiros dias na coluna,
lá em 2006, me voltam contextualizando.
Naqueles
dias, a coluna era minada de bambas. Jornalistas, escritores de primeira linha.
Um dia pra cada. Peguei a terça-feira. Dali em diante, fui me enxerindo entre
as estrelas. E que bom, fui bem aceito. Embora houvesse uma turma aquilatada,
com qualidades literárias expressivas e eu, um desconhecido no meio, não tive
um melindre sequer. Muito pelo contrário, fui acolhido e me dei conhecer os
outros trabalhos, os estilos, as técnicas. E vi que poderia cavar espaço para o
meu jeitinho de escrever. Havia vaga.
E fui varando, rente como pão quente. Passei pro sábado. Fazendo a conta no justo da matemática e no desfolhar da folhinha do Sagrado Coração de Jesus, seriam 960 crônicas publicadas. Dando o desconto de umas ausências programadas e participações especiais de outros escritores; vamos estimar publicadas mesmo no jornal impresso, umas 900 crônicas. Vá lá que seja. Um número que considero porrudo já. Temas diversos, umas crônicas mais aquelas, outras nem tanto; umas tímidas e outras até premiadas. Em tudo por tudo, e por fim, é minha obra. Que me envaidece e, olha só, dizque arranca deste filho de seringueiro uma lasquinha de orgulho. Um acreaninho que correu o risco de nem aprender a ler, naquelas lonjuras ocidentais, e como dizia a mamãe, perigava não vingar porque sofreu com uma paralisia infantil e teve um tempo que nem andar andava... Pr’aquele Raimundinho amofinado, marcar as páginas de um veículo de comunicação de nome, atingir leitores em todos os cantos, provocar empatia com histórias comuns, em tantos anos encarreirados, são artes que dão uma teba duma forra, uma monstra duma valência.