Confraria do vinho
Outra
prenda não era sugerida senão comparecer àquele encontro com uma garrafa de vinho
de rótulo bem bonito. Era este mesmo o
critério. Não era preciso vinho caro, de marca famosa, suave, seco, translúcido
ou encarnado num avinagrado simpático. O que importava era estarmos juntos e
apreciarmos ainda o atrativo da etiqueta que a garrafa exibia. E, reconhecendo:
eu me amarro mesmo na estética dos rótulos. Curto explorar as prateleiras só
para admirar esta arte. Em nossa confraria, o fino da estampa era componente de
valor.
(Vivia
um momento de transição. Estava na biqueira de voltar para Belém depois de 15
anos morando na Vila dos Cabanos. Nos últimos tempos, me batia com a solidão.
Família já havia mudado. Ficava pouco em casa. Passava o dia todo no trabalho,
só parava ali para dormir. Na folga do final de semana, me picava para Belém na
primeira lancha do sábado. Mas antes, na sexta de noite, tinha a nossa
confraria.
A
casa já se mostrava naquela fase de despedida, um tanto descuidada, marcada
pela minha ausência. Lembranças mofadas rolavam pelos cantos. Teias de aranha
enredavam eternas felicidades, móveis adormecidos convertiam-se em confissões e
saudades, o ranger do vai e vem da rede fazendo a trilha de minhas insônias,
soluçava lembranças na escápula. Um azulejo subversivo, intrometido na
arquitetura padrão de habitação operária, azulava-se desolado. Compreensível não haver mais o animus de
permanência. Minha casinha me anunciava a distância que nos espreitava, no
estalar misterioso do telhado e no cricrilar dos grilos ali fora no alpendre.
De saída, ainda me valia da palavra entoada e das amizades que ia deixando por
ali. Dos versos da sexta, regados a vinho barato, de rótulo vistoso... e da
companhia).
Na
certa, ali na reuniãozinha, como sem falta, fizesse noite estrelada ou a
chuvarada grassasse, éramos três. O operário, o professor e o economista. Fiéis
guardadores do compromisso com a poesia. Toda sexta era contado como garantido,
nosso encontro. Com o tempo o reconhecemos com a confraria do vinho. Naquela
noite, a casa se iluminava, o silêncio compulsório dava vaga às declamações, às
canções, ao ritual de sacar a rolha da próxima garrafa de vinho amigo.
O
arranjo era praticamente o mesmo. Cada participante levava uma ou duas ofertas
para a partilha. Levantávamos as taças e celebrávamos nossa amizade com um
brinde. Uma canção ao violão, alguém recitava um poema que sabia de cor, quando
não, acudia-se a um livro, sempre perto; outra pessoa sugeria mais música, levantávamos
as taças, outro brinde. O violão, as canções, os poemas.
Por
vezes a confraria recebeu convidados e convidadas, e muitos, e muitas, de não
ter cadeira pra todo mundo e nos espalhávamos pelo alpendre a fora. Por aí a
gente tira quantas garrafas, quantos rótulos bonitos para a nossa coleção. E
quantas canções, quantos violeiros e poetas. Quando aparecia muita gente assim,
o encontro ganhava envergadura, havia coro, outros instrumentos, além do
violão; fazíamos arranjos abonáveis para músicas famosas, jograis melódicos com
poemas longos, a mesa se enchia de petiscos, queijinhos. A casa se renovava em
carinhos.
Era
um tempo que eu estava me despedindo da minha casinha de operário, na Vila dos
Cabanos. E, intimamente, entendíamos que cada encontro encenava esta despedida.
Por isso, nossa confraria se realizava com intensidade, emoção e também com a
sutil intenção de ser semente.
O
futuro me mostrou que aconteceu sim, um apartamento. Do ambiente, do ingrediente
geográfico casinha operária; mas do componente sugestivo garrafa de vinho com
rótulo bonito e da palavra, não. Tenho pra mim que nossos encontros, que
poderiam ter passado por coisas vãs desprovidas de razão, deram causa a tantos
e belos poemas que hoje nos aprazem, e de maneira igual, nossa confraria é
legado que me leva ainda a explorar prateleiras...