Ao mestre com carinho (II)
Era
professor de matemática. Tinha um jeito especial. Atencioso, delicado no trato,
paciente, voz mansa. De tal forma fértil de afetos e atenção; inspirava de um
jeito tão eficiente a paz, que por vezes achava que ele deveria ser o professor
não de matemática (disciplina alheia à mansidão), mas de Religião, matéria mais
aquela de sensível e de transcendente. Era um apaixonado pela missão. Não admitia
perder aluno para as dificuldades. Ensinava tudo direitinho. Até hoje, é só me
dar um feixe de números grandes que sejam eles, e logo os despedaço em fatores
primos sem um deslize sequer. Graças àquele professor.
Fosse
nos tempos de agora, à luz da LDB, seria um dos principais agentes da busca
ativa. Porque, olha que me buscou...
E
eu estava daquele jeito. Miudado pelo trabalho. Não me recordo muito o regime que
o supermercado adotava. Provavelmente, pela escala, rolava uma hora extra. O
que lembro é que trabalhava das 3 da tarde às 11 da noite até sexta. Sábado, o
dia todo, e domingo, até meio dia. A dita folga semanal era essa, do meio dia
pra tarde do domingo e te conforma. Nem com todos os livros de auto-ajuda
debaixo do braço, nem com os augúrios do sistema me sugerindo sucesso na vida,
nem com os vitaminés e emulsão de Scott que eu tomava na hora do lanche com os
meninos, na calçada do estacionamento do supermercado (porque não tinha
refeitório) eu achava ânimo, eu angariava força para, às seis da matina, ir
para a escola. Cuidava era de era de zanzar nos ônibus pra cima e pra baixo,
dando uma forra para o corpo, em um exercício de restauração física tido pelos
maledicentes como sendo expressão da mais indisfarçável gazeta. No entanto se a
gente aprofundar... Era o anúncio da minha capitulação. O alerta da minha não desejada, mas
inevitável rendição. Um grito de socorro. Estava desistindo de estudar.
Aqui,
ali, os deuses cutucavam e eu aparecia na escola. Sadim, Sandim... Meu pai! A
falha na conexão dos meus neurônios, as enzimas, os ácidos corrosivos da razão
apagaram a exatidão do nome daquele professor. Não perdôo o tempo por isso.
Embora faça confusão com o nome, não esqueço a generosidade daquele verdadeiro
mestre. Quando eu aparecia, não economizava atenção. Ocupava a turma, sentava
ao meu lado e repassava as matérias atrasadas exclusivamente comigo. E eu,
‘intelixente!’, mandava era bem. Ia decompondo em primos aquela oportunidade.
Quando não, eu já aparecia com uma parte copiada. É que uns garotos da minha
sala que moravam ali pros lados do shen ou da 25 acompanhavam os pais na ida ao
supermercado, me viam por lá e combinavam de uma hora voltar com as matérias
pra mim. Deles, o professor também catava notícias. Como eu estava, se os
meninos tinham me visto, se eu tinha dado previsão de quando apareceria. Sempre
perguntava.
Os
outros professores não me davam muita trela. Mas Sandim, Sadim, articulava com
eles, os convencia passar trabalhos pra mim, mostrava meus avanços e conferia
com os resultados que eu tinha nas outras disciplinas. No final do ano, com
toda a derrota, obtive média pra passar (ainda que arrastado) em todas as
matérias.
Mandava
recado pelos meninos, pra eu dar um jeito, arrumar uma energia extra e não
desistir.
Ainda
conseguiu, com uma negociação, que eu fizesse a segunda época como forma de
compensar minhas faltas. Não deu. A recuperação era em dezembro. Exatamente no
mês de maior movimento no supermercado. Chegava em casa estiolado. Não fui um
único dia pra recuperação. Nem pra assinar a lista. E nunca mais vi Sandim,
Sadim.
No
ano seguinte, repeti a sexta, o juiz de menor deu em cima do trabalho infantil.
O supermercado substituiu os garotos por adultos. Antes de sair, ainda com doze
anos e uns caroços, passei meus fregueses pro seu Sandoval, que tinha sessenta
anos e assumiria minha vaga. Voltei, então para o empreendedorismo da
marretagem. Ainda havia uma chance de ficar rico.