Nenhum de nós
Não
temos mais o horário brasileiro de verão. Desde 2019 esta medida de adiantar os
relógios em uma hora deixou de ser adotada no Brasil. Tenho pra mim que para os
lados do sul e sudeste é um procedimento válido. Por lá, em determinada época,
o sol custa mesmo a se pôr. Virou um pouquinho pra cá, perde o sentido. Não nos
dá vantagem. A não ser no causo e na prosa. Neste campo, temos um legado
valendo. Colecionamos preciosismos desde lá do início quando nos referíamos aos
horários em termos beirando os requintes do etarismo: “no novo ou no velho?”.
Depois, nos emboletados de tino gerados pela exclusão, quando o horário mudava
somente em determinada região. Quem viajava de avião se embananava todo. “O vôo
era no horário de cá ou no de lá?”. E mais adiante, nos episódios que nos desnorteavam
por causa da mudança de lógica no relógio dos celulares. De um dia pro outro,
mudavam a hora e nem seu Souza pra gente. Ou não mudavam. Deste impacto, tenho
um causo...
Durante
um tempo, nas viagens diárias para o pólo industrial de Barcarena, minha parada
de ônibus era na Marquês de Herval. E era certa a turminha madrugadora no ponto.
Nosso carro era o primeiro. Passava às cinco e vinte e cinco da manhã, um isso
a mais, talvez. Nunca um isso a menos. Em tudo previdente, chegávamos antes, eu
e um senhor que morava na Itororó. Dava tempo pra desenrolar um papo. Era
porteiro. Do baixo Tocantins. Vinha de uma família de apanhadores de açaí.
O
causo: o relógio despertou. Me aprontei como de costume e rumei pra parada. Em
lá chegando, ninguém. Nem o amigo porteiro. Aquilo não era normal. Pensei o
ônibus já ter passado. Adiantou. Dando a minha hora, me adiantei às carreiras em
dois quarteirões, para outro ponto da Marquês, onde contava com mais opções de
ônibus. Nada. É greve! Liguei pra casa. Esquina, escuridão e vi’valma na rua.
Me aninhei no escondido de uma árvore. Agoniado, tive coragem e saquei o
celular. Solicitei, desesperadamente, resgate. Meu filho atendeu, um tanto mal
humorado, diga-se, e me perguntou o que eu fazia na rua plena quatro e meia da
manhã. O que se deu foi que o relógio do meu celular patetou e não notificou o
término do horário de verão na virada da meia-noite. Naquela volta ao normal,
comi mosca e saí de casa uma hora antes. Vivi foi momentos tensos, eraste! Mas
o que lamentei mesmo foi não encontrar mais o amigo porteiro.
Soube
depois que meu companheiro da madrugada havia sido transferido. O administrador
do prédio em que trabalhava, simplesmente, em conversa informal, durante o
intervalo do almoço, indagou um monte de coisas da vida dele. Posição política,
costumes, família. Ficou chocado ao perceber alguma consciência de classe nele
e mais ainda quando o porteiro lhe falou que tinha dois filhos doutores, um oficial
do exército e uma menina pesquisadora de Biologia. Quando chegou nas posses,
maldou lá com seus credos. Uma casa perto da Aldeia Cabana!!!! Como pode um
porteiro, que vem lá do baixão do Tocantins, escalador de açaizeiro, que mal
sabia o beabá, ter casa num bairro estruturado, no padrão de classe mais aquela
de vida? O prédio em que exercia o ofício mesmo era na avenida principal do
bairro. Morador do prédio, o chefe não admitia um retirante da beira ter um lar
no mesmo bairro que ele. Pensava que gente daquela origem, daquele tipo, tinha
que morar era nos cafundós dos arrabaldes. E aquele negócio de filhos formados,
deduzia, só podia ser balela. O porteiro poderia até ter as posses, mas era de
desconfiar que não fosse fruto do trabalho. Suportado por seus conceitos
prévios e rasos e ainda pelo juízo que fez dos fatos, para preservar a
segurança dos moradores, os bons costumes e as boas origens do bairro, achou
justo e pertinente transferir, para bem longe da Pedreira, meu amigo porteiro
que pegava o ônibus comigo às 5 e 25 da manhã. No horário novo ou no velho, que
fosse.