Rosquinhas de Abaeté
A
uma atenção e outra para os autógrafos, passava o pano no ambiente. Notava uma
disposição, uma ocupação do espaço que lembrava de alguma forma uma pintura daquelas
famosas retratando encontros ou mesmo pequenas aglomerações. Uma cena entre
moderna e renascentista. Prosas nucleadas, pertinentes cada uma a seu cada qual
de afinidades. Ali, o grupo dos aquilatados jornalistas; acolá, a militância
política, social e minha turminha salesiana; adiante, a família e meus
companheiros das lidas operárias; um pouco além, o saber acadêmico e os fiéis
leitores. Todos reunidos naquela sexta chuvosa de lua cheia para dar aquele
peso emocional ao lançamento do meu nono livro de crônicas. Sobre a mesa onde
fazia os autógrafos, os livros disponíveis. E uma terrina até a borda de
rosquinhas de Abaeté.
Era
promessa de campanha. Nos convites divulgados para a sessão de autógrafos, me
comprometi com um pequeno coquetel em que os atrativos principais seriam o
velho e sentimental Q-suco de groselha e um punhado de rosquinhas de Abaeté.
Resultou que a ideia do açucarado e colorido refresco foi, em boa hora,
descartada por questões de novos hábitos e também porque, nesses outros tempos
acho que nem existe mais no mercado (pelo menos eu, em favor das dietas, não
tenho feito procuração). Agora, os circulinhos de massa salgada, afamados e
queridos, que têm o sistema de geração e produção creditado às terras
abaetetubenses, estes fizeram a alegria dos presentes.
A
proposta de inserir as rosquinhas no cardápio da merenda que programamos à
guisa de um coquetel veio como uma reverência, sinal de respeito a este
acompanhante essencial que tive sempre comigo nas quantas travessias que fiz da
baía do Guajará. O produto é vendido à larga no atacado, em barracas e bancas
específicas, diria até, especializadas, não é em qualquer banca não, do
Ver-o-Peso. Mas tem uma função social imensa mesmo, quando vendido em pequenas
porções pelos ambulantes em sedutoras embalagens transparentes, na hora do
embarque para a travessia.
Já
foi meu almoço.
As
rosquinhas me deram valência na broca várias vezes. Principalmente numa fase
extremamente afogueada que passei durante o período que morei em Barcarena. Meu
dia contava muito mais que 24 horas. Tinha vez, que nem de comer tinha tempo.
Nessa época eu me dividia em várias personalidades. A maioria das vezes, eu era
operário. Uma parte, pai de família e cidadão do bem. Em outra, dirigente
sindical dos mais agendados e, entremeando tudo, estudante temporão do curso de
Geologia na UFPA. E sim, sim, escritor. Já tinha a coluna aqui no jornal. A
conta do espaço e do tempo não fechava.
(Aí
eu me vejo, hoje, diante de um debate ordinário sobre meritocracia e outras
asneiras, capitaneado por ungidos que não têm ideia do que seja uma jornada
noturna de trabalho. Essa gente não sabe o que é um couro!).
Havia
uma sequência especial de dias que era particularmente desgastante. Acontecia a
partir de duas jornadas noturnas que eu completava no trabalho. Aproveitava e
durante o dia, me mandava pra UFPA. Era tempo certo de assistir às aulas da
manhã e que eu tinha pouca chance de frequentar. Isso resultava em mais de 36
horas sem dormir direito, naquele picado do sono agoniado e cheio de sustos, e
ainda, se tornava uma virada que me fazia comer pouco. Nessa aventura, como eu
tinha que correr e dar adiantos, saía voado da aula. Quando chegava no Veropa
pra atravessar, dizque já almoçava por ali. O menu: um saquinho de rosquinhas
ou um completo no JR ou ainda, cinco pupunhas. Comia rápido e me avexava para
dormir um picadinho na viagem, porque do outro lado, outra missão me esperava.
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