O buraco é mais embaixo
Todo
mundo, uma horinha ou outra, já se viu num encalacre doce, assim desse
jeitinho. Pode prestar reparo. Ao escrever, falar, ou até mesmo ouvir uma
palavra comum, do vulgo e do vago dos dias, por questões além da nossa
compreensão, exatamente naquele momento, estranha. Sem qualquer explicação,
acha aquela palavra diferentona, dissonante, sem razão der ser ou estar. Sem um
quê teórico que a valha, questiona a etimologia, a grafia, a tônica, a
sonoridade, a incompreensível existência daquela palavra no mundo das relações
verbais... Todas as intransigências emergem nessa hora, e a gente se inquieta
por ali e pelos dias adiantes, na desconfiança...
Aconteceu
comigo. Depois daquele inusitado curto circuito, desarrazoado de juízos e medidas,
o buraco para mim, é sempre mais embaixo.
Fazia
um trabalho de descrição de solo, em poços de inspeção. Tudo que via, tinha que
registrar, mas o que exigia zelo e detalhamento era a ocorrência de buracos nas
paredes do poço. Um item delicado por causa da dinâmica da água subterrânea.
Pode indicar potencial de contaminação de mananciais urbanos e também de fuga
indesejada de água, no caso de barragens ou diques.
Desci
no poço, na boa, fiz as paradas nos horizontes orientados, caderneta e lápis na
mão, tudo anotadinho, quando, eita eita, deu-se o tilte. Vi a marca na parede,
sondei. Identifiquei. Quando fui descrever, simplesmente travei. Não
compreendia uma palavra na língua portuguesa tão deselegante, tão despudorada. “Buraco!”
Não. Não poderíamos ter produzido um termo de expressão tão impactante, que me
chegava tão mal ao toutiço. Naquele momento não vi estética, nem arte, nem
futuro, muito menos simetria linguística entre mim e o buraco. Por um momento,
estacionado em um andar do poço, paralisado, caderneta na mão, pressão para
terminar aquele trabalho, não conseguia dar sequência à minha atividade porque
encasquetei com a palavra ‘buraco’. Num repente de despressurização, em uma
tentativa de reconciliação comigo e com o mundo construído à base de erros,
acertos e subversões, rabisquei na minha caderneta algo como “observada a
ocorrência de ‘boracos’, na parede norte” e coisa e loisa, mariposa. Meu
coração acusou um alívio, a alma desceu para o chão da realidade. Estava de bem
comigo mesmo e com a minha capacidade de lidar com bugs linguísticos. Sei que
aquela foi uma ação preconceituosa, intolerante. Negava ali as palavras como
elas efetivamente são e o quanto contribuem, resistentes e indultadas na vocal,
para a nossa evolução enquanto seres humanos limitados e metidões a besta. Foi
porém, uma alternativa, senão ainda estaria em transe ali dentro daquele poço, que
no final das contas, era um inofensivo e técnico buraco cavado no solo.
Superei
esta incompatibilidade gratuita com o buraco. Hoje nos acertamos. E admito uma
certa cumplicidade entre a gente. Embora a desconfiança não nos deixe e produza
boas pautas.
O
humorista Gregório Duvivier é artista que pauta o amplo espectro da língua num
monólogo de abraços, transes, inconformismos semânticos, desafetos estéticos e
declarações de amor pelo nosso bom e amigo português nas suas mais variadas
coordenadas espaciais e temporais. Tira onda, corta e ara na familiaridade com
a língua, num espetáculo de quase duas horas carregado de humor. Meu ídolo
maior, Luís Fernando Veríssimo também era craque na reflexão sobre nossos
conjuntos lexicais. Para mim, se supera na crônica “Defenestração”, um clássico
no domínio dos significados e significantes.
Fui
ver a peça, e a seguir, na entre amigos, me liguei ao io do Veríssimo e ao chio de Duvivier, ilustrei a prosa contando
que no bojo deste tema, também já me insinuei em umas crônicas
metalinguísticas. Pera! “Insinuei!” Agorinha bateu que nem da vez com o
supracitado buraco. Eita... As desconfianças... O tilte. O insinuante e
desarrazoado curto circuito. Reinei trocar vogais.
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