sábado, 14 de fevereiro de 2026

crônica da semana - buraco

 O buraco é mais embaixo

Todo mundo, uma horinha ou outra, já se viu num encalacre doce, assim desse jeitinho. Pode prestar reparo. Ao escrever, falar, ou até mesmo ouvir uma palavra comum, do vulgo e do vago dos dias, por questões além da nossa compreensão, exatamente naquele momento, estranha. Sem qualquer explicação, acha aquela palavra diferentona, dissonante, sem razão der ser ou estar. Sem um quê teórico que a valha, questiona a etimologia, a grafia, a tônica, a sonoridade, a incompreensível existência daquela palavra no mundo das relações verbais... Todas as intransigências emergem nessa hora, e a gente se inquieta por ali e pelos dias adiantes, na desconfiança...

Aconteceu comigo. Depois daquele inusitado curto circuito, desarrazoado de juízos e medidas, o buraco para mim, é sempre mais embaixo.

Fazia um trabalho de descrição de solo, em poços de inspeção. Tudo que via, tinha que registrar, mas o que exigia zelo e detalhamento era a ocorrência de buracos nas paredes do poço. Um item delicado por causa da dinâmica da água subterrânea. Pode indicar potencial de contaminação de mananciais urbanos e também de fuga indesejada de água, no caso de barragens ou diques.

Desci no poço, na boa, fiz as paradas nos horizontes orientados, caderneta e lápis na mão, tudo anotadinho, quando, eita eita, deu-se o tilte. Vi a marca na parede, sondei. Identifiquei. Quando fui descrever, simplesmente travei. Não compreendia uma palavra na língua portuguesa tão deselegante, tão despudorada. “Buraco!” Não. Não poderíamos ter produzido um termo de expressão tão impactante, que me chegava tão mal ao toutiço. Naquele momento não vi estética, nem arte, nem futuro, muito menos simetria linguística entre mim e o buraco. Por um momento, estacionado em um andar do poço, paralisado, caderneta na mão, pressão para terminar aquele trabalho, não conseguia dar sequência à minha atividade porque encasquetei com a palavra ‘buraco’. Num repente de despressurização, em uma tentativa de reconciliação comigo e com o mundo construído à base de erros, acertos e subversões, rabisquei na minha caderneta algo como “observada a ocorrência de ‘boracos’, na parede norte” e coisa e loisa, mariposa. Meu coração acusou um alívio, a alma desceu para o chão da realidade. Estava de bem comigo mesmo e com a minha capacidade de lidar com bugs linguísticos. Sei que aquela foi uma ação preconceituosa, intolerante. Negava ali as palavras como elas efetivamente são e o quanto contribuem, resistentes e indultadas na vocal, para a nossa evolução enquanto seres humanos limitados e metidões a besta. Foi porém, uma alternativa, senão ainda estaria em transe ali dentro daquele poço, que no final das contas, era um inofensivo e técnico buraco cavado no solo.

Superei esta incompatibilidade gratuita com o buraco. Hoje nos acertamos. E admito uma certa cumplicidade entre a gente. Embora a desconfiança não nos deixe e produza boas pautas.

O humorista Gregório Duvivier é artista que pauta o amplo espectro da língua num monólogo de abraços, transes, inconformismos semânticos, desafetos estéticos e declarações de amor pelo nosso bom e amigo português nas suas mais variadas coordenadas espaciais e temporais. Tira onda, corta e ara na familiaridade com a língua, num espetáculo de quase duas horas carregado de humor. Meu ídolo maior, Luís Fernando Veríssimo também era craque na reflexão sobre nossos conjuntos lexicais. Para mim, se supera na crônica “Defenestração”, um clássico no domínio dos significados e significantes.

Fui ver a peça, e a seguir, na entre amigos, me liguei ao io do Veríssimo e  ao chio de Duvivier, ilustrei a prosa contando que no bojo deste tema, também já me insinuei em umas crônicas metalinguísticas. Pera! “Insinuei!” Agorinha bateu que nem da vez com o supracitado buraco. Eita... As desconfianças... O tilte. O insinuante e desarrazoado curto circuito. Reinei trocar vogais.  

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