Se fazendo de Albert Camus
Numa
das minhas caminhadas matinais, batida a meta da aeróbica, ali pelas oito da manhã, dei com uma cena
curiosa. Sentado em um banco protegido do sol pela sombra das árvores, no canteiro
da Duque de Caxias, um homem, se não da minha idade, um pouco mais ou um pouco
menos, com o baque que nem o meu, de aposentado, apreciava a movimento da
avenida, ao lado de uma latinha de cerveja. Plena de manhãzinha e já tomando
uma, na manha. Colhi a imagem, guardei e dediquei o tempo restante da caminhada
pensando nela. Naquela cervejinha. A conclusão viria do ensopado da minha
camisa. Cada aposentado, com seu cada qual. Uns, optam suar em exercícios e
pequenas carreiras, no canteiro da Duque. Outros se dão observar o alvoroço dos
carros, a pressa das pessoas, a desenvoltura das aeróbicas, do ponto de vista
de um sombreado acolhedor e um golinho aqui, outro ali de uma cerveja amornando
sobre o banco.
Durante
a reflexão me peguei a um fato de destaque. Pensei que seria um aposentado
igual, sem horário, ordem, nem lei que me regrasse a vontade de tomar uma. Até pelo
meu histórico de bom apreciador de uma gelada. Ainda às vésperas da minha
despedida do mundo do trabalho, a regra era clara. Todo final de semana, tinha
que fazer um derrame de cervejas. Tão logo batia a porta ao chegar em casa, na
sexta, já abria a primeira. E assim varava os dias até a batida da campa do
domingo. Aqui, ali, abrindo uma latinha. Desse jeitinho, assim, seguindo esta
batidinha, ao me aposentar, pensava que seria um bebedor bem mais voraz e constante,
já que me permitiria sextar todos os dias. Quite. O que se dá é que bebo hoje,
bem menos que antes. Enfastiei-me.
Tirando
em tudo por tudo, nunca fui mesmo um bebedor dos graúdos. Fazia das minhas nos
fins de semana, mas era ali aos saltos. Na sexta, para despressurizar da
jornada semanal; fazendo o almoço no sábado (me apraz picar uns temperos ao
pegado de uma gelada) ou no ócio do domingo, de meio dia pra tarde ouvindo
música paraense no rádio. Mas era uma cota mínima de efeito certeiro. Quatro,
cinco latinhas, no máximo. Logo me dava um sono ou pegava o violão, tocava as
minhas de sempre, me emocionava de chorar quando cantava canções que me
lembravam mamãe e nesse momento, a família dava as dicas. Estava na hora do
homi se aquietar.
Entendo
que por me libertar deste argumento provocado pela distensão do trabalho (e que
prega em nosso inconsciente que o álcool é a redenção para nossas broncas com
os chefes, com os processos, com as companhias nem sempre cordiais... com a torturante
missão de madrugar), me desapeguei das terapias baseadas no suporte etílico.
Deixo
escapar, que, morando ao pegado do Caripi, já fui chegado à máxima adaptada:
“escritor não vai à praia, escritor bebe”. Tinha até uma foto que fiz diante da
minha Olivetti que expressava um pouco essa versão do chirrado inspirado. A
foto me apresenta com uma caneta no canto da boca (que pela correlação, arremeda
uma imagem famosa de Albert Camus com um cigarro aparado no flanco dos lábios),
e uma garrafa de uísque sobre a mesa. Tive esse costume mesmo de escrever
bebendo um uisquinho. Um dia, estava era animado, caneta no canto da boca para
possíveis anotações, produzindo e bebendo bem, and rocks. A última coisa que
lembro foi que levantei para pegar um gelinho na cozinha. Quando tornei, estava
no hospital. O mais impressionante é que, ao acordar, vi meu amigo Evelino
deitado na cama ao lado. Uma piração total considerando que Evelino era amigo
de Escola Técnica que não encontrava há anos e até onde sabia, morava em Paragominas.
Pronto, morri, deduzi, atordoado. Estou no céu dos ex-alunos da ETFPA.
Meu
amigo estava em visita técnica em Barcarena, teve uma indisposição e ficou em
observação junto comigo. Desfeito o malentendido, não morri, e desde aquela
passagem, tenho medo que me pelo de uma garrafa de uísque.
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