sábado, 28 de fevereiro de 2026

crônica da semana - Abert Camus

 Se fazendo de Albert Camus

Numa das minhas caminhadas matinais, batida a meta da aeróbica,  ali pelas oito da manhã, dei com uma cena curiosa. Sentado em um banco protegido do sol pela sombra das árvores, no canteiro da Duque de Caxias, um homem, se não da minha idade, um pouco mais ou um pouco menos, com o baque que nem o meu, de aposentado, apreciava a movimento da avenida, ao lado de uma latinha de cerveja. Plena de manhãzinha e já tomando uma, na manha. Colhi a imagem, guardei e dediquei o tempo restante da caminhada pensando nela. Naquela cervejinha. A conclusão viria do ensopado da minha camisa. Cada aposentado, com seu cada qual. Uns, optam suar em exercícios e pequenas carreiras, no canteiro da Duque. Outros se dão observar o alvoroço dos carros, a pressa das pessoas, a desenvoltura das aeróbicas, do ponto de vista de um sombreado acolhedor e um golinho aqui, outro ali de uma cerveja amornando sobre o banco.

Durante a reflexão me peguei a um fato de destaque. Pensei que seria um aposentado igual, sem horário, ordem, nem lei que me regrasse a vontade de tomar uma. Até pelo meu histórico de bom apreciador de uma gelada. Ainda às vésperas da minha despedida do mundo do trabalho, a regra era clara. Todo final de semana, tinha que fazer um derrame de cervejas. Tão logo batia a porta ao chegar em casa, na sexta, já abria a primeira. E assim varava os dias até a batida da campa do domingo. Aqui, ali, abrindo uma latinha. Desse jeitinho, assim, seguindo esta batidinha, ao me aposentar, pensava que seria um bebedor bem mais voraz e constante, já que me permitiria sextar todos os dias. Quite. O que se dá é que bebo hoje, bem menos que antes. Enfastiei-me.

Tirando em tudo por tudo, nunca fui mesmo um bebedor dos graúdos. Fazia das minhas nos fins de semana, mas era ali aos saltos. Na sexta, para despressurizar da jornada semanal; fazendo o almoço no sábado (me apraz picar uns temperos ao pegado de uma gelada) ou no ócio do domingo, de meio dia pra tarde ouvindo música paraense no rádio. Mas era uma cota mínima de efeito certeiro. Quatro, cinco latinhas, no máximo. Logo me dava um sono ou pegava o violão, tocava as minhas de sempre, me emocionava de chorar quando cantava canções que me lembravam mamãe e nesse momento, a família dava as dicas. Estava na hora do homi se aquietar.

Entendo que por me libertar deste argumento provocado pela distensão do trabalho (e que prega em nosso inconsciente que o álcool é a redenção para nossas broncas com os chefes, com os processos, com as companhias nem sempre cordiais... com a torturante missão de madrugar), me desapeguei das terapias baseadas no suporte etílico.

Deixo escapar, que, morando ao pegado do Caripi, já fui chegado à máxima adaptada: “escritor não vai à praia, escritor bebe”. Tinha até uma foto que fiz diante da minha Olivetti que expressava um pouco essa versão do chirrado inspirado. A foto me apresenta com uma caneta no canto da boca (que pela correlação, arremeda uma imagem famosa de Albert Camus com um cigarro aparado no flanco dos lábios), e uma garrafa de uísque sobre a mesa. Tive esse costume mesmo de escrever bebendo um uisquinho. Um dia, estava era animado, caneta no canto da boca para possíveis anotações, produzindo e bebendo bem, and rocks. A última coisa que lembro foi que levantei para pegar um gelinho na cozinha. Quando tornei, estava no hospital. O mais impressionante é que, ao acordar, vi meu amigo Evelino deitado na cama ao lado. Uma piração total considerando que Evelino era amigo de Escola Técnica que não encontrava há anos e até onde sabia, morava em Paragominas. Pronto, morri, deduzi, atordoado. Estou no céu dos ex-alunos da ETFPA.

Meu amigo estava em visita técnica em Barcarena, teve uma indisposição e ficou em observação junto comigo. Desfeito o malentendido, não morri, e desde aquela passagem, tenho medo que me pelo de uma garrafa de uísque.

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