sábado, 14 de março de 2026

crônica da semana - os últimos serão os primeiros avião

 Os últimos serão os primeiros

A cena é comum. Passageiros se agitam, conferem os pertences e se preparam para entrar no avião. Um funcionário levanta a voz e expõe a ordem de embarque. De imediato, as prioridades legais. Nesse momento sopra uma brisa de compromisso com a inclusão. Passada esta simpática ventarola, a tempestade da segregação arria.

A chamada para o embarque é a partir da importância imputada ao passageiro. A escolha é amparada, imagino eu, em critérios baseados no preço pago pela passagem, no contrato de fidelidade ou outros que me fogem. Ou seja, vai do bolso do freguês. E ainda tem mais esta já, quedada a presunção: a discriminação é ilustrada pelas designações de classes aplicadas aos diversos padrões de passagens, não raras, elaboradas com títulos emprestados do inglês (tal as estirpes “business class”, “first class”, “tal e coisa e coisa e loisa class”). Uma gabolice só, de caráter anglicista, bestice exagerada no simples ato de admitir o passageiro na aeronave. Este método hierarquizado resulta ainda em um trânsito caótico no corredor do avião, já que o modelo não favorece o fluxo tanto na localização das poltronas, quanto na acomodação da bagagem. Naquela horinha avexada, ali na boca da boiúna, é uma bagunça só. Se um único passageiro der com a poltrona dele logo na frente da cabine, até ele decidir sobre qual ou quais gavetões usar, arrumar as malas, e se posicionar no seu lugar, alguns tantos outros são represados à porta do avião sem poder se adiantar no trajeto. É só um estressezinho a mais. Esta ocupação aleatória potencializa humores já alterados de passageiros e, pode provocar atrasos na decolagem. E é um pé para criar um clima tenso no meio de gente que, ora veja, forma fila ainda no salão de embarque, na frente do portão da companhia, ainda que sequer o horário do voo esteja confirmado. Ali naquele momento se move a névoa do dolo, da luta para superar o outro, para entrar primeiro, para dominar o gavetão de bagagem, para dar um soninho de boca aberta antes do carrinho do minguado lanche passar. E se o voo dá aquela velha atrasada, é só mais lenha na fogueira das vaidades.

Para amenizar os pitis, outras medidas que permitam um embarque descolado de vergonhas, sentimentos de inferioridade e repentes beligerantes, e que ainda, transformem a localização dos assentos e a acomodação do cliente em momentos de alívio e conforto, penso eu que podem ser consideradas. Note-se que, ainda há um tempo não muito distante, havia um modelo mais eficaz para a operação de embarque. A entrada era sim organizada por grupos, porém, não era pautada em critérios de posse ou diferença social. Era de forma ordenada, seguindo a numeração das poltronas identificadas nos bilhetes. E valorizava o corredor desimpedido. Assim, embarcavam primeiro, os passageiros do fundo, ocupantes do último terço de poltronas; a seguir, o terço do meio da aeronave, e depois o restante dos passageiros da frente. Dessa forma, a cada sequência, os passageiros da vez tinham sempre um bom espaço do corredor sem movimentação agoniada ou alguma trava. O tempo de embarque também era bem otimizado.

Num outro viés, evidenciava-se que os números frios das poltronas não acusavam discriminação outra senão a de uma sequência obediente à inócua sucessão dos números nos terços a serem ocupados.

Tinha-se então, com uma medida sequencial, a abreviação de permanência no solo, a distensão e o abrandamento de humores já comumente alterados por outras causas, nas viagens de avião.  

Este jeito de embarcar, de trás pra frente, foi ao ar e perdeu a vez. Deu lugar à pataquada atual. Método talvez pressionado por um tilte de uma elite que não achou bacana, mesmo comprando passagem na primeira classe, embarcar por último. Por este motivo deve ter julgado que a honra lhe caía. Mesmo sabendo que os últimos serão os primeiros na hora de desembarcar.

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