Os últimos serão os primeiros
A cena é comum. Passageiros se
agitam, conferem os pertences e se preparam para entrar no avião. Um
funcionário levanta a voz e expõe a ordem de embarque. De imediato, as
prioridades legais. Nesse momento sopra uma brisa de compromisso com a
inclusão. Passada esta simpática ventarola, a tempestade da segregação arria.
A chamada para o embarque é a partir
da importância imputada ao passageiro. A escolha é amparada, imagino eu, em
critérios baseados no preço pago pela passagem, no contrato de fidelidade ou outros
que me fogem. Ou seja, vai do bolso do freguês. E ainda tem mais esta já,
quedada a presunção: a discriminação é ilustrada pelas designações de classes
aplicadas aos diversos padrões de passagens, não raras, elaboradas com títulos
emprestados do inglês (tal as estirpes “business class”, “first class”, “tal e
coisa e coisa e loisa class”). Uma gabolice só, de caráter anglicista, bestice
exagerada no simples ato de admitir o passageiro na aeronave. Este método hierarquizado
resulta ainda em um trânsito caótico no corredor do avião, já que o modelo não
favorece o fluxo tanto na localização das poltronas, quanto na acomodação da
bagagem. Naquela horinha avexada, ali na boca da boiúna, é uma bagunça só. Se
um único passageiro der com a poltrona dele logo na frente da cabine, até ele
decidir sobre qual ou quais gavetões usar, arrumar as malas, e se posicionar no
seu lugar, alguns tantos outros são represados à porta do avião sem poder se
adiantar no trajeto. É só um estressezinho a mais. Esta ocupação aleatória
potencializa humores já alterados de passageiros e, pode provocar atrasos na
decolagem. E é um pé para criar um clima tenso no meio de gente que, ora veja,
forma fila ainda no salão de embarque, na frente do portão da companhia, ainda
que sequer o horário do voo esteja confirmado. Ali naquele momento se move a
névoa do dolo, da luta para superar o outro, para entrar primeiro, para dominar
o gavetão de bagagem, para dar um soninho de boca aberta antes do carrinho do
minguado lanche passar. E se o voo dá aquela velha atrasada, é só mais lenha na
fogueira das vaidades.
Para amenizar os pitis, outras
medidas que permitam um embarque descolado de vergonhas, sentimentos de
inferioridade e repentes beligerantes, e que ainda, transformem a localização
dos assentos e a acomodação do cliente em momentos de alívio e conforto, penso eu
que podem ser consideradas. Note-se que, ainda há um tempo não muito distante,
havia um modelo mais eficaz para a operação de embarque. A entrada era sim
organizada por grupos, porém, não era pautada em critérios de posse ou
diferença social. Era de forma ordenada, seguindo a numeração das poltronas
identificadas nos bilhetes. E valorizava o corredor desimpedido. Assim, embarcavam
primeiro, os passageiros do fundo, ocupantes do último terço de poltronas; a
seguir, o terço do meio da aeronave, e depois o restante dos passageiros da
frente. Dessa forma, a cada sequência, os passageiros da vez tinham sempre um
bom espaço do corredor sem movimentação agoniada ou alguma trava. O tempo de
embarque também era bem otimizado.
Num outro viés, evidenciava-se que os
números frios das poltronas não acusavam discriminação outra senão a de uma
sequência obediente à inócua sucessão dos números nos terços a serem ocupados.
Tinha-se então, com uma medida
sequencial, a abreviação de permanência no solo, a distensão e o abrandamento
de humores já comumente alterados por outras causas, nas viagens de avião.
Este jeito de embarcar, de trás pra
frente, foi ao ar e perdeu a vez. Deu lugar à pataquada atual. Método talvez pressionado
por um tilte de uma elite que não achou bacana, mesmo comprando passagem na
primeira classe, embarcar por último. Por este motivo deve ter julgado que a
honra lhe caía. Mesmo sabendo que os últimos serão os primeiros na hora de
desembarcar.
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