sábado, 28 de março de 2026

crônica da semana - vinte anos

 Meus vinte anos

Por uma beiradinha de tempo não publiquei esta crônica na justa data daquela primeira vez, posto que foi no dia 27 de março de 2006, um dia como ontem, que estreei aqui na coluna. E daqui não desapreguei. Bati a conta dos 20 anos num repente de admirar. Quem diria. Todo sábado, durante tanto tempo!

Nesses vinte anos, me dou é por satisfeito por manter uma coluna fiel aos meus pendores literários; e por me encontrar consciente de uma possível representatividade. Na humildade, porém, botando fé no meu fraseado.

Tenho pra mim que, na minha vez, posso dar voz a uns quantos escritores, poetas, criadores da nossa terra. Considero que trago a marca da Academia de Letras que me acolheu, e tento, com o meu baquezinho, com o estilo que dou às minhas prosas, homenagear uma mina de gente que veio antes de mim, que abriu caminhos para um contar próprio regional, ou belemense, que seja. Puxo a brasa do regionalismo para minha sardinha.

Eu me sinto, de vera, uma pessoa afortunada, enriquecida da graça ao manifestar minha arte, imprimir meu talento nas páginas do jornal. Fosse aqui ou ali, já seria uma senhora duma lisonja, imagine só por esses longos vinte anos. Vale que só uma pavulagem.

Passados esses vinte anos, também me imponho reflexões mais práticas, coladas às realidades nada fáceis que vivemos (nunca que iria imaginar que a minha escrita fosse dar de encontra com guerras tão ameaçadoras neste mundo espremido em interesses, nem se bater com a beligerância de zap, neste nosso Brasil varonil que a insanidade engoliu).

Da parte da lida criativa, o cenário nos aponta que os desafios enfrentados pela cultura são inúmeros. Destaco então que a existência de uma coluna, um espaço destinado à literatura, especificamente à crônica, ocupado por escritores da terra, incorporado à rotina editorial de um jornal, por anos e anos, chega a ser uma profissão de fé, um compromisso ousado, sério, em favor de uma tradição estilística. Por aí a gente tira... Escrever é sim, libertar a alma, entregar-se ao lirismo, ao sentimento, às fantasias, à poética erudita ou mundana, mas é também, uma responsa.

Quando penso dessa forma, dando tino à produção literária, os meus primeiros dias na coluna, lá em 2006, me voltam contextualizando.

Naqueles dias, a coluna era minada de bambas. Jornalistas, escritores de primeira linha. Um dia pra cada. Peguei a terça-feira. Dali em diante, fui me enxerindo entre as estrelas. E que bom, fui bem aceito. Embora houvesse uma turma aquilatada, com qualidades literárias expressivas e eu, um desconhecido no meio, não tive um melindre sequer. Muito pelo contrário, fui acolhido e me dei conhecer os outros trabalhos, os estilos, as técnicas. E vi que poderia cavar espaço para o meu jeitinho de escrever. Havia vaga.

E fui varando, rente como pão quente. Passei pro sábado. Fazendo a conta no justo da matemática e no desfolhar da folhinha do Sagrado Coração de Jesus, seriam 960 crônicas publicadas. Dando o desconto de umas ausências programadas e participações especiais de outros escritores; vamos estimar publicadas mesmo no jornal impresso, umas 900 crônicas. Vá lá que seja. Um número que considero porrudo já. Temas diversos, umas crônicas mais aquelas, outras nem tanto; umas tímidas e outras até premiadas. Em tudo por tudo, e por fim, é minha obra. Que me envaidece e, olha só, dizque arranca deste filho de seringueiro uma lasquinha de orgulho. Um acreaninho que correu o risco de nem aprender a ler, naquelas lonjuras ocidentais, e como dizia a mamãe, perigava não vingar porque sofreu com uma paralisia infantil e teve um tempo que nem andar andava... Pr’aquele Raimundinho amofinado, marcar as páginas de um veículo de comunicação de nome, atingir leitores em todos os cantos, provocar empatia com histórias comuns, em tantos anos encarreirados, são artes que dão uma teba duma forra, uma monstra duma valência.

 

 

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