domingo, 22 de março de 2026

crônica da semana - confraria do vinho

 Confraria do vinho

Outra prenda não era sugerida senão comparecer àquele encontro com uma garrafa de vinho de rótulo bem bonito.  Era este mesmo o critério. Não era preciso vinho caro, de marca famosa, suave, seco, translúcido ou encarnado num avinagrado simpático. O que importava era estarmos juntos e apreciarmos ainda o atrativo da etiqueta que a garrafa exibia. E, reconhecendo: eu me amarro mesmo na estética dos rótulos. Curto explorar as prateleiras só para admirar esta arte. Em nossa confraria, o fino da estampa era componente de valor.

(Vivia um momento de transição. Estava na biqueira de voltar para Belém depois de 15 anos morando na Vila dos Cabanos. Nos últimos tempos, me batia com a solidão. Família já havia mudado. Ficava pouco em casa. Passava o dia todo no trabalho, só parava ali para dormir. Na folga do final de semana, me picava para Belém na primeira lancha do sábado. Mas antes, na sexta de noite, tinha a nossa confraria.

A casa já se mostrava naquela fase de despedida, um tanto descuidada, marcada pela minha ausência. Lembranças mofadas rolavam pelos cantos. Teias de aranha enredavam eternas felicidades, móveis adormecidos convertiam-se em confissões e saudades, o ranger do vai e vem da rede fazendo a trilha de minhas insônias, soluçava lembranças na escápula. Um azulejo subversivo, intrometido na arquitetura padrão de habitação operária, azulava-se desolado.  Compreensível não haver mais o animus de permanência. Minha casinha me anunciava a distância que nos espreitava, no estalar misterioso do telhado e no cricrilar dos grilos ali fora no alpendre. De saída, ainda me valia da palavra entoada e das amizades que ia deixando por ali. Dos versos da sexta, regados a vinho barato, de rótulo vistoso... e da companhia).

Na certa, ali na reuniãozinha, como sem falta, fizesse noite estrelada ou a chuvarada grassasse, éramos três. O operário, o professor e o economista. Fiéis guardadores do compromisso com a poesia. Toda sexta era contado como garantido, nosso encontro. Com o tempo o reconhecemos com a confraria do vinho. Naquela noite, a casa se iluminava, o silêncio compulsório dava vaga às declamações, às canções, ao ritual de sacar a rolha da próxima garrafa de vinho amigo.

O arranjo era praticamente o mesmo. Cada participante levava uma ou duas ofertas para a partilha. Levantávamos as taças e celebrávamos nossa amizade com um brinde. Uma canção ao violão, alguém recitava um poema que sabia de cor, quando não, acudia-se a um livro, sempre perto; outra pessoa sugeria mais música, levantávamos as taças, outro brinde. O violão, as canções, os poemas.

Por vezes a confraria recebeu convidados e convidadas, e muitos, e muitas, de não ter cadeira pra todo mundo e nos espalhávamos pelo alpendre a fora. Por aí a gente tira quantas garrafas, quantos rótulos bonitos para a nossa coleção. E quantas canções, quantos violeiros e poetas. Quando aparecia muita gente assim, o encontro ganhava envergadura, havia coro, outros instrumentos, além do violão; fazíamos arranjos abonáveis para músicas famosas, jograis melódicos com poemas longos, a mesa se enchia de petiscos, queijinhos. A casa se renovava em carinhos.

Era um tempo que eu estava me despedindo da minha casinha de operário, na Vila dos Cabanos. E, intimamente, entendíamos que cada encontro encenava esta despedida. Por isso, nossa confraria se realizava com intensidade, emoção e também com a sutil intenção de ser semente.

O futuro me mostrou que aconteceu sim, um apartamento. Do ambiente, do ingrediente geográfico casinha operária; mas do componente sugestivo garrafa de vinho com rótulo bonito e da palavra, não. Tenho pra mim que nossos encontros, que poderiam ter passado por coisas vãs desprovidas de razão, deram causa a tantos e belos poemas que hoje nos aprazem, e de maneira igual, nossa confraria é legado que me leva ainda a explorar prateleiras... 

 

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