sexta-feira, 27 de março de 2026

crônica da semana

 Escala 6 x 4

 

... A empresa nos apertou em um nó que levou muitos anos para ser desatado. Como parte desta manobra ‘na calada da noite’, constava a mudança imediata da tabela de turno. Item de negociação devidamente referendado no novo Acordo Coletivo, agora celebrado com o nosso novo representante.

O resultado dramático para nós foi que trocamos a dinâmica de nosso trabalho de turno, admitindo uma tabela de ritmo absolutamente cruel. Passamos a trabalhar na malfadada escala    9 x 9 x 6, composta por apenas quatro turmas e, consequentemente, com período de folga reduzidíssimo. Trabalhávamos 7 dias, folgávamos 1dia. Mais 7 dias, folgávamos 1 dia; Mais 7 dias, folgávamos 2 dias. Sendo os horários de trabalho de até 9 horas para as jornadas diurnas e vespertinas e de 6 horas, para o turno da noite.

A relação de dias trabalhados para dias de folga era no patamar asfixiante de 5,25/1. Um ritmo que denunciamos insistentemente, como desumano. Só como comparação, hoje a nossa tabela, bem mais humanizada, compreende jornada de 6 dias, seguidos de 4 dias de folga, perfazendo uma relação de 1,5/1. Anos mais tarde, quando recuperamos a tabela francesa, o que conquistamos, verdadeiramente, foi a retirada de um fardo pesadíssimo das costas do trabalhador.

Aquela tabela inicial imposta, com a fábrica ainda se ajustando, com manobras operacionais exaustivas e jornadas longas provocava um desgaste enorme nos trabalhadores. Vivíamos praticamente para a fábrica e depositando lá boa parte de nossas energias. Aguentávamos porque éramos fortes e precisávamos, mas fácil, fácil, não era.

A mudança impositiva da tabela foi o item mais traumático quando da independência da empresa, mas outros benefícios ou foram diminuídos ou foram retirados, como por exemplo, a concessão de tíquetes alimentação, que sumiu do novo Acordo; as progressões salariais, que seriam, ainda definidas desvinculando-se do padrão anterior; o valor das horas extras, que por ser normativo foi adotado pelo mínimo; e a ausência de representante da fábrica no sindicato, entre outras tantas perdas.

Iniciávamos a nossa relação de trabalho com a empresa, quase que do zero. Ao contrário de nos desanimar, a investida mexeu com nossos valores. A luta, mesmo sem sindicato presente, e com uma categoria ‘até aqui’ de trabalho, dedicada quase que exclusivamente à rotina fabril, não nos arrefeceu. Era a hora de reiniciar tudo. Partir do zero. Contabilizar as perdas e tentar reaver direitos e benefícios. Começamos a nos organizar...

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