Escala 6 x 4
... A empresa nos apertou em um nó que
levou muitos anos para ser desatado. Como parte desta manobra ‘na calada da
noite’, constava a mudança imediata da tabela de turno. Item de negociação
devidamente referendado no novo Acordo Coletivo, agora celebrado com o nosso novo
representante.
O resultado dramático para nós foi que
trocamos a dinâmica de nosso trabalho de turno, admitindo uma tabela de ritmo
absolutamente cruel. Passamos a trabalhar na malfadada escala 9 x 9 x 6, composta por apenas quatro turmas
e, consequentemente, com período de folga reduzidíssimo. Trabalhávamos 7 dias,
folgávamos 1dia. Mais 7 dias, folgávamos 1 dia; Mais 7 dias, folgávamos 2 dias.
Sendo os horários de trabalho de até 9 horas para as jornadas diurnas e
vespertinas e de 6 horas, para o turno da noite.
A relação de dias trabalhados para dias
de folga era no patamar asfixiante de 5,25/1. Um ritmo que denunciamos
insistentemente, como desumano. Só como comparação, hoje a nossa tabela, bem
mais humanizada, compreende jornada de 6 dias, seguidos de 4 dias de folga,
perfazendo uma relação de 1,5/1. Anos mais tarde, quando recuperamos a tabela francesa,
o que conquistamos, verdadeiramente, foi a retirada de um fardo pesadíssimo das
costas do trabalhador.
Aquela tabela inicial imposta, com a
fábrica ainda se ajustando, com manobras operacionais exaustivas e jornadas
longas provocava um desgaste enorme nos trabalhadores. Vivíamos praticamente para
a fábrica e depositando lá boa parte de nossas energias. Aguentávamos porque
éramos fortes e precisávamos, mas fácil, fácil, não era.
A mudança impositiva da tabela foi o item
mais traumático quando da independência da empresa, mas outros benefícios ou
foram diminuídos ou foram retirados, como por exemplo, a concessão de tíquetes
alimentação, que sumiu do novo Acordo; as progressões salariais, que seriam,
ainda definidas desvinculando-se do padrão anterior; o valor das horas extras,
que por ser normativo foi adotado pelo mínimo; e a ausência de representante da
fábrica no sindicato, entre outras tantas perdas.
Iniciávamos a nossa relação de trabalho com a empresa, quase que do zero. Ao contrário de nos desanimar, a investida mexeu com nossos valores. A luta, mesmo sem sindicato presente, e com uma categoria ‘até aqui’ de trabalho, dedicada quase que exclusivamente à rotina fabril, não nos arrefeceu. Era a hora de reiniciar tudo. Partir do zero. Contabilizar as perdas e tentar reaver direitos e benefícios. Começamos a nos organizar...
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