A solidão é ralado (medo da Matinta)
Antigamente
quando a gente reclamava de alguma dificuldade, dizia no bom paraensês: “égua,
tá ralado, olha”. Não se variava o termo ‘ralado’. Ao flagrarmos a vizinha bandando
a nossa bola, cravávamos, “eita que essa vizinha é ralado” e não ‘ralada’ como,
na sua hora e vez, prevê a flexão de gênero.
O
que se torna e o que se deixa é que já me bati com a solidão do jeito de um
ralado só...
Conto
e destaco que, recentemente, me inclui num exclusivo, me achei num vasto vazio.
Tive uma obra na categoria crônica publicada em edição nacional por um selo que
se articula em torno da Flip, potente feira literária que se realiza em Paraty,
no Rio de Janeiro. Quando recebi minha premiação em casa, notei nosso apartamento,
nossa alienação dos grandes eventos e da tímida participação de nossa cultura amazônica
em projetos de repercussão nacional. No livro, contei pra mais de trezentas
obras e, ora veja que frustração, apenas três autores representando a
literatura do Norte do Brasil. A se contar nos dedos. A minha crônica de Belém,
uma de Rio Branco, outra de Santarém. E só. Outras categorias, nem o cheiro. Poema
nenhum, Conto nenhum. Podemos especular as causas de tão poucas participações
dos autores da banda de cá. E capaz de aparecerem razões quantas e justas. Não
muito diferentes, imagino, das motivações do Nordeste, que por sua voz e vez, foi
região que emplacou mais de 47 textos na coletânea. Bem mais que nossos
três’zinhos amazônicos. A composição
desta coletânea fala comigo, lá no fundo do meu coração e me lança ao ermo, e
me impõe o sal da solidão, do acanhamento, me deixa ao largado do isolamento
junto com meus pares do Acre e do oeste do Pará. Romper barreiras é ralado.
Desafiar
conjunturas é coisa de artista mesmo. E este sentimento que tive de isolamento
pode até vir de um desencanto que se desenvolve no campo vasto do idealismo,
dos sonhos. Mas torne a isso, se ligue, que aquele estado de um ser solitário
de horizontes e beiras se abateu sobre mim no real e ordinário mesmo foi dia
desses, depois do show do Gilberto Gil aqui no Hangar.
Bem
pertinho aqui de casa, o centro de convenções. Coisa de dois quarteirões bem
medidos. Na ida, a noite se achegando, fui caminhando pra lá. É tão perto, a
uma meia distância da padaria onde pego meu pão da tarde. Era uma batidinha que
eu, na rotina, dominava. Além do quê, estava cedo ainda, a noite caía e
esfriava o tempo. Tirei a pisada, de subida, numa boa. Já na volta, a situação
se deu na tensão. Mina de gente naquele show. Quando acabou, vi a galera
naquela romaria se dirigindo pra saída, pensei na disputa por transporte, nos
preços cobrados, na escassez de ofertas, me adiantei e vi que uma boa parte da
galera estava indo a pé ali pras minhas bandas. Era perto de meia-noite, pela quantidade
de gente, avaliei que teria uma companhia adensada, e me misturei. O custo foi
chegar à primeira esquina. Antes da Visconde de Inhaúma mesmo, muitos já tinham
abandonado o cortejo e seguido o rumo nos carros que haviam estacionado por
ali. O resto, quando chegou à Visconde, dobrou e também sumiu pelo canteiro
central atrás dos carros. Sobramos eu e um casal que ia à minha frente. E ainda
tinha mais um quarteirão a vencer, de baixada. Alguns metros pra chegar ao canal
da Marquês, o casal desviou e entrou numa casa. Meu pai eterno! Segui sozinho
(a solidão é ralado!). Passei apressado pelo canal e ainda dei uma espiada lá
pras matas da aeronáutica, onde nasce o Igarapé do Zé. Nessa hora me ocorreu o
alerta que mamãe fazia afirmando que ali habitam os encantados, a Matinta, o
Vira-porco, o Homem do saco. Reinei correr. Desisti. Nem carro estava passando,
mas vai se corro, passa um e me tem como um meliante em fuga, posto que sou da
cor. Tornei e mirei à frente na fé. Andando meio penso de tenso, perna
tremendo.
Desembestei
foi na carreira, porém, quando ouvi um assobio.
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