domingo, 19 de abril de 2026

crônica da semana : A solidão é ralado - Matinta

 A solidão é ralado (medo da Matinta)

Antigamente quando a gente reclamava de alguma dificuldade, dizia no bom paraensês: “égua, tá ralado, olha”. Não se variava o termo ‘ralado’. Ao flagrarmos a vizinha bandando a nossa bola, cravávamos, “eita que essa vizinha é ralado” e não ‘ralada’ como, na sua hora e vez, prevê a flexão de gênero.

O que se torna e o que se deixa é que já me bati com a solidão do jeito de um ralado só...

Conto e destaco que, recentemente, me inclui num exclusivo, me achei num vasto vazio. Tive uma obra na categoria crônica publicada em edição nacional por um selo que se articula em torno da Flip, potente feira literária que se realiza em Paraty, no Rio de Janeiro. Quando recebi minha premiação em casa, notei nosso apartamento, nossa alienação dos grandes eventos e da tímida participação de nossa cultura amazônica em projetos de repercussão nacional. No livro, contei pra mais de trezentas obras e, ora veja que frustração, apenas três autores representando a literatura do Norte do Brasil. A se contar nos dedos. A minha crônica de Belém, uma de Rio Branco, outra de Santarém. E só. Outras categorias, nem o cheiro. Poema nenhum, Conto nenhum. Podemos especular as causas de tão poucas participações dos autores da banda de cá. E capaz de aparecerem razões quantas e justas. Não muito diferentes, imagino, das motivações do Nordeste, que por sua voz e vez, foi região que emplacou mais de 47 textos na coletânea. Bem mais que nossos três’zinhos amazônicos.  A composição desta coletânea fala comigo, lá no fundo do meu coração e me lança ao ermo, e me impõe o sal da solidão, do acanhamento, me deixa ao largado do isolamento junto com meus pares do Acre e do oeste do Pará. Romper barreiras é ralado.

Desafiar conjunturas é coisa de artista mesmo. E este sentimento que tive de isolamento pode até vir de um desencanto que se desenvolve no campo vasto do idealismo, dos sonhos. Mas torne a isso, se ligue, que aquele estado de um ser solitário de horizontes e beiras se abateu sobre mim no real e ordinário mesmo foi dia desses, depois do show do Gilberto Gil aqui no Hangar.

Bem pertinho aqui de casa, o centro de convenções. Coisa de dois quarteirões bem medidos. Na ida, a noite se achegando, fui caminhando pra lá. É tão perto, a uma meia distância da padaria onde pego meu pão da tarde. Era uma batidinha que eu, na rotina, dominava. Além do quê, estava cedo ainda, a noite caía e esfriava o tempo. Tirei a pisada, de subida, numa boa. Já na volta, a situação se deu na tensão. Mina de gente naquele show. Quando acabou, vi a galera naquela romaria se dirigindo pra saída, pensei na disputa por transporte, nos preços cobrados, na escassez de ofertas, me adiantei e vi que uma boa parte da galera estava indo a pé ali pras minhas bandas. Era perto de meia-noite, pela quantidade de gente, avaliei que teria uma companhia adensada, e me misturei. O custo foi chegar à primeira esquina. Antes da Visconde de Inhaúma mesmo, muitos já tinham abandonado o cortejo e seguido o rumo nos carros que haviam estacionado por ali. O resto, quando chegou à Visconde, dobrou e também sumiu pelo canteiro central atrás dos carros. Sobramos eu e um casal que ia à minha frente. E ainda tinha mais um quarteirão a vencer, de baixada. Alguns metros pra chegar ao canal da Marquês, o casal desviou e entrou numa casa. Meu pai eterno! Segui sozinho (a solidão é ralado!). Passei apressado pelo canal e ainda dei uma espiada lá pras matas da aeronáutica, onde nasce o Igarapé do Zé. Nessa hora me ocorreu o alerta que mamãe fazia afirmando que ali habitam os encantados, a Matinta, o Vira-porco, o Homem do saco. Reinei correr. Desisti. Nem carro estava passando, mas vai se corro, passa um e me tem como um meliante em fuga, posto que sou da cor. Tornei e mirei à frente na fé. Andando meio penso de tenso, perna tremendo.

Desembestei foi na carreira, porém, quando ouvi um assobio.

 

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