A vida imita a arte
Para
mim, o filme Bye Bye Brasil tem um sentido especial. Boa parte foi filmada aqui
no Pará, com cenas rodadas às margens do rio Guamá, no Veropa, nos ermos da
Transamazônica e nos pontais do rio Xingu. É arte próxima da gente. Faz
menções, traz lembranças, emoções.
Foi
produzido no final dos anos 70. E, verdade, estivemos bem próximos. Na minha
turma da Escola Técnica, tinha um aluno que fazia figuração, dizia aparecer em
cenas rodadas na Condor. De prima, ninguém acreditou nele. Achávamos que era
lorota. Um calouro de Mineração no cinema? O filme estava em cartaz. Dava corda
pra gente assistir. Ele fornecia detalhes e argumentava que tinha sido
selecionado por atuar no teatro. Se dava com atores, diretores, grupos
tradicionais com atividades em Belém. A turma foi conferir. Tiramos um dia, demos
um desdobro nas últimas aulas e corremos para a sessão das 5 no Iracema. E não
era o pequeno mesmo, dividindo o take com a musa Betty Faria! Assanhado que só
ele, em agarra-agarra no salão com as meninas, nos relances das aparições,
entregue às seduções da Condor. Tenho pra mim que ganhou o mundo e seguiu
carreira porque fez só o primeiro semestre com a gente. Dali pra frente, não
apareceu mais na Escola.
Bye
Bye Brasil sempre esteve disponível pra gente ver na TV, nas plataformas grátis
da internet, em casas de exibições alternativas. É um clássico. Nunca mais
tinha me abalado. Daí que semana passada topei com o reclame dele. Cliquei e
olha, fiquei bestinha. Uma qualidade! Definição de som, de cores. Uma produção
beirando 50 anos e a padronagem dá de se
pensar que foi feita ontem. A tecnologia é fera mesmo.
Deixei
dito que o filme traz uma carga de emoção. Por nos mostrar dentro da nossa
casa. Senti mesmo uns estremecimentos e afetos quando percebi que estive em
todos os lugares que a trupe da Caravana Rolidei aprontou das suas e, em alguns
casos, aprontando também das minhas e vivenciando as mesmas aventuras e
desafios. Veropa e aquela beirada da Condor, nem falo nada, até hoje dou minhas
bandas por ali. Agora a Transamazônica e Altamira têm lá seus merecimentos mais
aqueles de distintos. Duas cenas em especial se alinharam aos meus dias
passados naquelas paragens.
Destaco
como a mais legal, a mais acarinhada nas minhas lembranças, aquela em que o
personagem do José Wilker desce do caminhão com um macaquinho no ombro, na
parte alta da estrada imediatamente anterior à entrada da cidade e lá de cima
apresenta Altamira, o rio Xingu. Que fofura no meu coração! Foi por ali, acho
que uma ladeira antes, que morei durante um tempo. E aquele ponto era também a
hora que a gente tinha um alívio. Já via a cidade. Estava perto. Uma visão
muitas de conforto porque, chegar até ali pela Transamazônica, na maioria das
vezes, não era nada fácil. Quando não era vencendo um infinito horizonte
empoeirado, era ao custo de luta selvagem contra os atoleiros. Ali, naquele
ponto estávamos, bem dizer, sob os auspícios da cidade.
A
outra passagem tem a ver exatamente com os atoleiros. É quando a caravana se
encontra com um grupo de indígenas e ouve da matriarca que ela quer andar de
avião. Ainda se virando com os atoleiros Wilker alerta que avião só passa lá em
cima no céu, e o céu era longe pacas.
Foi
o mesmo desalento que ouvi na vez em que voltava do campo, estava saindo de
férias, passagem comprada, voo saindo às sete da noite. Pelas quatro da tarde
travamos no fim de uma fila imensa. Era um movimento de caminhoneiros
obstruindo a cabeça de uma ponte. Protestavam contra os atoleiros invencíveis
da Transamazônica. Perderia o voo se não liberassem. Saí lá do fim da fila, fui
me puxando com lama no joelho, localizei o líder. Expliquei que iria perder meu
avião que estava marcado para daqui a poucas horas. “Avião?!”, ele me voltou
nervoso. “Avião só passa lá em cima no céu, e o céu era longe pacas”, e me
apontou o fim da fila.
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