sábado, 25 de julho de 2026

crônica da semana - ouvido de mercador

 Ouvido de mercador

Eu sou um. Quando saio para a caminhada ou para uma prenda rápida na rua, enfio o fone no ouvido.

O ditado surgiu lá pelas quantas do tempo e se refere ao fato de comerciantes e caixeiros evitarem dar atenção às reclamações que a freguesia expressava em comentários e interpelações aqui e ali. A intenção era ficar na deles. Passar o produto, receber o numerário, dar a volta de troco, caso o caso exigisse, e tornar ao mundo das vendas. Fazer ouvido de mercador é priorizar o negócio e a paz interior. Atualmente, mais a paz interior.

Para um contador de casos não é um bom termo sair por aí dando uma de mouco para o vulgo ou para o erudito. Afinal, o alarido fiel, a tempestuosa fofoca... os imponderáveis reclamos, as retóricas proclamas e até mesmo o discreto cochichado do dia formam a matéria-prima do cronista. Tenho, então, que me fiar nos conceitos e na sempre amiga imaginação para desenvolver temas e situações por causa deste anteparo circunstante que é o fone de ouvido.

Mas nem sempre foi assim. Meus ouvidos já se dispuseram à larga. Em outros tempos. Sem o risco do melindre ideológico, sem a ditadura da rasa opinião ou a insanidade moralista. Minha atenção já foi ampla, atenta às simpatias da comunicação.

Ocorreu certa vez, quando da minha volta, desde que saí de lá com 5 anos, ao Acre. Eu já estava taludinho, trampando ali perto, em Rondônia, quando numa folga, dei uma escapulida pra conhecer minhas origens. Foi um bate-volta extraordinário. Todas as minhas fantasias embarcaram comigo no ônibus que saiu da rodoviária de Rio Branco e se largou na direção do Xapuri, ali pros lados do poente. A sensação era de que o dia nunca acabava. O oeste era um fim de tarde sem fim. O ônibus naquela velocidade fantasiosa não deixava o sol se distanciar, não deixava o crepúsculo se realizar. Estávamos envolvidos num portal de momento único. Dominador. Que não permitia o sol se pôr. Não admitia que o tempo passasse. Em termos de coisa e de loisa, aquele motorista conduzia uma máquina que alcançava a façanha de fazer a Terra parar. Daí, numa parada de beira de estrada, o homem embarcou.

Eu, sentado numa das poltronas na frente, me certificando a cada instante que o sol nem seu Souza, não se mexia, não embicava no horizonte de jeito e maneira. Íamos ao encontro do sol e aquela bolona alaranjada lá no céu, nos esperava. O homem acomodou-se na poltrona parelha à minha, do outro lado do corredor. Numa posição oblíqua à nossa, um menino, acompanhado da mãe. Do que entrou no ônibus, até bem mais perto do horizonte, no ponto em que desceu, o homem da estrada não parou de falar. Falou mais que o homem da cobra. Em dado momento atinou que o menino olhava pra ele com um ar de curioso. Enviesou o olhar, inclinou-se e se dirigiu ao menino, meio pândego, meio inquiridor: “tás me olhando, heim! Tá me conhecendo de onde, do jornal ou de uma lata de banha?”.

Para um contador de casos com os ouvidos ligados no mundo, aquela pergunta foi um verso abonador de que vale a pena escutar a voz que vem dos vetores esquecidos que levam ao oeste. Não mais descolei daquelas palavras sem grau algum de etilo ou significado. Doce bandalha entre poltronas de um ônibus que não voava, não cortava meridianos, não deixava o céu escurecer e nenhuma estrela nos guiar, quer dizer, deixava sim. O sol, a nossa estrela, estava ali vermelhão só na espia.

O mundo era bem melhor quando as latas de banha traziam o rosto das pessoas humildes e sinceras estampadas na chapa gordurenta. Quando uma foto no jornal inspirava curiosidade ou admiração e quando o corredor de um ônibus era inundado de conversas jogadas sem a severidade da lógica, para dentro da gente.

Esses dias fui ao supermercado sem fone de ouvido. Uma música gritada saturava o ambiente. À saída dois homens discutiam o destino de um terceiro. Papo de macho alfa. Eu ouvi tudo. E foi tudo sem sol pra dentro de mim.

 

domingo, 19 de julho de 2026

crônica da semana - não vai ter capa

 Não vai ter copa

Para alguns, até amanhã, ainda vai ter copa. Para nós apaixonados pela seleção canarinho, não. Apesar da fé, não adiantou. Caímos fora foi cedo. E põe cedo nisso. Conforme a atualização da tabela, e também a depender de uma comparação entre os modelos de classificação adotados ao longo das edições anteriores, podemos sair da competição com a pior colocação do escrete brasileiro em todos os tempos de copa do mundo. Após uma passagem discreta e sem empolgação pela fase de grupos, ainda nas oitavas de final fomos tomados por uma certeza: para a imensa torcida brasileira, não vai ter copa. Este torneio mundial foi para a nossa seleção um 7 a 1 sem trauma, um fiasco sutilmente fracionado, diluído em sonhos que, sabíamos, não se realizariam. Diria que, ao menos, foi um fim piedoso, sem o choque e o baque bruto provocados por uma goleada. Ao contrário. Nossa atuação nos preparou, nos deu perceber um revés se anunciando aos poucos, carregando a frustração crescente e se desenhando a cada passe mal resolvido, a cada jogada ineficaz, a cada arremedo tático executado dentro das quatro linhas. Um fracasso a passos lentos. Não nos restou o consolo da nobreza na derrota nem há vez para a dignidade na tragédia. Toalha ao chão, não nos interessa o discurso da queda com a cabeça erguida. Magoamos. Queríamos mesmo era o caneco!

A saída precoce da seleção brasileira da copa do mundo tem conseqüências para um país que respira futebol. O ar benfazejo e salutar das conquistas nos faltou. Mas não foi só esta perda que nos abalou. Prejuízos foram acumulados. Calendários comerciais foram redimensionados, um número incontável de camisas amarelinhas foi posto ao largo tão logo o artilheiro nórdico nos imobilizou com aquele chute um tanto displicente, selando o placar que nos mandaria de volta pra casa. Dali, parte dos torcedores desligaram a atenção do campeonato e foram cuidar da vida. Até sem dor, é possível admitir. O Brasil não prometia tanto. Embora nomes consagrados compondo a equipe, técnico com histórico de vencedor, e uma empafiazinha residual vingando, os números não abonavam a cega confiança. Além das crises no comando do futebol brasileiro, o próprio time no período preparatório para a copa, não deu sinais que teria um bom desempenho. Encarreirou resultados desfavoráveis, repetiu erros de convocação e de esquema tático, não adensou o conjunto. Chegou à copa sem personalidade e sem corpo. E abonado por um, tempo atrás impensado, quinto lugar alcançado no aperreio das eliminatórias pela zona sul-americana, na fase de classificação para o campeonato mundial. Avaliando sem paixão, a equipe não estava com essa bola toda mesmo.

É uma desconfortante realidade. Desde a última conquista, em 2002, não houve um respiro aliviado. O futebol brasileiro vem pelejando à margem das grandes equipes. Mesmo no âmbito dos clubes. Observamos uma organização no futebol internacional que concentra talentos. O Brasil, na contramão, dispersa os bons valores que aparecem por aqui. O resultado é um elevado padrão competitivo encontrado na Europa e até Oriente Médio e Ásia, enquanto que no Brasil, o futebol caminha nos limites do tecnicamente razoável.

Amanhã não vai ter copa para o Brasil. Daqui a quatro anos, porém, esperamos disputar a final. Urgem medidas que garantam a certeza de uma vitoriosa participação no próximo mundial. Movimentos imediatos que compreendam a efetivação de um técnico competente, uma agenda de convocações racional. Ainda, oportunidade a jogadores que se destaquem no cenário doméstico e que possam compor planos de amistosos e treinamentos mais freqüentes. Necessário também, paciência. Baixa pressão na cobrança por resultados, em um primeiro momento. O trabalho deve crescer e aparecer a partir da integração dos fatores que favoreçam e reanimem a excelência do futebol brasileiro. Talento, ginga, calendário, gestão e sim, sim, paixão.


sábado, 11 de julho de 2026

crônica da semana - sapato da hermes

 Pisante marrom

O sapato, no original, nem era preto. Era marrom. Mamãe ganhou numa daquelas premiações que a Hermes dava para as vendedoras que se destacavam no mês. Podia escolher, no catálogo, os produtos que satisfizessem a pontuação que ela alcançara nas vendas. Como eu estava na pira de sapatos, largou mão de outras precisões e me autorizou escolher um par do meu agrado. Bati o olho no marronzinho com o bico saliente, costura em relevo nas laterais, sem cadarço, em modelo só de enfiar o pé mesmo; e que quando chegou, valorizou minha escolha porque o bichinho era macio, confortável que só ele. Me dei.

Era comum, naqueles anos 80, diante dos aperreios diários, a família se agarrar a qualquer oportunidade de faturar um numerário. Teve a fase dos catálogos, ou como enfatizado na corruptela de mamãe, ‘catálago’. Pra tudo em quanto a gente tinha uma revistinha apinhada de ofertas. Mamãe oferecia seus préstimos empreendedores a todas as franquias da onda. O custo era ter o catálogo. Tivesse, estava dentro. Batia esta Pedreira velha todinha, fizesse sol, chuva fizesse, com a sacola debaixo do braço, sortida de amostras grátis de batons, perfumes, e ainda, acrescida de peças íntimas femininas, e toda a sorte de estímulos visuais contidos nos mostruários ilustrados.

Calhou que dessa arrumação toda de artigos e produtos, me saísse um alento que me acompanhou até eu me formar. Não foi assim de prima. Houve a alteração da cor. A Escola Técnica tinha seus controles e não admitia desvio no uniforme. Era a tradicional bata azulzinha, com o bolso identificando semestre e curso, calça preta e sapato preto. Eu segurei o que pude o meu Bamba na lida. Aliás, durante o reinado do Bamba, fui beneficiado com a vista grossa dos inspetores, pois que não podia. Era preto com detalhe branco na biqueira e no solado. Tive que ser muito rapaz umas quantas vezes para poder entrar na Escola com ele, apesar das bacanagens dos bedéis. A linha era dura. Até que o pobre rasgou de não ter jeito. Eu tinha lá o meu sapato da Hermes, mais que depressa consegui uma graxa preta com minha pariceirada da rua e dei-lhe uma mão dupla da pasta até o pisante tisnar por inteiro. Ficou no jeito.

Estava na reta final da Escola, dois ou três semestres para encerrar o curso. Exatamente a pior fase de grana na família. Sustentar quatro bocas não estava sendo fácil. Mamãe ainda ficou na venda dos catálogos, mas acumulou outras fontes de renda. Conseguiu uma barraca na feira. Lá era o nosso ponto de apoio, a matriz das nossas marretagens. Revezávamos os turnos da barraca, a venda nas ruas, ocupações no lar e os deveres escolares. Ainda assim, na viração intensa em escala 7 x 0, a maré banzerou pro meu lado. Nessa época, as atividades no curso ganharam componentes mais técnicos e caros. Papel vegetal, tintas e canetas Nanquim, papel milimetrado, cópias fotostáticas de mapas e imagens de radar landsat, além de viagens de campo com parte do custo jogada nas nossas costas. Tudo ia muito além das minhas posses. Eu não dava mais conta. Faltando tão pouco, desvaneci.

É nessa hora que a gente sente que não está só. Os inspetores, meus colegas de turma, professores e simpatizantes do meu jeito de ser e ter fé na vida uniram-se e seguraram a minha onda. Do meio pro fim, eu não gastava mais era nada com os trabalhos ou uniforme. Cheguei a ter mais batas que os meus colegas porque dona Joaquina, que era a inspetora do nosso bloco, recolhia de cada turma que se formava o que desse de material e uniforme e me dava. Terminei o curso como um pequeno Frankestein, construído com a bata de um, a calça de outro, a caneta nanquim daquele, o papel vegetal deste... A única posse que me era original, não na cor, era o sapato que mamãe resgatara da Hermes.

Essa semana,vi na reportagem que os milionários jogadores brasileiros da copa usam os produtos da Hermès. Comentei com a família: temos algo em comum.

 

 

 

 

sábado, 4 de julho de 2026

crônica da semana - último romântico

 O último romântico

Há um mundo imenso espalhado, salpicado de escondidos e surpresas. De forma tal que até espanta. Ainda mais quando vêm dos reinos amazônicos, os assombros. Criam abalos por vezes tristes, tingidos de descaso com a nossa gente. Formam realidades que, em nosso mundo (Rai)mundinho, nem maldamos existir, mas existem.

O encontro se deu num acampamento temporário, por isso, desprovido do básico. Para mim, aquele jeito precarizado das acomodações, com barraco coberto de lona sobre débeis estruturas de madeira, já me dava gastura, pois que minhas jornadas no campo eram sempre em locais de estrutura razoável, equipe robusta e com este ou aquele apoio. Daquela vez foi diferente. Era, como diz o outro, tudo no bruto, na base do imperioso improviso. O cozinheiro não se podia dizer que era um cozinheiro de verdade. Era aquele um que apanhava lenha, completava a equipe de cortador de mata quando necessidade havia ou ainda ajeitava um curativo, um cuidado a alguém acometido de uma bifede ou algum tipo de passamento. O chefe era um geólogo romântico. Achava ele que aquelas dificuldades eram sinônimos de fortes emoções. Acreditava que os resultados, os indicadores, os avanços na pesquisa validavam toda e qualquer mazela própria daqueles abrigos mal-ajambrados. Eu heim, estranhei. A campanha era dinâmica. A equipe armava o acampamento aqui, passava uma semana, as frentes de trabalho iam-se distanciando. Então, era hora de desarmar tudo, colocar as tralhas nas costas, caminhar o tanto que fosse mata adentro, e erguer os barracos novamente mais adiante para mais uns diazinhos de peleja. Quando da minha vez de entrar para esta campanha, cismei logo. Só para chegar à área, ali, do ponto em que o carro nos deixava, era uma caminhada que batia perto de duas horas em ritmo acelerado. Entrei junto com o rancho e a equipe estava toda lá pra carregar os mantimentos. Inclusive o geólogo e o cozinheiro. No caminho fui orientado a prestar atenção nas árvores próximas, de tronco linheiro e alto. A elas deveria me acudir caso aparecesse uma onça. Neste caso, a orientação era largar a carga, correr, subir na árvore e esperar a bicha, desesperançada de rango farto, bater em retirada. A equipe era diferenciada. Aquele tipo de serviço era quase um castigo. Havia um entendimento de que a turma que ia para aquela campanha era formada pelos caras mais péssimos de comportamento e humor. Encarar aquela missão era quase um castigo para os brabos. Encarei a parada. Cada qual pegou seu fardo e tomou rumo torcendo para não precisar de árvores linheiras. Um pequeno me chamou a atenção. Era o puro louro do olho azul e fala estranha. Bem dizer um alemão ali no meio da peãozada amazônida.

Era rústico de dar na vista. Ao passar do tempo e pelos sinais que ele emitia, me interessei em saber mais. Vinha dos abandonados rurais do Paraná para ocupar a intacta floresta amazônica. Não sabia ler, nem escrever; contar, contava muito pouco e o que me pareceu mais assustador. Era descolado do tempo. Não dominava a sequência dos dias da semana, do mês. Pra ele todo dia era qualquer dia naquele enfurnado de mata. Nem a idade sabia no certo. Vinha de costumes sem eira de modos ou moral. A turma dava corda e nas noites, se esmerava em detalhar relações, diria não naturais, que estabelecia com os animais da fazenda que os pais mantinham ao pé da serra dos Parecis. Era um exemplar incivilizado. Protocidadão. Hábitos e conceitos forjados no abandono. Nunca pensei na vida, eu mesmo um pedreirense das baixadas, carente dos bens do mundo, encontrar um semelhante com pendores e valores tão minguados.

E aí, me inquieta ainda hoje, o tamanho do mundo e seus escondidos. Realidades que nem maldamos existir, mas existem.

Depois que saí da campanha, soube que numa entrada de rancho, entrou também uma caixa de conhaque, clandestinamente, para o acampamento. Não sobrou nem o barraco, que dirá o romantismo.