Ouvido de mercador
Eu sou um. Quando saio para a caminhada ou para uma prenda
rápida na rua, enfio o fone no ouvido.
O ditado surgiu lá pelas quantas do tempo e se refere ao fato
de comerciantes e caixeiros evitarem dar atenção às reclamações que a freguesia
expressava em comentários e interpelações aqui e ali. A intenção era ficar na
deles. Passar o produto, receber o numerário, dar a volta de troco, caso o caso
exigisse, e tornar ao mundo das vendas. Fazer ouvido de mercador é priorizar o
negócio e a paz interior. Atualmente, mais a paz interior.
Para um contador de casos não é um bom termo sair por aí
dando uma de mouco para o vulgo ou para o erudito. Afinal, o alarido fiel, a
tempestuosa fofoca... os imponderáveis reclamos, as retóricas proclamas e até
mesmo o discreto cochichado do dia formam a matéria-prima do cronista. Tenho,
então, que me fiar nos conceitos e na sempre amiga imaginação para desenvolver
temas e situações por causa deste anteparo circunstante que é o fone de ouvido.
Mas nem sempre foi assim. Meus ouvidos já se dispuseram à
larga. Em outros tempos. Sem o risco do melindre ideológico, sem a ditadura da
rasa opinião ou a insanidade moralista. Minha atenção já foi ampla, atenta às
simpatias da comunicação.
Ocorreu certa vez, quando da minha volta, desde que saí de lá
com 5 anos, ao Acre. Eu já estava taludinho, trampando ali perto, em Rondônia,
quando numa folga, dei uma escapulida pra conhecer minhas origens. Foi um
bate-volta extraordinário. Todas as minhas fantasias embarcaram comigo no
ônibus que saiu da rodoviária de Rio Branco e se largou na direção do Xapuri,
ali pros lados do poente. A sensação era de que o dia nunca acabava. O oeste era
um fim de tarde sem fim. O ônibus naquela velocidade fantasiosa não deixava o
sol se distanciar, não deixava o crepúsculo se realizar. Estávamos envolvidos
num portal de momento único. Dominador. Que não permitia o sol se pôr. Não
admitia que o tempo passasse. Em termos de coisa e de loisa, aquele motorista
conduzia uma máquina que alcançava a façanha de fazer a Terra parar. Daí, numa
parada de beira de estrada, o homem embarcou.
Eu, sentado numa das poltronas na frente, me certificando a
cada instante que o sol nem seu Souza, não se mexia, não embicava no horizonte
de jeito e maneira. Íamos ao encontro do sol e aquela bolona alaranjada lá no
céu, nos esperava. O homem acomodou-se na poltrona parelha à minha, do outro
lado do corredor. Numa posição oblíqua à nossa, um menino, acompanhado da mãe.
Do que entrou no ônibus, até bem mais perto do horizonte, no ponto em que
desceu, o homem da estrada não parou de falar. Falou mais que o homem da cobra.
Em dado momento atinou que o menino olhava pra ele com um ar de curioso. Enviesou
o olhar, inclinou-se e se dirigiu ao menino, meio pândego, meio inquiridor:
“tás me olhando, heim! Tá me conhecendo de onde, do jornal ou de uma lata de
banha?”.
Para um contador de casos com os ouvidos ligados no mundo,
aquela pergunta foi um verso abonador de que vale a pena escutar a voz que vem dos
vetores esquecidos que levam ao oeste. Não mais descolei daquelas palavras sem
grau algum de etilo ou significado. Doce bandalha entre poltronas de um ônibus
que não voava, não cortava meridianos, não deixava o céu escurecer e nenhuma
estrela nos guiar, quer dizer, deixava sim. O sol, a nossa estrela, estava ali
vermelhão só na espia.
O mundo era bem melhor quando as latas de banha traziam o
rosto das pessoas humildes e sinceras estampadas na chapa gordurenta. Quando
uma foto no jornal inspirava curiosidade ou admiração e quando o corredor de um
ônibus era inundado de conversas jogadas sem a severidade da lógica, para
dentro da gente.
Esses dias fui ao supermercado sem fone de ouvido. Uma música
gritada saturava o ambiente. À saída dois homens discutiam o destino de um
terceiro. Papo de macho alfa. Eu ouvi tudo. E foi tudo sem sol pra dentro de
mim.