sábado, 11 de julho de 2026

crônica da semana - sapato da hermes

 Pisante marrom

O sapato, no original, nem era preto. Era marrom. Mamãe ganhou numa daquelas premiações que a Hermes dava para as vendedoras que se destacavam no mês. Podia escolher, no catálogo, os produtos que satisfizessem a pontuação que ela alcançara nas vendas. Como eu estava na pira de sapatos, largou mão de outras precisões e me autorizou escolher um par do meu agrado. Bati o olho no marronzinho com o bico saliente, costura em relevo nas laterais, sem cadarço, em modelo só de enfiar o pé mesmo; e que quando chegou, valorizou minha escolha porque o bichinho era macio, confortável que só ele. Me dei.

Era comum, naqueles anos 80, diante dos aperreios diários, a família se agarrar a qualquer oportunidade de faturar um numerário. Teve a fase dos catálogos, ou como enfatizado na corruptela de mamãe, ‘catálago’. Pra tudo em quanto a gente tinha uma revistinha apinhada de ofertas. Mamãe oferecia seus préstimos empreendedores a todas as franquias da onda. O custo era ter o catálogo. Tivesse, estava dentro. Batia esta Pedreira velha todinha, fizesse sol, chuva fizesse, com a sacola debaixo do braço, sortida de amostras grátis de batons, perfumes, e ainda, acrescida de peças íntimas femininas, e toda a sorte de estímulos visuais contidos nos mostruários ilustrados.

Calhou que dessa arrumação toda de artigos e produtos, me saísse um alento que me acompanhou até eu me formar. Não foi assim de prima. Houve a alteração da cor. A Escola Técnica tinha seus controles e não admitia desvio no uniforme. Era a tradicional bata azulzinha, com o bolso identificando semestre e curso, calça preta e sapato preto. Eu segurei o que pude o meu Bamba na lida. Aliás, durante o reinado do Bamba, fui beneficiado com a vista grossa dos inspetores, pois que não podia. Era preto com detalhe branco na biqueira e no solado. Tive que ser muito rapaz umas quantas vezes para poder entrar na Escola com ele, apesar das bacanagens dos bedéis. A linha era dura. Até que o pobre rasgou de não ter jeito. Eu tinha lá o meu sapato da Hermes, mais que depressa consegui uma graxa preta com minha pariceirada da rua e dei-lhe uma mão dupla da pasta até o pisante tisnar por inteiro. Ficou no jeito.

Estava na reta final da Escola, dois ou três semestres para encerrar o curso. Exatamente a pior fase de grana na família. Sustentar quatro bocas não estava sendo fácil. Mamãe ainda ficou na venda dos catálogos, mas acumulou outras fontes de renda. Conseguiu uma barraca na feira. Lá era o nosso ponto de apoio, a matriz das nossas marretagens. Revezávamos os turnos da barraca, a venda nas ruas, ocupações no lar e os deveres escolares. Ainda assim, na viração intensa em escala 7 x 0, a maré banzerou pro meu lado. Nessa época, as atividades no curso ganharam componentes mais técnicos e caros. Papel vegetal, tintas e canetas Nanquim, papel milimetrado, cópias fotostáticas de mapas e imagens de radar landsat, além de viagens de campo com parte do custo jogada nas nossas costas. Tudo ia muito além das minhas posses. Eu não dava mais conta. Faltando tão pouco, desvaneci.

É nessa hora que a gente sente que não está só. Os inspetores, meus colegas de turma, professores e simpatizantes do meu jeito de ser e ter fé na vida uniram-se e seguraram a minha onda. Do meio pro fim, eu não gastava mais era nada com os trabalhos ou uniforme. Cheguei a ter mais batas que os meus colegas porque dona Joaquina, que era a inspetora do nosso bloco, recolhia de cada turma que se formava o que desse de material e uniforme e me dava. Terminei o curso como um pequeno Frankestein, construído com a bata de um, a calça de outro, a caneta nanquim daquele, o papel vegetal deste... A única posse que me era original, não na cor, era o sapato que mamãe resgatara da Hermes.

Essa semana,vi na reportagem que os milionários jogadores brasileiros da copa usam os produtos da Hermès. Comentei com a família: temos algo em comum.

 

 

 

 

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