Pisante marrom
O sapato, no original, nem era preto. Era marrom. Mamãe
ganhou numa daquelas premiações que a Hermes dava para as vendedoras que se
destacavam no mês. Podia escolher, no catálogo, os produtos que satisfizessem a
pontuação que ela alcançara nas vendas. Como eu estava na pira de sapatos,
largou mão de outras precisões e me autorizou escolher um par do meu agrado.
Bati o olho no marronzinho com o bico saliente, costura em relevo nas laterais,
sem cadarço, em modelo só de enfiar o pé mesmo; e que quando chegou, valorizou
minha escolha porque o bichinho era macio, confortável que só ele. Me dei.
Era comum, naqueles anos 80, diante dos aperreios diários, a
família se agarrar a qualquer oportunidade de faturar um numerário. Teve a fase
dos catálogos, ou como enfatizado na corruptela de mamãe, ‘catálago’. Pra tudo
em quanto a gente tinha uma revistinha apinhada de ofertas. Mamãe oferecia seus
préstimos empreendedores a todas as franquias da onda. O custo era ter o
catálogo. Tivesse, estava dentro. Batia esta Pedreira velha todinha, fizesse
sol, chuva fizesse, com a sacola debaixo do braço, sortida de amostras grátis
de batons, perfumes, e ainda, acrescida de peças íntimas femininas, e toda a
sorte de estímulos visuais contidos nos mostruários ilustrados.
Calhou que dessa arrumação toda de artigos e produtos, me
saísse um alento que me acompanhou até eu me formar. Não foi assim de prima.
Houve a alteração da cor. A Escola Técnica tinha seus controles e não admitia
desvio no uniforme. Era a tradicional bata azulzinha, com o bolso identificando
semestre e curso, calça preta e sapato preto. Eu segurei o que pude o meu Bamba
na lida. Aliás, durante o reinado do Bamba, fui beneficiado com a vista grossa
dos inspetores, pois que não podia. Era preto com detalhe branco na biqueira e no
solado. Tive que ser muito rapaz umas quantas vezes para poder entrar na Escola
com ele, apesar das bacanagens dos bedéis. A linha era dura. Até que o pobre
rasgou de não ter jeito. Eu tinha lá o meu sapato da Hermes, mais que depressa
consegui uma graxa preta com minha pariceirada da rua e dei-lhe uma mão dupla
da pasta até o pisante tisnar por inteiro. Ficou no jeito.
Estava na reta final da Escola, dois ou três semestres para
encerrar o curso. Exatamente a pior fase de grana na família. Sustentar quatro
bocas não estava sendo fácil. Mamãe ainda ficou na venda dos catálogos, mas
acumulou outras fontes de renda. Conseguiu uma barraca na feira. Lá era o nosso
ponto de apoio, a matriz das nossas marretagens. Revezávamos os turnos da
barraca, a venda nas ruas, ocupações no lar e os deveres escolares. Ainda
assim, na viração intensa em escala 7 x 0, a maré banzerou pro meu lado. Nessa
época, as atividades no curso ganharam componentes mais técnicos e caros. Papel
vegetal, tintas e canetas Nanquim, papel milimetrado, cópias fotostáticas de
mapas e imagens de radar landsat, além de viagens de campo com parte do custo
jogada nas nossas costas. Tudo ia muito além das minhas posses. Eu não dava
mais conta. Faltando tão pouco, desvaneci.
É nessa hora que a gente sente que não está só. Os
inspetores, meus colegas de turma, professores e simpatizantes do meu jeito de
ser e ter fé na vida uniram-se e seguraram a minha onda. Do meio pro fim, eu
não gastava mais era nada com os trabalhos ou uniforme. Cheguei a ter mais
batas que os meus colegas porque dona Joaquina, que era a inspetora do nosso
bloco, recolhia de cada turma que se formava o que desse de material e uniforme
e me dava. Terminei o curso como um pequeno Frankestein, construído com a bata
de um, a calça de outro, a caneta nanquim daquele, o papel vegetal deste... A
única posse que me era original, não na cor, era o sapato que mamãe resgatara
da Hermes.
Essa semana,vi na reportagem que os milionários jogadores
brasileiros da copa usam os produtos da Hermès. Comentei com a família: temos
algo em comum.
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