sábado, 4 de julho de 2026

crônica da semana - último romântico

 O último romântico

Há um mundo imenso espalhado, salpicado de escondidos e surpresas. De forma tal que até espanta. Ainda mais quando vêm dos reinos amazônicos, os assombros. Criam abalos por vezes tristes, tingidos de descaso com a nossa gente. Formam realidades que, em nosso mundo (Rai)mundinho, nem maldamos existir, mas existem.

O encontro se deu num acampamento temporário, por isso, desprovido do básico. Para mim, aquele jeito precarizado das acomodações, com barraco coberto de lona sobre débeis estruturas de madeira, já me dava gastura, pois que minhas jornadas no campo eram sempre em locais de estrutura razoável, equipe robusta e com este ou aquele apoio. Daquela vez foi diferente. Era, como diz o outro, tudo no bruto, na base do imperioso improviso. O cozinheiro não se podia dizer que era um cozinheiro de verdade. Era aquele um que apanhava lenha, completava a equipe de cortador de mata quando necessidade havia ou ainda ajeitava um curativo, um cuidado a alguém acometido de uma bifede ou algum tipo de passamento. O chefe era um geólogo romântico. Achava ele que aquelas dificuldades eram sinônimos de fortes emoções. Acreditava que os resultados, os indicadores, os avanços na pesquisa validavam toda e qualquer mazela própria daqueles abrigos mal-ajambrados. Eu heim, estranhei. A campanha era dinâmica. A equipe armava o acampamento aqui, passava uma semana, as frentes de trabalho iam-se distanciando. Então, era hora de desarmar tudo, colocar as tralhas nas costas, caminhar o tanto que fosse mata adentro, e erguer os barracos novamente mais adiante para mais uns diazinhos de peleja. Quando da minha vez de entrar para esta campanha, cismei logo. Só para chegar à área, ali, do ponto em que o carro nos deixava, era uma caminhada que batia perto de duas horas em ritmo acelerado. Entrei junto com o rancho e a equipe estava toda lá pra carregar os mantimentos. Inclusive o geólogo e o cozinheiro. No caminho fui orientado a prestar atenção nas árvores próximas, de tronco linheiro e alto. A elas deveria me acudir caso aparecesse uma onça. Neste caso, a orientação era largar a carga, correr, subir na árvore e esperar a bicha, desesperançada de rango farto, bater em retirada. A equipe era diferenciada. Aquele tipo de serviço era quase um castigo. Havia um entendimento de que a turma que ia para aquela campanha era formada pelos caras mais péssimos de comportamento e humor. Encarar aquela missão era quase um castigo para os brabos. Encarei a parada. Cada qual pegou seu fardo e tomou rumo torcendo para não precisar de árvores linheiras. Um pequeno me chamou a atenção. Era o puro louro do olho azul e fala estranha. Bem dizer um alemão ali no meio da peãozada amazônida.

Era rústico de dar na vista. Ao passar do tempo e pelos sinais que ele emitia, me interessei em saber mais. Vinha dos abandonados rurais do Paraná para ocupar a intacta floresta amazônica. Não sabia ler, nem escrever; contar, contava muito pouco e o que me pareceu mais assustador. Era descolado do tempo. Não dominava a sequência dos dias da semana, do mês. Pra ele todo dia era qualquer dia naquele enfurnado de mata. Nem a idade sabia no certo. Vinha de costumes sem eira de modos ou moral. A turma dava corda e nas noites, se esmerava em detalhar relações, diria não naturais, que estabelecia com os animais da fazenda que os pais mantinham ao pé da serra dos Parecis. Era um exemplar incivilizado. Protocidadão. Hábitos e conceitos forjados no abandono. Nunca pensei na vida, eu mesmo um pedreirense das baixadas, carente dos bens do mundo, encontrar um semelhante com pendores e valores tão minguados.

E aí, me inquieta ainda hoje, o tamanho do mundo e seus escondidos. Realidades que nem maldamos existir, mas existem.

Depois que saí da campanha, soube que numa entrada de rancho, entrou também uma caixa de conhaque, clandestinamente, para o acampamento. Não sobrou nem o barraco, que dirá o romantismo.

 

 

 

 

 

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