O último romântico
Há um mundo imenso espalhado, salpicado de escondidos e
surpresas. De forma tal que até espanta. Ainda mais quando vêm dos reinos
amazônicos, os assombros. Criam abalos por vezes tristes, tingidos de descaso
com a nossa gente. Formam realidades que, em nosso mundo (Rai)mundinho, nem
maldamos existir, mas existem.
O encontro se deu num acampamento temporário, por isso,
desprovido do básico. Para mim, aquele jeito precarizado das acomodações, com
barraco coberto de lona sobre débeis estruturas de madeira, já me dava gastura,
pois que minhas jornadas no campo eram sempre em locais de estrutura razoável,
equipe robusta e com este ou aquele apoio. Daquela vez foi diferente. Era, como
diz o outro, tudo no bruto, na base do imperioso improviso. O cozinheiro não se
podia dizer que era um cozinheiro de verdade. Era aquele um que apanhava lenha,
completava a equipe de cortador de mata quando necessidade havia ou ainda
ajeitava um curativo, um cuidado a alguém acometido de uma bifede ou algum tipo
de passamento. O chefe era um geólogo romântico. Achava ele que aquelas
dificuldades eram sinônimos de fortes emoções. Acreditava que os resultados, os
indicadores, os avanços na pesquisa validavam toda e qualquer mazela própria
daqueles abrigos mal-ajambrados. Eu heim, estranhei. A campanha era dinâmica. A
equipe armava o acampamento aqui, passava uma semana, as frentes de trabalho
iam-se distanciando. Então, era hora de desarmar tudo, colocar as tralhas nas
costas, caminhar o tanto que fosse mata adentro, e erguer os barracos novamente
mais adiante para mais uns diazinhos de peleja. Quando da minha vez de entrar
para esta campanha, cismei logo. Só para chegar à área, ali, do ponto em que o
carro nos deixava, era uma caminhada que batia perto de duas horas em ritmo acelerado.
Entrei junto com o rancho e a equipe estava toda lá pra carregar os mantimentos.
Inclusive o geólogo e o cozinheiro. No caminho fui orientado a prestar atenção nas
árvores próximas, de tronco linheiro e alto. A elas deveria me acudir caso
aparecesse uma onça. Neste caso, a orientação era largar a carga, correr, subir
na árvore e esperar a bicha, desesperançada de rango farto, bater em retirada.
A equipe era diferenciada. Aquele tipo de serviço era quase um castigo. Havia
um entendimento de que a turma que ia para aquela campanha era formada pelos
caras mais péssimos de comportamento e humor. Encarar aquela missão era quase
um castigo para os brabos. Encarei a parada. Cada qual pegou seu fardo e tomou
rumo torcendo para não precisar de árvores linheiras. Um pequeno me chamou a
atenção. Era o puro louro do olho azul e fala estranha. Bem dizer um alemão ali
no meio da peãozada amazônida.
Era rústico de dar na vista. Ao passar do tempo e pelos
sinais que ele emitia, me interessei em saber mais. Vinha dos abandonados
rurais do Paraná para ocupar a intacta floresta amazônica. Não sabia ler, nem
escrever; contar, contava muito pouco e o que me pareceu mais assustador. Era
descolado do tempo. Não dominava a sequência dos dias da semana, do mês. Pra
ele todo dia era qualquer dia naquele enfurnado de mata. Nem a idade sabia no
certo. Vinha de costumes sem eira de modos ou moral. A turma dava corda e nas
noites, se esmerava em detalhar relações, diria não naturais, que estabelecia
com os animais da fazenda que os pais mantinham ao pé da serra dos Parecis. Era
um exemplar incivilizado. Protocidadão. Hábitos e conceitos forjados no
abandono. Nunca pensei na vida, eu mesmo um pedreirense das baixadas, carente dos
bens do mundo, encontrar um semelhante com pendores e valores tão minguados.
E aí, me inquieta ainda hoje, o tamanho do mundo e seus
escondidos. Realidades que nem maldamos existir, mas existem.
Depois que saí da campanha, soube que numa entrada de rancho,
entrou também uma caixa de conhaque, clandestinamente, para o acampamento. Não
sobrou nem o barraco, que dirá o romantismo.
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