sábado, 22 de agosto de 2026

crônica da semana - régua tê

 A anatomia (e a psicologia) da régua Tê

Nos primeiros dias de aula e ainda por um bom tempo, mesmo às vésperas de mudar o bolso de ‘básico’ para ‘profissional’, a galera pegava no pé de quem chegava à Escola agarrado a uma régua Tê. A encarnação, ou, que seja, o bullying era certo.

O ensino do Desenho Técnico era traço (ops!) essencial na formação de quem ingressava na Escola Técnica, na minha época. Exigia uma estrutura de sala de aula diferente, dotada de mesas especiais (pranchetas), professores destacados, bancos altões pra gente alcançar as mesas. E uma série de componentes, os ditos materiais de desenho. Dentre eles, a perseguida e bulinada régua Tê.

Tratava-se de uma peça bem indiscreta e representava uma disciplina de entrada na Escola. Sinalizava um aluno novato, calouro ou no dialeto preconceituoso da época, ‘aluno mobral’. Era inevitável. No caminho para as salas de Desenho, ali pela pracinha que ficava em frente à biblioteca, aquela romaria de novatos portando régua Tê era homenageada com vaias, afrontas e dizeres impublicáveis. Era um ciclo, sabíamos. Dali a algum tempo, os alunos xingados passariam a ser os xingadores.

Fosse eu um estudiosos dos interstícios da mente, cavucaria termos e conceitos que explicassem estes comportamentos naquele ambiente, no esperado, de aprendizado. E também, pesquisaria os efeitos psicológicos resultantes daquelas encarnações. Eu, por mim, tenho é trauma. Sofri pacas. Uma porque custei a abandonar a régua Tê (outro sinal. Significava pouca destreza no traço). E noutra, porque na minha vez ainda ocorreu de a minha régua, ao contrário de todas as outras dos meus colegas que eram de acrílico, ser de madeira. Além de ‘mobral’, a minha régua indicava ali um aluno que não tinha dinheiro para comprar uma régua de acrílico. E, pelo certo, nem de madeira. A régua, chegou até mim, como fruto de uma doação. Me entanguia de vergonha entre os meus colegas, para que não me localizassem, toda vez que tínhamos que passar pela pracinha.

A realidade daquelas afrontas era que refletiam diferenças de aprendizado. O uso da régua Tê significava pouco desprendimento na disciplina e necessidade do amparo daquele componente. Com o tempo, os alunos iam ficando mais ‘safos’ e abandonando aquele artifício. A maturidade dispensava a régua Tê e as atividades de Desenho passavam a ser regidas pelo charme e pela caté no manejo do par de esquadros. A maturidade ensejava a gabolice e o preconceito. Demorou, penei que só, mas quando me dei com os esquadros, adorei. Até um dia desses, na minha caminhada profissional, mesmo ante as tecnologias, me acudia ao charme do par de esquadros para conferir traços.

Os esquadros integravam o que chamo de anatomia da régua Tê.

A régua era a peça mais robusta. Pelo comum era uma haste com 5 a 7cm de largura por 50cm de comprimento, finalizada em uma das pontas, com uma cabeça em tê. Este formato proporcionava o ajuntamento ordenado das outras peças, no corpo do acrílico (ou da madeira, no meu caso). Deixa eu ver se me lembro a organização direitinho. Ali, cabia todo o nosso material. Primeiro, o transferidor. Com a régua em pé e de cabeça pra baixo, o transferidor era introduzido e despencava até encontrar o tê, depois, o par de esquadros deslizava ao longo da lâmina, até chegar no transferidor lá na ponta. A seguir, com a fita isolante, que na aula servia para fixar o papel na prancheta, colávamos o escalímetro no corpo da régua. Acima do escalímetro colávamos a borracha branca e a flanela. Concluindo, posicionávamos o rolo de fita e o tubo montado com o papel A2, colado com durex para não abrir, e lançávamos os dois envolvendo boa porção da haste. Os lápis de vários traços e durezas iam no bolso da bata. O compasso, na mochila, porque era sempre um risco com aquela ponta fina. No coração da gente, uma batucada de nervoso porque passaríamos pela pracinha minada de moleques pouco atentados!

 

sábado, 15 de agosto de 2026

crônica da semana - juta e malva

 Juta e malva

Confesso que me encolhi de vergonha ao menor risco de ver-me representado ali naquela afirmação. A professora sem alisar o couro do paciente, disparou ferina a citação de um filósofo aquele não menos severo, que ante o impacto da carapuça, me desprendi do nome: “Não fale dos mitos aos incautos. Eles acreditarão em tudo ao pé da letra”.

O inocente aqui confessa e se enquadra: por vezes a gente vê os tempos e as artes com os olhos do simples.

Por isso a luta insistente para nos libertarmos, para nos esforçarmos espreitar além das faces explícitas e do lustro dos símbolos. A professora enriqueceu a palestra com passagens da Odisseia. Reconheço. Identifiquei ali só as pelejas com monstros, sereias, divindades. Olhos furados, ossos quebrados, beijos enfeitiçados e mar revolto. Mas tudo aquilo, ressalvou a professora, condensava uma única mensagem. Era a viagem de volta, de Ulisses, para dentro de si.

A poética lança mão de artifícios que buscam alcançar além dos sentidos. É necessário que a gente esteja de coração aberto para sermos atingidos. Daí o escape do óbvio, daí o potencial humano de aprender. E discernir.

A arte abre portas e corações e, olha só, nos aproxima da juta e da malva...

Naquela parte da discreta apreensão, lá pelos idos passados no ginásio, juta e malva eram para mim apenas a resposta para uma questão de prova. Apareciam no ponto das aulas de Estudos Regionais quando se falava de produtos importantes para a nossa economia. Juta e malva eram das principais mercadorias incluídas no pacote das produções da região Norte. Mesmo sem saber o que era aquela dupla e nem pra que servia nosso expoente de negócios, cravava sem dúvida na resposta.

Anos depois, lendo Milton Hatoum é que fui sacar a natureza dos produtos. Mais a juta. Malva sei o que é, por tabela, mas o que tem destaque no romance Cinzas do Norte, do escritor amazonense é a plantação de juta. A partir do romance, conheci uma penca de detalhes relacionados à juta. A narrativa de que a planta foi trazida no cambalacho, da Índia; o sucesso das técnicas de cultivo nos baixios amazônicos, os riscos nas operações de coleta, que por vezes impõem mergulho e jeito de corpo aos coletores, além de coragem pra enfrentar sucuris e aparentados aquáticos pouco amistosos.

Naqueles longes ginasianos de chumbo, o Brasil vivia uma fase de poucos aléns nas palavras. Os livros didáticos distribuídos pelos governos traçavam roteiros acanhados, circunscritos aos artificiais entusiasmos do momento. Ilustravam com exagerado esmero avanços e desenvolvimento. Na quarta capa traziam o hino do Pará e nos davam o simples para respondermos a questão da prova.

Outra fonte que traz detalhes enriquecedores do manejo da juta é o romance “Sementes do sol”, do escritor obidense Ademar Ayres do Amaral. Ele nos conta: “mal alimentado, o lavador de juta passa o dia inteiro dentro d’água, os dedos das mãos e dos pés terminam a jornada enrugados pelo tempo de imersão e o resto do corpo fica horas exposto ao sol... Um sol... que toma conta de tudo e de todos, como se fosse a lanterna de Deus.”

O filósofo, Platão ele, lembrei agora, é previdente quando nos alerta que a régia aspereza, a concretude insuspeita de horrores, monstros e sinistros cenários podem esconder a busca por uma paz interior. As artes, e a literatura em especial, têm mesmo esta missão de transportar juta e malva para além de uma linha de resposta curta de prova ginasiana. Aqui, acolá, a trama literária diz uma coisa quando quer dizer outra. Apresenta sucuris dentro d’água quando as ameaças aquáticas nada amistosas estão é nos justos alagados das gentes, dentro do coletor de fibras. A arte sugere viagens pelos mares sem fim quando a viagem é só uma volta em torno da gente mesmo. Tem hora que é estratégia; outra, estilo.Vai da gente sacar e escapar do simples.

Sobre o uso, a juta serve para produzir sacarias e fibras ecológicas

 

 

sábado, 8 de agosto de 2026

crônica da semana - estreito de messina

 O Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu

Fosse comigo, eu me revoltaria logo. Não, ninguém num vai! Sugeriria sem tremer os beiços. Vamos lá só tu! Eu, heim! Eu é que não iria me meter nessas bocadas. Esse herói grego pôs a turma dele em cada encalacre.

O herói é um personagem da narrativa épica grega que eu chamei a vida toda de Ulisses e agora, por causa do neorenascimento provocado pelo lançamento do filme, passei a conhecer como Odisseu. A história conta as aventuras do rei de Ítaca logo que termina a guerra de Tróia. No quê de voltar pra casa, o herói se mete numa arenga com o gigante de um olho só e pega uma senhora de uma prenda do pai dele, Poseidon, um deus enfezado que só ele. Só de mau o fanchão dos oceanos faz de um tudo para Odisseu vagar de água grande em água sem fim dos mares por dez anos, se virando nos trinta de tantos perigos que ele encontra pela frente. Corta um dobrado nessa aventura. Perde o barco, toda a tripulação tem um fim trágico e o herói se vê atado a um nó difícil de desatar. E é aí que o Xingu entra na parada.

Fosse no trancoso poético, dava era o desdobro. Mas na vera, nas desobrigas do trampo brabo, tive que encarar os desafios do Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu.

Um dos perrengues que Odisseu passa, aquele no dito aperreio em que ele perde meia penca de marujos que navegavam perdidos com ele, acontece no estreito de Messina. A história fala que é um canal solitário, perdido no oceano que guarda numa das bandas, um monstro horrível que tem seis bocas esfomeadas e na outra banda um funil de água que engole quem passa por lá. Dizem até que o ditado popular que põe uma pessoa “entre a cruz e a espada”, vem desse afogueado do herói se meter entre estas duas bandas malinas. Mas o Xingu nem entra na história por causa desses monstros bandados e medonhos. Dá o tom e o verso é no exato formato do canal. Um caminho de água estreito ladeado por imensas paredes rochosas.

Pois bem. Eis que certa vez, desenrolando a vida na minha odisseia amazônica, varei, na minha canoa, em um estirado de água apertado, profundo, silencioso, e aparado de um lado e de outro por uma potência de pedra monstruosa de alta e amedrontadora. Na hora lembrei da sequência que tinha visto em Ulisses (naquele tempo era Ulisses ainda), um filme que era vezeiro de passar na sessão da tarde. E que apresentava um cenário, uma movimentação, uma tensão escritinha àquele que eu sentia ao cruzar aquele canal que corria escondido pela margem direita do Xingu.

No filme que enreda esta minha passagem, me ocorreu que as paredes de pedra se mexiam, indo uma contra a outra, em tempo de amassar o barco do Ulisses bem amassadinho. Esse era meu medo. Eu e minha turma nos aviamos nos remos. Ninguém deu uma palavra. Não houve partilha de medo ou mal’impressão, desde que entramos naquele desvio. Mas foi automática a nossa decisão de acelerar o ritmo. A gente a bom remar. Olhávamos uns pros outros, lançávamos olhares salteados para cima e para frente do caminho para nos certificarmos que as paredes rochosas não estavam ensaiando nos espremer e... a gente a bom remar.

Era um lugar encantador. Fascinante. Como outros lugares fantásticos que conheci ao longo da mítica Volta Grande do Xingu. A semelhança com uma alegoria épica só temperou aquele dia. Pôs um adianto de emoção em uma jornada de trabalho que tendia ser rotineira. Aquele ponto do rio era objeto de estudo porque se localizava em uma estrutura, digamos, bandada (olha aí, os monstros de Messina). Acima, as corredeiras assanhadíssimas da Volta Grande. Abaixo, um encaixado de 70 metros de largura por onde passava toda a água que corria num largo de mais de 2 quilômetros lá atrás. E no meio, o poético Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu com suas gigantescas paredes de pedra, o silêncio, o medo contido. E a gente numa aventura (a bom remar) inesquecível.

sábado, 1 de agosto de 2026

crônica da semana - paradoxo das samaúmas

 O Paradoxo das samaúmas

Eis que caminhando ali pela Duque de Caxias, avistei a samaúma completamente pelada. Só a casqueta. Nenhuma ramazinha pra remédio. Nenhuma flolhazinha de lembrança. Deixa que nem me adiantei o tanto que desse na pisada pra pingar o suor da testa e logo que bem na esquina da Marquês de Herval com a Barão do Triunfo, constatei de palmo em cima a samaúma que reina por ali estar minada de folhas. Uma árvore rica, toda composta na prodigalidade exuberante de uma copa saturada de verde. Como é que pode, né, distância que não denuncia sequer o caminhar de três estirões bem contados, mesmo sol que nos cabe a todos, época do ano do pleno julho, Terra inclinada do eixo, no mínimo do nem bem lá e nem bem cá e as duas árvores exibindo-se em roupagem completamente diferente. Uma no mais puro liso do tronqueio enquanto a outra têi têi, esbanjando clorofilamento na folhagem do cá do embaixo ao lá do muito em cima. Por que será? Eis a questão.

Nem lembro em que passagem da vida eu obtive esta informação. Acho que foi numa das minhas tentativas de passar no vestibular. Sem fazer cursinho, migrava de um livro emprestado pra outro e com alguma urgência. Tinha pressa em conhecer os assuntos e sempre pouco tempo pra aprofundar. Em alguma publicação de Biologia, dei com uma explicação, que até hoje acho de uma elegância impecável, para o fato de, em determinada época do ano, as árvores perderem as folhas. Esta época, conjugada com a posição geográfica da região e a inclinação da Terra, é conhecida como outono. É um período que compõe as estações do ano. Vem depois do verão e antecede o inverno. Aí é que vem o tico de elegância. Nos parâmetros geográficos e atmosféricos que marcam as estações, consta que no inverno registra-se pouca chuva e no verão, o pampeiro não alivia a carga. Ocorre que durante o tempo de chuvas abundantes, as árvores são bem hidratadas e também, naquilo que dá de sol, liberam água para a atmosfera (em quantidades tantas que geram os rios voadores). Para cravar no estilo de deduzir as coisas, li no livro, e reconhecemos este fato no simples caminhar no bosquinho, que a água acumulada nas árvores é transferida para o ambiente através das folhas, num processo conhecido como transpiração. Uma troca de tal forma responsável que na época de pouca chuva, as plantas para não ficarem desidratadas recorrem a uma arte radical da evolução: perdem as folhas. Assim, a via de dispersão de água é cortada e as árvores garantem reserva de suprimento para hidratação até a volta das grandes águas. Estas regras, observo, são controladas pelas particularidades espaciais do planeta. E valem mesmo na vera, para regiões mais perto dos polos. Quanto mais sentida a inclinação da Terra, quanto mais próximo dos polos, mais impacto o ambiente produz nos eventos naturais. Quanto mais distante dos polos, vindo aqui para os arredores do Equador, a gente mal percebe as mudanças ou se percebe, elas são mínimas. Uma época chove muito, em outra, chove pouco e estamos conversados. Aqui a samaúma dá o papo. E de uma forma desafiadora.

Como meus conhecimentos do metabolismo das árvores e do suspiro dos vegetais se resumem àquelas páginas encarreiradas que li no livro de Biologia, numa consulta às vésperas da prova do vestibular, provoco aqui os entendidos para me aliviarem desta dor atroz que a dúvida me impõe.

Agora na Amazônia, entramos na fase do ano que chove pouco. É de se esperar uma vuca de árvores desfolhadas dominando o cenário. E a bem do dizer, a samaúma é a mais amostradinha. Aquela que do longe mesmo das vistas a gente dá definição.

Ocorre que quando miro e vejo, dou é de encontro com o paradoxo, do o que é não sendo. Com a família das samaúmas em descompasso, de uma amostradinha esbanjar as folhas prendidas na unidade da árvore e a outra bem ali no perto constar no observado como a mais pura carência de folhagem e ramas. Por que será?