O Paradoxo das samaúmas
Eis que caminhando ali pela Duque de Caxias, avistei a
samaúma completamente pelada. Só a casqueta. Nenhuma ramazinha pra remédio.
Nenhuma flolhazinha de lembrança. Deixa que nem me adiantei o tanto que desse na
pisada pra pingar o suor da testa e logo que bem na esquina da Marquês de Herval
com a Barão do Triunfo, constatei de palmo em cima a samaúma que reina por ali estar
minada de folhas. Uma árvore rica, toda composta na prodigalidade exuberante de
uma copa saturada de verde. Como é que pode, né, distância que não denuncia
sequer o caminhar de três estirões bem contados, mesmo sol que nos cabe a
todos, época do ano do pleno julho, Terra inclinada do eixo, no mínimo do nem
bem lá e nem bem cá e as duas árvores exibindo-se em roupagem completamente
diferente. Uma no mais puro liso do tronqueio enquanto a outra têi têi,
esbanjando clorofilamento na folhagem do cá do embaixo ao lá do muito em cima.
Por que será? Eis a questão.
Nem lembro em que passagem da vida eu obtive esta informação.
Acho que foi numa das minhas tentativas de passar no vestibular. Sem fazer
cursinho, migrava de um livro emprestado pra outro e com alguma urgência. Tinha
pressa em conhecer os assuntos e sempre pouco tempo pra aprofundar. Em alguma
publicação de Biologia, dei com uma explicação, que até hoje acho de uma
elegância impecável, para o fato de, em determinada época do ano, as árvores
perderem as folhas. Esta época, conjugada com a posição geográfica da região e
a inclinação da Terra, é conhecida como outono. É um período que compõe as
estações do ano. Vem depois do verão e antecede o inverno. Aí é que vem o tico
de elegância. Nos parâmetros geográficos e atmosféricos que marcam as estações,
consta que no inverno registra-se pouca chuva e no verão, o pampeiro não alivia
a carga. Ocorre que durante o tempo de chuvas abundantes, as árvores são bem
hidratadas e também, naquilo que dá de sol, liberam água para a atmosfera (em
quantidades tantas que geram os rios voadores). Para cravar no estilo de
deduzir as coisas, li no livro, e reconhecemos este fato no simples caminhar no
bosquinho, que a água acumulada nas árvores é transferida para o ambiente
através das folhas, num processo conhecido como transpiração. Uma troca de tal
forma responsável que na época de pouca chuva, as plantas para não ficarem
desidratadas recorrem a uma arte radical da evolução: perdem as folhas. Assim,
a via de dispersão de água é cortada e as árvores garantem reserva de suprimento
para hidratação até a volta das grandes águas. Estas regras, observo, são
controladas pelas particularidades espaciais do planeta. E valem mesmo na vera,
para regiões mais perto dos polos. Quanto mais sentida a inclinação da Terra,
quanto mais próximo dos polos, mais impacto o ambiente produz nos eventos naturais.
Quanto mais distante dos polos, vindo aqui para os arredores do Equador, a
gente mal percebe as mudanças ou se percebe, elas são mínimas. Uma época chove
muito, em outra, chove pouco e estamos conversados. Aqui a samaúma dá o papo. E
de uma forma desafiadora.
Como meus conhecimentos do metabolismo das árvores e do
suspiro dos vegetais se resumem àquelas páginas encarreiradas que li no livro
de Biologia, numa consulta às vésperas da prova do vestibular, provoco aqui os
entendidos para me aliviarem desta dor atroz que a dúvida me impõe.
Agora na Amazônia, entramos na fase do ano que chove pouco. É
de se esperar uma vuca de árvores desfolhadas dominando o cenário. E a bem do
dizer, a samaúma é a mais amostradinha. Aquela que do longe mesmo das vistas a
gente dá definição.
Ocorre que quando miro e vejo, dou é de encontro com o paradoxo, do o que é não sendo. Com a família das samaúmas em descompasso, de uma amostradinha esbanjar as folhas prendidas na unidade da árvore e a outra bem ali no perto constar no observado como a mais pura carência de folhagem e ramas. Por que será?