sábado, 8 de agosto de 2026

crônica da semana - estreito de messina

 O Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu

Fosse comigo, eu me revoltaria logo. Não, ninguém num vai! Sugeriria sem tremer os beiços. Vamos lá só tu! Eu, heim! Eu é que não iria me meter nessas bocadas. Esse herói grego pôs a turma dele em cada encalacre.

O herói é um personagem da narrativa épica grega que eu chamei a vida toda de Ulisses e agora, por causa do neorenascimento provocado pelo lançamento do filme, passei a conhecer como Odisseu. A história conta as aventuras do rei de Ítaca logo que termina a guerra de Tróia. No quê de voltar pra casa, o herói se mete numa arenga com o gigante de um olho só e pega uma senhora de uma prenda do pai dele, Poseidon, um deus enfezado que só ele. Só de mau o fanchão dos oceanos faz de um tudo para Odisseu vagar de água grande em água sem fim dos mares por dez anos, se virando nos trinta de tantos perigos que ele encontra pela frente. Corta um dobrado nessa aventura. Perde o barco, toda a tripulação tem um fim trágico e o herói se vê atado a um nó difícil de desatar. E é aí que o Xingu entra na parada.

Fosse no trancoso poético, dava era o desdobro. Mas na vera, nas desobrigas do trampo brabo, tive que encarar os desafios do Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu.

Um dos perrengues que Odisseu passa, aquele no dito aperreio em que ele perde meia penca de marujos que navegavam perdidos com ele, acontece no estreito de Messina. A história fala que é um canal solitário, perdido no oceano que guarda numa das bandas, um monstro horrível que tem seis bocas esfomeadas e na outra banda um funil de água que engole quem passa por lá. Dizem até que o ditado popular que põe uma pessoa “entre a cruz e a espada”, vem desse afogueado do herói se meter entre estas duas bandas malinas. Mas o Xingu nem entra na história por causa desses monstros bandados e medonhos. Dá o tom e o verso é no exato formato do canal. Um caminho de água estreito ladeado por imensas paredes rochosas.

Pois bem. Eis que certa vez, desenrolando a vida na minha odisseia amazônica, varei, na minha canoa, em um estirado de água apertado, profundo, silencioso, e aparado de um lado e de outro por uma potência de pedra monstruosa de alta e amedrontadora. Na hora lembrei da sequência que tinha visto em Ulisses (naquele tempo era Ulisses ainda), um filme que era vezeiro de passar na sessão da tarde. E que apresentava um cenário, uma movimentação, uma tensão escritinha àquele que eu sentia ao cruzar aquele canal que corria escondido pela margem direita do Xingu.

No filme que enreda esta minha passagem, me ocorreu que as paredes de pedra se mexiam, indo uma contra a outra, em tempo de amassar o barco do Ulisses bem amassadinho. Esse era meu medo. Eu e minha turma nos aviamos nos remos. Ninguém deu uma palavra. Não houve partilha de medo ou mal’impressão, desde que entramos naquele desvio. Mas foi automática a nossa decisão de acelerar o ritmo. A gente a bom remar. Olhávamos uns pros outros, lançávamos olhares salteados para cima e para frente do caminho para nos certificarmos que as paredes rochosas não estavam ensaiando nos espremer e... a gente a bom remar.

Era um lugar encantador. Fascinante. Como outros lugares fantásticos que conheci ao longo da mítica Volta Grande do Xingu. A semelhança com uma alegoria épica só temperou aquele dia. Pôs um adianto de emoção em uma jornada de trabalho que tendia ser rotineira. Aquele ponto do rio era objeto de estudo porque se localizava em uma estrutura, digamos, bandada (olha aí, os monstros de Messina). Acima, as corredeiras assanhadíssimas da Volta Grande. Abaixo, um encaixado de 70 metros de largura por onde passava toda a água que corria num largo de mais de 2 quilômetros lá atrás. E no meio, o poético Estreito de Messina da Volta Grande do Xingu com suas gigantescas paredes de pedra, o silêncio, o medo contido. E a gente numa aventura (a bom remar) inesquecível.

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