Juta e malva
Confesso que me encolhi de
vergonha ao menor risco de ver-me representado ali naquela afirmação. A
professora sem alisar o couro do paciente, disparou ferina a citação de um
filósofo aquele não menos severo, que ante o impacto da carapuça, me desprendi
do nome: “Não fale dos mitos aos incautos. Eles acreditarão em tudo ao pé da
letra”.
O inocente aqui confessa e
se enquadra: por vezes a gente vê os tempos e as artes com os olhos do simples.
Por isso a luta insistente
para nos libertarmos, para nos esforçarmos espreitar além das faces explícitas
e do lustro dos símbolos. A professora enriqueceu a palestra com passagens da
Odisseia. Reconheço. Identifiquei ali só as pelejas com monstros, sereias,
divindades. Olhos furados, ossos quebrados, beijos enfeitiçados e mar revolto.
Mas tudo aquilo, ressalvou a professora, condensava uma única mensagem. Era a
viagem de volta, de Ulisses, para dentro de si.
A poética lança mão de
artifícios que buscam alcançar além dos sentidos. É necessário que a gente
esteja de coração aberto para sermos atingidos. Daí o escape do óbvio, daí o
potencial humano de aprender. E discernir.
A arte abre portas e
corações e, olha só, nos aproxima da juta e da malva...
Naquela parte da discreta
apreensão, lá pelos idos passados no ginásio, juta e malva eram para mim apenas
a resposta para uma questão de prova. Apareciam no ponto das aulas de Estudos
Regionais quando se falava de produtos importantes para a nossa economia. Juta
e malva eram das principais mercadorias incluídas no pacote das produções da
região Norte. Mesmo sem saber o que era aquela dupla e nem pra que servia nosso
expoente de negócios, cravava sem dúvida na resposta.
Anos depois, lendo Milton
Hatoum é que fui sacar a natureza dos produtos. Mais a juta. Malva sei o que é,
por tabela, mas o que tem destaque no romance Cinzas do Norte, do escritor
amazonense é a plantação de juta. A partir do romance, conheci uma penca de
detalhes relacionados à juta. A narrativa de que a planta foi trazida no
cambalacho, da Índia; o sucesso das técnicas de cultivo nos baixios amazônicos,
os riscos nas operações de coleta, que por vezes impõem mergulho e jeito de
corpo aos coletores, além de coragem pra enfrentar sucuris e aparentados
aquáticos pouco amistosos.
Naqueles longes ginasianos de
chumbo, o Brasil vivia uma fase de poucos aléns nas palavras. Os livros
didáticos distribuídos pelos governos traçavam roteiros acanhados,
circunscritos aos artificiais entusiasmos do momento. Ilustravam com exagerado
esmero avanços e desenvolvimento. Na quarta capa traziam o hino do Pará e nos
davam o simples para respondermos a questão da prova.
Outra fonte que traz
detalhes enriquecedores do manejo da juta é o romance “Sementes do sol”, do
escritor obidense Ademar Ayres do Amaral. Ele nos conta: “mal alimentado, o
lavador de juta passa o dia inteiro dentro d’água, os dedos das mãos e dos pés
terminam a jornada enrugados pelo tempo de imersão e o resto do corpo fica
horas exposto ao sol... Um sol... que toma conta de tudo e de todos, como se
fosse a lanterna de Deus.”
O filósofo, Platão ele,
lembrei agora, é previdente quando nos alerta que a régia aspereza, a
concretude insuspeita de horrores, monstros e sinistros cenários podem esconder
a busca por uma paz interior. As artes, e a literatura em especial, têm mesmo
esta missão de transportar juta e malva para além de uma linha de resposta
curta de prova ginasiana. Aqui, acolá, a trama literária diz uma coisa quando
quer dizer outra. Apresenta sucuris dentro d’água quando as ameaças aquáticas
nada amistosas estão é nos justos alagados das gentes, dentro do coletor de
fibras. A arte sugere viagens pelos mares sem fim quando a viagem é só uma
volta em torno da gente mesmo. Tem hora que é estratégia; outra, estilo.Vai da
gente sacar e escapar do simples.
Sobre o uso, a juta serve
para produzir sacarias e fibras ecológicas
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