sábado, 15 de agosto de 2026

crônica da semana - juta e malva

 Juta e malva

Confesso que me encolhi de vergonha ao menor risco de ver-me representado ali naquela afirmação. A professora sem alisar o couro do paciente, disparou ferina a citação de um filósofo aquele não menos severo, que ante o impacto da carapuça, me desprendi do nome: “Não fale dos mitos aos incautos. Eles acreditarão em tudo ao pé da letra”.

O inocente aqui confessa e se enquadra: por vezes a gente vê os tempos e as artes com os olhos do simples.

Por isso a luta insistente para nos libertarmos, para nos esforçarmos espreitar além das faces explícitas e do lustro dos símbolos. A professora enriqueceu a palestra com passagens da Odisseia. Reconheço. Identifiquei ali só as pelejas com monstros, sereias, divindades. Olhos furados, ossos quebrados, beijos enfeitiçados e mar revolto. Mas tudo aquilo, ressalvou a professora, condensava uma única mensagem. Era a viagem de volta, de Ulisses, para dentro de si.

A poética lança mão de artifícios que buscam alcançar além dos sentidos. É necessário que a gente esteja de coração aberto para sermos atingidos. Daí o escape do óbvio, daí o potencial humano de aprender. E discernir.

A arte abre portas e corações e, olha só, nos aproxima da juta e da malva...

Naquela parte da discreta apreensão, lá pelos idos passados no ginásio, juta e malva eram para mim apenas a resposta para uma questão de prova. Apareciam no ponto das aulas de Estudos Regionais quando se falava de produtos importantes para a nossa economia. Juta e malva eram das principais mercadorias incluídas no pacote das produções da região Norte. Mesmo sem saber o que era aquela dupla e nem pra que servia nosso expoente de negócios, cravava sem dúvida na resposta.

Anos depois, lendo Milton Hatoum é que fui sacar a natureza dos produtos. Mais a juta. Malva sei o que é, por tabela, mas o que tem destaque no romance Cinzas do Norte, do escritor amazonense é a plantação de juta. A partir do romance, conheci uma penca de detalhes relacionados à juta. A narrativa de que a planta foi trazida no cambalacho, da Índia; o sucesso das técnicas de cultivo nos baixios amazônicos, os riscos nas operações de coleta, que por vezes impõem mergulho e jeito de corpo aos coletores, além de coragem pra enfrentar sucuris e aparentados aquáticos pouco amistosos.

Naqueles longes ginasianos de chumbo, o Brasil vivia uma fase de poucos aléns nas palavras. Os livros didáticos distribuídos pelos governos traçavam roteiros acanhados, circunscritos aos artificiais entusiasmos do momento. Ilustravam com exagerado esmero avanços e desenvolvimento. Na quarta capa traziam o hino do Pará e nos davam o simples para respondermos a questão da prova.

Outra fonte que traz detalhes enriquecedores do manejo da juta é o romance “Sementes do sol”, do escritor obidense Ademar Ayres do Amaral. Ele nos conta: “mal alimentado, o lavador de juta passa o dia inteiro dentro d’água, os dedos das mãos e dos pés terminam a jornada enrugados pelo tempo de imersão e o resto do corpo fica horas exposto ao sol... Um sol... que toma conta de tudo e de todos, como se fosse a lanterna de Deus.”

O filósofo, Platão ele, lembrei agora, é previdente quando nos alerta que a régia aspereza, a concretude insuspeita de horrores, monstros e sinistros cenários podem esconder a busca por uma paz interior. As artes, e a literatura em especial, têm mesmo esta missão de transportar juta e malva para além de uma linha de resposta curta de prova ginasiana. Aqui, acolá, a trama literária diz uma coisa quando quer dizer outra. Apresenta sucuris dentro d’água quando as ameaças aquáticas nada amistosas estão é nos justos alagados das gentes, dentro do coletor de fibras. A arte sugere viagens pelos mares sem fim quando a viagem é só uma volta em torno da gente mesmo. Tem hora que é estratégia; outra, estilo.Vai da gente sacar e escapar do simples.

Sobre o uso, a juta serve para produzir sacarias e fibras ecológicas

 

 

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