terça-feira, 8 de setembro de 2026

crônica da semana : zé pererequeté

 Zé Pererequeté

Morava numa casa bem estiolada, nos interflúvios da baixa da Pedreira. Vivia com a mãe, a irmã e uma bicicleta toda esmerilada. O lugar ficava a um trisca dos alagados de inverno. Durante as chuvas inteiriçadas do março pra trás um pouco e do março pra frente o que desse, aquele terreninho resistia e a casa ficava em tempo, mas não enchia. A água não invadia, a chamichuga não procurava pernas nuas, não precisavam subir as coisas. Poucas coisas. Mas a estrutura sentia. O terreno encharcava, ficava molengão. Aos poucos, a casa foi deitando. O movimento que não se sentia no ato e na vez, aos poucos ia revelando a inclinação. E produzindo conseqüências. Por causa dos silenciosos e traiçoeiros solavancos, o enchimento ia cedendo. Vez e vez, se encontrava um torrão no chão, saltado da parede. E as varas trançadas se mostravam e expunham o oco do quadrado. Dava pra gente ver lá dentro da casa, pelos buracos que se formavam. No verão, toda a estrutura sossegava. Era hora de remendar os buracos com barro dali da frente mesmo e, o melhor de tudo, era o tempo que o igarapé aparecia lá no quintal. A água grande passava e ficava só aquele reguinho, com um fiozinho correndo o tempo todo. Havia uns quantos olhos d’água por ali, desde lá de cima, da Lomas.

O Zé Pererequeté tinha um primo que mexia com coisas velhas de carro. E no verão a baixa da Pedreira ficava uma pista de piçarra muito firme. A gente aproveitava o declive da rua pras bandas da Itororó, o Zé conseguia pneus de carro e “jances” de bicicleta e nossa diversão era bater “jance” e pneu ladeira abaixo, uns com um pedaço de madeira ou uma haste de ferro, outros, batiam e tareavam os aros e pneus era com a mão mesmo.  

Era, o Zé, o fornecedor e o organizador das brincadeiras da tarde, depois da aula do intermediário e do episódio de “Perdidos no espaço”. Tinha também o pendor do conto e da fantasia, o menino. Repetia uma história das pedras falantes. Dizia que quando o nível do igarapé descia, apareciam vários pontos que acumulavam uma variedade de pedras. Roladas, pontudinhas, quadradinhas, brilhantes como diamantes, coloridas, transparentes. E as que mais impressionavam, aquelas que falavam. Um dia da semana, sempre nos convidava para varar os quintais pelo leito do igarapé, pra ver se a gente encontrava alguma pedra falante. E caso a gente encontrasse, para saber qual o papo delas.

Era uma aventura. Embora verão, havia um trecho na parte da Pedreira constantemente alagado. O igarapé que passava atrás da casa inclinada do Zé Pererequeté cruzava vários quintais e se embrenhava por paisagens ainda diversas por aquele lado do bairro. Uma hora atravessávamos uma mata alta com castanheira e mangueiras, noutro ponto já dávamos de encontra com um açaizal, em algumas margens, pés de café, urucum, jaca e cacau. Mais lá na frente, era a hora de subirmos pela ponte e sem cerimônia, passar rente às retretes e jiraus das casas que se amontoavam em becos e vilas. Até que a gente saia no capinzal. O igarapé terminava ali. Era um terreno sempre úmido e que quando dava, a gente socava de caroço de açaí e arremedava um campinho. Durava pouco porque do nada o terreno se movia e isso prejudicava o nosso bom futebol. Parece que a gente jogava em cima de um colchão d’água. Dali em diante não tinha mais um leito, um fiozinho pra seguir. Era tudo aquele ensopado.

Fizemos muitas caminhadas de exploração, incentivados pelo Zé Pererequeté. Tinha era muita pedra bonita mesmo ao longo do igarapé. Até hoje tenho as minhas guardadas. Nunca encontramos pedra qualquer que falasse ou um oi sequer pronunciasse. Era tudo por conta dos contos do Zé.

Zé mudou-se. Casou-se. Constituiu família. A casa da baixa da Pedreira, como se diz, encruou. Nem foi ao chão, nem se reergueu em tijolo. Reina de banda sustentada por varas em quadrado, enchimento de barro e a tagarelice das pedras lá atrás, no igarapé da memória.

 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

crônica da semana - ler é viver feira do livro

 Ler é viver

Mais uma Feira do Livro na minha conta. E este assunto me traz um pouco de nostalgia. Mexe lá dentro do meu puro íntimo porque mistura um monte de coisa bacana. Traz à memória o Arraial de Nazaré, os meus companheiros do Sindicato, o Dr. Geraldo... A espontaneidade dos artistas que se revelava nos arrastões poéticos durante a Feira, os primeiros passos para um estande exclusivo destinado aos escritores paraenses, a docilidade do querido escritor Benedito Monteiro, a presença da literatura operária minha e do Dr. Sérgio Pandolfo, a energia e a desenvoltura de Juracy Siqueira, a poesia envolvente da Malta Folhas e Ervas.

Calha de alguém perguntar: e o que tem a ver o sindicato com as valsas? É que nas primeiras versões, a Feira do Livro era realizada no Centur, que é ao pegado do prédio da Fiepa, nicho empresarial onde aconteciam, naquela época, entre outubro e novembro, as negociações para o Acordo Coletivo dos trabalhadores que representávamos em Barcarena. As reuniões iam até tarde. Na saída, sempre dávamos uma banda pelo arraial pra fazer um lanche na barraca do Ciro e depois, terminávamos a jornada visitando os estandes da Feira. As visitas me fizeram tomar gosto, coragem e logo logo, cuidei de lançar meu primeiro livro também na Feira do Livro do Centur. Isso é lá pelos anos de milinovecentos e naninani. Hoje, a Feira se realiza no Hangar, que oferece um ambiente até mais aquele de amplo e confortável.

Daqueles anos pra trás aos de hoje, participei de todas as panamazônicas. Fazendo lançamento de livros de minha lavra, como visitante ou prestigiando as sessões de autógrafos d’outros autores.

Este ano, além de comparecer com minha mais recente publicação (tô esperando vocês lá, heim, pra autografar minha nova obra, a coletânea de crônicas ambientais, sociais e quetais científicas “Parece até que vai chover”), vou experimentar o ingresso no mundo dos livreiros. Fiz uma parceria com o amigo Juarez e vou viver, no estande da livraria Ifá, o universo daqueles abnegados, daqueles heróis que acreditam ainda que ler é viver.

Se a gente for reparar, os estandes da Feira são ocupados por negócios gráficos vários e outros, aparentados dos livros. Mas chamo atenção àqueles que apresentam, efetivamente, a produção do livro físico, aqui em nossa região. Penso que poucos resistem. As livrarias desaparecem e a gente nem malda. Vão passando. Algumas deixam saudades. As que ficam, e aqui em Belém contam-nas nos dedos de uma única mão, chapinham na inconstância da demanda. As multimídias, o desapego pelo prazer que vem da escrita, a negação do conhecimento, e a anuência a fatos, enlevos e informações fáceis e ágeis, ainda que sem sal ou mentirosas, têm derrubado de ruma, o exército de leitores.  Estes são fatores que afastam as pessoas dos livros, além, né, das coisas da idade.

O Brasil lê pouco, se comparado com outros países, mas sempre lutei contra a média. Fui leitor de devorar de dois a três livros por mês. Na própria livraria Ifá, mantenho uma rotina, há anos, de adquirir por lá pelo menos uma publicação a cada mês, inclusive com critérios. Paraenses, biografias, literatura feita por mulheres, mulheres pretas, homens pretos, cultura e religiosidade afro, histórias do samba, das crenças e das ciências. Mas confesso que com o passar do tempo, os meus acessos aos livros exigem superação e adaptação. A vista começou a turvar. Antes já tinha uma dificuldade. Nunca me acostumei com óculos. Me dá uma agonia. Um desconforto contornável. Mas agora, com este turvamento, senti a limitação. Mantenho minhas aquisições só que no momento, priorizo edições que tenham as letras porrudas.

Digo: se tem a vista boa, se não tem agoniação, aproveite. Rogo que vá à Feira do Livro, visite os livreiros, as heróicas livrarias. Ler faz a gente viver mais, porque vivemos vidas outras, sentimentos outros, vitórias, prazeres entre as mãos.  Espero vocês lá.