Zé Pererequeté
Morava numa casa bem estiolada,
nos interflúvios da baixa da Pedreira. Vivia com a mãe, a irmã e uma bicicleta
toda esmerilada. O lugar ficava a um trisca dos alagados de inverno. Durante as
chuvas inteiriçadas do março pra trás um pouco e do março pra frente o que
desse, aquele terreninho resistia e a casa ficava em tempo, mas não enchia. A
água não invadia, a chamichuga não procurava pernas nuas, não precisavam subir
as coisas. Poucas coisas. Mas a estrutura sentia. O terreno encharcava, ficava
molengão. Aos poucos, a casa foi deitando. O movimento que não se sentia no ato
e na vez, aos poucos ia revelando a inclinação. E produzindo conseqüências. Por
causa dos silenciosos e traiçoeiros solavancos, o enchimento ia cedendo. Vez e
vez, se encontrava um torrão no chão, saltado da parede. E as varas trançadas
se mostravam e expunham o oco do quadrado. Dava pra gente ver lá dentro da
casa, pelos buracos que se formavam. No verão, toda a estrutura sossegava. Era
hora de remendar os buracos com barro dali da frente mesmo e, o melhor de tudo,
era o tempo que o igarapé aparecia lá no quintal. A água grande passava e ficava
só aquele reguinho, com um fiozinho correndo o tempo todo. Havia uns quantos
olhos d’água por ali, desde lá de cima, da Lomas.
O Zé Pererequeté tinha um
primo que mexia com coisas velhas de carro. E no verão a baixa da Pedreira
ficava uma pista de piçarra muito firme. A gente aproveitava o declive da rua
pras bandas da Itororó, o Zé conseguia pneus de carro e “jances” de bicicleta e
nossa diversão era bater “jance” e pneu ladeira abaixo, uns com um pedaço de
madeira ou uma haste de ferro, outros, batiam e tareavam os aros e pneus era
com a mão mesmo.
Era, o Zé, o fornecedor e o organizador
das brincadeiras da tarde, depois da aula do intermediário e do episódio de
“Perdidos no espaço”. Tinha também o pendor do conto e da fantasia, o menino.
Repetia uma história das pedras falantes. Dizia que quando o nível do igarapé
descia, apareciam vários pontos que acumulavam uma variedade de pedras.
Roladas, pontudinhas, quadradinhas, brilhantes como diamantes, coloridas,
transparentes. E as que mais impressionavam, aquelas que falavam. Um dia da
semana, sempre nos convidava para varar os quintais pelo leito do igarapé, pra
ver se a gente encontrava alguma pedra falante. E caso a gente encontrasse,
para saber qual o papo delas.
Era uma aventura. Embora
verão, havia um trecho na parte da Pedreira constantemente alagado. O igarapé
que passava atrás da casa inclinada do Zé Pererequeté cruzava vários quintais e
se embrenhava por paisagens ainda diversas por aquele lado do bairro. Uma hora
atravessávamos uma mata alta com castanheira e mangueiras, noutro ponto já
dávamos de encontra com um açaizal, em algumas margens, pés de café, urucum,
jaca e cacau. Mais lá na frente, era a hora de subirmos pela ponte e sem
cerimônia, passar rente às retretes e jiraus das casas que se amontoavam em
becos e vilas. Até que a gente saia no capinzal. O igarapé terminava ali. Era
um terreno sempre úmido e que quando dava, a gente socava de caroço de açaí e
arremedava um campinho. Durava pouco porque do nada o terreno se movia e isso
prejudicava o nosso bom futebol. Parece que a gente jogava em cima de um
colchão d’água. Dali em diante não tinha mais um leito, um fiozinho pra seguir.
Era tudo aquele ensopado.
Fizemos muitas caminhadas de
exploração, incentivados pelo Zé Pererequeté. Tinha era muita pedra bonita
mesmo ao longo do igarapé. Até hoje tenho as minhas guardadas. Nunca
encontramos pedra qualquer que falasse ou um oi sequer pronunciasse. Era tudo
por conta dos contos do Zé.
Zé mudou-se. Casou-se.
Constituiu família. A casa da baixa da Pedreira, como se diz, encruou. Nem foi
ao chão, nem se reergueu em tijolo. Reina de banda sustentada por varas em
quadrado, enchimento de barro e a tagarelice das pedras lá atrás, no igarapé da
memória.
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