sábado, 30 de maio de 2026

crônica da semana - nenhum de nós

 Nenhum de nós

Não temos mais o horário brasileiro de verão. Desde 2019 esta medida de adiantar os relógios em uma hora deixou de ser adotada no Brasil. Tenho pra mim que para os lados do sul e sudeste é um procedimento válido. Por lá, em determinada época, o sol custa mesmo a se pôr. Virou um pouquinho pra cá, perde o sentido. Não nos dá vantagem. A não ser no causo e na prosa. Neste campo, temos um legado valendo. Colecionamos preciosismos desde lá do início quando nos referíamos aos horários em termos beirando os requintes do etarismo: “no novo ou no velho?”. Depois, nos emboletados de tino gerados pela exclusão, quando o horário mudava somente em determinada região. Quem viajava de avião se embananava todo. “O vôo era no horário de cá ou no de lá?”. E mais adiante, nos episódios que nos desnorteavam por causa da mudança de lógica no relógio dos celulares. De um dia pro outro, mudavam a hora e nem seu Souza pra gente. Ou não mudavam. Deste impacto, tenho um causo...

Durante um tempo, nas viagens diárias para o pólo industrial de Barcarena, minha parada de ônibus era na Marquês de Herval. E era certa a turminha madrugadora no ponto. Nosso carro era o primeiro. Passava às cinco e vinte e cinco da manhã, um isso a mais, talvez. Nunca um isso a menos. Em tudo previdente, chegávamos antes, eu e um senhor que morava na Itororó. Dava tempo pra desenrolar um papo. Era porteiro. Do baixo Tocantins. Vinha de uma família de apanhadores de açaí.

O causo: o relógio despertou. Me aprontei como de costume e rumei pra parada. Em lá chegando, ninguém. Nem o amigo porteiro. Aquilo não era normal. Pensei o ônibus já ter passado. Adiantou. Dando a minha hora, me adiantei às carreiras em dois quarteirões, para outro ponto da Marquês, onde contava com mais opções de ônibus. Nada. É greve! Liguei pra casa. Esquina, escuridão e vi’valma na rua. Me aninhei no escondido de uma árvore. Agoniado, tive coragem e saquei o celular. Solicitei, desesperadamente, resgate. Meu filho atendeu, um tanto mal humorado, diga-se, e me perguntou o que eu fazia na rua plena quatro e meia da manhã. O que se deu foi que o relógio do meu celular patetou e não notificou o término do horário de verão na virada da meia-noite. Naquela volta ao normal, comi mosca e saí de casa uma hora antes. Vivi foi momentos tensos, eraste! Mas o que lamentei mesmo foi não encontrar mais o amigo porteiro.

Soube depois que meu companheiro da madrugada havia sido transferido. O administrador do prédio em que trabalhava, simplesmente, em conversa informal, durante o intervalo do almoço, indagou um monte de coisas da vida dele. Posição política, costumes, família. Ficou chocado ao perceber alguma consciência de classe nele e mais ainda quando o porteiro lhe falou que tinha dois filhos doutores, um oficial do exército e uma menina pesquisadora de Biologia. Quando chegou nas posses, maldou lá com seus credos. Uma casa perto da Aldeia Cabana!!!! Como pode um porteiro, que vem lá do baixão do Tocantins, escalador de açaizeiro, que mal sabia o beabá, ter casa num bairro estruturado, no padrão de classe mais aquela de vida? O prédio em que exercia o ofício mesmo era na avenida principal do bairro. Morador do prédio, o chefe não admitia um retirante da beira ter um lar no mesmo bairro que ele. Pensava que gente daquela origem, daquele tipo, tinha que morar era nos cafundós dos arrabaldes. E aquele negócio de filhos formados, deduzia, só podia ser balela. O porteiro poderia até ter as posses, mas era de desconfiar que não fosse fruto do trabalho. Suportado por seus conceitos prévios e rasos e ainda pelo juízo que fez dos fatos, para preservar a segurança dos moradores, os bons costumes e as boas origens do bairro, achou justo e pertinente transferir, para bem longe da Pedreira, meu amigo porteiro que pegava o ônibus comigo às 5 e 25 da manhã. No horário novo ou no velho, que fosse.

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