Merecendências
Fosse
hoje, uma galera aí alterada, e de tino envenenado dispararia de prima tratar-se
de um menino molengo, sem foco, desleixado dos objetivos, desprovido de inspiração
ou anseios. Um garoto de costumes bárbaros e que não faz por onde subir na vida
porque não tem interesse. Está tudo aí. Só não tem um futuro de sucesso porque
não quer.
Pra
dizer que este menino sou eu, então.
E
nem de todo descolado dos anseios. Bem que tentei sonhar... Não fui um
repetente no costume. Atrasei um ano nos estudos porque não passei e tive que
fazer a sexta série de novo. Bem feita a localização no tempo, primeira vez em
1975, e o repeteco da série foi em 1976.
Pavimentando
a minha trajetória, na primeira tentativa, tive a estréia valendo, no mudo do
trabalho. Exatamente em 1975, assinava a carteira pela primeira vez, o menino.
Tinha 12 anos. Devo destacar que aquela vivência escolar, naquele momento, era
ainda um fato novo. A fase precisava de atenção e dedicação. Era só meu segundo
ano no ginásio. Muitas novidades. Ainda experimentava e definia meus
garranchinhos agora de caneta, me engatava para substituir a incógnita
representada pelo quadradinho, um dia desses, lá no primário, pelo xis; e me
aviava nos arremedos, oui, oui, de outras línguas: quinta e sexta série,
francês. Lá na frente, a partir da sétima série, o inglês. E estava até indo
bem. Confirmando o entusiasmo de minha mamãe quando me rotulava como uma
criança muito ‘intelixente!’.
Até
então, me virava nas vendas de picolé, flores de plástico, batonzinhos da Avon,
e até de carnê do Sílvio. Sem grandes impactos na escola porque, na marretagem,
eu empreendia eivado de empáfia: definia se ia encarar o solão e quanto iria
faturar no dia. Fazia meu horário, dizque, e minhas expectativas para o pouco ganho.
A
parada desandou quando fichei no supermercado. Tinha horário fixo, salário
tabelado e era disponível pra tudo quanto de trampo. Aí, bambeei, dobrei as
pernas. Minha jornada iniciava às 3 da tarde e ia até as 11 da noite. De
domingo a domingo. Escala 7 x 0. Não esqueçamos. Eu era um menino de 12 anos.
Embalava as compras no paneiro, levava quantos volumes somassem até o
estacionamento para o carro dos fregueses ou até as casas, no longe que
distassem; varria o salão, passava pano molhado, ajudava no galpão do estoque,
fazia mandado... Tinha uma chefe que folgava em me mandar cuidar de coisas
aleatórias e só pra fazer o mal, na hora do movimento, na vez de faturar com
gorjetas ela me tirava da frente dos caixas, a péssima. Era sádica, ela. Até repor
mercadoria nas gôndolas, lá na prateleira mais alta, ela mandava eu repor. Não
estava no meu escopo, mas não podia negar. Fazia parte da minha carreira,
ousar. Superar expectativas. Subiria de cargo, ficaria rico assim, me
entregando desse jeito ao destino dos explorados.
Não
aguentei. Decepcionei os teóricos da prosperidade, defensores do esforço
sobre-humano. Batia o cartão às 11 da noite, corria pra pegar o Cristo lá na parada
no entorno da rodoviária e que me deixava em frente à vila que eu morava na
Mauriti, onde minha mãe, ligada no radinho de pilha, toda noite, me esperava.
Banho e o sono reparador. Dormia já passando da uma da manhã. Às seis tinha que
estar aceso para o desafio da sexta série.
Mas
quando! Saía de casa feito um Zumbi, tino variando, olhos remelentos, apáticos
estímulos para o dia.
O
ônibus para a escola, atrás do Bosque, era deste lado da rua. Eu atravessava e
pegava do outro. Dava a volta no centro e ia até o final da linha, lá atrás, dormindo.
Completado o trajeto, ainda na antecâmara do sono, pegava outro, me ajeitava lá
atrás e dormia de novo. Outra volta. Inventava sempre uma desculpa pra minha mãe,
do meu regresso tão cedo. Um cedo providente, pois que mais com pouco já tinha
que me arrumar para o trabalho.
Como
era ‘intelixente!’, não tomei bomba pela métrica da merecendência. Fui
reprovado por faltas.
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