sábado, 23 de maio de 2026

crônica da semana - tic tac aniversário

 Tic-tac

É comum a gente se referir às datas de aniversário como sendo a realização de mais uma volta em torno do sol. É uma abstração do tempo, tic-tac, tic-tac; ali, ali com uma intuição. Justo porque o sol não é um ponto no céu que a gente possa marcar e dali medir nosso deslocamento pelos vagares até chegar nele de novo. A gente não sabe quando dá a tal volta. Mas dizemos ‘mais um ciclo’. Mais um arrodeio no sol. Está, porém, abonada desde Kepler, a voltinha em torno de nossa estrela. Tá valendo. Nada demais em considerar esta translação.

Fiz minha revolução, dia desses. Novo trajeto se iniciando. E quando admito encarar este novo caminho, este novo giro pelo espaço, o faço a partir de uma decisão brotada ao custo de caprichada reflexão.

Sabemos, as datas marcadas, os dias xis alusivos ou comemorativos servem a muitos senhores, causam controvérsias, muitas vezes são taxados de mercantilistas, de incentivadores de consumo e ativadores de impulsos coletivos. Penso que nem tanto lá e nem tanto cá. Dou um desconto. Valem, também, pra gente dar mais atenção a fatos, cenários, intrincadas interações. O dia do meu aniversário não escapou. Meditei sobre a vida. E, cuide disso, o primeiro ponto de minhas indagações foi sobre a desconfiança dessa contagem de tempo a partir da dita volta em torno do sol.

O certo mesmo é contar o ano a partir das constelações do Zodíaco. Lembram né, são 12. E não são propriedades da astrologia não, somam pacas ao conhecimento humano em algumas das ciências mais complexas. Kepler sacou a parada, mas antes, os povos Antigos já utilizavam a paisagem do céu noturno para regrarem períodos importantes das atividades indispensáveis à vida. A agricultura foi o ofício que se desenvolveu bastante desde que o homem começou a prestar reparo no céu.

Então, para cravar no marcado, deveria eu saber qual constelação do zodíaco estava no horizonte no dia do meu nascimento. E daí, acompanhar no passar do tempo, quando o céu se apresentasse com aquele mesmo desenho, aí sim, se completaria um ano, o exato ciclo. Por exemplo, a estrela Aldebaran de Touro, é vista no ocaso, ao longo do mês de maio.

Não carece, no entanto, que a gente fique na bicora do céu por noites e noites até a paisagem se repetir pra gente adicionar mais um ano na vida. O Imperador Júlio César, 45aC , apud Papa Gregório XIII, 1582; matemáticos, filósofos da natureza, plantadores e coletores quebraram nosso galho e ajudaram  a consolidar a folhinha do ano. A do Sagrado resolve tudo num virar de página.

Superada esta implicação por causa da sensação de volta em torno do sol, virei-me para as voltas em torno de mim. Minhas reflexões sempre buscam inventariar todos os componentes que ensejam mais um ano de vida. Vou ao passado, reconstruo, peso meus erros, meus acertos. Lamento decisões não tomadas, regozijo-me, por outra, pelas vezes que pelejei e defendi o rumo do justo, do sensível, da arte e da luta incessante por dias melhores. No repente, me vem aquela certeza de que ali na frente tudo pode acabar. Que hoje miro mais o ocaso que a aurora. Aí, me bate saudade do futuro. Um débito sentimental agudizado. Sinto falta de mim e de artes que me valem. É quase uma tristeza, um amofinamento bem no dia de festa. Éraste! É, porém, um toque, uma dica indispensável para me voltar ao presente. E torno, e me vejo feliz juntos aos meus agrados. Alcanço ali meu violão, leio um livro, abraço minha família, aceito o termo e o jeito das fiéis amizades, procuro um lugar na minha casa em que possa ver por uma brechinha que seja, a imagem mesmo que limitada da Pedreira. Meu bairro, meu cantinho, minha Belém. E me recomponho animado. Viro a página da folhinha do Sagrado, volto o olhar pro céu e flagro Aldebaran  deslizando no ocaso. A ciência, as leis da natureza sinalizam que é possível nos encontrarmos e contarmos o tempo no mesmo mês de maio, ainda por umas quantas vezes. Tic-tac.

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