Tic-tac
É
comum a gente se referir às datas de aniversário como sendo a realização de
mais uma volta em torno do sol. É uma abstração do tempo, tic-tac, tic-tac; ali,
ali com uma intuição. Justo porque o sol não é um ponto no céu que a gente
possa marcar e dali medir nosso deslocamento pelos vagares até chegar nele de
novo. A gente não sabe quando dá a tal volta. Mas dizemos ‘mais um ciclo’. Mais
um arrodeio no sol. Está, porém, abonada desde Kepler, a voltinha em torno de
nossa estrela. Tá valendo. Nada demais em considerar esta translação.
Fiz
minha revolução, dia desses. Novo trajeto se iniciando. E quando admito encarar
este novo caminho, este novo giro pelo espaço, o faço a partir de uma decisão
brotada ao custo de caprichada reflexão.
Sabemos,
as datas marcadas, os dias xis alusivos ou comemorativos servem a muitos
senhores, causam controvérsias, muitas vezes são taxados de mercantilistas, de
incentivadores de consumo e ativadores de impulsos coletivos. Penso que nem
tanto lá e nem tanto cá. Dou um desconto. Valem, também, pra gente dar mais
atenção a fatos, cenários, intrincadas interações. O dia do meu aniversário não
escapou. Meditei sobre a vida. E, cuide disso, o primeiro ponto de minhas
indagações foi sobre a desconfiança dessa contagem de tempo a partir da dita
volta em torno do sol.
O
certo mesmo é contar o ano a partir das constelações do Zodíaco. Lembram né,
são 12. E não são propriedades da astrologia não, somam pacas ao conhecimento
humano em algumas das ciências mais complexas. Kepler sacou a parada, mas
antes, os povos Antigos já utilizavam a paisagem do céu noturno para regrarem
períodos importantes das atividades indispensáveis à vida. A agricultura foi o
ofício que se desenvolveu bastante desde que o homem começou a prestar reparo
no céu.
Então,
para cravar no marcado, deveria eu saber qual constelação do zodíaco estava no
horizonte no dia do meu nascimento. E daí, acompanhar no passar do tempo, quando
o céu se apresentasse com aquele mesmo desenho, aí sim, se completaria um ano,
o exato ciclo. Por exemplo, a estrela Aldebaran de Touro, é vista no ocaso, ao
longo do mês de maio.
Não
carece, no entanto, que a gente fique na bicora do céu por noites e noites até
a paisagem se repetir pra gente adicionar mais um ano na vida. O Imperador
Júlio César, 45aC , apud Papa
Gregório XIII, 1582; matemáticos, filósofos da natureza, plantadores e
coletores quebraram nosso galho e ajudaram a consolidar a folhinha do ano. A do Sagrado resolve
tudo num virar de página.
Superada
esta implicação por causa da sensação de volta em torno do sol, virei-me para
as voltas em torno de mim. Minhas reflexões sempre buscam inventariar todos os
componentes que ensejam mais um ano de vida. Vou ao passado, reconstruo, peso
meus erros, meus acertos. Lamento decisões não tomadas, regozijo-me, por outra,
pelas vezes que pelejei e defendi o rumo do justo, do sensível, da arte e da
luta incessante por dias melhores. No repente, me vem aquela certeza de que ali
na frente tudo pode acabar. Que hoje miro mais o ocaso que a aurora. Aí, me
bate saudade do futuro. Um débito sentimental agudizado. Sinto falta de mim e
de artes que me valem. É quase uma tristeza, um amofinamento bem no dia de
festa. Éraste! É, porém, um toque, uma dica indispensável para me voltar ao
presente. E torno, e me vejo feliz juntos aos meus agrados. Alcanço ali meu
violão, leio um livro, abraço minha família, aceito o termo e o jeito das fiéis
amizades, procuro um lugar na minha casa em que possa ver por uma brechinha que
seja, a imagem mesmo que limitada da Pedreira. Meu bairro, meu cantinho, minha
Belém. E me recomponho animado. Viro a página da folhinha do Sagrado, volto o
olhar pro céu e flagro Aldebaran deslizando no ocaso. A ciência, as leis da
natureza sinalizam que é possível nos encontrarmos e contarmos o tempo no mesmo
mês de maio, ainda por umas quantas vezes. Tic-tac.
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