sábado, 16 de maio de 2026

crônica da semana - ao mestre com carinho II

 Ao mestre com carinho (II)

Era professor de matemática. Tinha um jeito especial. Atencioso, delicado no trato, paciente, voz mansa. De tal forma fértil de afetos e atenção; inspirava de um jeito tão eficiente a paz, que por vezes achava que ele deveria ser o professor não de matemática (disciplina alheia à mansidão), mas de Religião, matéria mais aquela de sensível e de transcendente. Era um apaixonado pela missão. Não admitia perder aluno para as dificuldades. Ensinava tudo direitinho. Até hoje, é só me dar um feixe de números grandes que sejam eles, e logo os despedaço em fatores primos sem um deslize sequer. Graças àquele professor.

Fosse nos tempos de agora, à luz da LDB, seria um dos principais agentes da busca ativa. Porque, olha que me buscou...

E eu estava daquele jeito. Miudado pelo trabalho. Não me recordo muito o regime que o supermercado adotava. Provavelmente, pela escala, rolava uma hora extra. O que lembro é que trabalhava das 3 da tarde às 11 da noite até sexta. Sábado, o dia todo, e domingo, até meio dia. A dita folga semanal era essa, do meio dia pra tarde do domingo e te conforma. Nem com todos os livros de auto-ajuda debaixo do braço, nem com os augúrios do sistema me sugerindo sucesso na vida, nem com os vitaminés e emulsão de Scott que eu tomava na hora do lanche com os meninos, na calçada do estacionamento do supermercado (porque não tinha refeitório) eu achava ânimo, eu angariava força para, às seis da matina, ir para a escola. Cuidava era de era de zanzar nos ônibus pra cima e pra baixo, dando uma forra para o corpo, em um exercício de restauração física tido pelos maledicentes como sendo expressão da mais indisfarçável gazeta. No entanto se a gente aprofundar... Era o anúncio da minha capitulação.  O alerta da minha não desejada, mas inevitável rendição. Um grito de socorro. Estava desistindo de estudar.

Aqui, ali, os deuses cutucavam e eu aparecia na escola. Sadim, Sandim... Meu pai! A falha na conexão dos meus neurônios, as enzimas, os ácidos corrosivos da razão apagaram a exatidão do nome daquele professor. Não perdôo o tempo por isso. Embora faça confusão com o nome, não esqueço a generosidade daquele verdadeiro mestre. Quando eu aparecia, não economizava atenção. Ocupava a turma, sentava ao meu lado e repassava as matérias atrasadas exclusivamente comigo. E eu, ‘intelixente!’, mandava era bem. Ia decompondo em primos aquela oportunidade. Quando não, eu já aparecia com uma parte copiada. É que uns garotos da minha sala que moravam ali pros lados do shen ou da 25 acompanhavam os pais na ida ao supermercado, me viam por lá e combinavam de uma hora voltar com as matérias pra mim. Deles, o professor também catava notícias. Como eu estava, se os meninos tinham me visto, se eu tinha dado previsão de quando apareceria. Sempre perguntava.

Os outros professores não me davam muita trela. Mas Sandim, Sadim, articulava com eles, os convencia passar trabalhos pra mim, mostrava meus avanços e conferia com os resultados que eu tinha nas outras disciplinas. No final do ano, com toda a derrota, obtive média pra passar (ainda que arrastado) em todas as matérias.

Mandava recado pelos meninos, pra eu dar um jeito, arrumar uma energia extra e não desistir.

Ainda conseguiu, com uma negociação, que eu fizesse a segunda época como forma de compensar minhas faltas. Não deu. A recuperação era em dezembro. Exatamente no mês de maior movimento no supermercado. Chegava em casa estiolado. Não fui um único dia pra recuperação. Nem pra assinar a lista. E nunca mais vi Sandim, Sadim.

No ano seguinte, repeti a sexta, o juiz de menor deu em cima do trabalho infantil. O supermercado substituiu os garotos por adultos. Antes de sair, ainda com doze anos e uns caroços, passei meus fregueses pro seu Sandoval, que tinha sessenta anos e assumiria minha vaga. Voltei, então para o empreendedorismo da marretagem. Ainda havia uma chance de ficar rico.

 

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