Vai
trabalhar...
Não
era o céu que espalhava cores e horizontes sobre mim. Era canção. Não era a
porta dos tempos a abrir-se generosa à minha frente. Era um desejo. Não era o
poder das coisas e das gentes me arengando a toda hora, a todo instante, a todo
suspiro aperreado. Era fogo pelejando com a água por paz.
Daí
que eu me mexi e quase caí da rede. Havia um rio lá embaixo. A cada embalo na
rede, rio. A cada embalo, rio. A cada embalo... Desatei os punhos da escápula,
enrolei a rede e pulei nas águas melodiosas do rio que corre em mim. E cantei
banzeiros inquietos, pororocas nervosas, marés sem tento.
O
canto não era o samba que excitava, nem o carimbó que até é da minha natureza.
Era um vago na memória e no gingado. Não era o andamento romântico acariciando
meus pertos. Era a dúvida que reina em mim. Quero, não quero. Quero, não sei se
quero.
Atei
a rede de novo. O rio me espiando e umedecendo a aridez que arde lá de dentro
de mim:
(Acionei
os músculos nos aparelhos da academia ao ar livre da grande avenida. Três
séries de 15 movimentos. Peito agitado. Coração tuco-tuco acelerado. Puxa a
respiração. Solta devagar. Uma gotinha de suor se anima rés à fronte. Trânsito
pesado nos dois sentidos da avenida. Entre uma puxada de ferro e outra,
reconheço o estresse dominando o movimento da rua. Do nada, mas do nada mesmo,
um motorista passa no limite de velocidade que a avenida permite, num relance vira
o rosto, mira as pessoas que utilizavam os aparelhos da academia, lá em cima no
canteiro e ordena agressivo: “vão trabalhar bando de vagabundos”. Todos nós que
nos exercitávamos tentando ganhar mais um isso de vida com qualidade, cabeça
branca, ali de boa com a idade. Todos arrumando um tempo depois de uma lida de
anos e anos, na intenção de recuperar a força nas pernas, nos braços, melhorar
a respiração, arejar a cuca. Fazendo por onde não cair, éramos vagabundos, para
aquele motorista de espírito hostil).
Era
manhã. A canção pluft, sumiu do meu do meu pensamento e das minhas intenções.
Água e fogo decidiram-se pela arenga, pelos inconciliáveis conflitos.
Vagabundos!
Caí
da rede. Emboletei os punhos. Esmerilei a escápula até não restar uma fagulha
sequer. Aridez. Não há lirismo neste rio vagabundo.
Anos
e anos madrugando, despertador obediente à chamada desde às 4 e meia. Escuro
estrelado lá fora. Viv’alma na rua. Mais de 45 anos batendo ponto. Sem tempo
nem vagas para um isso de extravagância. Compromisso, dedicação, humilhação,
engolindo sapo, perereca, gafanhoto, lesminhas gosmentas, sem lavar os pés, sem
rir, sem falar, sem as mãos para negar, sem a voz para sugerir, sem alma para
decidir. Quase meio século de botas e disposição para acordar às 4 e meia da
manhã e seguir o rumo das valias, dos valores.
Cabeça branca, e olha só no que deu. Procurei oxigenar a vida, desopilar
o fígado, irrigar as veredas do coração. Saí para embalar dicunforça a rede da
rotina, despistar as dores das juntas e da alma. Era minha intenção desfazer
dúvidas. Sim, eu quero. Eu sei que quero. Aí me vem o cidadão irritado, sem
amor pelo que faz, provavelmente, no seu carro turbinado de ódio e me rotula a
mim e a turma que estava comigo na academia pública, de vagabundos, porque era
manhã e nossos cabelos estavam brancos e tínhamos dedicado uma vida ao
trabalho. E aí me chega o consciente leitor de conjuntura e nos taxa de
vagabundos.
Não
era um sonho. Era o rio dentro de mim secando. Era a voz emudecendo. Era o
remorso deitando e rolando no meu cocuruto, meus Deus, estamos todos errados,
vilipendiamos os credos e costumes quando
empregamos a nossa pouca força nestes aparelhos de academia. Temos que
calçar as botas e sair para o mundo dos lucros e das oportunidades. Temos que
dar um agrado ao espírito daquele motorista atormentado que passou pela avenida
no limite da velocidade permitida.
Não
era sonho. Era um pesadelo. Gente do céu! É hora de acordar.
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