sexta-feira, 18 de setembro de 2026

crônica da semana - Espelho sem aço

 Espelho sem aço

Ai de quem passasse na frente da TV na hora aquela que minha avó estivesse ligada na novela. Pegava um carão e recebia a ordem eivada de nocivo enfezamento: “sai da frente, espelho sem aço”. Queria dizer com este ralho que a pessoa se presumia transparente, e poderia estacionar ali de confronte à TV sem atrapalhar ninguém.

O aço que minha avó se referia é uma demão de produto metálico aplicada a uma face da placa de vidro e que lhe permite a propriedade da reflexão. Esta composição produz a superfície que, na regra, chamamos de espelho. Sem esta camada metálica resta a transparência do vidro. Era este o entendimento de minha avó: o intrometido da vez se achava penetrável, sem segredos. Oferecia, através de si a fantasia, a tensão, a emoção e as esperanças apregoadas pelos dramas da novela.

Foi assim, sem camadas de aço a espelhar personalidades, dramas e jeito de ser de outras pessoas que meu amigo tentou viver, nos tempos plúmbeos do regime militar, lá no esquecido vilarejo que margeava o rio Pium, interior do Amapá.

Encontrei com ele por agora, num evento cultural realizado na Praça da República. Anos e anos sem notícia. Bem mais velho que eu, era meu companheiro nos movimentos de resistência à Ditadura, ali pelos idos de 1979. Naquela época, ainda bombas explodiam em bancas de jornais, e militantes sumiam assim...

Ele era bem visado e numa de nossas mobilizações, reunindo estudantes da Escola Técnica ele foi identificado, monitorado, seguido. Por pouco não foi preso. Conseguiu escapar varando os quintais apinhados de camapu que ainda grassavam na Pedreira. Conseguiu apoio, fez contatos, tirou novos documentos, pegou a família e saiu de cena.

Reapareceu com outra identidade e profissão naquela comunidade nos estirões do rio Pium.

Eu só o reencontrei agora, passados quarenta e tantos anos, por uma sucessão de coincidências. E valeu a pena. O homem, avô hoje, assim como eu, tem história. Uma em especial me tocou bastante. Ouvi atento, enquanto tomávamos um café com tapioca, ao pegado do Teatro da Paz.

Ele contou que, embora o Amapá pudesse representar segurança por ter difícil acesso, à época, era área de segurança nacional e este fato levava uma boa quantidade de agentes e também um contingente significativo da repressão pra lá.

Ressabiado, largou-se às brenhas. Subiu o Pium.

Na comunidade, primou por uma conduta vítrea sem camada de aço que o mimetizasse. Era um ser único, transparente. Professor, casado com a enfermeira, dois filhos que jogavam bola até bem; de vez em quando viajava até Macapá e de lá trazia novidades, mimos importados, brinquedos para distribuir no Natal à criançada da beira.

Alugavam a casa de uma senhora bem dada, esperta que só ela.

Viveram por lá o tempo que deu para a anistia. Quando os ventos da democratização sopraram, resolveram voltar pra Belém.

À hora da despedida, decidiram contar a verdade para a senhoria. Revelaram que estavam ali como clandestinos, que eram mantidos pelas aulas e atendimentos que prestavam na região, que estavam fugidos da repressão, que levavam a vida na comunidade mostrando um comportamento baseado nas idéias que defendiam. No meio da conversa, a senhoria fez uma declaração. Sabia desde que tempo da situação deles. Os filhos muito inteligentes, observou ela, a mulher generosa, que por vezes nem cobrava pelo trabalho de enfermeira; ele lia muito, jornais, livros grossos, tratava a mulher muito bem, dividia as tarefas da casa, não reclamava se ela saísse e se demorasse pela noite, a vitrola tocava músicas bonitas mas que ela não entendia; uma família que partilhava o que tinha com os outros. Gente assim, só pode ser da laia subversiva, concluiu conformada, a senhoria. Ao se despedirem, um morador da vila postou-se entre eles. O barco estava de partida. A senhoria ralhou. “Sai da frente, espelho sem aço”. O morador não saiu. Ficou ali, refletindo a inconveniente realidade. 

 

 

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