A resposta
Ela surgiu daquele vai e vem
interminável, daquele povaréu sem destino certo que ocupa os corredores do
Hangar em tempos de Feira do Livro. Era gitinha, aparentava não bater nem de
perto os quinze anos. Desgarrou-se da correnteza de gente, arrastou a mãe. Foi
certinho na estante que guardava as obras do filósofo alemão. Sacou de lá e
abraçou com profunda afeição o volume 01 de O Capital. Convicta, sinalizou para
a mãe: é este.
A cena chamou atenção. Uma
menina ainda, sustentando no colo uma publicação volumosa. Um livro de
dimensões impactantes, desproporcionais ao tamanho da garota. No entanto, ela
exibia um sorriso de satisfação, de contentamento com aquele encontro. Para
ela, aquele volume não pesava nada, não atentava contra a métrica da escala
estabelecida entre os dois. Tinha nas mãos, sim, a densa interpretação do
sistema capitalista, a compreensão elaborada de mercadoria e valor, a
dissecação histórica dos registros de acumulação, a relação conflituosa entre
lucro e mais-valia. Acomodava entre os braços a obra que estimulou a crítica da
economia política. Um livro odiado e amado com a mesma intensidade. Texto
analítico que mete medo e impõe curiosidade. Inspira reações, tomadas de
consciência, substancia revoluções.
O que uma menina que na
regra, pela fase ainda adolescente, estaria mais atenta aos vídeos do Instagran,
aos livros juvenis da moda, a romances famosos, aqueles indicados no ginásio ou
mesmo a textos ligados aos avanços tecnológicos quereria com a obra de Karl Marx?
Nem imagino. Sei apenas que ela foi ao caixa, pagou, pegou o livro, guardou na
sacola, saiu do estande e voltou a ser uma gota d’água naquele mar de gente,
alegre que só ela, como se tivesse ganhado o melhor presente da vida.
Estava na biqueira do revezamento
de almoço no estande. Abri meu aplicativo e visualizei meu ônibus se
aproximando da parada que fica na Dr. Freitas um pouco adiante do Hangar. Taí
uma coisa que funciona é este aplicativo. Dá impressão que temos um sistema de
qualidade e fôlego. Neste aspecto do tempo é até aquele, o sistema, mas quando
a gente entra no coletivo, meu pai do céu. Os bancos têm só o esqueleto, não
têm o estofado, ou por outra, sequer o esqueleto têm. Os carros circulam com
falta de bancos. A cordinha de solicitar parada é toda no remendo. Sujo, sujo,
sujo. Uma batição de ferro, uma barulheira do motor... éraste. Andar de ônibus
é um misto de humilhação e espanto. Pois bem, o aplicativo até que até. Corri
pra parada.
No tempinho adiantado que
cheguei ao ponto, um pedinte emparelhou comigo e me demandou dois Reais. Com um
olho no ônibus que já despontava pra’li além do sinal, e o outro no demandante,
mostrei a ele o meu passe fácil de velhinho que me isenta de pagar passagem e
justifiquei que de ativo financiador, só tinha mesma era aquele cartão. Já se
ouvia o balangandaço do ônibus se aproximando quando ele me voltou
inconformado, lamentando em tom alterado a minha secura de grana e ainda me
perguntando se o passe era motivo para que eu não andasse com pelo menos dois Reais
para partilhar com os que precisam. Dito isto, afastou-se enfezado, batendo as
chinelas gastas no calcanhar.
Não soube responder àquela
pergunta. Enquanto o ônibus pelejava pela avenida vencendo os déficits de conforto
e qualidade que ostentava, em meio àquele difusor de ruídos metálicos,
imaginava...
Achei nas minhas reflexões,
a menina franzina que se distanciava no vuco-vuco de visitantes da Feira do
Livro, em puro encantamento, por carregar o pesado volume 01 de O Capital na
sacola de papel. Ao descer na minha parada me veio um estalo. Talvez em uma
página densa entre as tantas daquele livro a menina encontre a resposta para o
fenômeno neoliberal de um cidadão abandonado pelo sistema, pedir dinheiro na
parada de ônibus a outro cidadão que não tinha sequer uma amostra mínima
impressa em papel ou em liga metálica, da moeda corrente do país.
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