sábado, 20 de fevereiro de 2021

crônica da semana-argel grama amendoim

 Grama amendoim (um quarto de século)

Há vinte e cinco anos, meu filhinho entrava em campo para ser este cracaço. A bola está com ele, neste sábado:

“Duas árvores de Ficus formavam uma sombra enorme. Os frutos amassados tingiam o asfalto de cor de suco de taperebá, e a seiva branca das folhas dava coceira. Do outro lado da rua, um portão.

Adiante, um jardim de grama amendoim, bem verdinha. Um dia, assim sem explicação, apareceu uma aceroleira no meio do terreiro, dando acerolas azedinhas, encarnadas, que atraíam passarinhos e crianças.

No pátio, a casa começava com o lustroso piso de cimento queimado, o vermelhão, o maior charme das casas de operários menos graduados. O que torna é que operamos o conceito de passar o dia inteiro com pé rubro.

Onde deveria ser uma garagem, forjou-se um ateliê pra mamãe costurar e produzir bolsas que ela vendia aos fins de semana, na praça. No ateliê, também guardávamos a bicicleta vermelha, bem antiga do papai, a minha cross azul, que nesse tempo a Amaranta já tinha herdado, e a minha linda bike cor de grafite com garupa e descanso.

A sala tinha um sofá de segunda mão (Acho que até hoje nunca compramos um sofá na loja), levemente deteriorado, usávamos o lençol de cetim creme-amarelado-pálido para cobri-lo. Encostada na parede da direita, nossa mesa, que até hoje resiste, de madeira boa com quatro cadeiras que marcam nossas bundas e pernas. 

Na parede esquerda, um mural com as melhores fotos. A mais emblemática, do aniversário de seis anos da Amaranta. Nós quatro. Mamãe sorri olhando pra Amaranta, papai sério olhando pra câmera, eu sem camisa, de calça jeans no colo de mamãe, com os olhos fechados, protestando contra os flashes. Ao fundo, umas telas que o papai ousou pintar.

Na parede da frente, duas estantes de ferro guardavam as coleções de rochas e minerais, uma garrafa de whisky, as rolhas das garrafas de vinho, a coleção de vinis, e a vitrola. Tinha também um violão Di Giorgio de cordas de nylon pendurado, esperando o meu único Ré, ou todas as músicas que o papai toca na mesma sequência de Lá menor.

O quartinho era um quarto pela metade, inacabado, sem porta e sem cama. Eu usava pra ficar sozinho, chutando bola na parede. Brinquei muito de futebol com meus bonecos, o Saint Seiya era o artilheiro, canhoto, especialista em cobranças de falta, igual ao Messi. Os dois guarda-roupas embutidos continham infinitos livros, lá, ainda criança, eu li sobre o capitão Lamarca.

O quartão era o quarto de verdade, onde nos encontrávamos em família pra assistir aos jogos da copa. Assim, em um gol de Ronaldo fenômeno, pulamos todos juntos e quebramos a cama. Demoraríamos uns 15 anos pra ter uma cama nova.

As paredes todas eram rabiscadas por nós, as duas crianças que estavam aprendendo a escrever. Riscávamos os nomes de todas as pessoas do nosso convívio. Argel, Amaranta, mamãe, papai, Maura, Caio Lucas, Flaviana… Dizem que a minha letra continua do mesmo jeito até hoje... E na cozinha, a geladeira guardava meu carrinho de ferro, no frio intenso do congelador.

Mexi e remexi na caixa de lembranças do meu lar, mesmo que ele só exista no passado. Com certeza é o lugar mais seguro de se ir. Hoje, no meu aniversário de 25 anos, eu só peço que o dia amanheça azul, com um céu de férias ensolarado, rompendo o fevereiro cinza... que faça florescer a verdíssima grama amendoim e que o vento dê balanço às florzinhas amarelas. Eu assisto tudo da janela.”

 

sábado, 13 de fevereiro de 2021

crônica da semana - empatia

 Meteu a mãe no meio, a casa cai

Do io que se estende pelas  cicatrizes que marcam o lombo emocional de cada um de nós; ao chio, que vem sem sentido e zonzo de direção, fim ou definição do que é esperança e o que é desespero, a vida da gente vai revelando almas... E olha, me aparece cada qual e tais e quais!

O que vale é que a gente se imuniza de embromações e ridículos coquetes. Agora, é na vera mesmo. Ferro com ferro. Transparência da finura da seda do papel de ‘abade’. O dito e o certo, no olho. Exigindo provações. Estabelecendo compromissos. Decidindo cuidados. E, ainda bem, desvelando caminhos tortos. Rasgando véus. Estampando personalidades e inspirando, dando as dicas sobre as estratégias de proteção.

Aconteceu com todo mudo, a frustração. Bambeou gente pacas, a decepção. Mãos que nos eram estendidas docemente, escondiam a ilusão amarga. O desencanto mágico, ácido e trágico.

Uma palavra saltou do caos: empatia. Para ser negada.

Conhecia o termo, olha só, das aulas de OSPB que tive na Escola Técnica. Numa das cartelas que incluíam conteúdos listando as condutas, os valores sociais e morais. Em plena vigência da ditadura, minha turma conhecia os princípios da empatia em dosagens bem mais substanciadas que hoje, quando o que se procura mesmo é se fazer de desentendido quando este tema é a pauta.

Comigo foi de abismar. De me deixar caindo os queixos. E retorno aos perdidos anos oitenta: Naqueles tempos , ora veja, a ETFPA sendo dirigida por um interventor, naquele cenário claustrofóbico, foi que ouvi falar, pela primeira vez na vida, em Karl Marx. Na dita aula de OSPB. De lá formulei entendimento sobre a relação capital/trabalho. E me convenci de que somente a minha força de trabalho interessa ao sistema. Não rolam sentimentos, carinhos, acenos de consanguinidades, afagos ou gentilezas nesse contato. É puramente de troca. Retocada pela mais-valia.

Com parente, pensei que fosse diferente.

A pandemia me mostrou que o sistema tem mais apreço por mim, mais cuidado com minha saúde do que meu parente de sangue.

Aconteceu d’eu ter um serviço assim, assado e optei por dar a missão a parente. Por telefone, combinamos os termos, as técnicas e preço, mas abortamos a missão quando, em determinado momento, ele exigiu minha presença em uma das fases do trabalho. Alertei que estava confinado em severa quarentena. Acrescentei que havia sido dispensado inclusive das tarefas presenciais na empresa em que trabalho, e desenvolvia, desde o início da pandemia, atividades restritas ao ‘home office’.

Só não me chamou de santo. Insinuou que eu era um fraco. Delirou do io ao chio afirmando que a pandemia não existe. Não era coisa outra, senão invenção da Esquerda e do Petê. Que eu tinha que me cloroquinar e sair para o mundo com fé no altíssimo pois que só ele salva. Resgatou arengas da infância, sentenciou que eu era um neguinho amamãezado, cheio de mimos e privilégios. Culpa da minha pusilanimidade, era da minha mamãe, cravou impiedoso e desonesto.

Opa! Meteu a mãe no meio, a casa caiu.

Desfiz o negócio na hora. Não teve trabalho, não teve clima para prosseguir nas concessões táticas das relações familiares.

A mim restou a certificação do descaso total que temos pelo exercício da empatia. A convicção da existência de almas descoladas do corpo social e, incrível, a evidência de que o patrão, o agente concreto do capitalismo selvagem, cuida mais de mim, que meu próprio parente!

sábado, 6 de fevereiro de 2021

crônica da semana - toalha

 Antes de jogar a toalha

Arte da qual jamais pensei me valer.  Prosa que sequer vagava pelo mais recôndito do meu ser era, um dia, escrever algo que significasse desistir. Jogar a toalha. Mas olha, tô na biqueira. Remoso está. Uma assustadora indefinição, como se diz ao repente, “em termos de tudo”, me balança para fora do prumo e forceja me levar à lona. Estou convicto de que, ao contrário do que pareça, este banzo não vem da fraqueza ou como diz o presidente nos seus momentos de maior rastejo, não é fruto de um chiliquito de maricas. A oscilação no tempo difícil e no espaço isolado tem motivações concretas. É certo, dito e cravado que o perigo nos ronda por todos os lados. Hoje mesmo, enquanto escrevo, meu coração sofre, engulo choro, desconcentro, torno, rezo e peço pela recuperação de duas pessoas muito queridas e que enriqueceram minha vida de bons momentos na Vila do Cabanos, para que elas resistam e se recuperem do mal cruel que é a covid-19.

Um registro que tenho, vai catar lá de 1989, a primeira crônica que escrevi. “Nós que amávamos tanto a revolução”, ironicamente, uma narrativa elaborada a partir de um contexto pra lá de otimista. Era final da década de 80, tabus quebrados, democracia restaurada, cheirinho de liberdade no ar. Contei de forma bem humorada alguns aspectos daquelas conquistas, deixei dicas de algumas aparas que precisávamos ajustar e no final, me arvorei a um discurso contra o preconceito: “quando tudo acabou, eu e meu companheiro de batalha nos olhamos, nos beijamos, nos demos as mãos e subimos a avenida iluminada. Tomamos um guaraná Garoto, pra distrair”. Minha primeira crônica revelava sentimentos, traduzia autoestima, validava comportamentos, atos e intenções que, hoje, buscam a todo custo espaço no que escrevo.

Tantos triunfos me fugiram das mãos, nestes dias atuais absurdos e obscuros.

À época eu era mundiado pelo Luiz Fernando Veríssimo. Minha primeira crônica foi inspirada no jeito que ele escreve e que o mantém no topo das minhas preferências literárias. Procuro, ainda, rezar na cartilha do Veríssimo nos quesitos humor, desapego, liberdade no uso da língua e empatia. Coisa outra senão provocar uma satisfação do outro lado, me foi motivada como pauta durante essa lida de cronista que já conta seus 32 anos.

Quem me dera sentar aqui todas as vezes e abrir o parágrafo desta coluna com palavras ternas, finas e agraciadas com muitos bens e bons. Esta é uma disposição que a cada tentativa se torna muito difícil. Remoso está. Desesperançoso está o Brasil. Uma saída rápida ao largo nos revela a mais devastadora onda de desprezo pela doença que nos dizima. Mina de gente sem máscara. Vendedores de comida sem máscara! Outros além de não usar, provocam, desqualificam quem usa. A gente se esconde da doença, mas desse jeito, ela nos descobre. Urge Sumir da rua e esperarmos a vacina. Quem está no poder joga contra. Não temos vacina, não temos oxigênio. E ainda somos submetidos ao discurso de ódio diário, aos arroubos de sadismo disparados pelos carrascos do zap. Aí, a gente se esconde debaixo da cama e se entrega à tristeza sem fim.

Uma hora boto a cara pra fora. Volto ao computador. Engulo choro. Rezo por mim, pela minha família, pelos milhões que sofrem sem esperança neste país. Tento iniciar o parágrafo. Insisto. Antes de jogar a toalha, encontro fôlego na primeira crônica que escrevi e que tinha uma pauta pra lá de otimista.

  

sábado, 30 de janeiro de 2021

crônica da semana - o portão 2

 O portão 2

Aí, o inverno chegou. E dou a marca e a data. Chegou valendo mesmo na segunda-feira, dia 18 de janeiro. Foi o dia do pinga-pinga o tempo todo. Desde dezembro havia um ensaio barulhento do que seria o espetáculo chuvoso amazônico. Céu carregado, trovões, relâmpagos, arrepios e espelhos cobertos. Ah, vento arredando as telhas e nos assombrando com uma vuca de goteiras abrindo em todo canto da casa. Daí veio o dia 18. Amanheceu aquela nevinha caindo. Aqui e acolá engrossava um pouco. Amainava de novo. E assim, nos vimos de confronte com aquele inverno de chuva inteiriçada, daquela qualidade que dá um friozinho. Fui pra meia.

Aquele chiadinho no telhado e o céu da textura de um algodoado cinza compuseram um cenário melancólico. E foi mesmo um dia carpideiro. Um dia triste. As primeiras horas da manhã opaca nos contavam da ausência do riso, do bom humor. Do silêncio caboclo. Do submergir da prosa, do verso e dos bons dizeres tão generosamente nos ofertados pelo juiz, humorista, camarada pra lá de paid’égua de querido, Cláudio-Epaminondas Gustavo.

De lá pra cá a coisa engrenou. Não parou mais a chuva e os dias se estiraram molhados e friínhos, choraminguentos.

E daqui pra frente, vamos precisar de todo mundo. Vamos nos dar as mãos, contornar e, se o amor que dizemos ter pela cidade for de verdade, vamos evitar os sofrimentos que temos passado nos últimos anos.

Teremos nevinha e pinga-pinga doces, ocorrerão temperaturas glaciais que nos levam a nos embrulharmos dos pés a cabeça com o quentinho lençol de rede, mas vamos também, ter grandes precipitações, volumes de água caindo do céu que podem superar 100mm em poucas horas, e se coincidir com a maré alta, dá causa à apreensão, cuidado e vão nos fazer tirar a meia e pular da cama atentos aos movimentos.

Grandes chuvas funcionam como marcadores na vida pessoal e também, na realidade da sociedade. Em março do ano passado caiu um pampeiro de mais de doze horas e que resultou em situações de desespero, com famílias perdendo móveis, aparelhos eletroeletrônicos, para a enxurrada que invadiu as casas. Do outro lado, produziu movimentos inusitados de grupos nem seu souza pros problemas. Praticaram natação, saltos acrobáticos, outros fizeram um pagode com mesas e cadeiras de bar mergulhados na água. Do portão de casa, acompanhei abismado, a subida de nível do canal da Pirajá até ultrapassar as muretas e formar um grande mar na rua, Um perigo!Aquela chuva do ano passado marcou porque revelou comportamentos diversos da comunidade ante um evento delicado e também porque foi o momento-impacto-Belém que antecedeu a tragédia provocada pelo Corona Vírus (e que também gera comportamentos ecléticos).

Anos antes, me batia de melancolia. Era fevereiro. Estava em tempo de voltar para o trampo lá pras bandas de Manaus. Últimos dias de férias. E o toró me prendendo na Sacramenta. E o aconchego e uma saudade antecipada, e as gotas flambando o zinco na biqueira do chagão, e uma paixão brotando e morrendo longe ao mesmo tempo. Fiz um poema. Aquela chuva marcou pela saudade imensa. Belém, cidade das águas e das lágrimas de despedida.

Vamos renovar compromissos. Dar destino certo ao lixo. Abrir caminho para a água. Prefeitura tem que dragar e limpar os canais. Nada de jogar sofá no leito dos igarapés. Tentemos não sofrer e evitar ecletismos este ano. Ontem mesmo vi imagens de mergulhos e tibêis no canal do Galo transbordado. Um perigo!

 

 

 

 

 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

crônica da semana - pequeno lago

 O pequeno lago

A história do pequeno lago não tem origem em nenhum sonho profético. Porém, tem o mesmo final. Saímos da lama.

Nesta quadra de aniversário de Belém, tento ressaltar os poucos avanços que tivemos em ações contra alagamentos. Meu bairro ainda sofre com as chuvas, mas já esteve bem mais de bubuia.

Sábado passado falei sobre aquela região destacada como o grande lago, encravada entre a Everdosa e a Senador Lemos e que por não ser trajeto comum no meu dia-a-dia, naqueles tempos molhados, me causou surpresa assim de palmo em cima. O diferencial era a grande quantidade de água se estendendo ao longe.

Na minha rotina, não havia surpresa. Era caminho batidinho por mim pra tudo em quanto e estava canso de varar de um lado pro outro, o estirão enxombrado da Pedro Miranda, e sair no seco com a perna minada de chamichuga. Esse meu pedaço mais íntimo era diferente do outro lago porque só ganhava volume e se espraiava pelas beiradas, no inverno. Na maior parte dos meses do ano a área era tomada apenas pelo igapó úmido, formando um canal com água abundante somente em trecho restrito, pouco antes da Escola Salesiana. Este desconto sazonal nos dava oportunidade de elaborar caminhos, depender pouco das estivas, e ainda montar várias ilhas pra jogar futebol com a serragem que a gente carregava dos estabelecimentos do bairro. No inverno não, no inverno enchia tudo mesmo e nossos campinhos submergiam.

Eu acompanhei pelo menos três projetos que visavam dar fim ao pequeno lago que era a Pedro Miranda e os igapós que dominavam as passagens nas adjacências. O último foi o da macrodrenagem do Una. Há ressalvas sobre a amplitude da eficácia desse projeto, mas aqui pras bandas da Escola Salesiana, hoje em dia, não enche mais não.

Antes da Pedro Miranda segurar o asfalto, porém, dei um tibêi na lama.

Foi ali pelo início dos anos 80. Época de despertares, primeiros encontros com o violão, com as versões emergentes de arte e política.

Naquele contexto, eu tinha uma referência. Companheiro um pouco mais velho que os outros da turma, contando com vivências ricas naquele mundo de democracia se redesenhando no Brasil. Alberdan era um exemplo de um novo alvorecer para nossa galerinha. Militante sindical, ativista político, havia marcado presença na evolução do teatro nos limites e nas concessões da pastoral Salesiana. Inesquecível o dia em que o vi em cima de um carro som cantando “Apesar de Você”, em meio a um cerco policial que impedia um protesto de estudantes na frente do palácio do governo. Quis ser amigo dele. Refinei contato.

Tamanha admiração me levou a fazer uma homenagem ao Alberdan. Juntei uns pequenos, fizemos uma coleta, providenciamos o de comer, o de beber e combinamos um sarau na casa dele. Lá pra de noitinha, pela aquela horinha, resolvemos cortar caminho pela passagem H, que era um segmento pantanoso cortado por estivas. No meio da caminhada patetei. A ponte dobrava e eu passei direto. Enterrei até aqui na lama.

A parte mais caudalosa do igapó ficava além dali. Sobrou pra mim o charco pastoso, lodoso e mal cheiroso, que me prendeu a modo daquela lama gulosa que aparecia nos filmes do Tarzan. Meus amigos me puxaram e me resgataram do socado em que estava. O sarau e o encontro com meu amigo Alberdan foram adiados.

Muitos dias nos vimos mais tarde, já depois da realização da macrodrenagem da bacia do Una. Mas nos estamos devendo ainda um sarauzinho.

sábado, 16 de janeiro de 2021

crônica da semana - o grande lago

 O grande lago

Já tive um sonho profético: era um caminho... conhecido, pavimentado, seco, ruas de bom traçado. Um muro alto de múltiplas personalidades, além, era sinal de terra firme, plana e elevada.

O paredão era motivo de contentamento. A fronteira entre o passado e o futuro sonhado, e alcançado, de sair de dentro da lama.

Poderia ser o muro da Escola Salesiana, do Catarina Labouré, do Graziela Moura Ribeiro.

Quando tive o sonho, a Pedreira e a Sacramenta formavam uma grande planície alagada. Abaixo, ao sul, estirava-se o canal que irrigava o igarapé do Galo, temido pelo talvegue de águas velozes que cortava a Angustura, e que tinha tanta força, e que trazia tanta água, que muitas e tantas vezes sequestrou crianças para as profundezas lodosas e escuras e as arrastou até o remanso do Acampamento.

Era um grande lago! Eu o vi de perto e pela primeira de outras muitas vezes, quando fui cobrar uma freguesa da mamãe. Tinha o roteiro até a Everdosa dominado. Passando dali, adentrava ao desconhecido. Seguindo orientação da mamãe, pulei das pontes largas da Everdosa para as instáveis e apodrecidas estivas da Passagem D’Outel. Caminhei pouco tempo por aquele beco estreito, ladeado de casas com alpendres gradeados de madeira e crianças protegidas por portõezinhos pensos e baixos. Meus olhos, quando saí do beco, saltaram surpresos. À minha frente, se descortinava a cidade inundada. Um mundo jurássico de água, salpicado de casinhas, entrecortado por pequenas pontes, pinguelas, pranchão inteiriço em alguns regos, travessas e atracações com cipó em outros. Traçados regidos pelo alinhamento das estivas. Ordem e simetria libertas, sem preconceitos ou medidas rígidas: uma carreira de ponte levaria o caminhante a qualquer lugar. Por vezes, até, fazendo interface com a cozinha de alguém, contornando a retrete, ou mesmo desviando de um alpendre prolongado. Sem restrições ao ir e vir.

O caminho se ramificava adiante. Dois ou três alinhamentos de palafitas se apresentavam como opção. Mentalmente, reconstruí o mapa que mamãe havia feito da área. Ajustei o rumo e achei a casa da freguesa, até rápido. De forma alguma, tranquila, porém. Ela criava uns quantos cachorros. Tive que ser rapaz para apascentá-los e me equilibrar na ponte até que ela me acudisse.

Desobrigado da missão, me dei a explorar o lugar. O alagado ia até aonde a vista alcançava. Tiras de casas separadas por boa faixa de água, quando não, por um tapete de capim verdinho que tinha uma espécie de talinho que trazia a forma de uma flecha e servia de arma poderosa nas brincadeiras com a molecada da minha rua. Continuei a caminhada naquela planura. Muito lá na frente, outras bocas estreitas surgiram. Decidi por uma. Novamente, um beco acanhado. Estiva apodrecida, uma nesga de aterro misturado com caroços de açaí e saí na terra firme. Foi quando eu vi o muro...

Anos mais tarde, depois daquela missão que mamãe me deu, e também, depois do sonho que tive, houve a necessidade de ir comprar tal coisa assim assim, lá na Senador Lemos. Chamei um táxi e me abalei aqui da Pedreira. O motorista pegou a Lomas direto, depois cortou pela Everdosa, entrou rés o canal da Passagem D’Outel e dali rodou por uma rua asfaltada, seca e de bom traçado. Antes de dobrar para a Senador Lemos, pela janela, vislumbrei ao longe, o muro. Uma lágrima rolou dos olhos. Era o meu sonho se realizando. O grande lago havia desaparecido.

 

sábado, 9 de janeiro de 2021

crônica da semana - belém na vera

 Belém na vera

É peça certa, traçada e riscada na folhinha do ano, a homenagem a Belém, no janeiro de aniversário.

Se eu fuçar aqui nos meus apontamentos, nos 14 anos que escrevo esta coluna, é cravadinho a cada janeiro, um encarreirado de tico-ticos, nheco-nhecos, beijinhos e carinhos sem ter fim para esta cidade que amo. Sem falhar um ano. E tanto, que os textos geraram até um livro. Minha última experiência editorial deu-se com a publicação de “Janeiros”, uma coletânea trazendo Belém como personagem principal de todas as crônicas.

A chuva bate ali no flandre que reveste o telhado de confronte aqui de casa, faz um barulho metálico e molhado; o vento balança o jambeiro que faz ‘renque/renque’ pra lá, passa um pedacinho, dá uma volta desajeitada no espaço e faz ‘renque/renque’ pra cá. Um frio polar de 24 graus me leva cogitar calçar uma meia, para melhor confortabilidade. Deixo a janela entreaberta, porque gosto de ver e ouvir a chuva nas mais variadas modalidades de timbres e de arranjos plásticos, se realizando no terreiro. Me ajeito na cadeira, procuro um gancho para iniciar o parágrafo, de preferência que lembre a Pedreira, o igarapé do Zé, o estirão de mata da aeronáutica, na margem da Dr. Freitas, os canteiros da Marquês, porque estes são os componentes da cidade que me têm dado causas neste tempo de acabrunhamentos e isolamento compulsório. Quando estou em tempo de criar as primeiras frases do texto, viro estátua. Paraliso todo o corpo e um torpor invencível toma conta de mim. Penso no que ‘mais credo é isso’ que me acontece, que me deixa neste transe improdutivo, nesta introspecção oca e enferrujada. Logo identifico o motivo do abilesamento: um cidadão do bem encostou o carro ali na Pedro Miranda, abriu a mala e libertou os demônios que habitam aquele maldito aglomerado de caixas de som. Toda a área no entorno é impactada por essa zoada. Inclusive o meu cocuruto. Minha concentração desfaleceu e olha, até que o fogo daquele inferno sonoro abrandasse, custou que só para eu tornar.

Torno porque sou de tornar, mas um chiliquto de desfalecimento me espreita, me arrepia. E me deixa em alerta. É o pânico, o medo desse embate. Desta avalanche de decibéis. Rogo para que tudo isso passe e que reine, não o silêncio fúnebre absoluto, mas a serenidade, a sensatez, o bom propósito de um samba ritmado na caixa de fósforo (por que não?).

Há de se estabelecer uma reentrada, uma brecha de luz em meio ao caos. Belém em mim é redenção. É passagem. Rito de conversão: das ruas de seringa ao asfalto da Boulevard. Das brenhas ocidentais que nunca anoitecem ao amanhecer plúmbeo na Pedreira. Dos rosnados perto de felinos ancestrais ao ronco longe e turbinado de motores dos aviões lá pras bandas da Maracangalha. Belém é riso e contradição. Risco e trovão. Verdade, versão. Minha confortável ilusão.

Devaneio necessário. Placebo fitoterápico de manga verde com sal. Valência diluviana de Guajarás, Pirajás e Guamás. Abstração que me salva. Idílio e fantasia; bruma almiscarada de paixões incuráveis por esta terra que falta um grau para ter o charme peninsular. Belém, a porta sempre aberta (Pedreira do samba e do amor, meu perdão, minha bença).Triscas de tristeza mergulham e se desfazem no mar-Belém de contentamentos e realizações.

Eis que Belém é maior que a realidade crua e suja. É transcendente, gloriosa, elevada, graciosa cidade que, na vera, quero é bem.