sábado, 28 de dezembro de 2024

crônica da semana - o que pede o coração

 O que pede o coração

Toda vez que vejo o Almir Sater, lembro do meu amigo. É que são muito parecidos. No jeito abandonado, na calma dos gestos, da voz. A aparência também. Meu amigo tinha aqueles olhos castelhanos algo tristes. A viola fecha as parecências. Foi vendo meu amigo tocar que conheci o som de Almir Sater e as versões autênticas das modas de viola, as variações estilísticas, a toada raiz de Tonico e Tinoco, a plangente levada de Pena Branca e Xavantinho, os incríveis versos populares que rompiam a barreira dos rótulos e das regras ... “Peguei, soltei, chacoalhei, guardei/tornei pegar, chacoalhar, guardar/Pra depois ponhar no mesmo lugar/Ah... vida minha”.

Semana passada, assistindo a uma reprise do programa Balaio, com o cantor, compositor e ator Almir Sater, na TV Cultura, dei conta que nunca mais tive contato com o meu amigo.

Geólogo de ponta, nos conhecemos em Rondônia. Naquela atmosfera produtiva, se destacava porque fazia ciência, ali no meio da pressão que a atividade mineradora exige. Éramos muito jovens e nas horas de folga, botávamos pra chulear. Paulistano clássico, sãopaulino, amante dos Beatles, Rolling Stone, conhecedor da Lira Paulistana, fazia solos fenomenais no violão. Logo me dei com ele e nos embolamos em combinas, tínhamos coisas pacas em comum.

Depois, veio pra Altamira fazer a Geologia das áreas de empréstimo para os projetos da Eletronorte e me resgatou de Rondônia para trabalhar com ele. Usou de toda a generosidade dele para grafar meu nome na capa da dissertação de mestrado que produziu sobre os terraços fluviais do Amazonas. Foi um período de muito aprendizado, de uma convivência cúmplice e de admiração mútua. Tivemos um contato mais próximo porque ficamos mais tempo no campo. Aí é que a gente vê os detalhes. De comportamento, de humor, de iniciativas. Sempre partilhávamos ações e precisões. Em uma ocasião, nos perdemos na mata. E olha, naquela época, dar mole ali na margem direita do Xingu, era meia bronca. Não havia infra, a região era praticamente desabitada. Era só mata, rio e céu azul. Quando nos perdemos entendi a mansidão daquele espírito. Não desesperou. Seguiu o protocolo. Buscou um curso d’água, me orientou na direção da jusante pela Regra dos Vês e depois de uma boa caminhada, estávamos achados.

Ainda no campo e também sobre aquela capacidade enorme de concentração que ele tinha, vale destacar nossa força tarefa para sustentar o maldito vício do cigarro. Como não tínhamos período certo de campo, às vezes nosso pacote de cigarros acabava e longe da cidade, tínhamos que pirangar com a peãozada o fornecimento de uns saquinhos de fumo trevo e alguns livros de abade. Eu, na ira do vício, tecia o meu cigarrinho todo troncho, todo babado, colocava um filtro de algodão e fumava logo. Ele não. Tecia devagarinho, um por um, tudo medidinho, tudo bem feito. Fazia vinte unidades perfeitas, com filtro e tudo, dizia que era o Hollywood’zinho dele. Os acomodava numa carteira vazia e só depois é que voltava a rotina de fumante. Depois de Altamira, perdemos o contato. Até chegar a era das redes sociais, quando nos reencontramos.

Em comum, o gris dos cabelos e reviravoltas na vida. Colocamos em dia as dificuldades, os tropeços e os ensinamentos que trouxemos de lá a cá. Aqui, ali, estávamos nos chats a prosear sobre tudo.

Até que... Sumiu. Não o vejo mais em mídia nenhuma. É desesperador isso. É um profissional ativo, e mesmo que tenha enchido o saco e saído das redes sociais, em outras plataformas na área de negócios, deveria achá-lo. Fiz contato com amigos próximos, nada. Pesquisei em vários e mais absurdos ambientes e nada. A falta de informação é dolorosa. Compreendo, mais ainda agora, o que sentem as pessoas que tiveram seus entes queridos desaparecidos pela ditadura. O que meu coração pede neste ano novo, é que meu amigo, onde estiver, esteja bem.

sábado, 21 de dezembro de 2024

crônica da semana - ninguém num se mete manga e eu

 Ninguém num se mete

O poeta Manuel Bandeira, encantado por Belém, fez versos Modernistas. E notou: em Belém há um novo tipo de infrator. O apedrejador de mangueiras.

Dá-se então, que desde o poema de Bandeira, somos tidos e havidos, Brasil afora, como aqueles que derrubam as mangas a pedradas. Verdade. Não nego. Não há entre nós belemenses, dou minha cara a bufete se esta não é uma verdade pura e clara; não há unzinho sequer de nós que não tenha tentado, em um dia qualquer da vida, derrubar umas quantas mangas do cacho com um lance de pedra, pau, manga ferida ou mesmo uma chinela bandada. É o nosso calibre, nosso jeito de lidar, e embora a polícia, no poema de Bandeira, tenha classificado a ação como arte produzida por um novo tipo de delinquente, não se trata. Não chega a tanto. O mais santo dos cristãos, o mais isento dos pagãos e mesmo um passante alheio, mas de moral e de espírito bom já se arvoraram em calibradas pontarias, sem o menor peso na consciência e sem mancha alguma na papeleta de delitos condenáveis.

Não tenho bronca nenhuma dos coletores de manga, seja qual método utilize, ou o impacto que causam ao passante alheio ou coletor circunstante. Hoje, até observo, é difícil a coleta usando o expediente de lançamento com pedras ou paus. Há uma legião de coletores optando por métodos mais produtivos. O mais comum é um carrinho espaçoso para acomodar bastantes frutas, uma vara longa dotada com um aparador de plástico rígido na ponta e razoável perícia do manipulador. Uma variação deste método é a substituição da vara com aparador por um rapazote que escala a mangueira, se mete entre os galhos, cata a fruta no cacho e larga embaixo a ser aparada pelo outro operador ajudado por uma sacola de plástico ou sarrapilha ajustada entre os braços. O ganho neste método é a qualidade. É mínima a chance de as mangas se ferirem ou se esbandalharem no chão.

Não sou um coletor. Estou ali no bolo do passante alheio, coletor de ocasião. E assim classificado, me enxiro traçar linha de tempo e vivência da safra que mina pelas ruas de Belém.

Desde que a mangueira chegou à nossa cidade, trazida da Índia, provavelmente pelos portugueses para cultivo doméstico, no século 18 e, posteriormente, em plantação de larga escala, como parte do atendimento ao plano urbanístico do intendente Antonio Lemos, a mangueira é nossa parça. Companheira de todas as horas. A partir da execução do projeto de Lemos, formaram-se os túneis verdes de Belém. Ambientes de forte impacto na confortabilidade térmica, nas combinas comunitárias, em reuniões, saraus e, definitivamente importante pelo seu caráter provedor. Muita gente, desde aqueles tempos, se acode da prodigalidade das safras, para aplacar a dor da fome. É comum, no tempo delas, as mangas constarem como a primeira e, às vezes, a única alimentação de quem vive na rua. Como dito, manga é uma fruta e contém todos os nutrientes importantes neste tipo de alimento. A manga tem vitaminas, sais minerais. Na hora da precisão, a manga mantém uma pessoa de pé.

A mangueira também nos atende indiretamente. Integra uma cadeia de atividades que desenvolvem ocupação na coleta, na venda de casa em casa, na feira, e também no beneficiamento da fruta. O mercado da manga garante o Baco-baco na mesa e a feirinha de muita gente.

As mangueiras ocorrem em diversas áreas de Belém, nos quintais, nas passagens, em grandes avenidas. Desde setembro os cachos começaram a se formar. Agora em novembro veio a maior graça, a fartura. Tem manga madurando todo dia. Ninguém deve ser hostilizado por usar este ou aquele método para coletar as mangas e nem pelo destino que dá às frutas. A mangueira é parça do desamparado, do vendedor, do coletor, do passante alheio como eu, que aqui, ali cata uma do chão. E aí... Somos só nós dois. Eu e a manga. Ninguém num se mete... Vale lambuzar.

 

sábado, 14 de dezembro de 2024

crônica da semana - a manga que cai

 A manga que cai

Neste instante em que escrevo, nos pertos do dia dez de dezembro, não minto não. Tive que esquentar uma água pra poder tomar banho. Bateu uma sensação térmica pro lado do friozinho aqui em Belém. Pela banda da tarde não encostou nos, até confortáveis, trinta graus a temperatura e agora já escurecendo, me ajeito nos agasalhos para enfrentar os glaciais 26 graus que se anunciam à boca da noite.

Tenho que falar do tempo e dos entremeios, dos escondidos dos fatos e das surpresas instigantes. Mesmo com a voz rouca da resistência. Ainda que enfrentando ecos adversos. Há de se guardar os instantes no abrigo da crônica para que mais tarde as verdades sejam checadas, os desfechos justificados e, que Deus nos acuda e nos perdoe, as previsões sobre as alterações do clima sejam, lamentavelmente, abonadas.

Tenho tudo na ponta do lápis. Desde o dia 30 de novembro que chove com freqüência em Belém. Um comportamento do tempo imediato, diferente dos usuais contados e vividos. Normalmente se espera a chuva mais constante, a partir da segunda quinzena de dezembro. Pelo menos pra mim, nas minhas lidas de rotina e profissionais, as medidas de adaptação ao período chuvoso só acontecem na segunda metade de dezembro. Só depois do dia 15 é que ensaio as providências. Ocorre que esta chuva, agora no traçado imprevisto, me pegou sem sombrinha, ora veja.

Sobre os entremeios, tem o caso relevante da chuva do dia 30. Não aconteceu pelo escrito do costume. Aqui da minha janela virou, mexeu acompanho o ritmo da chuva. Minha referência de intensidade é o chiado no telhado metálico do vizinho; e de velocidade e direção do vento, é um açaizeiro esticado que se impõe como índice ali pras bandas da Perebebuí. E que por linheiro que é, se verga mais ou menos, conforme a força da ventania. Tenho que pelo comum, inclina-se sempre pr’ali, pras bandas do centro da cidade. E este foi o dado curioso e que a rouca voz deve registrar. Naquele último dia de novembro, na hora da chuva, que chiou bastante no telhado do vizinho, o açaizeiro tombou foi pro lado das matas da aeronáutica. A chuva deu ao contrário. Fato raro. Percebi porque marco presença toda vez para apreciar a chuva da janela e nesse dia não deu jogo. O pampeiro vinha me molhar dentro de casa. Tive que fechar tudo.

São os detalhes, os escondidos dos fatos. Céu com nuvens de textura algodoada de manhã, temperatura abaixo dos trinta nas tardes, vento sul e forte de dobrar até embaixo o açaizeiro, nem bem começou dezembro. E vai aí um salve a este açaizeiro, heim. O bichinho verga, vai rés o chão, pros lados do sul, e como observado dessa vez, pro lado do norte, mas não quebra. Um herói de bailado dramático como se estrelasse uma peça clássica roteirizada em chuvas, medos e sobressaltos do clima.

Sem sombrinha, tenho que me conformar e me abeirar pelas marquises até comprar uma que abra bacana sem trançar os ferrinhos. Também, olhar com cuidado os eventos que se contrapõem aos meus conformes, e da mesma maneira, prestar reparo na mudança de modos. A chuva sempre vem dali, vem de carona com o vento que sopra de leste para dentro da floresta. O que maldo é que tanta nuvem pegou carona, que foi se empilhando lá na frente, sofreu um revestrés e voltou. Deu na chuva ao contrário. Do dia trinta pra cá, tomou jeito. O açaizeiro voltou a dobrar pra lá, pra banda do centro.

Deixa estar, que só nessa virada pra dezembro a temperatura média de Belém, se a gente for ousado nas contas, deve ter caído uns dez graus. Assim, no repente. Daí o choque e a piração de esquentar água pra banhar.

Outro choque foi o da manga que cai. Até o início do mês, chegava da caminhada com três quatro mangas taludas, que catava no pé das árvores distribuídas no meu trajeto.  Agora, nem o cheiro. Chego zerado em casa. A galera tá esperta, Acorda cedo, faz a raspa da manga que cai e eu, ó, cheiro na vara do batista.

 

sábado, 7 de dezembro de 2024

crônica da semana - camisa 7

 Camisa 7

Futebol, gosto mesmo é de jogar. Assistir de fora, não me animo muito. Os jogos andam meio chatos esses tempos e nos estádios, a gente toma uns sustos. A última vez que fui pro campo teve até bomba.

Ocorrem as forras. As últimas pelejas do bicola para se garantir na série B, acompanhei todas e agora por esses dias, tô ligadão no Botafogo, inclusive nas resenhas.

Prestei reparo nos comentaristas inventando modas de comparações e significâncias ao fato do atacante Luiz Henrique usar a camisa número 7 nos jogos do Botafogo. Mando lá o meu pitaco.

O Botafogo apresenta, hoje, um futebol de primeira. Faz jogadas que, há tempos, estavam desaparecidas dos gramados. O próprio Luiz Henrique tem um drible que resgata os ‘dibra’ fartos que praticávamos no glorioso Internacional da Mauriti. No primeiro gol do Botafogo contra o Atlético, no início da jogada, desmonta a zaga adversária e põe o zagueiro fora da foto com um guiza clássico, daquele jeitinho que os moleques da Mauriti faziam. O técnico, reconheço, cortou e arou no jogo do título contra o Atlético. Com a (justa) expulsão de um jogador logo na saída de bola, tomou uma decisão corajosa. Qualquer um de nós que nos julgamos dominar as artes e as táticas do jogo, faria logo a menção de tirar um atacante e pôr mais um defensor em campo. Temos a cultura da retranca, nos momentos difíceis. Seu Dori, treinador do Glorioso da Mauriti, não contaria conversa. Fecharia lá atrás e ainda orientaria a bola pro mato. O técnico do Botafogo surpreendeu pela ousadia (e que tem uma explicação). Manteve o time. Bola dentro. Encalacrou o técnico adversário, que acho, teve também a postura correta. Não substituiu um zagueiro por um atacante. Não foi besta não. Sabia o que tinha pela frente. Um ataque azeitadíssimo, jogando por uma bola espirrada, uma brechinha, ou uma chance de trabalhar jogada, mesmo em inferioridade numérica. Tinha razão de não abrir a guarda. Mesmo com a formação defensiva original, levou dois gols da máquina botafoguense, no primeiro tempo, ainda que contando com o dito um a mais. Que dirá tirando um defensor.

Mudou de idéia no segundo tempo. O técnico optou por reforçar o ataque. Deu sorte. Nem bem começou o jogo, deu um desconto com um gol absolutamente inesperado, do chileno Vargas, que com estatura modesta e boa colocação, superou os grandalhões guardadores da meta botafoguense. Desde aí, como diz a galera, o Atlético mineiro amassou. Time do Botafogo se aguentando só com dez jogadores foi ficando na baba. Estava na hora de entrar o Júnior Santos.

Entrou e disse pra que veio. Fez duas jogadas de velocidade e habilidade. Em uma delas, fez o gol que sacramentou a vitória do alvinegro carioca ante o alvinegro mineiro.

Poderia ser diferente? Não sei. Ninguém sabe. Os deuses do futebol nem aí para arriscar uma pitaco. Mas...

O mesmo Vargas, que abriu a porta da esperança para o Atlético e deu um susto na torcida do Botafogo, logo adiante perdeu dois gols que o Nikita, que era zagueiro do inquebrantável Internacional da Mauriti, jogador e serviços gerais do Cine Paraíso, mesmo dotado de poucos recursos técnicos, e nenhum faro de gol, jamais perderia. O Botafogo mesmo sem um jogador, mandou tão bem na decisão da Libertadores que parece que tinha o time completo somado ainda a uma torcida apaixonada e a um décimo terceiro elemento nessa conta vitoriosa: aquela mãozinha (ou aquele pezinho descalibrado) do Vargas. Ainda bem.

Quanto a camisa 7 do Luiz Henrique, ele dá, hoje, ‘dibras’ que ninguém mais dá, tem repentes decisivos e, por hora, tem contribuído com a boa campanha do Botafogo, no ano. Tem que honrar esta camisa que já emanou brilhos intensos quando usada por Garrincha, Jairzinho e Zequinha, a trindade fabulosa responsável por este pequeno aqui do extremo setentrional do Brasil, torcer pelo alvinegro lá da Guanabara.

sábado, 30 de novembro de 2024

crônica da semana - Macapá

 São José de Macapá

Há tempos que fico num pé e noutro pra dar um rolezinho em Macapá. A turma aqui em casa, saindo de banda. Toda vez que batia a saudade, pelejava e nada. Dá-se que agora, por estes novos rumos, alinhamos. Tá combinado. Vamos nos programar.

Dou maior valor a Macapá, afinal, foi lá que o futuro se assanhou pra mim. Trabalhei numa mineração de ouro. E ouro paga bem. Por esse tempo, estava me ajeitando pra formar uma família. Juntei as escovas de dentes com minha companheira, formamos um patrimônio inicial com uma rede e um rádio e a bom a gente planejar. Foi a primeira vez, em dez anos me embrenhando pelas matas amazônicas, que abri uma poupança. No primeiro rendimento, olha o que acrescentei aos nossos teres. Uma máquina Olivetti Lettera e uma câmera fotográfica Canon. A máquina de datilografia era aquela portátil, que arremedava uma maletinha quando fechava. Útil e prática. A câmera fotográfica era um sonho. Marca conhecida, lentes com zoom de 24 a 50mm, fotômetro de velocidade, controladores de ISO e abertura do diafragma. Tinha até a velocidade B, do obturador.

Uma surpreendente guinada a objetos de consumo. O normal era a gente usar o recurso financeiro para as precisões comuns a um casal recém-juntado. Só que tinha na parada, as nossas extravaganciazinhas da idade, uma pitadinha de experimentação e umas contas atrasadas em certas habilidades, como datilografar com os dez dedos, por exemplo. Havia a pretensão do treino nas teclas da Olivetti e belas fotos.

Desde que tempo eu era um apreciador de fotografia, mas o dindim só dava para equipamentos simples. Até uma Love eu operei e, que superação! Fiz registros de Xapuri, do jazigo de meu pai, da sede do sindicato dos trabalhadores rurais, dos barrancos do rio Acre e da casa do Chico Mendes, com ela. A Love era reciclável. Quando completava as poses, levava na loja e trocava por outra. Depois e durante muito, muito tempo mesmo, me virei com uma Olympus Trip 35mm. As imagens que guardo até hoje dos rincões da BR 174, das corredeiras do Xingu, do sorriso metálico da Mad Maria, dos trilhos equatoriais da ferrovia que se estende de Santana até a Serra do Navio, da alma de muita gente, capturei com minha Olympus e revelei em formatos duplicados. Isso que dizer que um filme de 36 poses rendia 72 fotos. Quando chegou a Canon, aposentei a velha Olympus e a criançada de casa acabou descobrindo os cliques e os mecanismos de abertura internos que eram legaizinhos de ver funcionando. Resultado é que esbandalharam a bichinha que não se segurou íntegra sequer para atestar a história.

Já minha Olivetti, só larguei pelo computador. A pequenina resistiu até a batida da campa. Diga-se que, em plena era digital, meu primeiro livro, O “Operário em verso e prosa” foi todo batido na minha Olivetti Lettera. A máquina, inclusive, compõe a capa do livro.

Era uma forra. Minha companheira até possuía o diploma do curso da professora Sinhá, que era na Lomas. Não praticou. Aquela era a chance.

Eu, por mim, tinha uma cisma. Nunca havia tentado uma missão mais assim de responsa nos teclados. Até arriscava, na Escola Salesiana, nas edições do nosso jornal “O Caminho”, mas como era um jornal mensal, não maldava pra ligeireza, margem, espaço, essas coisas. Deu-se que passei a maior vergonha quando fui fazer um teste num jornal de verdade. O editor me deu um texto pra refazer, bem pertinho de uma da tarde. Era uma máquina de carro longo, pesado. Deu a hora e eu ainda estava catando milho com a lauda toda troncha, margem torta, linha engolindo linha e nem falo do conteúdo, desapegado da narrativa jornalística. Fracasso total. A Valência é que veio o computador e do nada, dois dedos garantem hoje este texto na boa. E não tem carro.

Em Macapá, vivi alguns dos meus melhores dias. Quando bate a saudade, fico num pé e noutro pra voltar lá. Tá no plano.  

domingo, 24 de novembro de 2024

crônica da semana - o próximo episódio - supremacia branca

 O próximo episódio

A turma aqui de casa ficou uma pá de tempo a bom me encarnar por causa das minhas noites procurando o cometa.

Foi anunciado, nomeado e datado. Acompanhei nas páginas credenciadas os registros e procurei as melhores datas previstas para as aparições cá ao norte do Brasil. Reinstalei um aplicativo de mapa celeste no celular, identifiquei a trajetória do cometa e os astros que poderiam servir de referência. Vênus, o ponto mais brilhante no céu logo após o sol desaparecer era o indicador. Dali, era só traçar uma linha pra norte e...

Dava a hora, eu ia pra janela. É certo, atinei para as recomendações, sabia que a iluminação da cidade iria inviabilizar a observação, mas a vontade se sobrepôs à coerência dos fatos e me deixei levar pela patetice reativa e por vezes, pelas fantasias (criei vários cometas no céu de Belém, todos sem a cauda brilhante). Essa minha campana aconteceu em dias encarreirados desde o fim de setembro até uma beirinha de outubro.

Não vi foi piriricas de nada. Rolou, é certo, uma frustração. Ver coisa nova no céu é, sem dúvida, uma experiência enriquecedora do ponto de vista do conhecimento e também do prazer (quando tem fogos a gente não acha bacana?). No entanto, nada de me derrubar as muralhas. Mesmo porque, sou rapaz. Passado na casca do alho. Já vi um cometa. E contemplei por um bom tempo, porque o Hale-Bopp charlou a valer pelo nosso céu há 26 anos.

Esta semana, voltei à janela. Tenho que garantir uma informação que dei aqui há alguns anos. Disse que Vênus não atravessa o céu. É o astro mais brilhante do firmamento, depois do sol e da lua. Se a gente pegar o sol, durante o dia e a lua cheia, durante a noite, vai ver que nascem de um lado, e se põem do outro lado e tem um momento que podem ser vistos bem acima da nossa cabeça, no meio do céu. O sol, ao meio dia e a lua, meia noite, na fase cheia. Com as constelações e os outros planetas, ao longo de um determinado período, acontece o mesmo. Numa horinha estão acima do nosso cocuruto. Isso não acontece com Vênus, afirmei certa vez. Agora atenção. Não observamos no céu noturno, o planeta no meio do céu, isso não quer dizer que numa horinha ou noutra do dia, ele não esteja lá.

E onde fui amarrar minha mula?

Falei que na época do cometa, minha referência era o brilho intenso de Vênus. Perto do horizonte, tanto que tão logo escurecia, o planeta desaparecia.

Agora, se formos para a janela hoje à noite, muito indiscretamente encontramos brilhando daquele jeitão, o planeta bem acima do horizonte. Bem alto de forma que a gente tem que dobrar o pescoço. Quase chegando no meio do céu. Um desavisado pode deduzir que Vênus vem caminhando desde setembro lá debaixo e vai atravessar pro outro lado. Passando pela porção mediana da curvatura celeste. Será? Serei eu um mentiroso? Um fake ultra direita negacionista  dos conformes siderais? Não percam o próximo episódio.

Agora mire e veja, né, o mundo ardendo em chamas. Bomba cá, míssel acolá, conspirações antidemocráticas grassando no seio varonil do Brasil e eu me batendo com essas coisas. É que tenho que acalmar o coração, descontaminar-me da ira não tão santa porque senão a gente entorna o caldo, apara a cauda do cometa e apaga o brilho do planeta.

(para ver o show, as pessoas tinham que pegar o ingresso pela manhã na bilheteria do teatro. Cedo do dia, do outro lado da baía, ela já tinha o ingresso. Poderia justificar a posse com tantos outros, e até abonáveis argumentos, mas não. Preferiu dizer com ácida arrogância, que não precisava sair do trabalho, viajar 40 Km, atravessar a baía, entrar em fila. Porque era branca. Já tinha o ingresso. Podia ter tudo).

Tornei à janela. Todo dia vou medir o deslocamento de Vênus na volta para o seu lugar no ponto mais baixo do céu. Tenho sempre que estar certo. Mais certo que muitos e tantos.

Vamos ao próximo episódio.

sábado, 16 de novembro de 2024

crônica da semana - sincerão

 O  sincerão

Pra ele, noves fora um, claro, porque se for pra empastelar o pouquinho de valor arduamente conquistado pelo nosso esforço, não dá pra suportar. Tem que sair de banda, de banda, de banda. De lado.

Então foi assim. Digamos que estava eu numa confraria obreira, cheia de demandas, precisões e zero de recurso. E a regra é clara. Quando nos falta alternativa, recorremos ao nosso charme. Precisava disso, eu acionava minha rede de contatos e conseguia. Daquilo, e lá eu me abalava pra internet, buscava os parças, pirangava aqui, ali um jeitinho e alcançava um resultado. Nessa época recebemos apoio de engenheiros, advogados, consultores, jornalistas, acadêmicos das mais variadas matizes, tudo na base do 0800, graças às boas relações guardadas desde meus tempos de Escola Técnica, do Movimento Estudantil, da militância na Igreja e até de pariceiros garimpados (e atualizados nos fazeres) entre a molecada da Mauriti.

Deixa estar que um companheiro abismado com minhas parcerias, com minhas desenvolturas e desenrolos, não resistiu, desprezou a alteridade, lustrou de brilho agressivo o lado sincerão dele e soltou essa: “éraste!, tu conheces um monte de gente, todo mundo com uma formação importante, só tu que não és nada”. (Risos. Risos constrangidos). Égua! chega gelei. Foi na frente de um monte de gente. Chocou, doeu, mas era, dependendo do ponto de vista, uma verdade. Pelo menos sob olhar de uma sociedade baseada em teres e haveres, ostentar apenas o charme e uma capacidade ferina de sobrevivência não é suficiente para nos fazer dignos de representação ou de ocupação legítima do espaço. Para agradar ou convencer, tem que mostrar uma gradação social ou mergulhar nos bolsos de padrinhos fortes.

Passou. Dei o noves fora um na pessoa que fez este comentário derrotista, pus o pé atrás em outras e tantas oportunidades em que me vi acossado por estas convicções modeladoras de personalidade a partir de títulos, coquetes e penduricalhos forjados em apadrinhamentos. E segui de banda, de lado. Muitas vezes só, no carimbó.

Eis que, coisa de semana e pouca atrás, eu fui assistir a uma mesa no Hangar, que contava com a presença de alguns fenômenos atuais da literatura brasileira. Itamar Vieira Junior, Carla Madeira e o marabaense Airton Souza. A mesa foi mediada, com notável generosidade, pelo sociólogo e escritor Sérgio Abranches. Assuntos do momento foram postos na roda de conversa e sempre com acoplamentos à perspectiva literária. No bojo dos argumentos percebi, e ainda, a partir de reiteradas afirmações do autor de ‘Torto Arado’, que a literatura é  uma peça criativa de nítida integração, de reformulação, reestruturação social e... emocional. E cravou, a meu ver, com aquela visão interativa da literatura, a relação de alteridade estabelecida entre quem escreve, os personagens que cria e quem lê. Há, neste entendimento, a possibilidade de nos identificarmos com os fatos, personagens e cenários envolvidos nas composições narrativas.

Na boa e na vez, significa que se nos dobrarmos às mecânicas sentimentais, filosóficas e  muitas vezes íntimas que se realizam na literatura, podemos em outra esfera da vivência, experimentar o lugar do outro, sentir, reagir, perceber, refletir como o outro. E reconhecer no outro, não uma pessoa que representa o nada no tempo e no espaço, e sim alguém que tem a capacidade de falar, se revoltar, revolucionar, subverter ódios e preconceitos.

O sincerão não tem um solo plano e seguro de apoio. Não reconhece delicadeza ou regras de amizade. Fere, e fica marcado na história por infelizes intervenções (às vezes forçosamente toleradas como uma forma inofensiva de humor). O que se dá é que não amadurece e cai.

Aí, a gente desvia dele, sai de banda. Muda de calçada, se arma de orgulho e resistência. E se necessário for, segue só, no carimbó.

sábado, 9 de novembro de 2024

crônica da semana - Ubaldo

 Esqueci o Ubaldo (imperdoável pecado)

Acontece. A gente pode até dar uns descontos: o afogueado da hora, a urgência da informação, a lista farta de ilustres. Entretanto, pelo certo e justo, imperdoável foi esquecer o Ubaldo. Estou me mordendo de penitência desde segunda-feira por causa deste branco no cocuruto.

Pior. É o que me acontece daqui pra’li. Mais pelo fato d’eu ter esta presunção, este calibre metidão de querer dispensar pautas de apoio, lembretes, recursos visuais e na hora de dar o plá, preferir sempre a memória, que nunca foi muito aquela.

E olha que já tomei choques de derrubar mastodontes. Ocorreu num seminário, quando eu fazia Geologia. Era o senhorzinho da minha equipe, a petizada por respeito me deu a apresentação do trabalho. Slides prontos, sequência definida, recomendações e boas sortes. Não dei as horas sequer para as palavras chaves em destaque nas lâminas. Olhar para o Power point iluminado na parede, acho que nem de ladinho. Viajei na mandioca braba. Entrei em transe. Até que ainda podia sair dali respirando. Meu tema era algo comum na minha vida profissional e de estudante. Se referia a algumas estruturas das rochas que manjava de muitas eras. Falhas, fraturas. Na boa. Agora, juro, estrias, nunca tinha ouvido falar. Nem maldei de procurar com a equipe os conceitos e exemplos. Usei meu charme, minha retórica guarda chuva, aquela que abriga tudo, embanana tudo, mistura José com Cazuza. Ao final da tragédia, meu professor me anarquizou ali na frente de uma garotada atônita. Nem tanto pela minha fala atarantada e marcada pela mancada das estrias, mas pelo meu total desprezo pelas dicas que estavam generosas e claras, nos tópicos destacados da apresentação. Chega fiquei mofino. A garotada da minha equipe só não me chamou de santo. Ficamos de mal a morte um tempão.

O que torna e o que deixa é que a idade chega, a Terra gira de lá a cá e eu não aprendo. Participei de uma mesa para falar da produção de crônicas e contos, esta semana, na Feira Literária de Barcarena. Fiz um roteiro bacana, salvei no celular. E, olha só, estava que era uma maravilha. Cortando e arando. Nesses casos, é natural que o mediador, a assistência e até mesmo o escritor, façam gosto de registrar suas influências. Nessa hora, no fogo do entusiasmo, dispensei as dicas do meu arquivo salvo no celular.

É um momento que dou maior valor, prezo falar dos grandes. Os contistas, os canônicos cronistas, a coleção Para Gostar de Ler da Ática, o Sobral, o Chembra, Eneida, Lígia, meu ídolo Veríssimo...

Não poderia jamais ter esquecido o João Ubaldo. Um pecado imperdoável que procuro, ainda que sem fé de êxito, remediar aqui.

Autor de obras consagradas como “Viva o Povo Brasileiro”, “Sargento Getúlio”, “O Sorriso do Lagarto”, João Ubaldo Ribeiro nos cativava aqui no leito familiar, na sua versão mais leve, a crônica. Houve um tempo, em casa, que o livro dele andou de mão em mão, e de vez em quando recebia um elogio no mais legítimo paraensês: “égua, não, pai, parei pro João Ubaldo. Ele é muito doido”. A família adorou. Recordista de mimos foi a crônica que ele conta ter sido barrado num evento em que ele era a atração. “não tenho cara de escritor”, dizia ele. E nem a solenidade, a soberba intelectual, a sisudez monocular de Machado, a compenetração alencarina, como ele mesmo afirmava, sempre que provocado. Era o escritor da bermuda, chinelo e uma encantadora cadência baiana no falar.

Entre os sodreres, é um querido. Na postura despojada e no domínio da ciência mundana das palavras. Acadêmico, imortal, reanimava-se em talento no fio do irrevogável bigode.

Mil perdões. Esta minha mania de querer dar conta das prosas, até as mais aquilatadas, só com meus débeis neurônios, me causou dor e arrependimento sem fim. Jamais deveria ter esquecido o João Ubaldo. Mesmo porque, também não tenho cara nem termos de escritor.

 

 

sábado, 2 de novembro de 2024

crônica da semana - verdes águas da guajará

 As verdes águas da Guajará (e o Pelo Sinal)

Teve gente que ficou numa abismação só. O que os olhos percebiam batia de confronte com a normalidade bege barrenta que nos é dada pela coloração da Guajará, no comum dos dias.

Eu por mim, estava bem assistindo à saída da Procissão Fluvial do trapiche de Icoaraci... mais com pouco o cortejo já ganhando o rumo de Belém... Foi no adiantado desse trajeto, com as imagens de TV fazendo uma panorâmica da baía que percebi aquela tonalidade esverdeada. Esperei por outros posicionamentos da câmera, outros ângulos, definições de luz mais constantes porque às vezes pode ser uma refraçãozinha atípica aqui, um fenômeno ótico ali, uma reflexão repentina e vulgar acolá. Ainda reinei alguém aqui de casa, no calor da festa, ter ornado a TV com uma peça de papel celofane para dar o contraste àquela transmissão. Sim, porque vivi estes artifícios nos tempos em que TV colorida era um luxo alcançado somente pelos barões. Foi naquela época de um Brasil varonil em que não era toda a casa que tinha uma TV. E, de sorte, na vila que a gente morava, um mais aquele de grana que ostentava uma Colorado RQ na sala se aviava com os aparelhos em preto e branco mesmo, que era o bem mais acessível à gente do nosso top social.

A raridade, a baixa densidade de aparelhos distribuídos nas redondezas, criaram uma entidade social fortíssima: a televizinha. Era um aglomerado de peças animadas que envolvia a TV, na sala, a dona da casa, a janela e uma vuca de espectadores se amontoando do lado de fora para acompanhar os eletrizantes capítulos de Irmãos Coragem.

E aí já viu as marmotas. Logo apareceram lenitivos para a ausência de cores no aparelho. Tinha até um empreendedor que fabricava uns quadros transparentes hierarquizados em cores de cima a baixo, que coincidia com o verde na parte inferior da tela da TV e que se podia adaptar ao televisor pra gente ter a ilusão da grama colorida, em dias de futebol. Quem, nem esta presepada podia ter, instalava umas faixas de papel celofane para arremedar uma TV a cores. E a vida corria na ânsia dos matizes.

 

O que se deu é que por agora, essas artes não foram tentadas na TV aqui de casa. A água da Guajará estava era nas parecências verdes mesmo.

Não é um fenômeno de se espantar. Eu não estava lá de palmo em cima. Há realmente, os efeitos da luz nas imagens captadas pelas TVs ou em fotografias, então como não tenho a materialidade, não posso atestar o abismador verde como válido. Agora, o que é certo, é que nesta época do ano, a água da baía do Guajará fica mais clarinha mesmo. Tem a ver com o suprimento de sedimentos carreado das montantes, com o baixo volume de água compondo a calha do Amazonas, e também com as severas estiagens maltratando os principais rios da planície. Estes fatores favorecem a entrada, bem mais apurada, da água do mar aqui até as nossas beiradas. Vivemos numa região que facilita a penetração do mar nos interiores do continente. Temos um desenho estuarino na foz do rio Amazonas. É comum o efeito maré ser sentido em nosso dia a dia. No quadro atual, valendo-se dos fatores que adiantei, o mar se intromete com mais intensidade pelos nossos furos e regos, clareando as águas da Guajará.

Esta dinâmica integrada, argumentada pela Geomorfologia e outras regras geológicas e geográficas explica aquela cor diferente da água na saída da Fluvial. Mas para abrandar o abismamento, além das referências científicas, tenho minha batidinha ribeirinha. Em trinta anos atravessando esta baía, num total de quase 4.000 viagens de barcos, popopô, lancha, já presenciei outros e tantos clareamentos da água. Alerto até para mais um fato que marca este período de agora até dezembro. O banzeiro. De manhã, até que não, mas a travessia, pela parte da tarde, ali, do meio dia em diante, é sempre com emoção. Inspira um Pelo Sinal.

 

sábado, 26 de outubro de 2024

crônica da semana - uma lesma no banheiro

 Uma lesma no banheiro (a promessa)

Vivo a experiência de não mais encontrar uma lesma no banheiro. Não brinco com essas coisas, mas acredito no poder de satisfazer precisões, tomar tento e desencadear fatos, buscar caminhos. Tenho minha planilha agora para antever futuro. Mas antes era no papel de pão ou em sonhos acordado aos embalos de uma rede no corredor da casa.

Era sempre no período chuvoso que elas apareciam. Escorregando devagarinho sobre aquela gosma brilhosa, aquele meio viscoso, de alta tensão superficial que as permitia rastejar como se voassem. Deixavam rastro lustroso. Marcas de presença nojentinhas. Eu me dou com corredor. Mas não com lesmas.

De forma que não é uma ilusão, uma fantasia quando me pego a reviver carreiras alegres pelo corredor de uma casa em terra firme. Uma alegria sem regras ao me abalar da sala à porta da cozinha e me largar aos prodígios do quintal.  Cajueiros espalhados e minados de frutos travosinhos, castanholas discretas, ameixas de roxear os beiços. Jacas das porrudas, abieiro... silêncio.

A moça do outro lado da cerca desejando caju com sal. Não sou de brincar com essas coisas, mas era sinal de menino. Tinha um neném naquela barriga. ‘Deu passo em falso, ninguém num me tira da cabeça’. Outra carreira pelo corredor. Ia dar na rua...

Atravessava com mais de mil sem olhar prum lado ou pro outro. Me aninhava ao pé da mangueira e mirava do outro lado da rua, minha casa. Pensava que sempre fosse morar daquele jeito. Casa com corredor e banheiro, lesmas no inverno. Cajueiros no quintal.

Deu foi do contra. Cuidei de me aviar na promessa com a Santinha.

Não sou de brincar com essas coisas. A pequena desejou e meses depois pariu uma menina loirinha. Na casa dela todo mundo comeu abiu. Silêncio. Sumiram.

Nos encontramos mais tarde, nos trançados da baixada. Quarto/sala/cozinha. Retrete partilhada com os vizinhos da vila e distante das casas. Tinha que caminhar por uma ponte mal arranjada para chegar até lá. E levar papel. Banho era na proteção do encerado e na cuia. Lesma. Mina de lesmas apareciam, aqui, acolá e não se acanhavam em varar fora da época das chuvas. O piso, as paredes do banheiro improvisado eram marcadas por aquele traçado viscoso.

A menina loirinha já estava crescida, folgava pelas pontes. Deu uma hora que na peraltice se desequilibrou e caiu no alagado. Da janela de casa vi a cena. Corri para acudir. Engoliu água da vala, teve infecção grave. Outra promessa.

Não havia quintal, nem prodígios, nem desejos. A vida era uma aventura de conquistas diárias. Os milagres acontecendo. A criança se recuperou, a família conseguiu um terreno no Coqueiro, com quintal. Não mais os vi.

A peleja pra cá pr’essas bandas continuava.

Não sou de brincar com essas coisas. Mas sentia saudade dos cajueiros, e dos sonhos acordado aos embalos da rede no corredor. As desabaladas de fora a fora no corredor eram uma maravilha, atar a rede lá pra dormir, nem tanto. Aos primeiros movimentos da manhã, era o primeiro a levantar, tirar a rede para abrir espaço às lidas do dia. Nessa leva, se aprontar, se entalcar e... escola. Mas... sem comparação com a baixada, onde era tudo mais emboloado. Sem corredor, era um por cima do outro. De manhãnzinha era um aperreio só para as precisões e tinha a legião de lesmas.

Penso nos outubros próximos e em todos eles, meu agradecimento à Santa. Vi a mobilização popular forçar medidas acanhadas de governo, que com toda a derrota, drenaram a água de boa parte dos alagados que tínhamos na Pedreira.

Quando me perguntam sobre os meus agradecimentos à Santa, todo ano, uma resposta justa me vem de prima. Vivo a graça de não mais encontrar uma lesma no banheiro. E, de ganho,  retomar um corredor que me dá fantasiar, em desabaladas carreiras de fora a fora da casa, encontros com pródigos quintais e com a moça desejando caju com sal.

 

sábado, 19 de outubro de 2024

crônica da semana - Hera solidário

 Hera uma vez e sempre

A caminhada era longa. Alta madrugada. Um relato aqui outro ali do Chupa-chupa aparecendo por aquelas bandas, solidão e vontade de chegar. Com muito esforço, equilibrado, garantindo certinho o trajeto no eixo central das pontes de madeira estioladas que se ramificavam no alagado até chegar ali pelo adianto da Itororó, meu caminhar, alheio às espreitas da noite, tinha o rumo decidido de casa.

Tirava no pé da Primeiro de Setembro, nos limites do campo de aviação, até a vila em que eu morava, na Mauriti. Com varações pelo beco do Gentil, estreito do Salesiano, canal da passagem D’outel, da Pirajá até pisar no asfalto da Pedro Miranda. Um bom estirão sem iluminação, cachorros vadios doidos pra dar uma carreira num passante, sapos agoirando ao largo do lago e a impressão de uma pisação atrás de mim. A maior parte do trecho vivia entre arrepios e medos. Mas valia a pena. Tinha passado uma boa parte da noite ouvindo as canções do Grupo Hera da Terra, cultivado amizades e me animado com umas visitas ao garrafão de caipirinha que inspirava, altivo, no meio do terreiro.

Eu já era di maior. Podia me dar a essas aventuras noturnas. Estava no final do curso, na Escola Técnica, tinha conseguido uma bolsa no laboratório e me arranjava também com o recurso que vinha de nossa barraca na feira, nada porém, que me desse o rompante de uma viagem de táxi na bandeira 2 da madruga. Me virava na pernada mesmo, às vezes acompanhado do professor Nazareno, letrista de primeira ordem do Hera.

Era bacana voltar com o professor. Ele era um especialista em Pedreira. Conhecia bem a história do bairro e tinha ótimas fontes de pesquisa. O que nos permitia parar em alguns dos inferninhos que bombavam na época. Era considerado, o gerentes ofereciam sopa, PFs, uma saideira. A gente matava a broca depois da noitada, pelos escondidos boêmios. Não mais que isso. Tudo acontecia em favor da pesquisa pelos corredores do Shangrilá.

Como eu tinha a bolsa, passava o dia todo na Escola Técnica. A combina com mamãe era que cedo eu montasse a barraca na feira esperasse umas das minhas irmãs e daí estaria liberado. Nessa época, um fato incompreensível hoje, à luz da LDB, aconteceu. A Escola passou a fornecer merenda escolar. Deu-se que na batida da campa do primeiro horário, eu já estava na fila. Participava também da sessão da tarde e fechava a fatura na janta. Fazia as três refeições na Escola. Me aprontava para a jornada. Tinha uma boroca, socava as coisas dentro. Meus pontos da Escola, toalha, material de higiene, meu leite de rosas, panfletos do Movimento Estudantil. Carteirinha... na sexta-feira, a conta era batida. Não ia nem em casa. Dava a hora, corria pra Mauriti esperar o Sacramenta-Reduto. E me socava na Primeiro de Setembro. O ônibus era o Uber da época, me deixava, bem dizer na porta da melhor música que se fazia na Sacramenta.

Numa dessas, depois da nossa reunião lítero/etílico/musical, me aprumei na direção da Pedreira. Dessa vez, não era  impressão. A uma distância não muito grande, uma pessoa se movimentava na minha mesma pisada, atrás de mim. Pelei de medo. Acelerei o passo, cortei caminho pelas pontes mais instáveis, corri como se corresse de um cachorro que latia perto. E o sujeito atrás. O que eu fazia, ele fazia. Na fé, avistei o asfalto lá em cima e as luzes da boemia. Quando cheguei na parte nobre da Pedro Miranda, me senti aliviado... Mas quando! Não é que a polícia apareceu, me parou, revistou minha boroca e tudo. Fiquei indignado. Lá atrás, para amainar meus medos, nada da segurança pública. Que perturbação, meu pai!

Daqui a pouco vamos fazer um show em homenagem ao Hera da Terra. Hoje me dou como fruto de uma era musical. Enfrentaria os estirões, o Chupa-chupa, os cachorros vadios e a solidão da noite de novo, só para me encantar com as incríveis criações do Hera da Terra.

sábado, 12 de outubro de 2024

crônica da semana

 Pedido pra Santa

Não sou de pedir. Me dou, pelo comum dos anos, a agradecer. Viver já é uma graça sem medida de tamanho ou definição. Por satisfeito, me tenho ante tantos desafios diários. Por isso, nem conto os anos em que me programo para ver a passagem da Santa e como tantos ao meu lado, erguer os braços em direção à berlinda e, humilde, grato, reconhecer que nem mereço, mas que as bênçãos da Santinha, é certo, me mantêm vivo e esperançoso de todo o bem. Já pedi, um dia? Já. Mas eram pedidos doces. De molequinho da Pedreira.

Lá atrás, bem longe no tempo, era apresentado. Um garoto que por tudo em quanto recorria à Santa. Para uns casos, todo dia. Acontecia num período chuvoso, mais de certo, com atenção àquela chuva do início da tarde. Estudava na Aparecida. Mamãe operava a caixa registradora de uma padaria ali no largo do Museu. Não dava descanso pra Santa. Saíamos juntos, naquela horinha morta da tarde, eu e mamãe. Antes, enquanto salpicava um talquinho no pescoço para refrescar, rezava a reza da hora e pedia para Nossa Senhora para não chover. Que a mamãe pudesse esperar o ônibus, embarcar, iniciar o trabalho; que eu vencesse os dois quarteirões até a Aparecida, tomasse a bença de fessora, me acomodasse na carteira. Depois sim, depois que alcançados nossos destinos, abrigados e já em nossas lidas, Nossa Senhora poderia destravar as torneiras e liberar uma aguinha pra molhar a cidade e amainar o calor. Na maioria dos dias, não tínhamos contratempo. Aqui ali, um chuvisco, mas nada que impactasse nosso rumo e minha combina com a Santa.

Em uma outra ocasião, pedi e paguei uma promessa. Acho que esse pedido deu mais trabalho pra Nazinha, afinal tinha do outro lado, por certo, uma penca de clamores também. Mas rolou. Papão 1 x 0 sobre o maior rival. Gol do Cabecinha. No dia seguinte eu estava varando de lá a cá, a calçada da vila que eu morava. De joelhos e com uma vela acesa na mão. Este bicola! Sempre nos exigindo sacrifícios.

Depois fui crescendo. Entendendo o mundo. Reconhecendo barreiras, degraus infinitos, atropelos, condicionamentos sociais que dependiam mais de mim, superar, que da Santa. A cada jornada, a cada conquista, o mínimo alcançado, posso admitir, ainda que mesmo sem a demanda formalizada, desconfiava que a Santa dava aquela ajudazinha. Estava escrito. Tínhamos aquela parceria que vinha da infância e não mais precisava da formalidade das palavras em preces pidonas ou das promessas.

Desde aquele tempo, meu encontro com a Santa é só para agradecer. Deixa estar que este ano não. Este ano vou pedir.

De novo, pelo Bicola (pra não cair).

E mais, e com toda a fé, peço a intercessão da Virgem para que nossos corações irriguem com o sangue puro e consciente, nosso cérebro. E que a lucidez se faça presente em nossas ações. Que a gente reconheça, a partir de um avivamento da razão, a necessidade urgente de cuidarmos do planeta, dos mais pobres, dos que mais precisam. E que a gente perceba que ninguém se põe em pé só pela vontade. Temos um meio social, uma distribuição de renda desigual e ainda a ganância, a usura de muitos, que empurram qualquer vontade, qualquer sonho para o profundo insuperável do poço e da margem social.

E que a vida conte como nosso bem maior. Tantos são nossos conhecimentos, os recursos tecnológicos, o poder que a ciência tem de evitar o pior. Se a vida contasse, se contássemos com o poder do convencimento pela ciência e não pelas fake news, como exemplo, teríamos outra conduta, preventiva, cuidadosa, ao sinal de tanta chuva que viria atingir o Rio Grande do Sul este ano. Nenhum outro interesse se sobreporia à vida.

Meu pedido para a Santa é complexo, sei. Exige parceria. Tolerância. Coração abrandado.

No entanto, a certeza é inabalável. A Virgem vai cuidar e nos dar a graça. Par’o’ano, estarei aqui agradecendo. Amém.

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Bacana de pijama

Agora nesta semana que finda, fez um mês que deixei de trabalhar. Assumi a minha aposentadoria. Decisão ousada. Cheia de poréns, ponderações, narizes torcidos, torcida a favor, desconfianças, mas no geral, muito apoio. Banquei a parada (ipsis litteris). Vou me assumir como um bacana de pijama. No dia 02 de setembro, quando formalizei minha saída da empresa em que operei durante 30 anos, encerrei um ciclo formal de trabalho que teve início lá atrás. Em 1975. Foi permeado pela informalidade em momentos vasqueiros, mas no cômputo previdenciário respondeu além dos requisitos de contribuição. Foram além de 40 anos cravados no papel passado. O que dá, em tudo por tudo, a conta de que desde o primário, quando me aventurei na venda de picolé, até agora em setembro, não parei uma ve’zinha sequer de trabalhar. Tô na baba, já. Mais que na hora de dar tiau.

Quando da minha rescisão contratual (fiz o procedimento na sede do sindicato que ajudei a criar), me permiti levar a primeira carteira, aquela assinada quando eu tinha 12 anos. Faz parte da simbologia do momento, um lance no âmbito do nostálgico que me impõe muita reflexão e algumas lágrimas. Outro ato de intenso valor simbólico aconteceu no dia 02, quando me desfiz do celular corporativo. Ao retirar do bolso e devolver o aparelho para empresa, a sensação era de uma carga de 10.000 elefantes sendo aliviada das minhas costas. Foram tantos os compromissos desprendidos de mim naquela hora. As rotinas, cada vez mais elaboradas, exigentes que a função demandava, e eu, olha só, nos limites desta minha batidinha de idoso...; o acúmulo de inúmeros credos sustentados dentro da minha categoria, dentre eles a fidelidade com os compromissos de classe; a luta pela preservação das conquistas (e que foram muitas); o zelo por amizades caras e sinceras que fiz no meio operário e que, de alguma forma, ainda me viam como referência; a doce lembrança de um dia ter sido uma das meninas da Logística (esta recordação, corrijo, não conta como um peso não, não se mede como uma responsabilidade, mas um alento, um alívio que me abranda o coração desde que tempo. Trabalhei 5 anos só com mulheres e foi uma experiência incrível!).

Disse das emoções. O velho clichê vale para esta experiência de desapego. Quando me desliguei do celular, quando me veio a sensação de paz, ao mesmo tempo passou um filme na minha cabeça. E as cenas iniciais se fizeram muito presentes.

A viuvez de mamãe. O desencanto com o Acre provedor. O desmantelo de sonhos e seringais. Aquele momento na Visconde em que mamãe decidiu lutar e viver sozinha com os filhos; a distribuição de minhas irmãs para as casas de família e a primeira tentativa que eu realizei de ajudar em casa vendendo picolé. Ou uma aventura traumática como oficce boy em um escritório de advocacia na Santo Antônio. Experiência de um único e desastroso dia.

Não havia alternativa. A vida era um aperto só. Não tinha programa nenhum de governo, nenhum numerário vindo de bolsas sociais, plano qualquer de amparo coletivo. O governo militar falava de um bolo que crescia, e nunca chegava a hora de dividir as partes. Nem um cuizinho do bolo sobrava pra gente.

Mamãe soube de um despachante que atuava na DRT da Gaspar Viana. Amanhecemos na fila. O homem não apareceu. Mamãe chorou na porta. Deixaram a gente entrar. E deste dia, herdei a minha primeira carteira profissional. Na foto, a data numa plaquina sobreposta ao meu peito. 24/07/75.

Minhas tias que mantinham carreira no ramo de supermercados, fizeram porque fizeram e arrumaram uma vaga pra mim no Pão de Açúcar, como empacotador (ou boy, no comum dos dias).

A primeira assinatura na carteira aconteceria no dia 11 de agosto. Eu, este bacana de pijama, estava contratado pelo Grupo Pão de Açúcar. Naquele dia o primeiro elefante subiu nas minhas costas.

domingo, 29 de setembro de 2024

crônica da semana - picolezeiro

 Picolezeiro é teu... nariz

Deixa estar que nessa história de dar uma repaginada na rotina, uma forra para a qualidade de vida; para a circulação e para a suspiração em menções que valem por um bifinho, tenho que tenho batido perna por aí. Calhou d’eu, em dia bom de caminhada, varar a Duque de Caxias, bem dizer, de fora a fora. Um trecho, porém, me tornou às aventuras daquele que considero ser o meu primeiro emprego, a primeira missão social em favor de um dindim.

Morava numa vilinha, na Visconde. Tinha placa e tudo, ajeitada na parede da casa da frente. Vila Três irmãos. Nos arrumávamos num quarto/sala com banheiro e jirau fora, todos nós, os Sodreres órfãos do Acre. Ainda terminava o primário na Aparecida. Mamãe segurava nossas carteirinhas do INPS com emprego de caixa, numa panificadora ao pegado do Museu. Era uma experiência ousada de mamãe, desde a chegada dos ermos acreanos e ainda depois de viúva, era a primeira vez que saía da casa (e da proteção) de minha avó. Pensava que com a graça de Deus e o emprego na padaria, ganharia independência. Mas quando. Foi logo que o sapato apertou de prender o sangue. Ficou vasqueiro pro nosso lado. Contava eu, uns 9, 10 anos. Era um tiquinho de gente. Pequenininho, franzino. Bem abaixo da média percebida na envergadura dos meus coleguinhas da Aparecida. Mas era esperto, animado. Gostava duma bola. Explorava aquela imensidão encantadora que era o campo do Areal, com minha patota até já de noitinha. Era perto de casa.

Não teve escapatória. Para ajudar no di cumê, no di vestir e di calçar, tive que arrumar um jeito de faturar um tutu.

Mamãe conseguiu uma geladeira (que era como a gente chamava as caixas de isopor antes). Bem pequena, daquelas sem alça, formato arredondado e que acomodava pouca coisa. Pesquisou. Tinha uma sorveteria lá na Duque, logo dobrando a Lomas. Contamos uns trocados e me abalei para o primeiro dia de trabalho.

Enchi a geladeira com o que deu e saí abraçado com ela pelas ruas da porção norte da Pedreira, fronteira com o Marco. Meu horário era restrito. A aula de tarde era sagrada. Era esperto, mas era um menino tímido. Me pelava de vergonha de vender na rua. Não me dava a sair pregoando a venda, e ainda ficava piriricas, no lugar de me dar por satisfeito, quando alguém de longe me acionava, “ei, picolezeiro”. Reinava de responder “picolezeiro é teu nariz e debaixo da tua cama, o ladrão que te ama”. E aí, né... quem não se comunica... Vendia pouco e às vezes nada. Continuava vasqueiro!

A minha valência é que havia uns moleques na rua, bem despachados e pra eles aquela coisa de menino pequenino vender pelo bairro era uma novidade. Deu que eles acabaram me acompanhando. Aí rendeu. Eles faziam propaganda, atentavam, atentavam até conseguir a venda. A maior conquista deles foi um posto fixo na calçada da Escola Alzira Pernambuco. Não precisamos mais gasguitar no descampado das avenidas. Ali na frente do colégio a venda era certa e mais tranqüila. (Adianto que houve uma pausa para outro trabalho, que resultou numa indenização polpuda que recebi pra compensar muito chororô por causa da tensão de um único dia na função de office boy. Com a grana, compramos uma geladeira maior com alça e tudo. E voltei para o picolé).

O aperreio veio no rastro. Certa manhã, abarrotei a caixa, lancei a alça no ombro. Nem bem atravessei a Lomas no rumo do Alzira, a alça quebrou. Parte da carga se espalhou pela calçada. E logo os de cima que tinham maior demanda. Sabores diferentes. Uvita, groselha, morango... Não ia perder pra’quele imprevisto. E agora o prejuízo! Meus parças me esperando na calçada da escola! Mamãe ia ter um troço com aquela derrota. Olhei pros lados e não contei conversa. Limpei os picolés que escaparam da geladeira no short, joguei a caixa na cabeça e segui na esperança de vender tudo. Acreditei na lei do ‘se não mata, engorda’.

 

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

crônica da semana - carreira profissional

 Carreira profissional (pernas pra que te quero)

Desci a escada de madeira com corrimão roliço lustrado numa resina preta, com mais de mil. Aos tropeços e escorregões dei no clarão da rua. Era tarde, como se apresentam todas as recordações que tenho daquela época. Sempre era uma tarde mormacenta e de luz intensa. Dobrei no rés da calçada e embiquei no rumo da Presidente Vargas. E a pequena atrás de mim, me cuspindo, lançando tapas ao vento em tempo de me pegar. A banda da minha chinela saltou para o esquecimento da rua e logo além eu me desfiz da outra. Um lado, só me fez cachingar e perder a velocidade. Ensandecida, ela se aproveitou do meu atraso e se aproximou de mim a um triz. Descalço, recuperei e voei. Deixei a freguesa pra trás, atravessei a Assis de Vasconcelos sem perceber mais a brasa ardendo atrás de mim. O Lomas, que àquela época já cobria boa parte do território de Belém, dobrou a rua em manobra ousada, inclinando o carro e levando os passageiros ao desespero. O motora, na caté, pegou a reta. Após estabilizado no trajeto, parou bem adiante do ponto; acelerando, querendo partir de novo, o motora fez a presença, e ao ver meu sinal com o polegar de carona, abriu a porta da frente e me deixou entrar. Ofegante, descalço, meu bloco de cartões na mão bem apertadinhos na liga, pra não perder nenhum, relaxei e aliviado considerei que, se não sou rapaz, seria talhado numas boas e raivosas giletadas.

Tudo começou coisa de uma semana atrás, quando desenvolvia minha carreira de cobrador das vendas de mamãe.

Tinha lá meus 14, 15 anos. Experimentávamos uma fase boa na marretagem. Mamãe havia apostado no Crediário Santa Luzia. Fez uma associação com um cearense que vendia de porta em porta. Era um personagem comum naqueles tempos e que no vulgo a gente conhecia como ‘prestação’. O homem era fera. Mamãe fazia os investimentos e ele saía todo dia parece um amarinho ambulante. Severino levava tudo no muque. Rede, roupas, panelas, bregueçada, doces, perfumes. Mina de coisas. E vendia muito bem. Tirava o final de semana para as cobranças. Cabra bom. O negócio ia de vento em popa. Mas o galego, como também conhecíamos este tipo de vendedor, tinha um problema grave. Entornava uma cana di’cunforça. Não poucas vezes chegava pra prestar contas chirrado. Chamando Jesus de Genésio. Mamãe relevava. O homem dava lucro pra casa. Mas aí, quando as contas começaram a não bater. Quando o dinheiro todo amassadinho que ele trazia para fechar o dia, começou a ficar pelo caminho, não deu mais. Um dia que ele apareceu sóbrio. O saldo foi demonstrado, dividido e a sociedade desfeita. Sobrou pra mim, continuar o negócio.

Talento para a venda e estrutura física para sair todos os dias carregando aquela diversidade de produtos, eu não tinha. Reduzimos a pegada. Mamãe continuaria a venda, mas restrita aos perfumes, coisinhas e encomendas. E eu faria as cobranças que nos couberam na divisão com Severino e as novas que surgissem com mamãe. Foi aí que de dei com a pequena.

Todo sábado eu passava na casa dela. A mãe me recebia. Era crente. Fala mansa. Passa pra semana. A prestação era tão baratinha. Passei umas quatro semanas só cheirando na vara do batista. Até que um dia ela pagou uma única parcela do atrasado. E com dinheiro grande. Não tinha troco. Embolsei e disse que na volta acertaria.

Ocorre que tinha um festival de sorvete na Escola Salesiana. Entretido, esqueci do acertado. A pequena chegou, a mãe disse que eu tinha sumido com o dinheiro. Pois ela não foi bater em casa. Anarquizou com mamãe.

No dia seguinte, piriricas com o ocorrido, fui lá no local onde batalhava. Entrei sem me anunciar, joguei o troco no colo dela e devo ter recitado um poema que ela não gostou. Catou na estante a gilete. Foi aí que desci a escada do Xendengo com mais de mil e me superei em uma salvadora carreira profissional. De cobrador.

 

domingo, 15 de setembro de 2024

crônica da semana - mil vezes

 Mil vezes

Ao ouvir aquele encarreirado de invencionices, fiquei bestinha da silva. É que insisto em admitir a boa fé da humanidade.

Nessa minha bestice de acreditar sem eira, sofro. Fiquei muqueado de corpo e alma. Todo doído de ver uma mentira sendo contada com tanto deslambimento. E dói mais quando se trata de subversão de uma história que eu vivi de palmo em cima.

Pois estava eu numa prosa leve, retomando fatos corriqueiros, prosaicos das vivências no meio operário; e investido de uma segurança inabalável porque em todos os passos que minha categoria deu, no árduo caminho da sedimentação de uma relação capital/trabalho equilibrada, sem ninguém cozer ninguém em fogo alto, eu estive presente. Em todos! Desde as nossas peladas lá pelas onze da noite, num campinho em plena área de concentração de moradias familiares, na Vila dos cabanos, passando pelas rodadas de cerveja na fronteira dos domínios da Jacutinga, nas saída dos turnos; até os enfrentamentos formais em Brasília para a ratificação de uma representação sindical química e legalmente estável. No frigir dos ovos, esta evolução das massas operárias em Barcarena, sem presunção, domino. E quando acaba, estava ali, diante de uma fantasia.

Uma situação constrangedora, que me fez lembrar a máxima da propaganda nazista quando pregava que se uma mentira é contada mil vezes, reina ser verdade.

Uma deixa, uma dica para prestarmos cuidado com os fatos. A preservação da verdade é um trabalho árduo que a gente vê sendo abalado rotineiramente. Hoje em dia é difícil a gente identificar daqui pra’li, uma realidade reta e justa sendo defendida.

No caso da reuniãozinha em que estive envolvido, optei pela reflexão e identifiquei algumas características dessa narrativa: é comum o gerador das lorotas não ser o agente ativo da ação. Não tem história nobre ou relevante a contar dele mesmo. Daí busca iluminar o alter ego. Também é normal a pessoa não se limitar a contar o mal contado. Faz por onde parecer que ela, embora não fosse protagonista, estava ali, orbitando a trajetória de outros. Mostra-se como testemunha dos ocorridos. E elabora argumentos contundentes no sentido do ‘eu vi’, ‘eu testemunhei’, ‘eu estava lá do lado’. Esta é uma iniciativa que procura credenciar a fraude. Evidencia convicção, domínio sobre a pauta, molda a enganação em formatos inquestionáveis e cenários de referência.

Exatamente naquela ocasião eu estava na paz, querendo distância de arengas. Tratávamos de reminiscências doces. Preferi fazer uma interpretação e dar causa àquela situação. Atinei, porém, que embora doce, mentira era. E formulei um entendimento que ganha sentido nos fenômenos atuais que incentivam o apagamento ou a corrupção da história. A estratégia é sempre encontar um público alienado ou associado a um pensamento negacionista. Neste cenário, o terreno é fértil para a semeadura da versão que é mais apropriada ao potoqueiro.

Com o tempo, digeri este episódio de forma a não sofrer tanto, como aconteceu logo nos primeiros momentos em que a artimanha foi se revelando. Depois caí em campo com minhas certezas e reações possíveis. São eventos deste porte que valorizam a imprensa responsável, os geradores de conteúdos comprometidos. Vejo que a minha missão como observador de calçada é escrever os passos sociais como realmente são executados, sem tropeços, saltos milagrosos ou fantasiosos. Devo aproveitar as oportunidades que tenho para defender o verídico ocorrido. E a pesquisa é fundamental. Todos os atores estão aí para contar os fatos, existem documentos, notas, informativos, provas que facilmente desfazem a versão que ouvi naquela reuniãozinha (que deveria ser leve, coisa de rodinha do café). São evidências que precisam saltar um dia da gaveta para o registro histórico. E que não precisam ser repetidas mil vezes para se estabelecerem como verdades.

 

domingo, 8 de setembro de 2024

crônica da semana - ponto de vista

 Ponto de vista

Nós que povoamos os quadrantes da cidade grande, perdemos cada espetáculo! Tudo por causa do ponto de vista.

O que torna é que percebemos o mundo à nossa frente, restrito no alcance e no discernimento. E além: limitado à rotina e ao vuco-vuco dos grandes centros. Eu tiro por mim que, mesmo madrugador às vezes passo batido nos fatos e casos. Mesmo os absurdamente chamativos e fascinantes.

É o que vem acontecendo desde o início de agosto. Tenho acompanhado uns pontos luminosos se movimentando no céu da madrugada em trajetórias ordenadas e num arranjo plástico, robusto e acima de tudo harmonizado com a paisagem de fundo, o que dá ao movimento uma pitada de mistério, magia e muita beleza.

Só não passei batido agora porque os deslocamentos acontecem, e ainda por enquanto, um pouco acima do horizonte. E aí é que entra o nosso ponto de vista. Dispensamos atenção a aspectos observáveis limitados pela rotina, e que, pelo comum, nos leva a perceber a maioria das coisas na linha de visão horizontal, ou se muito, uma coisinha cima e, em regra, à nossa frente. Aqui, ali, num acaso, nos volvemos para os lados ou atentamos para além, para a visão periférica. Temos um sestro coletivo bem aquietado para ver o mundo. Ninguém amanhece o dia investigando o que está acima da horizontal, no alto da cabeça.

De sorte que acompanho de palmo em cima o alinhamento de Marte e Júpiter, tendo como coadjuvantes as três Marias, bem do ladinho; Sírius, a estrela mais brilhante do céu; e agora chegando na batida da campa do mês, a lua minguante. O chique da formosura e do embelezamento celeste. Quem não viu, perdeu. Porque a partir de agora, todo esse conjunto vai sair do nosso ponto de vista (aquele horizontal ou um pouquinho acima). Os astros vão caminhar para o meio do céu e mesmo que a gente supere o sestro coletivo e saia de casa olhando pra cima, além da dor no pescoço, vai rolar uma frustração, porque logo logo amanhece e a luz do sol encandeia as vistas. Outro evento deste calibre só daqui a dez anos e sabe-se lá, se ocorrerá no nosso ponto de vista ou no cocuruto do céu. Ainda bem que registrei tudo, com umas fotos pirentinhas, reconheço, de celular, mas o valeu a pena. Valeu o registro histórico.

No início mencionei pontos brilhantes e só depois os identifiquei como sendo os planetas Júpiter e Marte. E aí vem a outra parte da história. Hoje na modernidade com a ciência desvendando mistérios e a informação alargando conhecimento, a gente sabe o que são. E quais são os planetas envolvidos no alinhamento. Mas na Antiguidade...

A humanidade quando olhou pro céu (e me parece, do mesmo jeito que gente hoje, com o mesmo ponto de vista) identificou a repetição ano após ano, das mesmas estrelas, as mesmas constelações. Uma paisagem que não mudava. As três Marias eram sempre vizinhas da estrela Sírius, de Aldebarã, das Plêiades, guardando a regra e a mesma distância, também de outras estrelas mais ou menos visíveis. Agora imagine, numa freqüência de a cada dez anos, outras estrelas aparecendo, interferindo e se movimentando no meio daquele cenário estático. Nossos ancestrais piravam. O que seriam aqueles pontos brilhantes bandalhos, que avacalhavam a ordem celeste? Antes da genialidade humana agir,  a explicação para evitar sustos e impertinentes incompreensões, nossos antecessores encontravam nas narrativas míticas. Relacionaram aquelas aparições com os deuses. Eles, poderosos, interferindo e modificando o determinismo celestial. Aos pontinhos brilhantes, deram o nome dos deuses. Neste agosto em destaque e se alinhando, encontramos Marte, o deus da Guerra e Júpiter, o rei dos deuses. Contados a princípio eram só cinco, os visíveis. A ciência veio depois, achou mais quatro planetas. Refletiu critérios tirou um e hoje são oito. Todos passeando pelo infinito. Aqui, ali alinhando-se e nos desafiando a ampliar nosso ponto de vista.

 


sábado, 31 de agosto de 2024

crônica da semana - madrugador

 O céu do madrugador

Olha no que deu. Me tornei aquilo que eu mais temia. Um madrugador.

Acompanhei gente pacas ao longo dos anos, que cedo, antes da luz do sol já estava de pé. Em todas as ocasiões eu só sabia do fato. Não testemunhava, ou por outra, já encontrava o personagem aceso, voltando da cozinha, tomado café, e pronto para o dia. Exatamente porque me pelava de revolta só de pensar em acordar cedo daquele tanto.  

Tinha uma penca desses outros no acampamento às margens da Transamazônica, à época de minha jornada em Altamira. Era um acampamento base. Um entreposto. Todas as equipes no caminho de períodos longos internadas na mata, davam um tempo ali. Era o momento em que juntávamos vários profissas no amplo alojamento dos graduados: um salãozão de alvenaria, banheiros internos com instalações sanitárias, chuveiros, até espelhos para se apreciar. Dois conjuntos de tubos metálicos grossos estendidos de fora a fora no comprimento do salão serviam para lançar a corda de atar a rede. Sempre tinha uma lotação apurada. E diversa. A quantidade potencializava os calibres. Eu era do calibre de ir até na biqueira do horário, já na batida da campa de sair pro batente. Mas tinha uma ruma de madrugadores. A construção para o normal das atividades que a gente fazia era coisa rara, e beirava o chique. Estávamos acostumados a nos aviar com o barraco nas costas, parar num limpo, abrir as lonas, e montar acampamentos precariozinos, só para poucas noites. Aquela parada ali na beira da Transamazônica era uma acomodação 5 estrelas. Do contra tem uma. Uma situação das mais delicadas que vivi e que se destaca entre as minhas aventuras nos ermos amazônicos.

As vezes que saíamos pra cidade de folga, nossas tralhas ficavam no barracão. Sempre ficava gente, tinha porta telada, piso no encerado e seco. Havia uma sensação de segurança marcando o lugar. Deixa que quando cheguei da cidade, numa ocasião, peguei minhas roupas na bolsa, equipamentos dos jiraus que serviam de estante, fiz o pelo sinal e me arrumei pra ganhar o trecho. Quando peguei minha boroca e lancei a alça no ombro, senti um remelexo aperreado no pendurado da bolsa. Pensei logo ser uma cobra. Sapequei o embornal no susto, ao longe do chão. No cair de arrasto pelo assoalho, o frágil atracador abriu e de dentro saltou uma centopéia monstra. Vocês podem até me chamar de mentiroso. Mas eu juro. Uma teba. Sem tremer a cara, afirmo que o diâmetro da lacraia lembrava na folga, uma pithula cola. Chega fez barulho quando bateu no chão. No que ganhou a liberdade, cem pernas pra que te quero, ela saiu no pinote com mais de mil. Foi uma coisa espantosa. Aquela criatura serpenteando por entre nós num atabalhoado translado de cá a lá, sem rumo definido e a gente saltando de um lado pro outro com medo dela encostar e disparar um veneno, dizque, letal, que eu acreditava claro que fosse. Letal e poderoso o tanto de derrubar cavalo. Daquele tamanho, só podia ser. Boa coisa não vinha dali. Até que apareceu um herói e deu a conta da bichinha. Fomos salvos por uma indefensável bicuda. A centopéia caiu lá fora no terreiro. Foi o custo dela tornar e se aprumar no pinote para longe e para sempre. Graças! Passado o susto, voltamos à rotina. E, sim, os madrugadores...

E agora sou um deles. Há coisa de 10 anos o despertador me joga fora da cama às quatro da matina todo santo dia da semana útil. É uma rotina para os fortes. Agora do meio em diante, ando reinando de não dar bola pro triiiimmm barulhento. Mas quando que posso! Meus segundos no rumo do trampo são contados. Não posso me dar o luxo ‘de só mais um pouquinho’ de sono. Para não cair na tentação, deixo o despertador no maior volume e longe de mim. Isso me força a levantar e aceder de prima, sem remancheios.

Saio de casa com a luz das estrelas ainda. E me reconforto da quebra da cabeça do sono com cada paisagem no céu...

 

domingo, 25 de agosto de 2024

crônica da semana - mão de peão

 Mão de peão

Certa vez me vi perdido na planada. Sabe aquela cena de cinema que pega uma pessoa azuruotinha, no meio do nada querendo achar um rumo? Pois é. Euzinho aqui. Trago na minha mão esquerda a marca dessa aventura. Devo, porém, começar pelo começo.

Sou da pesquisa. Minha trajetória na Geologia foi me embrenhando em mata fechada, cavucando o chão. O desenvolvimento de um projeto de mineração se dá a partir desse processo de procura, de prospecção. Nessa fase não se melindra a mata. As campanhas se dão no ambiente puro, floresta densa, marcada, de acordo com a fase de pesquisa, por um traçado de picadas. A selva e, especialmente esta nossa no ambiente amazônico, é espaço embaraçado, de paisagens afins, contornos e relevos semelhantes. Um pé pra gente se perder e passar um tempão mundiado. As picadas, além do acesso às áreas de trabalho eram referências, tinham amarrações, começo e fim graduados. Eram abertas também num limite de caminhamento orientado em um determinado sentido definido na numeração sequente das estacas de localização, dispostas ao longo do trecho. Não melindrava, mas deixava minha marca no chão da floresta. Pelo menos a cada 20 metros, um buraco de 4 polegadas de diâmetro. As amostras coletadas neste buraco é que definiriam se ali seria montada uma mina ou não. No caso aí da minha mão de peão, deu jogo. Passados uns meses da minha pesquisa, houve a supressão da vegetação e uma terraplanagem primária na área. Tive que voltar ao local pra fechar umas informações. Foi aí que me vi no ermo. O espaço não guardava nada, uma lembrança sequer das minhas referências. Árvores, picada, estacas. Nada. Apenas o colo nu da Terra. A cena do cinema. Eu naquele limpo e acima de mim o sol e o céu infinito. Eterno, azul, abrigo etéreo. Dispersor das minhas inquietações, dos meus medos e minhas dúvidas. Limbo isotrópico de vazios. Mundiações. Labirinto sem quinas. Pra que lado vou?

Andava sempre com um acompanhante. A gente fazia varações, entrava em partes adensadas da floresta. Às vezes tinha galhos, árvores caídas, tínhamos que abrir passagem. Pra ajudar na precisão eu tinha um terçado.

Fizemos a varação, saímos no descampado e eu fiquei azuruote. Sem rumo. Andei prum lado, pro outro. Fui até ali, além, voltei e nada. Estava pra desistir quando puxei um rumo e vupt, meti o pé dentro de um buraco da minha pesquisa. Desequilibrei, imbiquei pra frente e caí, Terçado na mão. O fio da lâmina riscou a banda do meu indicador esquerdo. Sangue pra caramba. Eu já querendo chorar, um talho deste tamanho. Golpe beiçudo e arrogante me derrubando da pose. Meu companheiro se adiantou, tirou um trapinho da minha camisa, amarrou e pressionou o ferimento. Tornei no tento. E dei com um alento. O acidente serviu para eu encontrar uma referência e me localizar. Tinha até a plaquinha de identificação do furo no lugarzinho dela mesmo. Dei um tempo, tratei o golpe e voltei lá pra continuar minha missão. Até hoje ostento a cicatriz na falange do indicador. Hoje discreta, aquietada.

Além do risquinho na pele, me volta daquela ocasião, a minha mão de peão. Usava o tato também para analisar as terras que encontrava pelo caminho. E daqui pra’li me pegava exibindo uma montanha debaixo da unha. Unhas preteadas eram o ônus do ofício, antes de desleixo.

E olha no que deu um dia desses, d’eu me bater não sei em que obra num entretido tal que quando dei fé, minhas unhas estavam têi têi de um pretume só. Estava que era um latifundiário ostentando hectares de terra na cavinha dos cascos. E nem cavucador de terra sou mais. Cuidei e fui me assear, passar uma escovinha no alinhado das mãos, programando uma hora para aparar as unhas e manter a higiene no padrão socialmente aceitável. Só que não posso aparar no rés o gasgo. Tenho que tê-las num esticado discreto e funcional. Gosto de tocar um violãozinho de quando em vez.

 

domingo, 18 de agosto de 2024

crônica da semana - por onde se enxêrga

 Por onde se enxêrga...

Sou do Norte, de tempo forte, quente úmido. Caboco da beira, dos parás e paranás entrelaçados de água e verbos.

E prestando aquele reparo no jeito, no dizque me disse diário, eu arrisco atestar que do paraensês raiz, a palavra que mais me parece da brenha das nossas naturezas e posses, da criação genuína e própria, é a dita ‘carapanã’, termo nosso que ninguém tasca, e que se impõe para identificar aquele mosquito zunidento que nos atenta o toutiço no melhor do sono. Eu que já andei pelos longes, vastos e densos mundos, em lugar nenhum dei de achar significante igual para o odioso mosquito. Se me perguntarem, qual a variação da língua que marca a região que moro, nem conto conversa. Ajo rápido e fácil na resposta e no alerta. “Gente, aqui se chama o mosquito da dengue de carapanã. Carapanã da dengue”. Outros fenômenos da língua não se esgueiram. Pelo contrário, dominam e nos dão a soberba da singularidade, nos dão destaque entre sotaques, dialetos e gírias. É o vocabulário onde nos abrigamos. Sonoro, muito especial e que, com uma ponta de orgulho chamamos de paraensês. Sou usuário desta língua. É minha língua materna. Vem, literalmente, de minha mãe.

Entendo que desenvolvo ainda hoje na minha rotina e na minha escrita, os mecanismos do discurso obedecendo uma lógica vã, espontânea. E disposta em fatias de expressões características e outras de arranjos na fala, ritmo, cadência.

Os termos e expressões são na escala de ruma e meia. E exercem uma função ali na biqueira de separatista da língua formal, vamos concordar. E tem aquela que se expõe consagrada como a mais comum e tipicamente paraense. É a tão repetida composição sincopada ‘pai d’égua’. É tão nossa, esta expressão, tão intensamente enraizada que, explicar para os que nos vêem de fora não é fácil. De outra forma, por cá, nos resolvemos nas mais pai d’éguinhas das compreensões mesmo diante das pai d’éguonas confusões dos visitantes.

É certo que falar o paraensês no seguir dos dias é um desafio. São muitas as pressões. Há a imposição de um padrão nacional, o apelo por um jeito uniforme, automático de falar e reagir. A gente escapa. Eu por mim, tenho como enormemente simpática a nossa maneira de dizer as coisas. Faço é gosto.

E nos detalhes, nas mais perfeitas percepções que minha mãe tinha na descrição do mundo. E da carapanã.

Carrego a herança da minha mãe neste recondicionamento lingüístico, nesta adaptação. Esta subversão da língua formal. E de vez em quando aqui em casa renovo, revivo as versões. Depois de uma noite me batendo com a cantilena da carapanã no ouvido, me avio a um recado no grupo da família pedindo que comprem remédio pra matar carapanã. Assim como mamãe, não chamo de veneno o agente de destruição dos indesejados. Chamo de remédio. O grupo da família pira e pilheria. No rastro me vêm outras peças de mamãe. Ambulância era assistência. Táxi, carro (chama o carro. Vai lá na Lomas chamar um carro, ela pedia para os meninos da rua). Palha de aço na antena da TV era uma porqueira (essa porqueira não presta. É só chiado). Centopéia das pequeninas era piolho de cobra; e das grandes, Santos pés.

Mamãe era paraense raiz e não se esquivava na filosofia, nos termos e na graça de uma elaboração conceitual para o doméstico conflito entre razão o poder. “para mim tanto faz, José como cazuza”, cravava expressando o mais profundo ceticismo.

E não se aperreava quando não havia numerário para comprar remédio de carapanã. Indicava, na hora de dormir, mesmo no calor de uma Belém de antes, se embrulhar dos pés à cabeça e deixar só o nariz de fora pra não forçar a suspiração.

Mamãe do norte, da margem dos parás e paranás. No outro dia, ainda que após a luta contra as carapanãs, se alguém lhe perguntasse sobre a vida, suavizava: “por onde se enxêrga... Vai bem”. Assim, desse jeitinho, com este ‘é’ fechado.