segunda-feira, 28 de agosto de 2023

crônica da semana - Pitico e os ipês

 Pitico e os ipês da Marquês

Não sei se patetei, passei batido, caminhei pra’aquelas bandas depois do caso passado, imaginei, romantizei demais. Só sei que não vi florada que me chamasse a atenção dos ipês da Marquês, este ano. Na linguagem comum das beiradas, dir-se-ia que dessa vez só encontrei ipês pecos. Árvores amofinadas, de viço pouco. Bem diferente de encontros anteriores, quando brilhavam ao longe, sobressaíam-se rosa tendo o interflúvio do Galo e do canal da Três de maio ao fundo.

Pra não dizer que teimei no vago e no seco, fucei lá no meu blog, crônicas passadas em que enchi a bola daquele enfileirado de ipês que se estende pelo final da Marquês de Herval. E dei com os relatos, as evidências do tempo. Afinal é pra isso que a crônica vinga. Para ser o sinal do caso este ou aquele que se realizou em determinado tempo. E que se eterniza em narrativas irrigadas pelo coração. E meu coração bate no ritmo aquele que encontrei na crônica. E lá está o deslumbramento, o encanto que senti em 2021 logo que tomei coragem pra enfrentar as ruas, em meio a tantos sustos vindos da Covid. Exercitava o corpo há tempos recolhido em casa. Meu caminho era o estirão da Marquês. Na mesma batidinha, de máscara e obstinado na prática reparadora da aeróbica, encontrava sempre o professor Paulo Nunes. Aos poucos fomos nos recomendando ali pelos encontros no caminho. “Hoje os ipês estão maravilhosos”. Entre julho e final de agosto contei umas quantas floradas. Ocorria pico do colorido rosado, a copa ficava densa daqueles ‘coninhos’ graciosos. Passavam uns dias e as flores caíam. Mais com pouco voltavam, com a mesma energia, com o mesmo garbo e com a mesma alegria.

Este ano não vi isso. Não percebi reincidência na florada e nem a pujança do colorido. Somente a timidez dos ipês da Marquês, notei.

Pode ser, né, pode ser que tenha ocorrido. Passei uns dias fora, de férias. Se rolou mesmo, o esplendor, perdi. E tá perdido. Só par’uano agora.

Além do atrativo dos ipês, a Marquês entra na pauta das minhas caminhadas por causa, ora, de boas lembranças da minha doce meninice.

A rua se destaca por ser bem larga. Hoje tem os canteiros e tal, mas antes era de grande envergadura. Minhas recordações tendem a seccionar a Marquês em breves trechos, cada qual com o seu cada qual, a sua particularidade. Por ora, me apraz contar sobre o pedacinho entre a Mauriti e a Estrela. Ali foi o palco de grandes embates no futebol de rua. Nem preciso dizer que as estrelas do insuperável, inquebrantável, inarredável, imbatível Internacional da Mauriti cortavam e aravam com o melhor futebol por lá.

As disputas eram duríssimas, ferozes. À época a rua não era pavimentada. Era coberta com uma piçarra vermelha e ladeada de valas largas tomadas de capim em alguns pontos e povoadas de girinos. De vez em quando um atleta era jogado pra dentro da vala. Por isso que nessas partidas, eu preferia atuar na zaga. Embora pequenino, era raçudo. Mandei muito atacante abusado ter com os girinos. Visitei muitos também. Era a intensidade da disputa. Não permitia vacilo. A regra era 10 minutos ou um gol. Uns três times na grade. Ninguém queria sair e ficar de fora, mofando.

Eram jogos também considerados. Alguns craques da ocasião faziam questão de participar das nossas tardes. Ricardo, que era astro do Peladão; Marinaldo que já despontava na lateral do Paysandu e Pitico, que não era profissional ou boleiro rotulado, mas tinha uma categoria, exibia estilo, controle de espaço, tempo, e uma calma. Quando ele jogava parece que a bola agradecia o tratamento e aceitava o destino da forma mais plástica, mais ornamental. Pitico elevava a qualidade do futebol da Marquês com aquela arte primorosa de tratar a pelota. Quando estava na peleja, embora perdesse, nunca ia pra grade.

sábado, 19 de agosto de 2023

crônica da semana - castão e meu caderninho

 Castão e o meu caderninho

Ferreirão foi cozinheiro da minha república, nos meus primeiros anos em Rondônia. Faroleiro que só ele. Contava cada uma mais cabeluda que a outra. Desenvolveu, certa ver, a narrativa de uma história que consumiu umas duas noitadas regadas a muitas latinhas (ainda revestidas com liga de estanho, aquelas, difíceis de amassar), de cervejas. Exigiu de mim muita atenção e desprendimento para aceitar a afirmação que ele fez ao final. Era uma história em que ele morria no fim.

Eu, heim, fiquei meio bambo do toutiço com este negócio de conviver com um ressuscitado.

Pela regra do bom português, Ferreirão era um homenzarrão. Um amazônida bem no aumentativo. Porrudo. Muito forte. Era dos ermos. Contava aventuras de garimpos e sertões longes, beirando a calha do Amazonas. Orgulhava-se de ser um dos mais resistentes mergulhadores do garimpo que se realizava no Madeira. Nem lembro tanto, é certo porém, que certa vez, num balneário próximo, ele demonstrou sua capacidade de mergulho em apneia. Sei que ficou um tempão embaixo d’água. Tempo até além da nossa compreensão. A gente só via a borbulhinha subindo e ele lá no quieto do fundo do igarapé. Impressionante!

Se eu atentasse para um caderninho em mãos, à época do Ferreirão, ou mesmo nos dias aqueles outros que se seguiram até hoje, teria mina de causos na bagagem. Negócio é que não tenho este costume. Não tenho a disciplina do apurador-coletor, do perscrutador dos desvãos assim assados dos instantes.

Deixa que me rendeu, a convivência. Não saí zerado daquele encontro. Numa das nossas sessões ao final da tarde, bebericando uma cervejinha (porque naqueles ermos rondonienses se bebia que só) Ferreirão nas suas invencionices, me trouxe uma aventura passada entre Letícia e Pucalpa, na fronteira do Brasil com o Peru, em que ele se envolveu em cerimoniais indígenas e, animado, jogou luz ao farto consumo do chá de Mariri. Segundo ele, viajou por mundos encantados e coloridos a cada virada de copo. Anos mais tarde eu reproduziria esta cerimônia em uma cena determinante do meu conto ‘A Filha do Holandês’, uma saga amazônica que ganhou até prêmio. Destaco que, um conto baseado em um dos componentes da Ayahuasca, foi a produção que me deu o primeiro dinheiro vindo dos meus escritinhos. Fiquei metidão pacas com esse prêmio.

Além de cozinhar, farolear e desvelar segredos psicodélicos vivenciados, Ferreirão arriscava uns versos e compunha canções de cabeça. Sem apoio de instrumento algum. O tema era sempre amor, a lida garimpeira, a solidão na selva, o sonho de ficar rico e encastoar uma pepita de ouro bem grande no cabo niquelado do canivete que carregava consigo.

Na minha ignorância (ou de par com minha empáfia urbana conservadora), entendia algumas menções de Ferreirão como criações próprias, palavras que ele forjava na vida e até mesmo como resultado da troca de gírias e termos mundanos com nativos da fronteira que falavam outras línguas. Eu não acreditava em um sonho que se compusesse do verbo ‘encastoar’. Para mim, este verbo era mais uma subversão lingüística do Ferreirão.

Desacreditei das prosas do homenzarrão, até que a tela de cinema me revelou o certo das coisas. Dei com o Robert De Niro, em “Coração Satânico” amparado numa bengala e, no extremo da bengala, um cabo bem trabalhado e uma pedra cravada na superfície polida e poderosa. Era uma pedra encastoada. Segundo o dicionário, encastoar significa introduzir castão que por sua vez diz-se de um ornamento que se usa em empunhadora.

Eu era um ouvinte descrente, digo até presunçoso e bestão. Ferreirão, sim, sonhava alto, e sabia das coisas.

Como prenda, me livrei das certezas vãs e fiz um poema, esta semana, com o verbo ‘encastoar’. Qualquer hora, mostro aqui.

sábado, 12 de agosto de 2023

crônica da semana - a beleza da noite

 A beleza da noite

Podemos reclamar do calor que deixa a gente em tempo de estoporar. De correr doido. Vale reinar uns ralhos na turma de refrigerados vereadores que votou contra a instalação de ar condicionado nos ônibus. Um jeitinho de tirar o brilho de pupunha da carinha corada a gente tem que arrumar. Banho aqui, acolá, ventilador em tempo de levantar vôo e olhos pro céu à cata de um sinal de chuva, que não vem, fazem parte do rito e da valência diária.Temos, porém, que dar um desconto porque sem as nuvens e com os dias sem chuva, o céu dá espetáculos um atrás d’outro. Amanheceres doirados, pores do sol matizados loucamente, sem regras; O planeta Vênus mergulhando na beirada tangente da Terra, imenso, e essa lua que nos visitou semana passada, heim... Que lua!

O esplendor da lua fez das nossas noites, durante boa parte da semana, um sonho de luz aos olhos bem abertos. Inspirou, legou esperanças, deu vontade de cantar na janela. E foi num trisca que recorri à canção do Mestre Curica que diz exatamente sobre a ação inevitável que nos anima diante de tantas sensações: “vou curtir a beleza da noite”. Nos leva a apreciar, imaginar, criar ilusões, ou apenas contemplar a lua em noite prateada, enfim, nos alenta, nos revigora e nos alerta para os fenômenos naturais que fascinam. Até do calor a gente esquece.

E o mês de agosto nos reserva ainda outra grandiosidade no céu. A superlua azul.

Não. A lua não vai se tingir de azul. Este é um fenômeno que sempre ouvimos falar e consiste no fato de a fase cheia da lua se repetir no mesmo mês. O que torna é que o ciclo de cada fase da lua se realiza em 28 dias. Do jeito que, se a lua minguante cai num dia 03 do mês, ela volta a ocorrer 28 dias depois. O mesmo acontece com as outras fases. A conjugação das fases e o calendário terrestre, pelo comum prevêem uma fase por mês. Por exemplo: a lua cheia, a minguante, a nova, a crescente tendem a acontecer apenas uma vez no período. A lua azul identifica exatamente a repetição da mesma fase. Azul, tenho impressão, é um jeito romantizado de dizer que aquela fase cheia ocorre pela segunda vez no mesmo mês. Destaque-se que as outras fases passam também por esta duplicidade. Mas não são tingidas pelo romantismo azul. É o que acontece agora em agosto. A primeira lua cheia foi no dia 1º e a segunda, a azul vai ser no dia 30 de agosto. Destarte que vamo se aperparar é que é, esta gente. Porque além de azul, a lua vai ser super.

Assim como a Terra gira em torno do sol de forma meio troncha, desse mesmo jeitinho se dá com a lua. Esta trajetória faz com que a lua numa horinha esteja mais perto e em outra esteja mais longe da gente. O tamanho que a gente percebe da lua depende desta distância. Quanto mais perto da Terra, maior o tamanho da lua.O fenômeno da superlua é justo quando a lua cheia coincide com a menor distância da Terra. O perigeu, que é esta aproximação da lua, pode acontecer em qualquer fase, mas quando é na fase cheia,corta e ara, é show. É super.

Já olhei aqui na folhinha do ano. Dia 30 vai cair numa quarta-feira. Vou quebrar minha rotina de operário de casa pro trabalho e do trabalho pra casa e vou ficar pelo meio do caminho. Me convidei para uma varanda virada para leste, lá na TF, que reúne parte das áreas com maior altitude de Belém, e donde dá pra ver direitinho o nascer da lua no baixo horizonte. No melhor momento porque ao subir pro centro do céu, o brilho até permanece intenso, mas a percepção de tamanho, de superlua, amaina. Lá pelas seis horinhas ela vai despontar formando um círculo 7% maior que o de costume e 15% mais brilhante. Vamos fazer um brinde e, embevecidos, nos dar seguir o conselho do Mestre Curica e curtir a beleza na noite.

 

 

sábado, 5 de agosto de 2023

crônica da semana - cadeado era um nó

 A maleta é um saco e o cadeado, um nó

Desde 2019 não tirava férias assim pras partes além das fronteiras paraenses. Mesmo depois da pandemia aquietada e controlada ainda maldei reveses, temi pressentimentos, quedei-me por aqui por perto e aproveitei as paradas no trabalho para rever paraísos domésticos em Barcarena e Mosqueiro. Passados os medos e aperreios, bivalente no sangue e na alma, este ano ganhei mundo. O lugar escolhido foi Minas Gerais.

Alguns fatores contaram para a escolha. Um relevante foi o financeiro. Com as passagens pela hora da morte, o roteiro Minas se mostrou bastante em conta. O outro componente foi decisivo. As amizades. Tenho amigos ali, pras bandas das Alterosas, que conheço e mantenho relação desde 1983 quando trabalhamos em Rondônia. Era uma boa ocasião para revê-los e regar nossa amizade com fluidos de paz e compreensão, que veio bem a calhar com a proposta de revisitar aspectos das minhas andanças pela Amazônia, enredo do livro “Igarapé Piscina” que lanço neste mês.

Tudo refletido e avaliado, agarrei e fui.

Alguns impactos na viagem de avião. Aeroportos mudados, inclusive o de Belém. Sinalizados. Não vi, como antes, risco de me perder (porque, olha, antes me perdia que só). Passei, também, pela experiência de viajar contando com os direitos dos sessentinhas. Outras vezes, como sempre usava a tarifa mais barata, embarcava por último e cortava um dobrado para conseguir espaço de acomodar minha bagagem, inda mais com esta estatura de metro e meio que não permite alcançar a gaveta, na boa, que dirá no aperreio do corredor apinhado. A luta selvagem por um lugarzinho no bagageiro continua, mas para mim, agora foi de boa. A prioridade legal para embarcar nos dá escolher lugar para socar as malas, com tranquilidade.

As malas, por sinal dão o tom. Sou do tempo em que tínhamos direito a despachar até 20kg de bagagem sem acréscimo na tarifa. De uns anos pra cá, passaram a cobrar e isso levou a maioria das pessoas a optarem pela bagagem de mão. Daí a luta ferina pelas gavetas, que são raquíticas e contadas. Muita bagagem. Tamanho das malas e das pessoas diferentes, indelicadezas, atrasos, esbarrões e estresse na hora de se ajeitar para seguir com a viagem.

Pelo que entendo, as companhias meio que compulsoriamente agem para evitar o caos; e na última hora, tentando um alívio, buscam interessados em despachar a bagagem sem custos, já ali na biqueira do acesso à aeronave. Uma atitude, diria que regrada pelo sadismo, pois que se franqueasse o benefício ainda no check in, facilitaria pacas o processo.

Eu acho um transtorno viajar com as malas dentro do avião. Fosse de graça, despacharia de prima e entraria na cabine só com a minha frasqueira com lanche e água. Daí, que quando chamam ali na base do arrependimento e da hora para despachar a bagagem, sou o pri. Mando tudo pra esteira. Mesmo porque carrego uns quase nada. Naquele baque: a maleta é um tanto além de um saco e o cadeado...

Por falar em cadeado.

Fiquei besta de ver que na hora do despache grátis, pouca gente se arvorou. Eu, lógico, e mais uns dois gatos pingados. Me pus a refletir por que as pessoas preferiam o caos, a luta selvagem a se livrarem do peso das malas. Na sequência, saquei. Medo.

Hoje os cadeados das malas tornam-se frágeis nós. Facilmente desatados. Há o risco da mala ser batizada, trocada. Periga a gente embarcar limpo, cidadão de bem e desembarcar nocivo meliante... Por essas, a galera prefere mesmo é andar com as coisinhas coladas no corpo, não tirar os olhos das bolsas e malas e ficar atenta. Impressionado, quis voltar atrás e pegar minhas malas de volta. Mas quite... Já estavam amassadas no carrinho, embaixo de tantas outras. Ainda deu pra ver o cadeadinho. Era pouco mais que um nó.

 

 

sábado, 29 de julho de 2023

crônica da semana - daniel

 Daniel

A moçada hoje em dia não faz ideia do que seria um Atlas Geográfico. Minha geração conheceu na escola, nas bibliotecas; quem tinha mais um quê de dindim, ostentava um na estante. E ali, entre os fascículos diversos, ficava meio sem jeito, já que os Atlas tinham formato bem maior que as publicações regulares. Eram apresentados no tamanho de um A3, por aí assim. Trazia nas páginas sempre bem coloridas e de diagramação confortável, informações diversas, mapa-múndi, fotos do Brasil e imagens do planeta. Alguns registros ficaram gravados no meu cocuruto.

Deu-se então que agora, nas férias, contornei o amplo pátio, que funciona também como estacionamento, atrás da igreja. Uma caminhada rápida, a observação da localização estratégica do santuário, em ponto de elevação destacado que recebe o vento ligeiro e frio que sobe do vale ao largo. A paisagem, a barragem, a atividade mineira na outra margem do vale e um poeiral ali no longe tiraram por um instante a atenção do meu itinerário, mas tornei e voltei o olhar para a parte frontal da igreja. Foi então que, embevecido, dei conta dos doze profetas dominando o adro do santuário em harmonia e beleza. Caminhei no vão entre eles, e ao pé da escadaria do primeiro plano, me vi de palmo em cima com Daniel. Aquele, o mesmo que entendia existir somente nas páginas dos famosos Atlas Geográficos. Aquela mini peregrinação, a ansiosidade em conhecer o conjunto de esculturas mais famoso de Antônio Francisco Lisboa, conhecido na arte como “Aleijadinho”, e mais ainda, o evidente estreitamento do tempo, que uniu as páginas dos Atlas Geográficos àquela manhã ensolarada e fria de minhas férias de julho, ativaram minhas lembranças da doce infância, diluíram minhas razões da hora, desnudaram meus acanhamentos e eu me entreguei à mais sincera emoção. Ensaiei um choro de encontro amigo, pranto leve e pueril. Meu repente se deu entre o encantamento e a saudade; entre o impacto da descoberta e o arrebatamento do reencontro. Estava ali, eu, confronte o Daniel de pedra sabão. Maravilhoso. Olhos amigos a me fitar cá embaixo, a me receber sem surpresa, como se houvesse uma combina entre nós. E havia uma justificativa profética para aquele olhar cúmplice. Já nos conhecíamos, é certo, das páginas A3 dos Atlas. Só faltava mesmo eu dar uma chegada em Congonhas para uma prosa mais de pertinho.

Eu tenho que refazer o caminho das escrituras para contextualizar os doze profetas que se espalham em leveza e graça pelo adro do santuário de Congonhas. E também para deduzir a predileção da divulgação do acervo, pela imagem de Daniel. Além dos Atlas, já o vi em revistas de avião e banners de turismo. Destaco que não foi alvo só da minha tietagem. A maioria dos visitantes, ao ingressar no pátio, logo o procurava para as fotos. Reparei benzinho nisso, um bom pedaço de tempo. Daniel é referência (do Atlas?).

Depois desci e fui visitar as espetaculares imagens em madeira, abrigadas nas capelinhas que se estendem até a parte mais baixa do morro. Em cada uma, a representação de cenas da Via Sacra. Deslumbrante!

Das tantas caminhadas que fiz pelas veredas-grandes-sertões de Minas, revelo que o encontro com Daniel, por tantas e boas, mexeu comigo. Outro tremelique quase do mesmo sentido e intensidade, que senti e merece um lustre foi quando me vi diante dos grupos Soul da Praça Sete, em Belo Horizonte. Sabia do Movimento pelos registros que integram o livro escrito por Luiz Felipe de Lima Peixoto e Zé Octávio Sebadellhe. E sou vicissi em acompanhar os grupos de BH. Fiquei tão entusiasmado que, óbvio, me meti entre eles e me esforcei nas coreografias. Houvesse hoje, seria uma boa ilustração, os meus voluntariosos passos Soul, postados nas páginas duplas do meio de um Atlas Geográfico.

 

sábado, 8 de julho de 2023

crônica da semana - Gaya

 Imortalidade

A coluna hoje é entregue e muito bem entregue ao jornalista, compositor, poeta, músico refinado (digo sempre: na magia melódica, tem o Strauss e ele), gente boa pacas e meu compadre Edir Gaya. No último final de semana, quando voltávamos de Barcarena, propus que ele escrevesse aqui contando as trajetórias que o levaram a imortalidade como membro da Academia Barcarenense de Letras. Como jornalista esmerado que é, falou e disse. Convosco, meu compadrezito:

“Vida, teu nome é sarcasmo. Num dia, o cara não tem onde cair morto, n’outro ele é imortal. O sarcasmo é quando as duas condições se confundem na mesma pessoa, como no meu caso, desde a semana passada, quando confrades e confreiras da Academia Barcarenense de Letras – a Abarcle – me admitiram em seus quadros como membro correspondente, honra que compartilho com os leitores desta coluna, cujo titular – o Raimundo Sodré, meu compadre e agora meu confrade – há 17 anos é o cronista por excelência dos beiradões e confins desta terra nominada Amazônia, da qual Barcarena se destaca por sua pujança histórica como berço da Cabanagem, por sua contemporaneidade estratégica como polo industrial e ponto de conexão com a Europa e os Estados Unidos e sua profunda identificação com a arte, sobretudo a literatura, a música, as artes plásticas e o teatro, e com a cultura do Baixo Tocantins e região.

O Sodré é escritor e operário. E minha proximidade com Barcarena se deve a ele, que há 28 anos trabalha no polo industrial, desde a antiga Alunorte (Hydro, hoje), nos processamentos que chegam aos lingotes de alumínio.

Minha filha, Manuela, tinha um mês, no Natal de 1995, quando fizemos eu e Valéria nossa primeira e atribuladíssima viagem à Vila dos Cabanos, minha comadre Edna grávida de Argelzinho, nós com duas crianças, uma delas de colo, bagagem, peru, num ônibus e num barcão abarrotados. Foi o afeto que sempre nos levou a Barcarena.

No decorrer do tempo, acompanhei o processo de organização sindical dos companheiros Químicos, estabeleci uma colaboração profissional efetiva com os metalúrgicos, em especial, no período em que trabalhei na assessoria de imprensa do Sindicato dos Bancários, sempre com apoio da incansável Vera Paoloni.

Como jornalista, escrevo o que vi. E vi os operários do polo industrial de Barcarena, sobretudo os Químicos, na vanguarda da denúncia e da pauta ambiental positiva, em destaque, na área da Vila dos Cabanos, com as iniciativas de passeios ecológicos no saudoso “Furo”, parque ambiental de acesso ao Caripi tragado pela especulação, e também no enfrentamento à contaminação ambiental naquela área.

No sábado, 1º, quando tomei posse na Abarcle, compartilhei essa distinção com a jornalista Márcia Ferreira, editora do intrépido O Cabano e uma agitadora cultural com muitos serviços prestados a Barcarena, entre os quais o mais recente é a página sobre turismo que este jornal tem publicado e que apresenta as peculiaridades, personagens e histórias do município. Na figura desta profissional competente que conheço há quase 30 anos cumprimento a confreiras e confrades que comigo tomaram posse.

Minha gratidão ao professor Hélio Santos, presidente da Abarcle, cujo trabalho na secretaria-geral da Federação das Academias de Letras do Pará tem sido notável e na figura da qual cumprimento acadêmicas e acadêmicos da Abarcle que me acolheram com generosidade e carinho. O compromisso dessa distinção honorífica é ser um meio para a promoção da arte e da cultura, sobretudo em sua expressão literária, sem as quais nada somos e a nada podemos aspirar. E quanto a isso a Abarcle e Barcarena podem sempre contar comigo.”

sexta-feira, 30 de junho de 2023

crônica da semana - clino

 Clinoreflexão

Não sei vocês, mas eu sou assim. Tô de boa assimilando o bem e o mal da vida, sem rir sem falar, com uma mão, com a outra, num serececê rotineiro, quando num trisca, encasqueto com coisa mínima, sem importância, mas pela potência que tem de me encasquetar os miolos, ganha relevo de montanha. Dou um passinho a frente, outro atrás, remancheio, decido. A seguir desisto de levar adiante minha encasquetação. Mais com pouco reanimo a intriga, revivo a questão. Faço medidas de interesse. O que meus leitores têm a ver com isso? Deixo estar e vou em frente entendendo que, ah, acontece sim, com mina de gente, do mesmo jeito.

Meu comichão por agora é pelo significado ou a interpretação do que é ‘inclinação’. Até arrumei um título todo estiloso que tem na composição o elemento ‘clino’, radical que vem do grego e que associado ao meu pensamento quase compulsivo, me faz traçar esta pergunta para vós. O que me dizem: um objeto que é muito inclinado. Está muito em pé ou está muito deitado? Dúvida... Dúvida, meu pai eterno, que tudo traça por linhas quaisquer, sejam elas retas, curvas, paralelas, infinitas, valei-me!

Pra não parecer que pirei das fuças, conto o porquê dessa apreensão. É que agora, sexagenário que sou, tô naquela fase da ranzinzagem. Tudo me toca, coisinha miúda me incomoda e logo vou atrás de argumentos para assegurar a minha paz. O destaque é para as viagens de ônibus com poltronas reclináveis. Tenho vivenciado situações em que, quando embarco, muitos lugares estão ocupados e até os assentos destinados às prioridades já encontraram jovens saudáveis e sonolentos para ocupá-los. O embaraço ainda é maior quando constato todos os encostos das cadeiras arriados, dificultando o acesso ao miraculoso lugar desocupado que encontro. Tenho para mim que a boa educação e o cuidado com o outro inspira baixar o encosto apenas quando não houver ninguém para embarcar e o ônibus já estivar de partida. Antes disso, é um sufoco para quem quer um lugarzinho e tem que se atar naquele apertado.

O que me deixou na cuíra é que todo mundo chama o ato de baixar o encosto, de inclinar. Há uma turma que é só ajeitar o corpo, que já inclina a poltrona. Olha, olha quem está de novo formando o verbo inclinar... o mesmo elemento grego ‘clino’.

Então se o mal educado deita a poltrona antes que o passageiro de trás ocupe o lugar, ele está baixando o encosto, aproximando o encosto da horizontal, como se arremedasse a cama da casa dele. O que nos faz imaginar que um objeto ou um plano muito inclinado tende mesmo à horizontal. Mas, pera...Tudo é a referência.

Dizque não sei do caso e do certo. Mas sei sim, dos conceitos. Consultando meus apontamentos, me parece claro que quando uma pessoa desce o encosto da cadeira ela está, não inclinando, mas ‘desinclinando’. Tenho como certo que inclinar é o contrário, é tender à vertical. Quanto mais em pé, mais inclinado.

Na Geometria, a inclinação é uma direção de um objeto no espaço. É a orientação que está entre a direção vertical e a horizontal. Trata-se de uma vastidão de posições. Mas isso não é o caso dos meus chiliquitos. O que me toma de ansiedade e curiosidade é o sentido da inclinação. O senso comum diz que inclinar é descer o encosto da poltrona pra baixo. Na regra, é subir o encosto pra cima.

Posto isso, da próxima, vou estabelecer o caos. Quando entrar no ônibus e topar com um jovem, em sono profundo (ou fingindo-se adormecido) com o encosto da cadeira todo deitado, estreitando as minhas possibilidades de acesso ao meu lugar, vou acordá-lo e pedir, educadamente, pelo conceito, para que ele incline a cadeira dele. Bora ver o bicho que vai dar.

Espero que esta reflexão torne meus dias mais inclinados. Meus atos e intenções rijos e de pé.