sábado, 12 de novembro de 2022

crônica da semana - o patrono

 O Patrono

Agora, no final de outubro, a Academia Barcarenense de Letras realizou a primeira Assembléia Ordinária da entidade. Constou da pauta a cerimônia em que cada membro escolheu o seu patrono. Na hora me veio uma paz, uma leveza de perpetrar o ato com o carimbo de um eficaz recado. Escolhi Rufino Almeida como o patrono da minha cadeira. Foi a maneira de dizer para Barcarena, para a família do Rufino, para os companheiros de prosa e verso e para o Rufino que vive em nossas memórias afetivas e literárias que ele não passou por essa beira de rio em vão.

Sobre meu patrono.

Rufino Almeida foi um homem da ação. Absoluto e prático.

Ativista. Defensor das condutas urbanas (lutou em campo minado contra o hábito de fumar nos ônibus e ambientes fechados). Atleta empedernido (além dos 70 anos de idade, competia em todas as campanhas esportivas locais, nacionais e em várias modalidades). Fotógrafo dos grandes eventos culturais (boas lembranças os escritores paraenses têm registradas, por ele, das primeiras Feiras do Livro, no Centur). Escritor em várias frentes e vezes. Contista, cronista, poeta, crítico, trovador.

Inspirador do companheirismo, formador e disseminador do espírito coletivo, foi membro entusiasta, ao lado de estrelas como Ruy Barata, da Associação Paraense de Escritores. Pertenceu junto com o poeta Antonio Juracy Siqueira à União Brasileira de Trovadores Seção Belém e também na UBT, assumiu a função de vice-presidente de administração. Era um sonhador este barcarenense. Empregava desmedida fé na união dos escritores.

Revisitando a obra “Quaterno”, que ele classifica no predicado do título, como sendo de “crônicas, contos, cartas e discursos”, localizo os vários nichos estilísticos de Rufino e ainda me certifico do caráter de pleno cidadão que o envolve, como ilustra o jornalista Lúcio Flávio Pinto, na orelha do livro: “Rufino é um homem que lê, ouve e informa, empenhado em projetar-se em sonhos e utopias. Até por força de suas práticas esportivas e da luta pelo pão de cada dia, circula intensamente pela cidade de Santa Maria de Belém do Grão Pará e seus arredores, como a Barcarena, do seu nascimento”.

As circunstâncias, a construção de uma articulação mínima entre escritores nos permitiram encontros freqüentes na “Banca dos Escritores Paraenses”, espaço coordenado pelo escritor Cláudio Cardoso, na Praça da República, nos últimos tempos. Desses encontros, resgato “Poemas Nus”, edição de 2011. Tenho o livro de poemas autografado na página de rosto, e, donde, mais adiante, em nota, o autor reproduz um texto que o acompanha desde a primeira publicação, em 1984. Nele, uma narrativa quase em código.  Um recado: “a pretensão de ser um dia reconhecido, ainda que na posteridade, requer a prática de um insistente exercício de paciência e resignação ante à indiferença dos que vêem a literatura e, especificamente, a poesia, como um gênero menor. Embora a busca do sucesso seja o principal objetivo de todos os que se lançam em qualquer segmento das artes em geral, confesso que meu principal objetivo é dividir solidariamente com os leitores, minhas emoções experimentadas, ao longo da vida”.

Nascido em Barcarena, Rufino Almeida viveu 30 anos no Rio de janeiro. De volta ao Pará, nos contou sonhos.

As palavras de Rufino nos indicam o caminho.

Em trinta anos de literatura publicou, entre outras obras...

Quatro caminhos; Poesia Nua e Crua; Poemas Nus; Quaterno; Sincrônicas; E os infantis, A menina que soltava passarinhos e O sapinho guloso

Não passou por essa beira de rio em vão.

 

 

sábado, 5 de novembro de 2022

crônica da semana - a dança da rua

 A dança da rua

Dante Gatô criou, elaborou o tempo, a marcação, os movimentos poucos e plenos. Seleciona os brincantes, ensaia por noites e noites, e quando dá o momento, faz uma apresentação no passeio central da Pedro Miranda.

Olhando de cima a gente identifica uma ordem. Silenciosa em azul, rosa, vermelho; percebemos traçados na calçada, riscados no espaço, debaixo do céu claro. A dança é de dia e bebe o ritmo do sol.

Dante Gatô criou

Veio da França, logo depois da Copa de 1998. Desembarcou em Belém, evaporou o passado, de tanto calor; tomou açaí, comeu da farinha baguda, e se aninhou na Pedreira. Tinha uma sonoridade e uma cadência na cabeça que talvez guardasse uma origem nas celebrações celtas, mitificadas, misteriosas e proibidas. Recebeu a herança de aldeões bárbaros das Ardenas, de mulheres poderosas das florestas e dos druidas de barbas gris e longas. Nos trouxe a idealização de um proscrito caldeirão celta, temperado com ingredientes subversivos, ervas revolucionárias e vapores revoltosos da fervura.

O mais extraordinário é que não tem música cantada ou tocada na apresentação. Apenas uma marcação extraída do próprio movimento dos dançarinos. Um tum tum cadenciado que habita o íntimo de cada um. Altivo e elegante. Cada qual com seu par. Um passo à frente, trocam sorrisos e gentilezas, fazem a ginga e se tocam. Girou! Aos seus lugares. Tum tum.

Lá de cima a harmonização do universo em chapéus com fitas rosas e boinas vermelhas com raminhos na borda. Alvos e bem cortados paletós diante de saias rodadas. Evolução simples, educada, num ritmo mágico, pleno, de singular candura. Instigante. Sensual. Bem tramado no espírito, no mais escondido da alma. Girooou!

Dante Gatô criou.

Não conheci Dante Gatô de palmo em cima. Ele nem é deste plano físico. Ele e a história dele existem apenas no sonho. Acordei num dia desses graves de outubro com este nome, a dança se realizando, e essa região da Pedreira, entre a Escola Salesiana e a Dr. Freitas fazendo o cenário. Como era um sonho, vi tudo de cima. Ao acordar, havia a estrutura de um poema com o andamento inspirado na dança de rua. Logo pensei no meu compadre Edir Gaya. Imaginei como ele ficaria feliz com uma forma diferente, uma construção poética além do que se dá no meu comum. Os versos se movendo. E se animaria: “ulha, manda pra mim”. Na mesma pegada, pensei numa prosa que simbolizasse a leveza, o fluir da alma, a liberdade conquistada. Um espetáculo visto de cima, como se nos estivéssemos livrado de um peso de quatro, cinco anos de chumbo quente sobre nossos sonhos e...flutuássemos.

A dança de rua se dá com os personagens dispostos nas margens do canteiro da Pedro Miranda, local, no dia-a-dia, usado pra tudo em quanto que não signifique arte. Formam duas fileiras que assim, de cima, assemelham-se a gigantes sucuris coloridas. Aos serpenteios, as fileiras se tocam ponto a ponto, em contatos de puro prazer e amor.

Cada qual com seu par. Uma passo à frente, trocam sorrisos e gentilezas, fazem a ginga e se tocam. Girou! Aos seus lugares. Tum Tum no coração. Leveza no espírito e generosa entrega.

É extraordinário este fato da gente acordar e ter uma história, um fato, um cenário, um personagem, surgidos do vazio noturno. Rapidola registrei na minha caderneta. Sim, tenho uma caderneta! Organizei as sequências, e me encantei com tanta arte extraída do consciente adormecido.

Ansioso para conhecer a dança da rua de perto

E para conhecer Dante Gatô

Que a criou, elaborou o tempo, a marcação, os movimentos poucos e plenos.

Fez a ginga e... Girooou!

 

 

sábado, 29 de outubro de 2022

crônica da semana - retrato velhinho

 Retrato velhinho

Este ano, restaurei o retrato de casamento dos meus pais. De minha mãe, não, tenho outras fotos, mas do meu papaizinho, o único registro é o que me mostra o retrato. É daquelas composições gráficas antigas, que nem retratam fielmente os retratados. Tem acabamento a peso de retoques retorcidos, imprecisos, sem a cor autêntica da tez dos modelos e exibe um sugestivo fundo azul que levava minha avó, quando nos descrevia a fotografia, a afirmar que aquela pose foi tomada na imensidão insondável do céu (e isso para mim sempre foi uma inabalável verdade). Só muito amor mesmo para reconhecer ali, minha mamãezinha linda e o sorriso encantador de meu papai. Dando todos os descontos, relevando as tecnologias que eram possíveis lá naqueles ermos do Xapuri, em tempos outros, vi a chance e providenciei uma reconstituição, porque o papel já estava bem carcomido e acompanhei com carinho a execução do reavivamento da imagem. Emoldurei e pus o retrato na parede da sala outra vez, agora neste outubro da graça de Deus e da Virgem Maria.

Há um sentido permeando a volta do quadro à parede. Representa uma rememoração. Padre Lourenço, nosso orientador Salesiano, quando explicava a Eucaristia, dizia que era um ato de tornar presente de novo, de rememorar a paixão com todos os seus compromissos e implicações. Então, papai e mamãe estão ali para nos mostrar, à nossa família, que temos sempre a chance do diálogo, da reinvenção de idéias, do aconselhamento desapegado de interesses. A mim, como pai, me serve de inspiração recontar, recalcular cada passo que dei junto à minha mãe, que enviuvou cedo, na construção de minha personalidade e na adaptação dela, querida mamãezinha, aos tempos que se moviam velozmente. Nos erguemos indo lá nas convicções dela e vindo cá, nos meus anseios. Luto todos os dias para que a minha relação com meus filhos seja este ir e vir, este dar e receber.

Mamãe, na foto, tem um sorriso de Monalisa. Não esconde, porém, enigma ou ironia. Talvez uma certeza atávica. Dá os papos: não é fácil romper crenças ou formatos estruturais de dominação.

Pus o quadro na parede, rogando por bênçãos e proteção porque fiquei desnorteado, coisa de mês atrás, com um textão que li de uma pessoa que se acusa amigo. Um festival de inconsistências. Mas o destaque foi o valor que dá a relação pais e filhos. Diz o texto que, se este ou aquele comportamento observado não confere com os ideais dos pais, é resultado do descuido, da falta de método utilizado no lar para formar o caráter dos filhos e filhas. Neste ponto eu bambeei. A narrativa a partir daí coloca as crianças, os adolescentes, jovens, como passivos, como meros receptores de leis e condutas pré-estabelecidas. Não dá e nem vislumbra ferramentas para livres interpretações, não estabelece via alguma de volta ou reivindicação. Achei este texto de uma arrogância típica daquelas pessoas que, como diria minha mãe, só querem ser o que a folhinha do ano não marca.

Não me arvoro à menção que seja, de ser o melhor pai do mundo. Digo apenas que pelejo. E certifico. Nos últimos anos aprendi pacas com meu filho, com minha filha. Por eles, assumi conceitos outros de convivência, assimilei tolerância onde eu radicalizava. Nossa interação mais pródiga se deu na música. Apresentei-lhes Cartola, Milton, Chico, Caetano e me voltaram com Pelé do Manifesto, os meninos da Zeromou, Tulipa Ruiz, e já velho, me danei a ouvir Beatles, por causa dessa troca.

Pus o retrato velhinho na parede, rememorei, quero forjar um ato de tornar o amor presente de novo. Bença pai, bença mãe.

domingo, 23 de outubro de 2022

crônica da semana - causos do Círio

 Causos do Círio

Teve aquela vez que ante o engarrafamento gigantesco da José Malcher, desci do ônibus e saí em desabalada carreira pela calçada. Meu joelho bichado reclamando, minha percata escapando aqui, ali; o ar faltando, mas varei na Praça da República tomado da mais plena emoção, bem em tempo de ver a Santa passar, na chegada da Fluvial.

E tem das outras, poucas e boas, já da banda do profano. Foi também num sábado.

Saltei de um lado pra outro da Presidente Vargas depois que aquele vuco-vuco de motos passou. Nisso, neste entretempo, o cortejo do Pavulagem já se ia no bem adiantado do passo em direção à praça do Carmo. Me atrasei na margem interceptada pelas motos, mas não amofinei. Parti atrás. Foi um dos shows mais pródigos do grupo. Muitos convidados, lançamento de novas canções. Já na praça, fui me deixando tomar pela empolgação. Música no ar, gente amiga à beça. O tempo correu a mil e quando dei fé só restávamos eu, o jornalista Edson Coelho, uns poucos e a noite como testemunhas remanescentes do folguedo. A notícia, inclusive era que a Transladação já vinha que vinha. Como voltar pra casa, com todas as ruas que levavam à Pedreira travadas? Fizemos o último brinde e saímos à cata de um jeito de tornarmos ao lar. Fora a dificuldade de achar um táxi (não tinha uber na época e mesmo se uber houvesse, penso que seria difícil destravar a bom termo). Outro porém, severíssimo encalacre: o cacau, o picholé, o money, o tutu, o dindim. Passar o dia todo na rua leva todo nosso recurso. Eu estava na raspa. No pira paz não quero mais. Alentado. Não falei nada pro Edson. Não queria que ele se preocupasse com minha falência. Fizemos um plano, conseguimos um táxi além da Tamandaré e de lá, o motora se esmerou em malabarismos e traçados exóticos de roteiros. Fez um arrodeio estratégico e emergiu na 14 de março, ali na parte comum ao Umarizal e que era a primeira parada para deixar o jornalista. Natural que o cerzido executado pelo taxista onerou pacas a corrida. Edson desceu e quitou a viagem até ali na Quatorze. Eu seguiria para a Pedreira. Aí foi que foi. Apalpei os bolsos, catei os caraminguás, o montante não chegou a 20 contos de dinheiros. O que me restou foi me pegar com a Santa. Estava decidido, dizque, a parar e descer quando o relógio marcasse o tanto de dinheiro que eu tinha. Mesmo que fosse ainda distante de casa. Segui na apreensão.

O chofer entrou na Pedreira, pegou a pista do meio, em boa velocidade. Meus sentidos ligados no taxímetro. A cada tac (ou tic, ou tec) do reloginho captado pela minha audição, a visão aferia quantas casas se moviam no totalizador da corrida. Tensão, fé ardorosa, orelhas esquentando. Quinze paus e chegamos à feira da Pedreira, confluência da Mauriti. Mais um pouco, cruzando o Josino, já contava dezessete e uns caroços. Quando entramos na reta final da Aldeia Cabana eu estava a suar frio, a vista turvando... dezoito e uns trocados. Na hora que o homem pisou no freio e parou diante de casa, nem olhei pro marcador. Dei tudo que tinha coletado nos bolsos. Ele assentiu, agradeceu, deu boa noite e eu só disse Amém. A conta foi abençoadissimamente certa, o tanto absoluto e irremediável das minhas posses.

Este ano aconteceu que nem. O mesmo aperreio pra voltar pra casa. Nem uber valendo os tubos apareceu para nos resgatar após a Transladação. Esperamos que entojamos. Tá na hora de se pensar com mais humanidade, numa operação de resgate, com mobilização de transporte em vetores estratégicos, após os principais eventos da quadra nazarena. Senão o romeiro aqui não dá mais conta.

domingo, 16 de outubro de 2022

crônica da semana - análise provecta crustácea

 Análise provecta crustácea

O camarão é um animal invertebrado do grupo dos crustáceos. Tem o corpo alongado, coberto por uma casca transparente dura, mas flexível. É aparentado do santospés, da abelha e da barata entre tantos e diversos exemplos. É tido na natureza como um animal decompositor, aquele que recicla matéria orgânica gerada por outras e variadas espécies. Dizque é por isso que causa aqueles emboloamentos na’zurelhas e alergias de fechar a glote. Mas tirando os contras é uma iguaria de excelência, de potenciais culinários altíssimos. Chega a ser chique. Bom pra dedéu tratado, cozinhado de tudo quanto é maneira ou, que seja, cru, quando subtraído numa beliscada rápida do colfo de um vendedor distraído, lá do veropa. Dou maior valor.

Eu tenho muito respeito pelo camarão. De modos a não achar que deva ser servido de qualquer jeito. Pelo status, entendo que sempre deve compor um prato engalanado. Pode até ser ao alho e óleo, só; no bafo, mas essas são exceções práticas ou culturais, repletas de perdões. Na regra e no certo, espero sempre um arranjo, uma mimetização, que seja, na completude do caruru, um estilo este de atraente, um modo aquele de simpático, assim é minha receita para a degustação do camarão.

E é tanto recato, que desde que tempo, assumo uma postura analítica quando vou comer camarão. Seja ele do tamanho que for. Dos taludos, dos gitos, eu sempre divido aquela estrutura alongada em pedacinhos. Sério. Não passo pra dentro um camarão inteiro nem a pau. Acho uma afronta. Uma descabida soberbia.

Taí, olha, o mundo pode estar se derretendo em críticas. Todo mundo cortando a gíria pra cima de mim, dizendo que tô rendendo o prato, que isso, aquilo, mas na hora de apreciar a moqueca, o estrogonofe; e mais ainda quando encontro aquele heróico espécime no vatapá, arrumo uma faca, o garfo, separo o zinho e o vou decompondo em pedacinhos. É pra render mesmo.

Esta minha conduta analítica é certo, tem a origem lá atrás na infância pedreirense, quando a gente comia camarão uma vez na vida e pra dar mais uma prova, só em eras outras imensuráveis.

Até hoje faço do mesmo jeitinho.

Para os nossos padrões de consumo e ainda mais nestes tempos cascudos que vivemos, o camarão é caro pacas. Pelo comum, entra nos pratos mais humildes, só pra dar o gosto. Mamãe mesmo alertava. “Vai no Sandra, compra as coisinhas da lista e depois pede pro rapaz pesar uma mãozinha de camarão. Uma pequena porção, só pra dar o gosto na gororoba que vou fazer pro almoço de domingo”. E assim se dava. E mesmo o pouquinho que nos cabia, eu picava até a enésima parte.

Há um tempo, eu impinimei que deveria conhecer a origem, o sentido das palavras. E fiquei num pé e n’outro com a palavra ‘análise’. Consultei dicionários, fui até a Grécia, desci para as sintaxes indo-européias, me acudi ao vulgo, emendei nas estilísticas. De tantas sinalizações, achei atraente a definição “dispor em partes”. Relacionei este sentido com a ação que Seu Excremento, que era vizinho da Mauriti, tomava toda vez que a nossa bola caía no quintal dele: inevitavelmente fazia uma análise da bola e a nos devolvia bandada.

Com o tempo, dei de bandar também, outros sabores, diversos prazeres, inevitáveis frustrações, dolorosas quedas, ácidas relações, tímidas e contidas euforias, puríssimas tristezas, fluidas alegrias; a orelha emboloada, a alergia... o comichão na glote por essa tragédia que vivemos no Brasil. Hoje, atomizo muita coisa. Não só o camarão. Além da porção bem pesada pelo rapaz do Sandra, me imponho analisar coisas além, de forma a forjar, ao menos, um gostinho à esta dura arte de viver.

domingo, 9 de outubro de 2022

crônica da semana - não é peru, é pato!

 Não é peru, é pato!

Este ano, muita coisa emboloada. Eleição. Uma gripe inesperada. Show da Simone na bienal. Chuva de temporal pleno setembro, um dia esticado na ativa até além das 8 e meia para o remelexo do esqueleto por prescrição médica. Atenção nisto, naquilo e naquil’outro. No que deu? Ficamos, a família, sem o pato do Círio, depois de ter mina de pato no nosso micro latifúndio de meia-légua-indo-e-voltando, ali pros lados do salgado. Perdemos o trem da linha Belém-Bragança e ficamos sem a aviação da ave, no mês nazareno. E agora quede que a gente encontra unzinho pra remédio do comércio varejista da cidade? Nem crista nem copa. Pode até encontrar, ali pela feira da Jutaí, mas é com o preço por acolá de secar bolso fundo. Mais caro que o diamante da rainha.

Vá lá que seja, é da época. E também da pouca inclinação que temos para a criação de pato, em nossa região. Bem a calhar o causo de há alguns anos, ainda na minha atividade sindical, eu ter alimentado o sonho de transformar as margens do rio Murucupi em Barcarena, num centro produtor de patos para o Círio. A idéia não foi minha. Partiu da companheira Vera Paoloni, dirigente do sindicato dos bancários, que à época fazia uma parceria muito das suas di rocha com o nosso dos Químicos. Construímos muitas ações juntos. Realizamos o Passeio Ecológico pelo Furo, apoiamos as encenações da Paixão de Cristo, nos demos as mãos em campanhas salariais. Tecemos também programas cidadãos com projetos de geração de emprego e renda para as comunidades vizinhas. A criação de patos surgiu daí. Cenários políticos adversos, mudanças de orientação no campo sindical em’pata’ram o desenrolar do plano. O tempo corroeu nossas intenções, outubros mais vieram e nosso projeto dissipou-se na brisa que se espalha pelo Arrozal, Caripi, e vai dar aos pés de Nossa senhora do tempo, lá na falésia empavonada do Cafezal. Ainda hoje imagino como seria aquela pataiada ali em todo o estirão do Murucupi, esperando pra mergulhar de cabeça, num caldeirão de tucupi. Formo imagens, paisagens, fantasio patinhos chapinhando na margem argilosa, escura, lamacenta... Ilusão. Este ano não vai ter pato em casa.

E por falar em pato...

Volto a época de sindicato quando escrevi um comunicado à categoria classificando como uma intervenção cultural danosa, a iniciativa do setor patronal de distribuir aos trabalhadores um peru para as festas do Círio. Mas onde já se viu, protestei. Corporações de fora, ao instalar-se em nossa terra, deveriam antes de tudo, conhecer costumes, paixões, impulsos e devoções de nossa gente. E dei a letra: No Círio, não é peru, não. É pato. Pato!

Resmunguei, mas acabei pegando o meu peru congelado. Casou de aquele final de semana ser exato, meu período de folga das jornadas em turno. Agasalhei meu peru no congelador na sexta, e na manhã do sábado, embrulhei bem embrulhadinho num chumaço de jornal, arrumei na bagagem e parti cedinho para o porto de São Francisco, na intenção de embarcar no primeiro popopô para Belém. Esqueci um detalhe: era o sábado da romaria fluvial. Estavam todos, desde o casquinho até o catamarã mais porrudo, no cortejo pela baía. O jeito foi esperar. O tempo foi passando, eu ali na esperança de um barco, e nada, a temperatura do dia foi subindo, quando dei fé, estava pingando uma aguinha da minha sacola. O peru estava descongelando. Quando o barco apareceu, já estava um sol além do meio-dia. Até me aninhar no meu canto, já batiam os ponteiros do relógio, bem mais que quatro da tarde. O peru não resistiu ao calor. Já chegou em casa esverdeando.

Naquele ano não teve pato, no almoço do Círio. Nem peru.

 

sábado, 1 de outubro de 2022

crônica da semana - encontros e despedidas II

 Encontros e despedidas II

Toda de branco, aquela exuberância na voz, e elétrica que só na presença de palco. Ela, lá, cantando e eu cá, chorando parece menino besta.

Um roteiro intensamente emotivo, entrelaçado, para a crônica de hoje, pautado na cantora Simone.

Ex-jogadora de basquetebol, dona de um timbre que se equivale em precisão e beleza a uma cesta do meio da quadra; apareceu pra mim, se não me é errada a lembrança, como uma Gota d’água plena, irrigadora, inspiradora de emoções. E se estendeu presente, percolou o encarreiramento traçado pelas décadas de 70 e 80, do século passado. De repente sumiu, e como o Papai Noel, o bom velhinho do look vermelho, vermelhusco, vermelhão e das renas voadoras, só aparecia de Natal em Natal, dominando, com a versão da música de John Lennon, até a programação de rádios cipós nas feiras.

No período de isolamento, por causa da pandemia, reencontrei a cantora sem os enfeites natalinos, nas lives. Foi quando me fiz a pergunta de resposta não tão fácil. Como vivemos sem Simone tantos anos, como deixamos o talento da cantora ser reduzido (e até vilipendiado) por causa das intervenções sazonais validadas pela construção adverbial “então é natal”? Ela é o que é, meu irmão, e tá que tá presente com tantas e simbólicas canções na história de muita gente. E, diga lá espelho meu, na minha! Daí as lágrimas enquanto ela cantava “Encontros e despedidas” aqui no meu escaninho pedreirense. A música é a cara, o corpo e a alma dos tempos que vivi em Rondônia. Retrata um cenário muito particularmente verdadeiro que é a plataforma da estação, a vida daquele lugar.

Em minha jornada por Rondônia, cumpria uma rotina que me permitia sair da mina em que eu morava e gozar três dias por mês de folga em Porto Velho. Este meu trajeto (este vaivém) sempre contemplava uma parada na rodoviária da cidade. E os instantes que eu passava na rodoviária eram tão intensos, tão reveladores, exerciam uma narrativa imensamente realista daquele momento. A plataforma daquela estação era, efetiva, verdadeira, incontestavelmente, a vida daquele lugar. Eram momentos em que eu sentia a vibração da luta diária minha e deste povo brasileiro que é extraordinariamente, e antes de tudo, um forte.

Enquanto esperava meu transporte, via gente diferente, porrudos, loiros de olhos azuis, outros nem tanto, tipos mais comuns, nordentinos, nortistas do meu top, pantaneiros. Todos em busca de um futuro. Desciam com as tralhas todas. Fogão, geladeira, camas, um móvel ou outro, filharada, cachorro, gato, um quadro de santa, aviação para poucos dias e... esperança. Amontoavam tudo num canto isolado da estação, menos o sonho, que permanecia nos olhos impactando, encandeando. Eu ali, esperando a minha vez de embarcar, acompanhando. A molecada corria pelos salões, juntava-se na hora de repartir o cumê, depois largava-se. Até aparecer alguém. E sempre aparecia. Rondônia naquela época era vetor de migração. A cada instante vinha um preposto e arregimentava uma ruma de gente para as frentes de trabalho. Quando cheguei lá em 1983, enquanto o resto do Brasil se batia com o desemprego. Rondônia chamava gente pra trabalhar, até pela TV e a cada hora.

Quando a Simone cantou “a plataforma dessa estação é a vida desse meu lugar”, a rodoviária de Rondônia me voltou na lembrança de palmo em cima. E aí, não teve combate. Chorei pacas.

Ouvindo a cantora na Aldeia Cabana, resgato lá de longe, a mesma impressão cunhada por Euclides: somos, antes de tudo, fortes. Temos condição de fazer um Brasil melhor. \Pode ser amanhã o “dia da nossa alegria atravessar o mar”.