sábado, 17 de abril de 2021

crônica da semana - tua cantiga

 Tua cantiga

Logo que nasci, almocei meu umbigo com bastante farinha. Cuidei, porém, de guardar uma boa parte para que eu pudesse comer um isso de pedacinho a cada ano, pelo resto de minha vida. E assim tem sido.

Com o passar do tempo, dei com os rumos da arte. Virei um alguém construído por experimentos, sensações, realidades criadas. A pátria (amada), a prática (indolor), a pútrida (realidade), a pata (traiçoeira no lombo). Tudo junto me moldando.

Daí que, um certo dia, desses de descontroles racionais, de transbordos de intolerância, uma amiga reduziu o poema que compõe a canção “Tua cantiga” de Chico Buarque a uma narrativa sobre o comportamento desnaturado de um pai de família. Julgou os versos, condenou o enredo, crucificou na madeira fria e farpada do preconceito, o autor.

E eu que me mordo morno e caolho, em noites sem lua procuro mistérios. Vi emergir, aqui pertinho, do leito lodoso do canal da Pirajá, girassóis falantes, zumbis insones, um raiar do sol opaco na baixa madrugada. Em outras eternidades, explodiram correntes de águas púrpuras. Ultrapassaram a amurada do canal e derramaram culpas, sucuris beges, beldades sem rostos, espinhos sorridentes e entidades sagradas pelas ruas do entorno, até bem perto do horizonte que se exibe desdentado debaixo das luminárias de Pedro Miranda Mor dos Anzóis Pereira.

Ninguém num sabe. Ninguém num viu. Mas eu, sim... Eu tenho certeza. Do canal da Pirajá, emergem mistérios. E cantos roucos e sapos moucos e riscos poucos. Chororô na alta madrugada. Ninguém não sabe, ninguém não viu, nem esperança, nem amanhã. Nenhum tempo me pariu. Nonada.

Acontece que meu amigo, a partir daquela interpretação que fez da música de Chico Buarque, saiu espalhando por aí pelo zap que o artista era um demônio que, com suas canções, incentivava a destruição de lares.

A minha cuíra é entender como as pessoas percebem e como elas crivam as manifestações artísticas a partir de concepções tosquiadas que têm sobre a livre criação. Esta cisma começou a me inquietar, a mexer com minhas simbologias e minhas significâncias; com meus valores estéticos, meus recônditos teores, minhas faces expostas, meus íntimos pendores.

E me embrulhei na solidão de meus olhos. Sumi silencioso por entre espantos e tristezas. Descolori pensamentos, deli pretensões, subjuguei sonhos. Desapareci no encaixe compulsório de minhas pálpebras para não ver mais nada (ninguém num sabe, ninguém num viu...). O vazio me parece mais seguro. Menos tonto. Inofensivo. Minha amigo não me encontrará jamais no ermo gris expandido, quase infinito. Meu amiga não me atacará com opiniões apócrifas, não me atingirá com débeis deduções, as setas da rasa compreensão, de mim, serão desviadas. A dor em meu corpo será uma nota leve, memória fluida, e se tornará bolinha de cera impura, rolará ladeira abaixo, para as profundezas sulfúricas e lá, juntar-se-á aos seus (eles, satanazes autênticos de chifrinhos, tridentes na mão, narizes fumegantes, olhos braseados e em tudo por tudo, maus. Muito maus).

Eu só estou é essas pessoas que moldam a arte, ao seu próprio contorno, sendo que a arte não se molda e não se reconhece em limites, beiradas. A arte é mergulho abissal. É caminho longe, etéreo.

Eu só estou é essas pessoas que não se permitem o milagre da transubstanciação. Para minha amigx, sou o tipo de gente que, daqui até o fim da existência, todo ano, vai comer um pedacinho do próprio umbigo com farinha.

 

 

 

sábado, 10 de abril de 2021

crônica da semana - refração

 O copo com uma colher dentro

Arremeda ser registro da esperteza de um engraçadinho que passou, jogou as coisas na pia e se picou para momentos de preguicinha sem remorsos. Né não.

A composição do copo com uma colher dentro é uma montagem que favorece o entendimento sobre um fenômeno físico de difícil apreensão, no entanto, indispensável para a harmonia do nosso mundo: a refração. Trata-se do desvio que a luz sofre, quando muda de meio físico. A experiência clássica é esta uma: o copo de vidro com uma quantidade xis de água e uma colher mergulhada nele. Quando a gente olha através do copo, parece que a colher tem uma quebra, quando está dentro da água. A ilusão de ótica se dá por causa do desvio que a luz sofre ao passar de um meio (o ar) para outro (a água).

Guardei essa lição aprendida com o melhor professor de Física que conheci: o excepcional professor Campbel, com quem estudei na Escola Técnica e que além de me estimular na percepção dos fenômenos, como o que ocorre no copo com uma colher dentro, também cravou em mim a estratégia de nunca resolver ou substituir as letras de uma equação, sem antes arrumar a fórmula todinha e isolar a incógnita no primeiro termo, só depois, e de lá, até hoje, só depois é que inicio o sofrimento com as contas.

Cismo que não há um único brasileiro que não tenha sofrido refração nesses tempos, de tudo quanto é jeito, assombrosos.

O fenômeno, a gente percebe no campo físico. O espaço partilhado entre as pessoas não mais é tratado como dantes. Cada palmo de chão é monitorado, contado nas medidas da segurança e da vigilância com a saúde. Equações são montadas a partir de incógnitas de convivência. Mesmo assim, quando a gente substitui as nossas ações, todas elas, por números, chegamos a resultados estarrecedores. Estamos beirando as 5 mil mortes por dia. Daqui a pouco o Brasil vai registrar a assustadora marca de 500 mil óbitos por Covid. E nenhuma resultante prática para conter o extermínio se vê. Mobilização nacional, não tem. Condução unificada de propostas, não há. Uma vilania política sem tamanho caçoa da tragédia. Não nos é dada alternativa alguma no presente. E o futuro se mostra nebuloso, sombrio. O que poderia nos salvar era a vacina. Mas todo dia a promessa de vacinação se esvai pelo ralo. Esta semana parou tudo. Faltou vacina. Os números da imunização no Brasil indicam que foi distribuída uma quantidade de vacinas muito aquém do que estava prometida pelo Ministério da saúde. Sem vacina, sem amanhã.

As quebras, os desvios, além de se manifestarem no campo físico, também se estendem para a esfera emocional, comportamental. Tirando por mim, tenho oscilado do io ao chio em sentimentos, em sensações, gestos e atitudes. Solidão, apreensão, indignação e medo são companhias diárias, alternadas, às vezes. Noutras, no pacote completo. Destruindo, destroçando minha alma. Acredito que esta instabilidade, este sofrimento tórrido, seja brasa que arde e queima dentro de muita gente. Acompanho pelas redes sociais, pelo noticiário, o telefone toca e a notícia dói. Já tentei várias estratégias para equilibrar o animus. Por último, voltei a madrugar. Refletir ao alvorecer, contemplar o raiar do sol, ouvir o cantar dos primeiros pássaros e o acordar longe da minha Pedreira querida.

Há, porém, um fenômeno acontecendo no horizonte todos os dias. A colher está mergulhada dentro do copo com água. E não é uma ilusão de ótica. Ela está quebrada mesmo.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

crônica da semana - lata de ervilha

 Lata de ervilha

Ano passado, logo no início desses intermináveis dias de aperreios, ainda sem ter muita idéia de como lidar com a situação, passamos batido no abastecimento de casa. Isolados, sem poder ir ao supermercado ou à feira, os atendimentos delivery ainda em experimentação, a despensa zerou. Ficamos no mínimo. Calhou exatamente, nessa fase, de um senhor bater lá no portão, pedindo uma qualquer coisa que o ajudasse prover o de comer da família. Fiz um levantamento do que poderíamos oferecer. Contada bem contadinha a provisão imediata, nada tínhamos de excedente, a não ser uma lata de ervilha. E Mesmo me perguntando o que o bom homem faria com uma lata de ervilha, mesmo entendendo que aquela oferta não iria aplacar a fome de ninguém, frustrado, tomei da lata e retornei com a oferta ao portão. Ele agradeceu, juntou a lata com outras poucas coisas num saco e se adiantou para outro pedido, na vizinha.

Tão logo nos adaptamos aos novos modos de aviamento, fizemos uma combina aqui em casa de sempre pedir nas compras um excedente, uma coisinha a mais (ervilha, ora, nada contra...) para as ocasiões de batidas no portão, no coração e na consciência.

Um ano depois, vemos cair aos montes, ao largo e ao nosso lado mesmo, pessoas antes ativas e produtivas, sem a expectativa de sequer uma refeição ao raiar do dia.

Para muita gente a situação está desesperadora. O governo abandonou a parcela mais pobre da sociedade. Quem tinha o auxílio emergencial, vive agora de quê? Vacina, com este desmando federal, sabe-se lá quando. A vida normal não tem perspectiva de se restabelecer.

Então, a regra aqui em casa se asseverou. A pauta é coletar qualquer fagulhazinha, qualquer trisca que sobre de recurso, ou mesmo alterar o orçamento mensal e transformar o apurado em ‘de comer’ para quem precisa. Optamos também por abdicar de alguns prazeres, a cervejinha do sábado, uma ou outra tentação, e desviar o que der para aquelas pessoas que não têm um remédio, um feijão, um gás... Estamos numa guerra. As baixas são grandes e em todos os sentidos. Entendo que, quem puder fazer qualquer coisa para amparar o companheiro, a companheira, é esta a hora.

Quem tem um provento garantido, uma renda fixa, é esta a hora. Depois, quando passar, a gente volta a fazer aquelas presenças usuais. Sei que temos outras demandas, mas a vez agora é das pessoas em condições mínimas. Gente sem renda, sem eira nem beira. Essas estão na lista de prioridades.

É isso!

Estamos em pedaços, vamos nos juntar.

A experiência que tenho vivido nos últimos meses é de um solavanco nos rumos da consciência. Hoje em dia, cada tostão aqui em casa ganha destino pelas regras do que é possível partilhar.

Sei que muitos são ressabiados. Temem ser enganados, tragados pelos golpistas. Podemos, então, olhar para os mais próximos, parentes, amigos, aqueles que sabemos e conhecemos a realidade. Se entre estes, a demanda não existe, podemos buscar as organizações populares. Aqui na igreja de Aparecida, sei que a Cáritas tem um cadastro de pessoas que são assistidas com cestas básicas. No Jurunas, a comunidade da passagem Limoeiro desenvolve uma agenda com distribuição de sopa. Tenho acompanhado um movimento de grupos organizados que montam barracas (autônomas!) na rua com mantimentos. Aqueles que precisam retiram os produtos de necessidade, outros que passam e não precisam, repõem o estoque, fantástico isso! Oportunidade de colaborar não falta.

Estamos em pedaços, vamos nos juntar.

 

 

sábado, 27 de março de 2021

crônica da semana- pequenino

 Pequenino

Minha professora do primário me chamava de Pequenino. Mais além, o canto foi no mesmo tom. Tenho amigos do ginásio, ou segundo grau, o dito ensino médio de agora que, apesar do meu nome estar grafado aqui na coluna, até os dias de hoje, só me conhecem por ‘baixinho’. Imagino naquele tempo do primário, qual o tamanho do embaralho. Se a turma da minha primeira professora era só de crianças, todas pequeninas, eu ganhava destaque como o mais pequeno dos pequenos. No ginásio, então, quando as mudanças se dão mais à conta, avalie só...

É aquela questão de escala. Que é uma medida física. Mas é um pé, também, para compor uma medida social. Minhas interações não raras, me localizam em uma categoria de ser humano menor. E haja peleja pra superar.

Talvez, não sei, não desci a essa reflexão, mas é possível que uma elevação no espírito, aquele crescimento de alma que a gente sente ao dar asas à inspiração expresse alguma resistência. Um revide. Escrevendo me sinto enorme.

Calha então que este pequenino enorme se dá conta que hoje completa 15 anos assinando esta coluna. É março. Tempo que nem maldo, mas é mês de grandes passagens. Está lá atrás, como o mês que assinei pela primeira vez a carteira de trabalho como profissional de Mineração. Conta como a primeira crônica publicada neste espaço, e avisa que, em um dia oportuno, no dia de São José operário, saí de um encalacre feroz e consegui emprego em Macapá. Mês das grandes águas e boas lembranças. Tenho que dar mais valor a ele. Este ano, apesar da calamidade que vivemos, março me trouxe uma vitória extraordinária. Coisa de amainar o sofrimento. Um dia se o tempo abonar, conto o que deveras me apraz, não obstante, a maldade que temos de enfrentar todo dia, vinda do planalto central do Brasil.

Tento crescer, no tamanho certo que caiba no coração das pessoas. Porque entendo que meu fazer literário é arte de contador de casos, relator de algum sentimento, prezador de dizeres do vulgo e, em indesejáveis ocasiões, lamentador.

Tenho medo de escrever crônicas afogadas, espremidas no banzo, na tristeza. Uma lição trago de uma crônica que publiquei tempos atrás, dominada pelo desânimo. Dias depois recebi um email e a pessoa demonstrava sinais de desespero, baixa estima, dizia estar num buraco sem fim e por isso se identificara com o que eu havia escrito. Pronto. Fiquei com uma dor de consciência abrasadora. Uma culpa sem fim. Não sei o destino daquela leitora. Não me voltou mais mensagem. Sucede que tenho me esquivado das razões cruas e nuas do mundo, no que escrevo, depois dessa experiência.

Por isso, tenho salteado a presença aqui na coluna nos últimos sábados. Recorri algumas vezes ao meu filho para compor comigo textos indolores, porque o que sinto agora é a angústia, a melancolia. Se deixar sair o que sufoco dentro de mim, arrisca chegar email de novo.

Em 15 anos aqui na coluna nunca me ocorreu banzo de tal potencial que me tirasse da tarefa de catar milho no teclado do computador. E olha que já passei por altos perrengues. Escrever, dito já foi, me fortalece. Ocorre que, por hoje, não sou mais o mesmo... tenho amofinado. Às vezes acho que vou tremer.

Rogo perdão pelas minhas ausências. Embora ache que seja uma boa solução, a reserva cautelar. Antes o silêncio inerte, que o ruído que revele a morbidez dos tempos.

Tô aqui hoje, nesta data querida de persistência. Um pequenino enorme, na luta pela sobrevivência e pedindo colo... um bolo com refri...

sábado, 20 de março de 2021

crônica da semana - a rua

 A rua

Nós dois, em termos de coisas e de temas, nos embaralhamos. Nos mimetizamos na desgovernada saudade. Março nos chega atiçando medos. Mas o que incomoda mesmo é esta solidão compulsória, este ausente presente. Este futuro oco. Sem pé nem cabeça nessa semana de março que devastou minha alma, acudi-me a Argelzinho meu filho, e me alento no exercício de duvidar quem é ele e que sou eu, por aí, pela rua...

“Eu mesmo sempre fui um rueiro curioso. Aprendi primeiro todos os bairros e ruas que o charmoso Pedreira-Lomas dava o ar da sua graça. Descobri a Cidade Velha, as vielas do Jurunas e do Guamá. Quando fiquei grandinho, explorei as belezas da noite de sexta-feira. Que pulsava música, alegria, medo e violência - tudo o que o brasileiro gosta - nas ruas escuras do centro. Na volta pra casa, eu apostava no infalível Pedreira-Condor.

O meu grupinho começava o circuito noturno no Meu Garoto, dava uns goles na cachaça de Jambu pra esquentar e tinha conversas um pouco mais tímidas sem tantas complexidades alcóolicas. Depois, atravessava a Praça da República sentido Bar do Parque, quase sempre cantando, carimbolando, sambando, pulando, frescando.

Nós chegávamos à batucada, pedíamos umas geladas - quase sempre quentes - ficávamos na nossa rodinha, bebendo, contando mentira, com o teor alcoólico lá em cima, a imaginação viajava pela copa das mangueiras… Ali, pensava um dia me tornar geólogo, quem sabe escrever crônicas sobre a noite, o tambor, a vida.

Lá pelo meio da semana, a rua chamava de novo. Dava pra sentir o gosto da cerveja gelada na boca, vocês sabem como é, o explodir de bolhas com o sabor amarguinho. A galera se arrumava toda desde cedo e emendava o caminho do dever, direto pro querer, pro Oito.

Ali, naquela esquina da Dr. Moraes com a José Malcher, ficava o bar que me iniciou, lá tomei meu primeiro porre de cerveja e fumei meu primeiríssimo cigarro. Falávamos de amor, de Belém, de música, divagávamos sobre o capitalismo, o socialismo. Nossas maiores preocupações eram o horário do ônibus e a vizinha - boatos que faltei um dia e, no dito, ela jogou um balde de água na galera -. além dos ônibus que vinham em alta velocidade na curva Palacete Bolonha, remexendo nossas cabeças de bêbados, nos lembrando da finidade da vida e da noite. Era um te esperta, moleque!

Um dia voltando pra casa, num banco solitário, no último Pedreira-Condor, olhando as ruas, pensei na truculência do Poder, e me impressionava a convicção de que aqueles 15, 20 jovens traziam algum perigo à sociedade, com um litrão numa mão e um cigarro entre os dedos da outra. Quase sempre com roupas de tons pastéis, cabeludos, apaixonados por alguém ou por alguma coisa, beijavam-se e abraçavam-se.

Parece que todas as vezes que escrevo tenho saudade de algum momento da minha vida. Meu único desejo sempre foi o fim desse pesadelo. Há um ano não vivo a rua, o sol ou a lua, nem a amizade. Imploro que se você puder, fique em casa e não aposte na sorte, hoje vivemos o auge do terror presidencial e viral.

Agora o “8ito”é livro. Paloma Franca Amorim nos contará sobre a tentativa de apagar até o fogo noturno na nossa acalorada cidade. Estou ansioso pra passear de novo pelas ruas escuras do centro, pelos largos, encruzilhadas e praças, que me fazem ouvir de novo os sons dos batuques compassados de samba e carimbó. Perdi o medo dos livros que falam do mundo lá fora, viajo nas palavras e faço da minha mente a nossa livre rua.”

sábado, 6 de março de 2021

crônica da semana - a trilha da verdade

 A trilha da verdade

Taí um estirão que a gente pode pegar uma horinha dessas, na vida, sem medo de ser enganado. Em qualquer ponto do caminho, quando a gente pergunta aos que estão descendo, se ainda está longe o nosso destino, a resposta vem justa. “Está”.

Digo que, independente do retorno que recebemos, é bom aceitar o objetivo, mesmo que se aponte perto, estar sempre longe, porque é o que parece. Acho até que, psicologicamente é mais indicado manter a entrega total à dificuldade, que nos estimula a seguir com determinação; a ter um relaxamento prévio, que pode nos levar a frustrações irreparáveis.

O certo mesmo, é que a galera que desce a trilha não mente.

Como antecipei, o aconselhável é encarar a parada com devoção espartana. A experiência me mostrou que bem pertinho do pico da pedra do telégrafo, o esforço ainda é imenso. O ar escapa, a perna bambeia, e a gente fica numa zonzeira que tem que administrar para não ter uma pilora: uma por causa do encantamento do lugar; e outra, pelo desgaste físico provocado por quase duas horas subindo ladeira.

A pedra do telégrafo é um ponto turístico do Rio de Janeiro, localizado na barra de Guaratiba e que se conta ser o terceiro roteiro mais procurado pelas pessoas que visitam a Cidade Maravilhosa. Trata-se de uma elevação na beira do oceano com altitude um tico acima de 350 metros. Uma montanha até baixinha, se comparada à outra elevação famosa do pedaço, a pedra da Gávea que vai além dos 800 metros. A turma diz que a pedra do telégrafo é mais visitada, mesmo sendo mais gitinha, porque tem uma subida mais tranqüila, mais segura. E eu pondero: não menos inclinada.

A ladeira, de um certo trecho pra frente, nos obriga buscar apoio em galhos, raízes e até a gatinhar de quatro por causa da forte inclinação e também, do piso arenoso donde daqui pra’li, se a gente vacilar, desembestamos com beira pra baixo.

Na época que nos aventuramos por lá, fomos a família. Considerando a nossa rotina sedentária, falta de manha, e a inerente complicação do relevo, acho até que mandamos bem. Desembestamos abaixo, é certo, um aqui, outro ali. Entretanto, onde dava pra aprumar, aprumamos e forçamos o ritmo. Fizemos paradas estratégicas para aquela aguinha e para apreciar a paisagem que a cada nesga de trilha se descortina encantadora. Em tudo por tudo, tiramos numa pisada de duas horas subindo (gente mais aquela de preparada tira na metade do tempo). Tem o lado do fascínio, do arrojo, da peraltice, mas o que é certo, é que a gente anda que enjoa. E só subindo!O que resulta numa mistura perigosa de cansaço e ansiedade, daí que a cada passante que vem descendo, a gente não resiste e pergunta (e espera com uma pontinha de otimismo, que a resposta nos convenha) se ainda está longe.

Tomei como lição que, mesmo já ouvindo o burburinho do cume, e o aumento do fluxo de pessoas, o perto, por ser sempre em ladeira íngreme, é longe. Quando varamos lá em cima, eu estava na baba.

Um ano depois, o médico cortou minha caminhada na esteira pelo meio (não caminhei nem duas horas! E nem estava na ladeira!). Viu uma alteração no gráfico do eletro e manou que eu me cuidasse. Investigações complementares apontaram umas quantas coronárias na trisca de entupirem. Mas olha! Será que foi por isso de zonzeei tanto na subida da pedra do telégrafo? O que torna e o que deixa é que, por questões alheias ao meu querer, nem pensar explorar mais a trilha da verdade.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

crônica da semana - suave spleen

 Suave spleen

É costume antigo meu, sintonizar o rádio na estação pública, certinho no programa que toca músicas paraenses. É benzinho na hora do almoço e se ajeita no clima, no arranjo e no aconchego do domingo. Se calha de ter um vinho, uma cervejinha, vou até mais tarde de ouvido colado na caixa de som do meu três-em-um, apreciando a seleção musical. Curto pacas. Tem até o bônus de, lá pelas tantas, tocar a música que fiz em parceria com o compositor/compadre Edir Gaya. A top 10 “Pedreira jazz Pedra Noventa”.

São tantos os talentos da nossa terra. Imagino a dor de cabeça do programador pra listar o domingo. Entendo que há uma rotatividade. Quem toca tal dia, passa um tempo sem. Dá a vez para outros. Muitos emergentes, outros tantos consagrados. A variedade da criação. Diversa em significados, harmonias, estilos e inspirações.

Daí que há alguns anos, uma música me mundiou. Em tudo por tudo. Pela melodia requintada, pelo arranjo elaboradíssimo, pela poesia delicada e pela interpretação de uma cantora fenomenal. Ouvi uma vez, fiquei maravilhado, passou, passou, ouvi outra vez. Penso que, subordinada à alternância na lista de execuções, a canção fica uma pá de tempo sem dar o ar da graça e do tema. Destarte (hã hã, sabia que usaria esta palavra uma outra vez na vida!) que fiquei na ira de saber o nome da canção, a autoria, os músicos, em que lugar encontrar, tais e coisas; e coisas e loisas. Eis que, em pleno dia de semana dei com ela fazendo a trilha sonora de uma tarde chuvosa. E com direito às informações básicas:“Suave Spleen”, de Waldemar Henrique, interpretada por Lívia Rodrigues e que compõe uma faixa do disco “Urbana”, lançado pela cantora em meados dos anos 2000. E eu completo: um brinco! Uma preciosidade. Um tesouro, a canção. Um maná que a todos deveria ser oferecido para a saúde do corpo e a satisfação da alma.

É só eu dar com essas componentes dos tempos e das surpresas agradáveis, que torno à atriz americana Amy Irving. Esteve aqui, no final do milênio passado, gravando “Bossa Nova”, filme dirigido pelo brasileiro Bruno Barreto. Na época, quedou-se à sedução do ator Antonio Fagundes. Deslumbrada, deu uma entrevista se perguntando por que as mulheres brasileiras não namoravam o Fagundes todos os dias. Entendo que floreou uma idéia que pregava certo encanto pelo ator. Mas aquilo ficou na minha cabeça. Entendi que algumas peças, em especial, poderiam ser manejadas no tabuleiro das satisfações coletivas e ofertadas ao namoro constante.

Quando, nessa tarde chuvosa dei com aquela voz, me perguntei: por que a gente não ouve música paraense com mais frequência, por que não temos Waldemar Henrique, Lívia Rodrigues e outros grandes nomes da história musical do Estado em outras rodas, em audições mais amplamente divulgadas? Por que não namoramos nossos artistas todo santo dia? (perguntaria Amy Irving).

Aí a chuva amainou, o barulho mundano tomou lugar do meu três- em-um e do chiado no telhado. Meu som doméstico arregou ante a competição externa. As batidas que ouvimos no dia a dia romperam a barreira do som e nos dominaram. A mesma coisa, a manjadíssima música em distribuição isotrópica. Daqui e dali. Sofrência e estridência na voz. Quadrados e trancos rítmicos.

Acalentado pela sincronia de pingos remanescentes que migravam da calha ao chão, traçando a memória da chuva, me acudi às reflexões... a me perguntar em suavíssimo spleen, por quê? Por quê?