sábado, 12 de dezembro de 2015

crônica da semana - nem seu sousa

Nem seu Sousa
Uma pena, olha, mas uma pena mesmo que a massificação, a retidão, o padrão da fala tenham enterrado alguns dos nossos mais simpáticos ditos populares. “Nem seu sousa” é uma expressão similar a um árido “não tô nem aí”, ou a um desafetado “nem te ligo”, ou ainda a um irônico e pouquista “eu choro pra ti”. Cabe certinho em reclamações e constatações destemperadas comuns nos solavancos inevitáveis das amizades: “eu avisei pra esta pequena, não te assanha pra tá de esbruga pelos cantos, que a carne é fraca, e ela, ‘nem seu sousa’, pra amiguinha aqui, não prestou reparo”. E, mais adiante, pode se desdobrar em troco virulento: “Agora, que está com a barriga por acolá, eu, olha, ‘nem seu sousa’ pra ela”.
Eu por mim, até hoje manifesto meu desdém usando estas mesminhas palavras. Aprendi com minha avó, que era useira e vezeira dessas temperadas articulações do vulgo.
E mais animado a usar, estou agora. Reencontrei mina dessas artes do falar popular nas páginas de “Belém do Grão-Pará”, quarto romance do ciclo do Extremo Norte, sequência de narrativas em que o escritor marajoara Dalcídio Jurandir conta a desestruturação da Amazônia após os tempos áureos da borracha. Nos termos do falar da praça, neste livro, Dalcídio corta e ara.
Aí eu desdobro a pena. Um custo conseguir uma obra do Dalcídio. Indo e vindo, é um dos nossos maiores expoentes literários. Escritor pródigo, vasto. Guardador e disseminador do linguajar paraense. Mestre no enredo amazônico e, em especial, na prosa líquida dos baixios do Marajó. Tantos teres, tantos haveres. A gente fica num pé e noutro para lê-lo.
Mas quede.
Batemos e rebatemos o pé pelas livrarias da cidade, mas quando que a gente acha o autor! É por essa e por outras que a nossa identidade, as nossas particularidades, o nosso tino paraense vai se diluindo numa linguagem planificada, tesa, embalada a vácuo. Vai perdendo espaço para um falar enfadonho, pasteurizado, pseudo-moderno-elegante.
Este unzinho mesmo que estou lendo, achei numa dessas exposições de desapego no chão da Praça da República. Um jovenzinho organizou o exemplar entre uns vinis, uma bolsas de pano, uns vidrinho de não sei o que orgânico. Mais que depressa catei dele. Alguns dinheiros e a troca estava feita.
É aquela edição que a UFPA fez quando o romance caiu no vestibular, como leitura obrigatória. Lembro que foi no ano que prestei exame, e foi um Deus nos acuda porque a tiragem não deu pra quem quis. Era gente se agatanhando na livraria da Federal para garantir o livro. Na época, sobrei. Mas eis que um jovem, no exercício do desapego, anos mais tarde, me fez a presença. O livro é uma delícia.

E lá pelas tantas, em “Belém do Grão-Pará”, Dalcídio reproduz cenas da Transladação. Encontros paralelos, nos escurinhos das travessas. Travessuras de jovens romeiros. “Ai, Diquinho”, diz a garota, “respeita a Santa, mas assim, também não”. O autor não revela, mas eu, nos conformes e compreendos  da leitura, imagino que Diquinho, “nem seu Sousa” para os reclamos da pequena. Continuou foi os assanhamentos, atentandozinho. Dalcídio é que sovinou de contar.

sábado, 5 de dezembro de 2015

crônica da semana - cama patente

A cama patente
Não sei de onde mamãe tirou essa arrumação: chamava de cama patente, àquele arrumadinho formado no chão por uma peça de compensado pouquinha coisa maior que eu; um pano de rede maciínho; umas tiras pra mais de palmo de largura de uns cobertores aveludados nodoados e pitiús de xixi.
Foi o jeito que mamãe deu para nos acomodar, os quatro acreaninhos, com algum zelo, na hora de dormir.
Só tínhamos quatro redes. Uma era da mamãe. Sobravam três. Um de nós ia para a cama patente. E adivinha quem era o ungido? Raimundinho Nonato, o pequechichito aqui.
A intenção da mamãe era saltear, fazer rodízio com minhas irmãs. Até que no início deu certo, mas as meninas reivindicaram, evocaram o meu cavalheirismo. Podia ser um zoiudinho entanguido, mas era o homem da casa, deveria dar o desconto, utilizar as minhas potencialidades, a energia do macho... e dormir no chão. Ah, tá. Combinado. E lá fui eu, machinho, me conformando com o conforto possível que a cama patente me oferecia. Camapatenteei por um bom tempo. Sonhei. Babei uma babinha fina pelo canto da boca. Tremeliquei involuntariamente e falei palavras ininteligíveis durante o sono. Amanheci com a cabeça pro outro lado. Morri de preguicinha na hora de acordar e ir para a escola. Tudo, que-nem-que-nem dormisse em colchão de mola. Só não caí da cama, porque no chão, já estava.
Naquele tempo, tinha que rezar um ‘com Deus me deito, com Deus me levanto’. Mamãe cobrava. Lá da sala, que era ao pegado do compartimento que, no aperto de uma casa de três cômodos, tomávamos por quarto, queria ouvir. E eu mais que depressa encarreirava na desobriga, na fé e no fervor porque de todos, naquela hora, tinha mais precisão. No chão, precisava mesmo de uma proteçãozinha. A casa era de madeira. Assoalho falhado. Sem forro. Tinha bichos nos escondidos e escurinhos que se danavam a passear à noite. Nas altas horas do sono, era um pé pra uma osga se animar, dar aquela ‘lembidinha’ no meu beiço, sugar meu sangue quentinho e, à época, descontaminado de alcoóis, cepas ou graxos. Vez ou outra eu percebia uma vermelhidão suspeita, ao amanhecer. Mas não maldava e nem me entregava ao pavor. O que os olhos não vêem...
Deixa estar, que mesmo sem ver, me pelava de medo era do ‘santospés’. O argumento da minha reza era centrado, pedia que me espremia, e até promessa fazia, era para que o Bom Deus e a Santa Virgem me livrassem da centopeia, terrível representante dos Artrópodes, e suas perninhas nojentinhas fervilhantes.
Nas redes, mamãe e as meninas, penso eu, livravam-se dessas visitas noturnas. Dormiam sem medos e o mais de aperreio que passavam era o bate-bate automático esmigalhando um carapanã aqui, outro ali, aos tapas.
Dormi no chão muitas noites. Até que um dia, mamãe comprou no prestação, uma rede avarandada que atei ao lado dela.

Agora, em outros tempos, por causa de umas dores nas costas, tive que comprar uma cama especial para aprumar o esqueleto. Qual não foi minha surpresa, quando reparei que a cama é dura que só ela. A pura ‘talba’ de assoalho. A pura cama patente. Como nos velhos tempos.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

crônica remix- Neide Aparecida

Cadê a Neide Aparecida?
A Neide Aparecida era do tempo da Rural e do Aero-Willis. Do tempo do óleo Jaçanã e do pão e meio. A Neide Aparecida é da época de antigamente quando chamávamos band-aid de planticure e zíper de fecho-ecler. A moça era de um tempo em que o bairro do Sousa era longe pacas e que a gente falava “égua, tá ralado”, e ainda falava “é longe pacas”.
A Neide Aparecida, confesso, não me traz de volta nananina de sentimentos ingênuos ou infantis e olhe lá, olhe lá, muito pelo contrário, ainda hoje reino com a lembrança provocante da pequena de mini-saia atentando o Clementino pelos corredores do edifício Balança Mas não Cai na telinha em preto e branco daqueles anos distantes.
Enquanto a Neide serpenteava tentadora de espanador na mão pela alegria do Balança...a minha patota varava os quintais pródigos de cajueiros e do rasteiro camapu nas manhãs da Marquês com a Lomas, aquietava-se um pedacinho depois do almoço e mais com um pouco,  se danava a espalmar a mão sob o lodo esverdeado a cata do balulusca ou da colombiana no jogo de peteca da tarde. E à noitinha, se ajeitava pelas janelas de vizinhos para acompanhar as tesouras voadoras fantásticas do Ted Boy Marino, no telequete Montila.
A sedução de Neide se espraiava por um tempo em que os saqueiros ainda não haviam sido tragados pela reestruturação produtiva e os sacos de cimento usados garantiam o desenvolvimento sustentável. Um tempo em que a laranjinha era a da Gelar e o lacre era cortado com a ‘gilé’. Um tempo em que a gente pagava em dia  as prestações do carnê da R. Mendonça. Do tempo em que grassavam entre as mãos da molecada fortunas em carteiras de cigarro conquistadas no palmo resultante do choque de moedas contra a parede. E éramos todos ricos com o orgulho de, ao mesmo tempo, enriquecermos a base de foscas e populares notas de Gaivota ou de brilhantes e  laminadas notas do aristocrático Hilton ou Albany (aquele com filtro de carvão ativado).
Era assim: enquanto no talho do Manduca, na feira da Pedreira o quilo e meio de Pá só com o osso da peça era embrulhado nas folhas de guarumã, a Neide Aparecida despertava, precocemente, a libido imberbe dos meninos de família.
A personagem que a Neide Aparecida interpretava no “Balança...”, atazanava a vida do faxineiro Clementino. Era uma secretária boazuda, em trajes mínimos, que se insinuava para o pobre Clementino, que de bobo e desatento, não percebia o real interesse da moça. Esta lerdeza do faxineiro se reproduzia no bordão “xiiiiiii, como é boa esta secretária, ah se ela me desse bola”. Cai o pano e o Clementido passa batido como sempre: não traça ninguém.
E como era boa aquela secretária dos tempos pueris da Chulipa e do Kichute!
O Tutuca, que interpretava o incauto faxineiro, eu ainda o vejo zorrando, pelas esquetes do Zorra Total..., mas e a Neide, inspiração para as primeiras e maravilhosas sensações que se anunciavam a peso de muitos ‘arrupios’ e chiliquitos para mim e para os outros da patota. Mas e a Neide Aparecida. Cadê a Neide Aparecida?


sábado, 28 de novembro de 2015

crônica da semana - intelixente

Intelixente!
Quando morávamos naquela casa de enchimento encravada numa vila geminada fazendo limite com uma nesga de calçada alta à frente, a vida na Marquês de Herval era quase de interior. Sem muitas novidades. Que eu me lembre, a Copa de 70 e o primeiro morador da rua a passar no vestibular foram os acontecimentos que abalaram a rotina da Marquês. No mais era a bola da rapaziada no leito de piçarra da rua, as ousadias etílicas da turminha do Bar Pedra Noventa e as arengas e maledicências comuns entre vizinhos regulando os dias.
A minha batida era aquela de menino que fazia o Primário na Aparecida e que convivia em paz com a minha sensaboria, com a minha sensalzice.
Para a mamãe, eu era um fenômeno. Medindo a minha trajetória de cortadorzinho de seringa no Xapuri a aluno esforçado na Aparecida, se entusiasmava. Alardeava a minha alta capacidade. O menino é inteligente, dizia. E com tamanha paixão que o gê ia ganhando volume, intensidade. Articulava a palavra com tão ferino enlevo que o gê ia tomando a envergadura de um xis sonoro e prolongado. O menino é intelixxxxente! Sabe contar toda a novela Irmãos Coragem. Sem tirar nem pôr.
Mal sabia a minha vida na Escola. Não era um aluno ruim nem displicente. Mas também não era esta excelência toda que mamãe pregava baseada na ignorância da minha vida pregressa e no domínio de uma novela de aventura. Dava minhas mancadas também.
Uma emblemática, na Aparecida, que eu não esqueço nunca. Prova de Matemática. Conjunto. A questão pedia pra ligar os elementos iguais dos conjuntos. Sendo eles: casinha, bolinha, florzinha. Não sei o que me deu na telha, que destrambelho ou desmiolamento me acometeu que fui ligando tudo errado. Casinha com bolinha, bolinha com florzinha, casinha com florzinha. Hoje, uma pessoa de boa fé, diria que eu interpretei mal o comando. Mas quite, foi patetice mesmo. O que torna é que, depois da prova, nos ‘comentários finais de Grimoaldo Soares’ sobre as questões, reunido com a minha patotinha, me dei conta do furo. E pior, na minha inocência de acreaninho das brenhas (juro, não houve dolo nesta ação), voltei lá com a fessora, borracha em punho, e pedi a minha prova para as devidas correções. Pensa num carão que peguei.
Ah, mamãe, contar as cenas dos próximos capítulos na rodinha de vizinhos era fácil, agora ligar os desenhinhos dos conjuntos exigia uma concentração que eu não tinha.
Com o tempo, mamãe foi desvanecendo a idéia que fazia do meu brilhantismo. Era chegar o boletim com os meus errezinhos, os meus cinquinhos; Era constatar os meus aperreios, os meus malabarismos para passar arrastado que ela tomava pé da mais incontestável realidade. Eu não era um geninho.

Fui um aluno regular, repeti de ano uma vez por causa de umas paradas, hoje condenadas pelo ECA, que já contei aqui, mas foi uma única vez. Quando engrenei, passei sempre direto... regularmente, mas passei. Contudo, se mamãe me visse hoje, todo prosa contando causos no jornal, ligando desenhinhos da memória, certamente se entusiasmaria, faria uma rodinha com a vizinhança e cravaria: intelixxxente!

sábado, 21 de novembro de 2015

crônica da semana - a casa ao lado

A casa ao lado
Havia um calor dissimulado, amenizado pelo salpico de talco no pescoço e por um comportamento liminarmente imposto: da feita que me empoava, mamãe sentenciava, não podia me abalar para nada, suar, podia suar apenas aquele pouquinho, inevitável, na caminhada cadenciada pela Barão do Triunfo, procurando aqui, ali, a sombra das pequenas árvores alinhadas no meio da rua.
Era um menino das brenhas do seringal. Tinha uma vaga do governo numa escola particular. Nada da cidade dominava, a não ser aquele traçado inalterável que me levava até a igreja de Aparecida. Mas, nos primeiros dias, independência, isso não significava. Nunca ia sozinho. Minha tia, no caminho para o trabalho, sempre ia comigo. Era aconselhável acompanhar as crianças, principalmente naquele período calorento, silencioso e solitário da uma da tarde.
Antes de bater a campa, a turma formava uma fila protegida do sol por uma mureta que limitava o acesso à sacristia pelo lado da Barão. Era meu momento de interação com os meninos da cidade. As primeiras e importantes informações, aquelas que a família não sabe passar. Aquelas, que só a molecada domina e entende e com jeito e manha, partilha.
A escola que funcionava na Aparecida era da Igreja. Tinha um público distribuído pelas famílias tradicionais do bairro. Junto com o Josino Viana fazia a vez no ensino básico. Entrei lá na Alfabetização, fiz a Primeira, no meio do ano passei para a Primeira Adiantada, e fui me aviando de lápis e caderno na mão, até o final do curso primário. Na Aparecida, foram criadas as minhas bases de vivência, de percepção. A realidade foi se construindo sobre meus pés apertados dentro do Vulcabrás. Era uma escola que tinha merenda, cantigas para cada coisa: para a hora de merendar, para receber visitas, para homenagear os mestres. Lá, a gente até tomava a bença das professoras. Havia um enlace íntimo entre a pedagogia da Aparecida e o entorno pedreirense. A maioria dos pais que deixava os filhos na porta da escola, também frequentava a missa aos domingos. E muitos se conheciam. Eram parentes, amigos de porta.
Mas naqueles primeiros dias, eu era apenas um imigrante do Acre. Fazia a caminhada empoado, me comportava, reconhecia na cartilha o enredo de que Ivo viu a uva e tinha vergonha da minha casa.
Na volta, quem me trazia da escola era a mãe de um amiguinho que morava lá pras bandas da Passagem do Arame. Morávamos com minha avó numa vila construída com enchimento de barro e que em muitos pontos apresentava vastas áreas descobertas, exibindo apenas o esqueleto de finas estacas farpadas na fachada. Me sentia embaraçado para mostrar que morava naquela casa velha de enchimento quase sem enchimento. Parava na casa de alvenaria, ao lado, e com tal folga que parecia que morava ali. A mãe do meu amigo me deixava na calçada, eu me debruçava sobre o muro baixo e dizia algo leve como vou ficar aqui, apreciando o movimento, depois eu entro. E só quando os dois desapareciam além da Lomas é que eu me adiantava para minha casa de barro. Atormentado por aquele acanhamento besta.


sábado, 14 de novembro de 2015

crônica da semana -alinhado no prumo

Alinhado no prumo
Sou dado a curiosidades bestas e inquietudes vulgares. Isto dito reiteradamente, por aqui, já é causo retinto das nossas prosas. Me bato com cada coisa. Cada presepada, cada invencionice. Olha que quando cismo de viajar nas idéias, viajo pacas. Nem vai longe o tempo em que amanhecia os dias e varava as noites querendo entender o que seria a horizontal. Sim, esta linha inspirada logo ali na frente, na beira do fim do mundo; traço que define a planura do solo que pisamos. Me peguei com tudo quanto foi teoria ou impressão e não deu em nada. Meu cocuruto não conseguiu intuir nem conceituar. Mas não abandonei a barca não. Depois de tanto penar, tanto bolar pelos leitos irregulares das incertezas, cheguei ao segredo horizontal pelo caminho mais reto e seguro. Vi o pedreiro tirando o prumo na parede aqui de casa e deu aquele tóim óim óim no meu imaginar. A vertical do pedreiro é uma direção. E é a direção mais certa, imutável, irrevogável. O pesinho aponta sempre para o centro da terra, formando um alinhamento sagrado e se a parede sai torta, por certo, o obreiro sentou tijolo numa segunda-feira braba de ressaca, porque, culpa do prumo não foi não. O prumo não falha.
Além do alívio, do conforto no espírito e da leveza no trato, a descoberta de que a horizontal é uma direção tirada em quina de 90 graus do fio de prumo, mudou minha vida.
Ou melhor, não mudou, ratificou uma certa retidão que tinha no meu ser e no meu estar. Me reconheci e me assumi como um ser invariável. Ortodoxo e orto-operandi. Posso citar vários exemplos dessa minha tendência a fio de prumo. Uma que é bater e cravar: Uso sempre a mesma roupa. Tenho foto. Aos domingos, um grupo de escritores se encontra na barraca do Escritor Paraense, na praça da República. Lá pelas tantas a gente se junta para um registro. E não é que um dia desses, repassando as fotos em domingos diferentes, reparei que eu estava com o mesmo look. O testemunho era contundente. Não que fosse intencional. Não. É aquela minha retidão, minha cômoda invariabilidade. Só vou na certa. O mesmo conjuntinho camisa-bermuda-chinelinho. Repetidinho, mas limpinho.
No tempo das locadoras de filmes, era batata. Não experimentava. Alugava toda vez, os mesmos filmes. Blade Runner... aquele do Brad Pitt que ele tenta porque tenta escalar o monte Nanga Parbat, no Himalaia... Os meninos, em casa, haja reclamar.
Umas das minhas mais singulares fixações é o apequenamento, a análise fina, a repartição de um todo. É só eu pegar um papel para esboçar um texto ou um riscado que já vou dobrando, reduzindo as faces. Um papel A4 rapidola se encolhe em minhas mãos. Sobre uma superfície mais limitada, mais domável, me sinto seguro, concentrado e assim, mais à vontade ao riscado. Boa parte das crônicas que escrevi à mão, antes de ter um computador, foi escrita neste abrigo liliputiano, em terra pequena, nas entre-margens mirins.
O fio de prumo me alinhou de tal forma que toda vezinha que de punho escrevo a palavra atenção, mesmo sem atenção alguma, escrevo todinha a palavra, só depois é que volto e ponho o cedilha.


sábado, 7 de novembro de 2015

crônica da semana - Radinho

O Radinho, o Raimelo
Este ano, participei de uma edição comemorativa alusiva aos trinta anos de fundação da Rádio Cultura do Pará. Uma coletânea onde os autores foram provocados a criar textos que falassem do rádio. Para mim, nada mais estimulante: o rádio sempre esteve presente no meu dia-a-dia desde o tempo do Raimelo.
E talvez esta do Xapuri, seja a lembrança mais distal que eu tenha da presença do rádio na minha vida. Era uma propagação restrita, daquelas de poste. Cobria a beirada do rio Acre do extremo da igreja matriz até a sorveteria Sibéria, no final da praça. O nome da estação, deduzo agora, refletia a aglutinação de ‘Raimundo Melo’, o proprietário do transmissor. Quando meu pai deixava as ruas de seringa e nos dava a conhecer as ruas da cidade, folgávamos a valer, nas tardes de domingo, nós, os pequenos acreaninhos, nos lambuzando com o mel geladinho dos picolés e apreciando lá de cima, dos alto-falantes do Raimelo, o Wanderley Cardoso revelar para todo mundo ali da beirada do rio que “você não é doce de coco, mas enjoei de você”.
Quando chegamos a Belém angariamos bens que iam pouco além de duas ou três redes. E um rádio. E era sagrado, o amanhecer para a luta, sintonizado nas lambadas, na guitarrada, no merengue, no bater de panelas “alô dona Maria, passarinho que não deve nada pra ninguém já está de pé, vamos acordar!”. Minha mãe ajeitava o radinho sobre a pernamanca que atracava a janela, e o dia se definia ali. Coava o café, areava uma panela no jirau com areia e limão, passava uma vassoura rápida na cozinha, separava uma boneca de anil para o molho das roupas, dava as benças, as recomendações e ganhávamos o rumo das lidas. Antes, rodava aquela rosquinha de plástico até um clique desligar o radinho e reservá-lo para mais tarde.
E foram tantas as interações: as várias entonações para o ‘boa tarde’, no programa do Kzan Lourenço; a sorte na roleta para ‘responder’ou ‘perguntar’, nas manhãs do Costa Filho. A alegria matinal de Gilberto Martins, a polêmica vespertina favorita do ‘combatido, porém, jamais vencido’ Eloy Santos; as denúncias do Paulo Ronaldo, as mentiras do Braguinha Oséas Silva, o vozeirão de consciência pesada do José Guilherme, a secretária Iracema, as esquetes de A Patrulha da Cidade ao sol do meio dia. Os reclames dos empórios, dos armarinhos, das distribuidoras de secos, molhados e estivas em geral.
Estamos emboletados há anos, eu e meu radinho. Não nos desatarrachamos. Acho que é por causa da influência do lar... das marcas que ficaram...
Inesquecíveis também as noites de blecaute na cidade, quando a luz que se tinha era a dos pirilampos que aqui, ali, luziam sobre o capim da rua. Saíamos todos para a porta, o radinho na mesa de centro. Aprendi canções belíssimas com a mamãe, ouvindo a seleção musical de Joel Pereira. Ou por outra, atávamos as redes na sala e sem luz nenhuma, acompanhávamos Emilinha “assim se passaram dez anos”, enquanto encontrávamos as mãos para somarmos força nos embalos para o futuro.

Inesquecível a sorveteria Sibéria às margens do rio Acre... O Wanderley Cardoso, o Raimelo... Mamãe.