domingo, 28 de maio de 2023

crônica da semana - girand com a Terra

Girando com a Terra

Tô na pista. Voo turbulento. Balancei mas não caí. A vista turvou, boca secou, beiço branquiçou, suor frio desceu. A mãe do corpo reagiu e quando abri os olhos, estava de palmo em cima com o Cruzeiro do Sul. A constelação que me reanimou. A injeção de luz na veia que me trouxe de volta ao mundo maravilhoso, que abriga e nos oferta coisas belas.

Pensa que não, é? Pensa que é só um punhado de estrelas no céu que ninguém nem dá as horas pra elas? Né’não. É revelação, bálsamo, Emulsão de Scott, Vitaminé, garrafada que a tia faz lá pras bandas do agronômico, cebola no prego, vai-te mal e mandinga pra lá, sebo de Holanda na bifede, rodela de batata na testa, multi-mistura da irmã, benzeção no quintal da rezadeira mais antiga do bairro, boas energias e desejo de saúde em mensagens que chegam de longe. E de longe, lá de onde nossa imaginação nem consegue chegar, a constelação do Cruzeiro do Sul é metáfora, é prosa pra dizer, é palavra viva do faz de conta, cantiga de roda sem herói perto, é esperança que a gente sente, é simbolismo de reviravolta e de volta para o futuro. Aterrei. Amerissei. Traspassei as nuvens e dei de encontra com os novos tempos. Com os pés no chão, embora, um, mais atrás.

O que aconteceu foi que no início de abril, convivi com a suspeita de um mal difícil de curar. Aí já viu, né, me entreguei e me dei, compulsoriamente, como passado pra outra e esquecido. Fiquei num banzo, numa panemice! Suspirei. Recorri à ciência, confiei, busquei resultados, diagnósticos e me aquietei quando o mal foi descartado e me aviaria apenas com os tratamentos que a idade, que avança, exige. À base de medicamentos. Mas o pobre já viu, né, quando descobre um santo... Tive uma reação tão forte quando tomei a primeira pílula, que atribuí o passamento ao remédio que deveria me livrar, ora, ora, de todos os males. Corri pra bula, acionei os universitários e veio o alento: tá no prospecto que são comuns essas reações no início, mas depois melhora. Minha rezadeira de confiança complementou o otimismo afirmando que era a mãe do corpo se impondo e ditando regras de convivência com substâncias novas no organismo. Tornei.

Credito esses sustos ao meu inferno astral. Maio é tenso. Fico impressionado com as tantas emoções e de perfis sentimentais demais intensos e próximos. Este ano então. Meu aniversário, dia 14, caiu no dias das mães, o que já ativa minhas mais íntimas reações. Some-se aí, a carga de lembrar a data da passagem de minha mãe, exatamente no dia seguinte, dia 15. E também me vem de volta a tristeza pela perda do meu companheiro Cláudio Cardoso, no dito dia 15. São entrelaçados de pirar mesmo. E ainda me aparece a mãe do corpo... Aí não tem ‘as condição’...

O que me vale? O Cruzeiro do Sul!

Uma constelação com tantas estrelas... Minha companheira, minha filha, meu filho, meu compadre Edir Gaya, doutora Brenda e a netinha Petra.

O Cruzeiro do Sul, pelos cálculos infinitesimais de consciência e dor que faço, no silêncio das minhas reflexões, é a prova mais evidente, mais concreta e ao mesmo tempo abstrata, de que a Terra gira. Desde Galileu, provar que a Terra se move, foi um grande desafio. Contaram-se quase três séculos além, até que Foucault demonstrasse a rotação da Terra com a experimentação do famoso pêndulo.

Anoitecesse Foucault, o século 20, aqui pelas bandas de Belém, e como eu, abrisse os olhos, após temores intensos e desse de palmo em cima com o Cruzeiro do Sul, o pêndulo seria desnecessário. Acompanhando o movimento da cruz, entendemos de duas formas: ou o céu todo se desloca ou apenas a Terra gira naquele período sideral. Aí vai da gente.

Eu e minhas estrelas estamos de volta para o meu futuro. Girando com a Terra.

 

sábado, 20 de maio de 2023

crônica da semana - do menor para o maior

 Do menor para o maior

A maturidade alcançada desde domingo próximo passado quando completei sessenta anos, me confirma uma cisma antiga. Entre tantas personalidades e caracteres, destacam-se em momentos estes e aqueles específicos, duas bem marcantes. Há um grupo de pessoas, como eu, até, que quando vai às partes de grande concentração de gente, tipo um show, jogo de futebol, uma celebração popular, faz questão de chegar cedo, se posicionar com tranqüilidade e esperar na boa, o início do evento. Há um outro grupo que não tá nem aí. Chega em cima da hora, vai abrindo caminho, dando cotovelada, forcejando, deslocando os incautos que chegaram cedo, como eu, e se arruma o mais perto possível do grande acontecimento. Mas olha que dou de encontro com essa gente, e não é de hoje.

Em 1980, quando o Papa João Paulo II esteve em Belém, experimentei pela primeira vez a vexação com esta onda selvagem. Ainda no escuro da madrugada, eu estava de palmo em cima com o palco montado na Primeiro de Dezembro com a Mauriti. Houvesse Papa àquela hora, estaria ele ali e eu bem aqui, de confronte. O que se deu é que lá pelas 7 da noite quando o Papa apareceu e deu início à missa, eu já me encontrava indignado e descrente da empatia cristã, a pelo menos duas quadras além do lugar onde acampei pela manhã e o Papa não passava de um ponto branco indefinível, lá no afogueado da multidão. Desencantado com a humanidade, peguei o caminho do feio e nem pro final da celebração fiquei. Inda voltei a pé para a Pedreira porque a cidade parou, naquele dia.

À época, eu era igrejeiro, coordenador do Movimento que havia na Escola Salesiana. Articulei com entusiasmados jovens, cheios de energia e ocupamos a frente do palco por volta de cinco e meia da manhã. E de lá não saímos pra nada. Pra fazer xixi, para respirar outros ares, para encontrar outras pessoas. Não. Nos fechamos nas nossas posses e carências. Lá pelas quatro da tarde já tinha gente da nossa patota desmaiando. Coisa de uma hora antes da chegada do Papa, aquele grupo que não está nem aí chegou com beira. Formou uma avalanche. Se apossou de cada palmo da Primeiro de Dezembro que havíamos conquistado. Uma horda inteiraça, pois que, durante o dia não haviam passado por privações, ao contrário de nós, os combalidos iludidos. Diante daquela fúria, capitulamos e nos dispersamos. Fui sendo empurrado, pela multidão, até lá longe. Frustrado. Com fome e sede.

Por agora, me bato com outro grupo. O dos varapaus que ficam na nossa frente nas mesmas concentrações. Cadê lei regulamentando este tipo de assédio, esta humilhação? Situação bem comum neste modelo de platéia de piso em um único plano, ao contrário dos estádios, cinemas ou teatros onde o piso sofre uma inclinação que compensa os tops diferentes das pessoas. Agora, pela passagem dos Titãs em Belém, um cidadão que se destacava na platéia por ter pelo menos 50cm a mais que qualquer  outro ser vivente em toda a calha do Amazonas, simplesmente ficou estátua diante de mim. Caraca! Tamanho pai d’eguão! Estivesse ele lá no Combu, ainda assim desfrutaria de visão privilegiada do palco. Mas quite. Me tirou pra pagode em pleno show de Rock e ficou de flozô bem na minha frente.

Sem a lei do menor para o maior, proponho aos organizadores, o procedimento adotado em alguns balneários. Trata-se de uma vara estirada na horizontal regulando a altura nos vários compartimentos da platéia. Na frente do palco, aqueles que ficassem aquém da vareta de, vá lá que seja, metro e sessenta. Caso bata na vara, volta e ocupa o trecho anterior, até a outra vara. E assim a platéia alteia pra trás. Penso que ajudaria na afirmação do biótipo amazônico. Quanto ao show do Titãs, foi ótimo. Em nome da paz, mudei de lugar.

sábado, 13 de maio de 2023

crônica da semana - reticiências

 Reticiências... eu sei... tá errado

Tão invisíveis as freqüências a girar o mundo... a realidade se define de uma forma tal que... nem maldamos. Nes’isntante, dezenas, milhares de interferências nos rodeiam e a gente nem dá verso e conta. Só do celular, recebemos pra mais de tantas e ene minas de vibrações imperceptíveis. A maioria albergando as malditas fake news. Conta na conta, também, a infinidade de ondas de rádios que passeiam ao nosso derredor em AM, em FM, além de outros perfis eletromagnéticos que escapam do nosso campo de entendimento, e não nos habilitamos apreendê-los todos.

Uma dessas ondas, assensoriais se fez notar e me abordou di’cum’força esta semana. Reza ela sobre as reticências e os dias que se sucedem aos aléns e ao adiante.

Tirando pelo rumo, o além e adiante mais perto para mim é o domingo este amanhã quando completo, pelejadíssimos, 60 anos. E que logo de prima me traz a certeza do desprestígio total da data, embora carregada de significados. Ocorre que tão emblemática efeméride, atada a estes encarreirados que os aléns me reservam, cai exato no dia das mães. E nem dou uma de esperançoso. Não sistematizo. Sequer ensaio menção. Cuido e me recolho humilde ao canto porque, com mãe não se concorre, nem em bolinho confeitado. Amanhã é tudo dela. A música já diz: “ela é a dona de tudo.../ Ela é a palavra mais doce/ que um dia o poeta escreveu/Ela é o tesouro que o pobre/Das mãos do Senhor recebeu”. Verdade maior não há. Vá lá que seja, de consolo, ano que vem, de boa. Meu níver cai numa terça (porque o ano é bissexto) toda minha.

E pros lados das palavras doces, eu sei, eu sei, não é reticiências que se fala ou escreve. O certo é reticências. Mas este tipo de marcação da gramática me vem, tal o apostrófo, como uma paródia, como uma versão apócrifa desde o ginásio. Coisa de moleque pra frente, que inventa moda e dela não se larga. Acostumei com o distanciamento canônico tanto na escrita como na fala. Daí pus no título aí em cima e me viro nos trinta para abonar e caminhar com o termo até aqui sem culpas. Mesmo porque, até me permito a licença poética: sou simpático à forma porque ela inspira um intervalo ... para pensar. Para tomar ‘ciência’, apossar-se do tempo e conhecer o bom, o tenso e belo da vida.

Então me flagro nos aléns, nos adiantes e nos entremeios de agora, quando me avio para liberar os textos, após breve correção, do meu próximo livro. Atento, me pego entre as observações e oportunidades encontradas por minha filha, que me ajuda na leitura crítica. Curiosa, me vem com umas dúvidas, inesperadas, considerando o ritmo e o tino das minhas construções textuais. Certeira, prestou reparo nas formas diferentes do tratamento que dispenso para a ocorrência de reticências (ela se referiu à pontuação de forma correta) em muitas passagens. Quis saber o formal. Depois de reticências a frase começa com minúscula ou maiúscula? A gente dá espaço, depois de reticências? E quando encerra um parágrafo? Eita que foi um aperreio. Corri aos trechos de palmo em cima e ajudei na análise. No frigir dos ovos, prevaleceu o bom senso que inclusive tem vez nos livros e sites de gramática que consultei. Depende. Tudo depende, Vai da gente e do contexto. A regra admite uma versatilidade na forma e abona a intenção. Tudo então ficou pelo dito e certo.

Como agora, com a convicção que me envolve, em saber da significância do meu além, do meu adiante que se realiza amanhã, o domingo em que completo sessentinha. Esperando, agora, de vera, das reticências da vida, mais sabedoria, inspiração, saúde, muita música, poesia, boas companhias, uns trocados, cerveja e picanha vez ou outra, pois que de ferro não sou. Tendo isto, as ondas visíveis e invisíveis, que sejam, podem vir e me provocar. Estou na área e se derrubar...

sábado, 6 de maio de 2023

crônica da semana - sereno da madrugada

 Sereno da madrugada

Reinava, por aqueles instantes, a memória da noite. Pelo comum, a rua está no maior ermo. Uma viva alma sequer. Eu e Deus na parada do ônibus. E nesta última aventura na madruga, eu, Deus e a neblina. O cenário era de filme de terror. Um breu noturno ainda, molhado ou, no caso, orvalhado. Silencioso e entregue a mistérios. Em mim a esperança nervosa de tudo acontecer na paz e nos conformes. Uma tensão indissimulada se revela em cada movimento que faço. Adiante dou aquela corridinha para o ponto. É meu ônibus que desce com beira a ladeira e se aproxima.

Por esta época do ano, o dia demora clarear. Um lampejinho só aparece depois das seis. Além do meio do ano, a alvorada se realiza mais ligeiro. Agora, por causas diversas, o sol se atrasa um pouco. Ainda na apreensão que antecede o surgimento do primeiro rasgo de luz e do primeiro ônibus do dia, procurei segurança na iluminação dos postes de rua. Mas quando! O foco era barrado, contido em grande parte por uma camada espessa de sereno. Adensando o cenário, as árvores dispostas ao longo da avenida concentravam a solidão e a frieza do momento. Éraste! Dei a corridinha, fiz o sinal e assim que o ônibus parou, pulei dentro, aliviado. No meio do caminho clareou, mas o sereno continuou certo e vasto sobre Belém.

Quando cheguei ao meu destino e me posicionei na porta para descer, o passageiro à minha frente estacionou no degrau, olhou pro céu, virou pra mim e perguntou se aquilo era sereno mesmo ou era chuva se arrumando pra arriar. De prima cravei: sereno. Não ia perder a oportunidade de resgatar do tempo, o antigo sereno da madrugada que já estrelou canções, pautou prosas de trancoso, foi enredo de ralhos e aconselhamentos sobre o potencial que tem de nos constipar e nos legar amofinamentos e febres, além de nos deixar de lembrança um pinguinho de água geladinho na ponta do nariz quando a gente, ó, nem maldando está da presença de água friinha naquela fumaça branca. Mas tem água mesmo.

Eu procurei as minhas mais objetivas palavras, corri atrás dos meus saberes, fucei em pesquisas e conceitos meteorológicos na intenção de explicar direitinho o que é, e por que, aqui, ali, aparece essa neblina (que por causa do passado e de tantos sentimentos mais, faço questão de chamar de sereno). Acontece que não é fácil. Tem a ver com atmosfera, pressão, temperatura, umidade do ar, troca de calor. É coisa tanta de embananar a minha caixola, e de me deixar sem rumo e sem prumo na intenção de descrever este fenômeno. É o caso de ficar curtindo os efeitos, o friozinho na ponta do nariz e a tez envelopada de nuvem, rés o chão, bem pertinho da gente, nos tocando a pele ao amanhecer; no lugar de nos labirintarmos em deduções levianas sobre os vieses científicos. Ou não. Ou aprumar no rumo, estudar mais, pesquisar mais, consultar os especialistas das geociências e desvendar as propriedades da baixa atmosfera, na caté. Aí vai da gente.

Rapidola respondi para o passageiro do ônibus que não era chuva, era sereno. E não usei outro termo que fosse neblina ou névoa, ou ponto de orvalho que seja, ou ainda nevinha amazônica de beira de rio, ou nevoeiro que vem da mata, ou fumacinha gris. Dou o maior valor é no sereno mesmo, porque de termo e jeito, pode até nos constipar, segundo os alertas de mamãe, mas também inspira paz de espírito, distensão dos temores do dia. Então, quando o homem da minha frente desceu do ônibus, desci atrás e segui meu caminho. Com a alma serenando, com o ânimo serenado. Procurando manter a serenidade em atos e pensamentos. O sol esquentou, dissipou um ou outro sinal de neblina remanescente na baixa atmosfera, dei uma corridinha, e pulei pra dentro do mundo real. Aquecido e iluminado.

 



sábado, 29 de abril de 2023

crônica da semana - escolhas

 Escolhas

Antes, as escolhas, para mim, eram as fagulhinhas descartadas pela catação que minha mãe fazia e nos orientava fazer, na porção diária de arroz, feijão ou outro grão que fosse para a panela mais com pouco. Escolhas eram as partes indesejadas, a pelinha, uma pedra bem pequenininha, a casca desalojada do grão, um quebradinho tisnado. Escolhas formavam o subgrupo do punhado que não servia pra gente comer. Mamãe dizia pra catar bem catadinho e depois jogar as escolhas fora. Por vezes, indicava mergulhar tudo numa baciinha com água e esperar. A catação seria mais fácil porque as escolhas flutuariam.

Minhas escolhas catáveis e absolutas foram ficando para trás. A semântica atuou e...

Nem todos os subgrupos que computei na lógica das minhas catações bandearam-se aos descartáveis.

Aconteceu de maneira conciliatória. Entendo que, serenamente, o tempo transformou as fagulhinhas inquestionáveis em veredas possíveis e alternativas negociáveis de trajetórias. Pelo bem e bom, nada aconteceu no repente e no bruto. Vi a fumarola de mil possibilidades ir-se dissipando naquele ambiente sentimental que se mostra como saudade e eu presunçosamente, mantenho no índice da vida, como história. Foi assim com a poesia.

Peguei uma fase bacana, na adolescência e primeira onda da juventude, em que uma boa parte da molecada com a qual eu convivia era vicici em futebol, tocava violão e fazia poesia. A turma tinha um ramo na minha rua, a Mauriti, e um outro, na Escola Técnica. E eu, ó, bem na foto. Transitava na maior, nas duas frentes. É desta época o meu primeiro dedilhado no violão, em exaustivos exercícios reproduzindo aquele andamento marcado pelos bordões de “A casa do sol nascente” e também meu primeiro poema. Meus versos iniciais saíram de inspirações produzidas dentro da biblioteca da Escola Técnica. Havia uma oferta grande de livros técnicos lá, mas também de literatura com os clássicos ali, à mão. Peguei logo uma sequência do Vinícius de Moraes da prateleira. Endoidei com a reflexão necessária estimulada por o “Operário em construção” e pelo lirismo de “Serenata do adeus”. Naquelas tardes na biblioteca, fiz uma ‘escolha’. Meu primeiro poema teria não a carga social de um, mas o romantismo sofrido do outro. Catei um verso aqui, outro ali, assumi os versos livres e compus um poema muito, mas muito parecido com “Serenata do adeus” e tão parecido, que pouco tempo além, emboloei o original e joguei fora. Não era justo iniciar com algo bem próximo ao que, generosamente, defini como uma cópia mal arranjada de um poema. E logo do Vinícius!

Mais com pouco tornei. Aprumei num estilo e para meu regozijo, ganhei um concurso de poesia no Souza Franco. Depois, integrei o prestigiado grupo de letristas do Grupo Hera da Terra e firmei parceria com músicos de ponta como Edir Gaya e Arlindo Cruz. Tava que tava de boa.

Com os anos, fui reconhecendo a graça da prosa e ao mesmo tempo a imensa responsabilidade que a poesia exigia de mim. Conheci poetas extraordinários, de rimas ricas e refinadas. Anos luz à minha frente. A autocrítica fez que minha poesia fosse ficando para trás.

Hoje admito a regra de cada qual com o seu cada qual. Sou feliz na prosa. Em casos muito especiais, ainda enveredo pela poesia, e dou à luz apenas os poemas que me ocorrem em sonhos. Experimento as narrativas poéticas, porém. Com este perfil mais flexível, me sinto à vontade.

Minhas escolhas foram reverentes às barreiras. E penso que sensatas.

Pus em baciinha de água meus punhados e a catação foi descomplicada. Sem cicatrizes difíceis de cura. Acudido pela sincera humildade. O bom é que não houve necessidade de descartar mais, absolutamente nada.

sábado, 22 de abril de 2023

crônica da semana - transas, danças e caretas

 Transas, danças e caretas

Antes dos textos elaborados, ou mesmo das fake news. Bem anteriores às linguagens dominantes e midiáticas. Ou por outra, dos grunhidos nervosos e dos desenhos rupestres. Lá no início das relações sociais, das primeiras combinas coletivas na intenção necessária de garantir um dia após outro vivo, o ser humano se comunicou com o corpo. Se virou nos trejeitos, caretinhas, nos ‘movimentos poucos e plenos’. Suficientes para estabelecer alianças de mútuas proteções.

Até que gostaria, mas quite, não sou estudioso, especialista, entretanto, tenho pra mim que a versão original das socializações humanas (do bem e do mal) se deram pelo jeito de corpo (e até posso ilustrar esta opinião com a leitura cuidadosa dos elementos cênicos que compõem o filme “A guerra do fogo”, uma produção que se destaca por um enredo todo desenvolvido e perfeitamente assimilável, em que o  exemplar primitivo da humanidade não pronuncia palavra alguma, e se tenta, limita-se a vocalizações vãs e desesperadas. Para reforçar esta impressão, resgato ainda a natureza reveladora da arte naquela sequência de “2001- Uma Odisséia no Espaço”, em que um hominídio usa todo o repertório de evoluções e acrobacias: dá cambalhotas, rola, pula, faz corridinhas e carinha de mau, para demonstrar, naquela encenação selvagem, poder de afastar um grupo adversário na disputa pela água de um laguinho). Desta necessidade de se virar nos trinta pela sobrevivência até uma sobrelevação dos entendimentos, literalmente, foi um passo. Ou, vá lá que seja, alguns passitos. Eis que a Evolução nos legou o poder da dança.

Os caminhos percorridos nos levaram, os humanos a, além de estabelecer missões objetivas ao corpo, também direcionar os movimentos para a celebração, para as manifestações subjetivas. Os cerimoniais envolvendo o corpo são ainda presentes e básicos nas sessões ritualísticas, nas ligações com o desconhecido, com o abstrato, o sagrado e o profano. As coreografias espirituais destacam-se como se fossem transas arrebatadoras, purificadoras.

O corpo, destarte, é um veículo dinâmico e destemido de dizer os sonhos e realidades. E, além dos rituais ou sublimações, me vem agora de oportuno, a luta diária pela ratificação do poder de toda a arte. A abnegada crença na liberdade. O corpo alcança as alturas, nos instantes em que se move em favor da conquista de direitos. A iniciativa do balé Stagium, me vem à memória como uma prova indelével de resistência quando, nos anos de chumbo da década de 70, deu corpo à voz de Plínio Marcos, dançando “Navalha na carne”, peça proibidíssima do dramaturgo, e revelando ousadia, apego, retrabalhando a função subversiva da arte.

Além dos tantos valores que a dança nos regala por toda a existência, ainda, aqui para nós paraenses, nos deu o vigor e a apreciável criatividade de Rolon Ho.

Olha que tenho reservado parte do meu domingo para apreciar a Dança dos Famosos. Fico besta de tanta expressividade. É verdade que presto mais reparo no Rolon, que é um paraense emprestado da Guiana. Puxo a brasa pra nossa sardinha, mesmo que com tempero afrancesado. Vejo graça, todavia, em todos e todas, principalmente nas apresentações coletivas. As coreografias revelam a grandiosidade dessa arte ancestral. A dança permite explorar nuances tímidas e desnudá-las. Vieses argumentativos do corpo se emolduram em contornos plásticos vibrantes e atraentes. Transformadores, doces, emocionantes. A dança descreve futuros, evolução, potências humanizadas. É ferramenta social para amparos mútuos, para enfrentamentos inevitáveis por garantia de água do laguinho ou mesmo por uma nota dez na Dança dos Famosos. Eu torço pelo Rolon.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

crônica da semana - orai e vigiai

 Orai e vigiai

A gente tá assim, orando, vigiando; aqui, ali pensando na morte da bezerra, contemplando uma arte, maldizendo um mal, patetando ou olhado pro tempo, que seja, quando, de repente, pá! Cai uma bomba. Acontece. A vida para?

Não. Cambaleia, tomba, dá de encontro, reanima e torna. Foi o que aconteceu na Feira do Livro do ano passado.

Dei uma passada rápida no Hangar, só pra não dizer que não fui. Visitei alguns estandes, comprei livros, dei um alô pro Juarez da Ifá e pro Francisco do estante dos Escritores Paraenses e, ó, pra trás. Antes de voltar pra casa, passei rapidola naquele corredor dos fanzines, quadrinhistas e ilustradores. Encostei na banca do Maciste Costa, que é um campeão, um magnífico vencedor em tudo quanto é de desafio, de trabalhos coletivos a peças individuais que envolvam o trato no traço. É o ilustrador de onze entre dez publicações que se realizam por aqui. Travamos uma prosa, e entre tantos assuntos pendentes por causa da pandemia surgiu este do medo que ainda nos assolava e que nos afastava, inclusive, de atividades mais comuns daquela Feira. Um propósito tiramos, naquele encontro. Defendia ele, que não podíamos desistir. Não adiantava amofinar. Vez em vez, os olhos lacrimejavam diante daquelas palavras de incentivo e eu me envolvia com a idéia de ser possível sim, superar o luto e voltar a publicar absorvendo a energia e o entusiasmo que um livro sempre nos inspira.

Antes de aprumar para a Pedreira dei com o escritor Daniel da Rocha Leite. Assim como eu, num pé e n’outro pra embicar no rumo de casa. Ainda tomando os cuidados com os traiçoeiros golpes da pandemia, Daniel havia aceitado algumas participações e contribuições ao cenário literário da Feira, afinal é nome de responsa, respeitado, com um acervo espetacular de boas e grandes obras. Escritor premiado, pesquisador. Atento aos encantos da língua. Eu, por mim, o tenho como uma expressão ímpar na linguagem poética. Cuido de aqui, acolá, pegar um livro dele da minha estante e me encantar. Tem o segredo da narrativa poética, que é como vejo a obra dele. Ainda que em prosa, mesmo que mirando os termos na sensibilidade infanto-juvenil, há um esvoaçar de sons de delicados lirismos nas palavras aladas e, por vezes, intencionalmente caladas, que ele cria. Narrativa submersa quando identifico que é o silêncio que canta, que fala, que se anuncia na fresta das frases. E que a gente só vê, quando fecha os olhos... Dou o maior valor.

Ali no corredor da Feira, e muito apropriadamente, na correria do instante, nos permitimos um afetuoso abraço. Sinalizei o quanto o admiro pela sua arte e também pelo apego, pela dedicação aos momentos em que a literatura paraense precisa de braços. Como na feira do Livro. Ouvi de Daniel, o mesmo que Maciste havia me revelado lá atrás. Havemos de resistir. Com a emoção saltando de mim, de novo lacrimejei e senti a vibração positiva daquele encontro. Fiquei com aquilo. Na caminhada para casa, reconheci que aquela passada rápida pelo Hangar, me proporcionou um encontro com heróis. Francisco, Juarez, Maciste, Daniel. Houve ensinamento naqueles encontros e encorajamento.

Desde lá, decidi que tão logo achasse um tema, recolheria do meu acervo, um tanto de crônicas que pudessem compor um livro encorpado, e que trouxesse a minha arte de volta às edições impressas. E eis que me vem, daqui a alguns dias, o “Igarapé Piscina”, que está na fase de produção e que mais com pouco falarei dele. Só adianto que, como reverência àqueles encontros, convidei para a capa o Maciste Costa e para o prefácio, Daniel da Rocha Leite.

E, pois é, a gente tá assim, orando, vigiando, a bomba cai, a gente tromba, dá de encontro, se esmigalha, mas depois se junta tudo de novo.