sábado, 3 de outubro de 2026

crônica da semana - vai a dois

 Linha de passe

Essa foi minha filha que me contou. Vinha na boa pela Catorze. ônibus com ar condicionado, sem muita gente, no horário. Quando na curva da Ferreira Pena para cambar para a Sacramenta, o coletivo esbarrou num motoqueiro apressado. Sem grandes transtornos na batida, o motora retomou o volante e se arrumou para sair. Nessa hora o motoqueiro, sentindo-se prejudicado, postou-se no meio da rua e sacramentou: ninguém não sai. Rolou o para pra acertar. Criou-se a linha de impasse. Ninguém não sai. Foi o jeito o esmaecimento dos humores. Conformado, aquele passageiro de tiradas instantâneas cravou “ihhh, vai a dois”. Um outro, lá de trás arriscou um palpite, alheio à vigência de proibição em apostas. Provocou. 10 pra 1 que o motociclista não desocupa a pista. Sol do meio dia. Fome se assanhando no estômago. A questão ficou no vai não vai. A turma tirou por menos. A solução foi esperar outro veículo para seguir viagem.

No futebol, a linha de passe é aquela possibilidade de jogada certeira, de pé em pé até a culminância. Na vida, é um fiozinho quebradiço se esticando em uma retranca resistente e muitas vezes, forjada na têxtil insensatez. O resultado dessa peleja é o impasse, é uma dor tão dolorida que a gente nem sabe explicar. Pelo pleno e pelo geral, experimentei duas situações que, olha, me derrubaram.

Houve de certa vez, ainda o ovo sendo gerado no ventre da serpente, eu entabulei prosa com um colega de trabalho que por sinal, havia conseguido a vaga por meio de uma ação sindical que exigia da empresa contratação de mão de obra, preferencialmente ligada a trabalhadores efetivados, e que residissem na região, já que a política da indústria, à época, era trazer gente de fora.

Pois bem, este um, cria de uma ‘política de cotas’, naquela conversa, puxou o tema da formação. Eu alertei que por aqueles dias, 2018, 2019, por aí assim, a educação sofria golpes sucessivos e isso precisava ser rebatido pelos trabalhadores. Fui nocauteado na sequência quando ele afirmou que não necessitava de educação. Os filhos seguiriam a vida como ele, sem precisar habilitações especiais e se fossem uma hora dessas pra universidade, dispensaria a universidade pública já que em cada esquina podia contar com uma faculdade boa de preço, que lhe atendesse. Até hoje, perco o sono quando lembro esse diálogo. Um aperreio justificado já que por aquela ocasião, atuando em várias frentes das construções populares, em momento algum da vida tinha me deparado com tamanha descrença (infelizmente, foi só a primeira vez) e também de toda sorte ingrato, já que o pequeno veio de uma parcela da sociedade beneficiada com uma mobilização que visava elevar o nível econômico da comunidade como suporte, exatamente para que alcançassem mais oportunidades de crescimento através da educação (nós os pais éramos peões, chão da fábrica, mas nossos filhos poderiam ser doutores). Por causa desse diálogo conto aquele episódio como um dos dias mais tristes da minha vida. Sofro ainda.

Depois veio a desilusão da direitaesquerdadireira. Impressioante. As pessoas misturam, confundem. Também no chão da fábrica, uma companheira discorria sobre o que definia como as brutalidades da Esquerda. Homofobia, misoginia, restrições com programas sociais. Indignada, relacionava para mim, estes itens com os quais tinha discordância. Pautas, pelo usual, identificadas com grupos conservadores. Eu fiquei azuruotinho. Nem soube o que dizer. Depois racionalizei. Meu pai do céu, quantos embaralhos são maliciosamente formados na mente da gente. Vieses são enviesados, vetores redirecionados, tendências e ideologias jogadas num liquidificador esmigalhador de sensatezes. Este foi outro dia que me faz pôr o pano de imaginar no ladinho da cuca e esperar em vão o sono, de tantos dos absurdos que carrega em si.

Mas quando que alcançarei ser da linha daquele passageiro de tiradas instantâneas do tipo vai a dois.

 

 

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