Homenagem a um artista de Barcarena
Sidney Raiol é mestre. Apaixonado pela vida, professor da
rede pública. De par com o exercício da docência, professa a beleza das
palavras, a harmonização das letras, o desenredo elegante de versos, rimas e
prosas.
Eu o conheci, de prima, virtualmente. No tempo do e-mail. Era
um dos meus heróicos 13 leitores logo que comecei a escrever aqui pra coluna,
em milinovecentos e naninani. Interagia, contribuía, acrescentava detalhes aos
causos contados, sempre com muita propriedade e desenvoltura. Consolava-me
quando eu machucava a gramática (por ele, caprichei na ênclise agora). Na
época, lecionava em Barcarena. Éramos próximos, mas, olha só, longes. Nunca nos
encontramos. Passou, passou, o email quedou-se démodé, e nos silenciamos num sumiço indolor, um para o outro. Depois de a bom
atravessar esta baía num prá lá e pra cá sem medidas, mudei de Barcarena para
Belém, pendurei as chuteiras da fábrica, pus os tênis e a roupa de física e fui
malhar. Nos encontramos de vera, no físico, de palmo em cima mesmo, na Academia
Barcarenense de Letras, quando ele se juntou a nós, no silogeu. É confrade
eleito e imprescindível. Um encontro pra lá de agradável. Sidney é muito papo
firme. Conversa fácil. Contador de causos mis. Voz potente, tom erudito,
locução solene, quase uma ode. De lá, a cá, da posse de Sidney, ele vem nos
regalando com seu doce contar em publicações no grupo de whatsapp da Academia.
Prima por um estilo memorialista (aqui, ali, atuando também no presente
dinâmico que se realiza no condado do Tapanã). Explora cenas e cenários de
Belém (as boemias!), Barcarena (as boemias!), episódios prosaicos da carreira
de professor. Demonstra e revela admirações. Partilha conosco um arquivo
espetacular de imagens, textos e publicações literárias raras. Nos demos e nos
entendemos como filhos adotados de Barcarena. Veio a idéia de trazer aqui uma recordação,
um recorte do que esta travessia, que fizemos, cada um ao seu termo e tempo,
nos deu de impressão e riqueza. E ele nos deu Artur.
Fiquem com as adoráveis lembranças de Sidney Raiol:
[Escutando as músicas interpretadas por Patrícia Marques,
cantora de Barcarena, em seu CD acústico, pego a caneta para escrever sobre um
amigo de Barcarena que nos deixou e levantou voo para outros lados.
No dizer do escritor paraense Vicente Franz Cecim, em seu
livro A Asa e a Serpente:
“Voou para alturas
espantosas, com uma energia inesperada para a sua idade.”
Sempre foi alegre e talentoso, desde quando o conheci, na
década de 1980. Seu ser não transmitia tristezas; também não levava desaforos
para casa, como todo bom paraense.
Foi um passarinho autêntico, cuja liberdade de viver era
suave, e quem estava ao seu lado era absorvido por esse carisma singular, não
atrelado a ninguém.
Era um cabano zelador, por amor à sua terra, tantas vezes
celebrada e transmitida pelas inúmeras manifestações artísticas que soube
desempenhar com sucesso.
Ninguém dançava o carimbó tão bem quanto ele, voltando com
perfeição rítmica, a caboca dança.
Foi com esse rodopiar performático que, certa vez, o vi em
uma apresentação, dançando com seu grupo folclórico numa casa de shows na Doca
de Souza Franco.
No final, os turistas alienígenas que estavam presentes,
entusiasmados, foram até o palco para acompanhar o vibrante grupo, naturalmente
liderado por ele.
Mais importante, entretanto, foi sua atuação como educador —
estava terminando o curso de Letras —, artista múltiplo, colega e bom amigo.
Escrevia também poesias e soube conquistar a todos nós que tivemos a permissão
especial de conhecê-lo em Barcarena, terra cabana.
Simplesmente, ARTUR SILVA PEREIRA foi embora. Mas, onde quer
que esteja ou chegue, não deixará ninguém parado, tampouco macambúzio.
Como disse Max Ernst:
“Os homens nunca saberão.”
O CD de Patrícia Marques acabou. A vela da sala apagou].
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