sábado, 17 de outubro de 2026

crônica da semana - Sidney Raiol

 Homenagem a um artista de Barcarena

Sidney Raiol é mestre. Apaixonado pela vida, professor da rede pública. De par com o exercício da docência, professa a beleza das palavras, a harmonização das letras, o desenredo elegante de versos, rimas e prosas.

Eu o conheci, de prima, virtualmente. No tempo do e-mail. Era um dos meus heróicos 13 leitores logo que comecei a escrever aqui pra coluna, em milinovecentos e naninani. Interagia, contribuía, acrescentava detalhes aos causos contados, sempre com muita propriedade e desenvoltura. Consolava-me quando eu machucava a gramática (por ele, caprichei na ênclise agora). Na época, lecionava em Barcarena. Éramos próximos, mas, olha só, longes. Nunca nos encontramos. Passou, passou, o email quedou-se démodé, e nos silenciamos num sumiço indolor, um para o outro. Depois de a bom atravessar esta baía num prá lá e pra cá sem medidas, mudei de Barcarena para Belém, pendurei as chuteiras da fábrica, pus os tênis e a roupa de física e fui malhar. Nos encontramos de vera, no físico, de palmo em cima mesmo, na Academia Barcarenense de Letras, quando ele se juntou a nós, no silogeu. É confrade eleito e imprescindível. Um encontro pra lá de agradável. Sidney é muito papo firme. Conversa fácil. Contador de causos mis. Voz potente, tom erudito, locução solene, quase uma ode. De lá, a cá, da posse de Sidney, ele vem nos regalando com seu doce contar em publicações no grupo de whatsapp da Academia. Prima por um estilo memorialista (aqui, ali, atuando também no presente dinâmico que se realiza no condado do Tapanã). Explora cenas e cenários de Belém (as boemias!), Barcarena (as boemias!), episódios prosaicos da carreira de professor. Demonstra e revela admirações. Partilha conosco um arquivo espetacular de imagens, textos e publicações literárias raras. Nos demos e nos entendemos como filhos adotados de Barcarena. Veio a idéia de trazer aqui uma recordação, um recorte do que esta travessia, que fizemos, cada um ao seu termo e tempo, nos deu de impressão e riqueza. E ele nos deu Artur.

Fiquem com as adoráveis lembranças de Sidney Raiol:

[Escutando as músicas interpretadas por Patrícia Marques, cantora de Barcarena, em seu CD acústico, pego a caneta para escrever sobre um amigo de Barcarena que nos deixou e levantou voo para outros lados.

No dizer do escritor paraense Vicente Franz Cecim, em seu livro A Asa e a Serpente:

 “Voou para alturas espantosas, com uma energia inesperada para a sua idade.”

Sempre foi alegre e talentoso, desde quando o conheci, na década de 1980. Seu ser não transmitia tristezas; também não levava desaforos para casa, como todo bom paraense.

Foi um passarinho autêntico, cuja liberdade de viver era suave, e quem estava ao seu lado era absorvido por esse carisma singular, não atrelado a ninguém.

Era um cabano zelador, por amor à sua terra, tantas vezes celebrada e transmitida pelas inúmeras manifestações artísticas que soube desempenhar com sucesso.

Ninguém dançava o carimbó tão bem quanto ele, voltando com perfeição rítmica, a caboca dança.

Foi com esse rodopiar performático que, certa vez, o vi em uma apresentação, dançando com seu grupo folclórico numa casa de shows na Doca de Souza Franco.

No final, os turistas alienígenas que estavam presentes, entusiasmados, foram até o palco para acompanhar o vibrante grupo, naturalmente liderado por ele.

Mais importante, entretanto, foi sua atuação como educador — estava terminando o curso de Letras —, artista múltiplo, colega e bom amigo. Escrevia também poesias e soube conquistar a todos nós que tivemos a permissão especial de conhecê-lo em Barcarena, terra cabana.

Simplesmente, ARTUR SILVA PEREIRA foi embora. Mas, onde quer que esteja ou chegue, não deixará ninguém parado, tampouco macambúzio.

Como disse Max Ernst:

“Os homens nunca saberão.”

O CD de Patrícia Marques acabou. A vela da sala apagou].

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