sábado, 25 de setembro de 2021

crônica da semana - casquinho de muçuã

 O casquinho de muçuã, a farofa e o purgatório

Queria tanto saber das coisas do Acre e o que acabei conhecendo, pelo Leandro Tocantins, foi um pouquinho mais da história de Belém.

Teve uma época que eu fiquei num pé e noutro para chegar às obras do escritor paraense, nascido no largo da Sé, em Belém, e criado às margens do rio Tarauacá, no Acre. Era a fase da cuíra pra saber das coisas e do povo da seringa. A história, os costumes, os primeiros seringueiros a chegar por lá. O caso da independência. As peripécias do Galvês, eu já sabia pelo romance do manauara Márcio Souza. Queria, porém, os fatos cravados e dados. Sem os pitacos romanceados. Um professor meu que era de Cruzeiro do Sul indicou Tocantins como referência na historiografia do Acre.

Não tive sucesso, naquela fase de precisão. Consegui, não me lembro onde, um trabalho acadêmico muito esclarecedor sobre a ocupação do Acre e foi a partir dele que escrevi, muito oportunamente, uma crônica em meio àquela arenga que tivemos com o presidente da Bolívia, lembram? Foi quando o Evo Morales inticou com a gente dizendo que o Acre havia sido trocado com a Bolívia, por um cavalo.

E eis que estava Bembelebém, viva Belém, numa manhã de domingo, no gozo do lar quando meu sobrinho me chega com os mimos. Havia herdado uns exemplares antigos da biblioteca da família e lembrou de mim. Pensou se eu não queria ficar com alguns. E me trouxe as raridades. Uma coletânea memorável de Bruno de Menezes e uma publicação de 1963 de “Santa Maria do Belém do Grão Pará”, adivinha de quem?

Pois é, do cujo. Leandro Tocantins conta tintim por tintim fatos marcantes da história de Belém. E, o que me chama muita atenção, numa linguagem quase que inocente, desprovida de patrulhas. Apresenta personagens que retratam o poder religioso na figura do Frei Caetano, passando pelo poder político representado por Antônio Lemos. Tem um chamego por Landi indisfarçável que reina creditar ao arquiteto bolonhês, com o mesmo fervor, a criação de obras que vão do mais simples ferrolho do mais escondido casario marginal da Cidade Velha ao desenho delicado da capela de São João Batista. Descreve logradouros, ruas, praças, as festividades, as personalidades, as campanhas religiosas. Dá a receita do tacacá, de banhos de cheiro e sem a menor tremedeira ecológica indica pratos que não podem faltar na mesa do paraense em épocas festivas, em especial o casquinho de muçuã (destaque para a dramática narrativa que faz do “preparo desta maravilhosa iguaria: as tartaruguinhas são postas vivas no panelão de água fervente com sal para obter o cozimento”) e o paxicá (guisado de fígado de tartaruga). Sentencia que não conhece outro jeito de tomar tacacá que não seja na cuia-pitinga ou mesmo na outra, a santarena.

É objetivo e surpreende ao explicar o sentido de cada um dos carros que compõem o cortejo do Círio ou quando desvenda a razão das gravuras inscritas nos quadrantes que formam o Brazão d’Armas de Belém, aquele desenho que a gente vê na lateral dos ônibus.

É um livro robusto, tem cheiro de velhinho, por isso o li do início ao fim, protegido pela mesma máscara que me protege dos negacionistas e do vírus maldito. Tem a minha idade e trata-se do segundo volume.

É uma leitura cativante, temperada de cores e formas, e como já disse, de uma inocência colada a seu tempo, pois que desde que me entendo por gente paraense, tenho pra mim que é pecado mortal comer muçuã. Farofa de tartaruga no casco então, dá no mínimo, uma eternidade de purgatório.

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 19 de setembro de 2021

Crônica da semana - a raposa e as uvas

 A raposa e as uvas

Os dias se entortam, vergam-se em contradição (até granizo deu de chover). Libertam-se de calores e rotinas. Somam-se em entardeceres pardacentos. Aqui, acolá, as cores escondidas no horizonte, como se fossem o carneiro do Pequeno príncipe, dentro da caixa. E a raposa? Sábia, tomando conta do galinheiro, neste Brasil sem prumo. Cheia de histórias e frases de efeito. E as histórias...

Fizemos uma feirinha, suquinhos, biscoitos recheados, um embrulhinho humilde de uvas roxas. E esperamos a caixinha de cores aparecer no horizonte, numa tarde dessas de Belém, cheia de potencialidades. Enquanto o céu não se abria, a gente a bom conversar. As perguntas surgindo. E os desenhos da vida se realizando.

Quando chegou no meu avô, estanquei. Percebi que não sabia nada dele. Conhecia o fato de ser Agente estatístico. Agora, por que foi se bandear para o Acre, sei não. Inventei um causo e liguei a diáspora da família a uma suposta arenga política com o presidente Getúlio. Depois, fazendo as contas certinhas, vi que o resultado não fechava.

Meu papai, apesar de não ter continhas suportando as datas, sei que é da turma da seringa. Daí é fácil. Se não foi pela guerra, a família dele foi dar nas raias ocidentais por causa das primeiras levas de nordestinos que bateram os pés nos barrancos do rio Acre, bem no início do século 20.

O céu é mudo. A caixinha não se mostra. Tardes nubladas, às vezes raios caindo perto e trovões que dão medo. Avalie as cores matizadas. E a conversa flui. Tem a raposa, tem a uva... A gente é responsável por aquilo que cativa.

As plantinhas revigoradas ao pé do batente. Ouvindo tudo. Plenas de água e luz. Percebo que criei uma confusão com os verbos cativar e cultivar. Cá com meus botões entendo ‘cativar’ ter a ver com cativo, aprisionado, sob domínio e controle de alguém. Desconfio da raposa. Aprecio mais o verbo cultivar e o argumento silencioso, pleno de verde que as plantinhas cultivadas ao pé do alpendre me revelam.

Não conheci meu avô de Belém. Sei, virou-se de lado na rede para dar vazão à hemoptise. Pessoas que eu amava muito, da minha família, em um momento ou noutro, e às vezes gozando até de alguma saúde, foram acometidas de crises espantosas de hemoptise. Parece uma coisa! Papai tinha lábios vermelhos de gritos. Toda vez que embarcava um lote de pélas defumadas do puro látex, dava um sorriso satisfeito e a gente reparava nele, os dentes vermelhos. E vinha me beijar. Meu doce vampiro.

Regressou vovô, para Belém, e deixou mamãe acenando e vertendo uma lágrima discreta de saudade e de solidão na beira do barranco lodoso do rio Acre. Mamãe não mais o veria.

Mais adiante, nos juntamos todos, menos o Agente estatístico, num cantinho da Pedreira. Eu gostava de apreciar o movimento da noite com a vovó, no canto da Lomas e não imaginava sequer carneirinho dentro de caixa, que dirá horizonte matizado. Sou mais acreano que paraense. Sou mais seringueiro que Agente estatístico. Sou mamãe na beira do barranco. Sou mais paraense que os onze que se empoleiravam em uma casa de dois cômodos e um mezanino na Vila Mauriti. Danço e canto carimbó que nem os suprimos do Pacovar. Não falo com aquele sotaque estranho e com a desinência em zê dos acreanos: “Ai meu deuzo!”. Fui cativado pelo chiado dos dizeres paraenses. E por esses dias tortos, tô preso! Tô preso na caixinha!

Quando escalei a cordilheira dos Andes, lá na cumeeira do mundo, a 4 mil metros de altitude, meu nariz sangrou. Parece uma coisa! 

 

 

sábado, 11 de setembro de 2021

crônica da semana - não vai perder!

 Não vai perder! (amigos sumidos assim)

Eu já tinha decidido que só faria minhas caminhadas aeróbicas pelo canteiro da Marquês em trecho inteiriço. Naquele estirão que não é cortado por nenhuma rua. É que a turma motorizada, os choferes donos da presepada e da rua toda, não estão nem aí. A galera não respeita. Faz conversão irregular, retorno canhoto. Não dá trela pra quem está caminhando ou de bicicleta.

Acontece que nesta última sessão de sábado, tive que encarar.

O dia tava todo conforme o combinado. A caminhada começou um pouco mais tarde porque pretendia pegar umas informações de um amigo há muito longe e sem notícias. Queria passar na casa da família dele aqui na Pedreira num horário que já estivessem acordados. Mais tarde, mais Trânsito.

É meu amigo de maior data. Nos conhecemos na Aparecida. Alfa, Primeira atrasada, Primeira adiantada. Marcha no dia da raça. Aulas com as professoras Raposo, Ivani, Maria de Jesus, Nazaré Cruz, Iolanda; o bêábá suave, o Ivo viu a uva. As cantigas protocolares “Boa tarde visita como vai/a nossa amizade nunca sai/faremos o possível/ para sermos bons amigos/ boa tarde, visita como vai”. Um Primário inesquecível. Missa com padre Geraldo e passeios no dia das crianças.

Moramos perto. Éramos adversários em grades nos mínimos planos de piçarra que se formavam na Marquês para a pelada do final de tarde. Cada qual dando sangue pela sua rua. A escola deu um tempo em nossa relação. Não estudei no Justo, como meio mundo de moleques da Pedreira. Mais adiante retomamos nossa amizade, nas aulas aterrorizantes de Matemática na Escola Técnica e construímos juntos um pensamento e uma conduta política em saudáveis diálogos tomando sorvete nas calçadas da Duque. Nossa cabeça dava Pi voltas sobre dois enes nessa época. A tensão era uma constante e o futuro uma incógnita ante um regime que ainda teimava dar razões, proporções e regras duras ao Brasil. Nos conjuntos verdades que apareceram durante a abertura política, nos batíamos enfrentando os tomara-que-chova minados de praças, em batalhas renhidas pela meia-passagem. O tempo passou. Constituímos família, descruzamos rumos, rareamos os encontros.

Por últimos, tínhamos um encontro marcado anualmente. Podíamos passar todo o ano sem nos ver, cada qual com o seu cada qual de viver, mas quando dava junho, estávamos lá ao lado do anfiteatro da Praça da República nos completando um ao outro, atualizando a lida, partilhando as mazelas do coração e arriscando um coro ou um passinho da coreografia, em meio à folia do Pavulagem.

Até que veio a pandemia e a treva política que nos envolve. Meu amigo sumiu.

Desde que tomei a segunda dose, pus na cabeça ir atrás de notícias. E deu tudo nos conformes. Falei com a cunhada dele. Ela muito prestativa, me deu caneta, papel. Anotei todos os telefones de contato dele e de pessoas próximas, e ainda me recomendou: “não vai perder! Aí tem tudo que precisas”. Continuei a caminhada. Uma paradinha para atravessar a Alferes Costa, e se deu o sobressalto. Quando o sinal da travessa fechou, reiniciei o trajeto. No meio da travessia, dois motoqueiros cidadãos do bem ostentando bandeirinhas do Brasil no guidão das motos, em manobra irregular dobraram na Alferes. Frearam bruscamente bem pertinho já, e ficaram acelerando. Tive que dar aquele velho pique para não passarem por cima de mim. Na agonia, nem percebi que larguei o papelzinho com os telefones para trás. Cheguei em casa sem.

 

sábado, 4 de setembro de 2021

crônica da semana - as nuvens da pedreira

 As nuvens da Pedreira

Não, olha, que mudou, mudou. Antes era tudo certinho. Chovia de dezembro a junho; em julho ainda aconteciam as pancadas esparsas no decorrer do período; agosto e setembro eram de dias tórridos; outubro chegava com a chuvinha da santa; novembro voltava a esturricar o cocuruto e dezembro começava tudo de novo. Hoje ninguém entende mais nada. O tempo tá um destrambelho só.

Semana passada dei um pulo na rua, de tarde, para atender a uma precisão. Meio-dia e pouco e nem estava tanto calor. Comentei com o motorista do aplicativo a presença de nuvens se formando além e aquém e falei da minha animação em voltar caminhando, caso o céu continuasse daquele jeito, nuveado.

É costume antigo bater perna pelos escaninhos da Pedreira e que foi potencializado nessa pandemia. É regra que, se eu puder realizar qualquer caminho andando, e se o estirão não for muito ao largo do condado da Pedreira, o faço. Já ocorreu até d’eu fazer um bate-volta recorde de distância lá na José Malcher, no pé, e ainda chegar em casa com um super bem acolhido saquinho de pão. Tem um valor revigorante, de cuidado e atenção com a saúde, a caminhada. A gente estica o esqueleto, apura o equilíbrio, ativa os sensores, a intuição, respira com mais qualidade.  E ganha um quê de proteção quando evita contatos sociais, hoje minados de desconfiança, por causa da pandemia (e dos melindres ideológicos-políticos agudizados).

Eis que na semana próxima passada voltei andando mesmo. Após fazer a minha missão, analisei a movimentação das nuvens, a textura, a variação nos tons de cinza e considerei que o sol ia esfriar. Tirei em uma hora e uns caroços até em casa. E pensemos cá, em um tempo limite, no trisca. Foi atravessar a porta com o indefectível embrulhinho de pão e o pampeiro arriou. Causou espanto aquela chuvarada no final da tarde. Pleno agosto.

O mês é cantado e decantado como um dos mais quentes do ano. Nessa época é comum a gente ouvir reclamações dos afogueados. É gente com cara de pupunha nos ônibus, outros gravando vídeos fritando ovos no asfalto. Dá-se como natural, então, o susto com o pampeiro. E eu até tentei fazer uma contagem. Se não perdi a medição, foram pelo menos cinco temporais em agosto, e em alguns casos, com termos e jeitos de cair raios e alagar a cidade.

Fiquei curioso com estas reincidências. Aí fui às pesquisas. E é bom, dá um alento a gente perceber a razão de ser da estatística e dos cronistas (este um aqui, no caso).

Consultei uns números. Pus fé no meu taco que aponta para um comportamento diferente do clima, nos últimos tempos em Belém. É um mecanismo que dá sinais das mudanças climáticas globais, e que se refletem aqui no nosso quintal, na varanda, no alpendre, no céu da Pedreira. Não pecamos quando nos quedamos ao estranhamento. Realmente, o mês de agosto já foi bem diferente. Foi mês de fritar ovo no asfalto mesmo. No entanto, na vera, as experiências recentes mostram uma alteração na incidência de chuva.

E a minha crônica do ano passado confirma esta alteração. Não é um fato que se percebe hoje. Um ano atrás eu chamava atenção, inclusive para essas nuvens se movimentando no meio do dia. Céu plúmbeo, algodoado e denso, com se estivéssemos em fevereiro. É o destrambelho. Uma desordem molhada pleno agosto. Diferente, muito diferente de antigamente quando tudo era muito certinho. Chovia de dezembro a junho e se falava pancadas de chuvas esparsas no decorrer do período... E que passava logo. Vai passar. O destrambelho vai passar.

 

 

 

sábado, 28 de agosto de 2021

crônica da semana - martelinhos martelando

 Milhões de martelinhos martelando

Mas quando que eu, rueiro de marré, vezeiro nas batidas em vãos e desvãos do Veropa, em animadas folgas sabadais, me veria usar o fim de semana para visitas tensas e aborrecidas a laboratórios clínicos e centros de diagnósticos. É, molequinho inho inho. É a idade acossando em altas e sucessivas demandas.

É que no indo e vindo da tragédia histórica que nos consome, deixei mazelinhas comuns se acumularem. O medo de ambientes hospitalares, o ajuntamento em salas de espera, e as difíceis relações sociais que se estabeleceram neste caos, me fizeram esquecer de mim. Agora, com a segunda dose da vacina tomada, e números menos dramáticos registrados na cidade, corro atrás. Não sem sobressaltos.

O mais angustiante foi o dos milhões de martelinhos martelando, só que este desespero, desenrolo em detalhes mais com pouco...

Antes, uma sandice que merece destaque: estava eu com a bexiga por acolá de preparo para uma ultra-sonografia, quando um cidadão do bem raiz entrou no prédio. Logo foi orientado para pôr a máscara. Ruminou, grunhiu, mas cedeu. Fez-se notar. Grandão, cabeleira farta desgrenhada, bermudão de marca e chinela pranchão. Na recepção, questionou tudo. Por que assinar... tem que esperar? E falava alto pra todo mundo ouvir, o que obviamente nos fazia a todos, que estávamos ali em tempo de explodir de água na bexiga, temer perder a vez na força para aquele bruto. A contragosto, sentou e esperou. Não sem provocar dor e apreensão. Ligou o celular no volume mais alto. Era uma manifestação de patriotas a favor do preço da gasolina a 7 Reais, que ao final de um discurso (que, compulsoriamente ouvimos) foi encerrada com o hino da Independência, Ele passeava os olhos intimidadores sobre nós da poltrona em frente como se nos cobrasse reverência. Só não cantou o hino, porque, estou certo, não sabia patavina da letra. A minha valência é que fui o próximo a ser chamado e o primeiro a se livrar daquele patriotismo fora de hora (ora, a gente ali com a bexiga por acolá!). Em tempo: eu sei cantar ao menos a parte mais popular do hino da Independência, e aprecio em particular o verso "Os grilhões serão quebrados/da perfídia astuto ardil”.

Outros martelinhos martelaram no meu cocuruto e pareciam milhões.

Houve um sábado em tive que fazer uma ressonância magnética. Não sabia o procedimento não. Nem maldava ficar enclausurado por tanto tempo. Uma agonia só, visse. Uma hora um silêncio, parece que todo mundo tinha ido embora. Noutro instante, milhões de martelinhos martelando a cabeça, e na sequência uma zoada como a de turbinas de aviões aquecendo. Mais uma vez, silêncio. Eu me aperreava era na hora do silêncio. Beirava o pânico. Ali trancado, enfiado naquele tubo, sem me mexer (sou disciplinado. Quando vou fazer esse tipo de exame já entro na máquina prendendo a respiração, não é preciso nem mandar, e o máximo de movimento que faço é um leve tamborilar nervoso com a falange distal). Neste exame, dentro do tubo, ninguém fala com a gente. Toda vez que eu respirava me vinha a impressão de escangalhar todo o exame e lá se vinham de novo os martelinhos. Eu heim, me afogueei. Quase aciono aquela bolinha que dão pra gente apertar.

E teve outra vez que recebi contraste na veia e ao sair do hospital, meu braço sangrou, e pra completar a derrota, começou a chover. Acreditem : o motora do ônibus parou fora do ponto, me acudiu, me mandou ficar do lado dele, teve cuidado, desviou a rota e foi me deixar em casa. Um patriota sem hino, aquele um.

 

 

 

sábado, 21 de agosto de 2021

crônica da semana - irmão coragem

 Irmão, é preciso coragem

Contava-se por entre as gôndolas, que eles tinham uma fazenda pras bandas de Paragominas e sempre que visitavam a propriedade, antes faziam compras em Belém. O supermercado que eu trabalhava como empacotador (ou boy, como era mais comum chamar a função) era um dos pontos de compras. Não vi Tarcísio e Glória assim de palmo em cima. Fiquei no meu posto e acompanhei de longe a vuca em torno dos artistas. Mas posso dizer que ali, em meados de 1975, tive um encontro com o João Coragem.

A imagem de Tarcísio Meira que marcou muita gente vem da consagrada novela de Janete Clair, que no início dos anos 70 parou o Brasil. O personagem João era símbolo de alguns valores pelos quais a sociedade brasileira, com muita coragem, luta até hoje. Na trama, temas como injustiça, cobiça, relações de interesse, preconceito social e racial eram abordados e canalizados às lutas constantes do núcleo de heróis.

Os sonhos de enriquecimento com diamante, a opressão e a perseguição aos garimpeiros faz da região um lugar dominado pelo malvado coronel Pedro Barros. O roteiro ganha brilho igual ao brilho do diamante que o personagem de Tarcísio Meira encontra e que de tão grande e tão valioso, pode mudar a realidade política e social daquela pequena cidade do Cerrado goiano.

Abordo aqui alguns aspectos da novela, passados 51 anos, com o apoio dos registros em vídeo, em resenhas publicadas, mas segundo minha mãe dizia, naquela época, quando somava pouco mais de 7 anos de idade, eu dominava os capítulos tintim por tintim e ela ficava besta de ver eu contar os episódios em detalhes no dia seguinte para meus coleguinhas da rua que não tinham televisão. Para ela aquela resenha era sinal de esperteza e inteligência. Orgulhava-se ante familiares, vizinhança, amigas do trabalho e exagerava no elogio ao filho que era assim tão “intelixente!”. Note-se que não economizava. Ia além e inventava no fim e na fonética. “Intelixente que só. Sabia contar a novela todinha”.

Não sei da vida do cidadão que fazia compras entre os corredores com cheiro de cebola e sabão em barra, naquele ano em que eu era boy de supermercado, mas do ator...

O talento de Tarcísio, a mim se mostrou em caras e jeitos que surpreenderam. Num dos momentos de maior relevo, precisou ter coragem. Foi quando enfrentou o preconceito e beijou outro homem no cinema. Imagino a reação dos tradicionais em ver o galã, o preferido de dez entre dez mocinhas românticas brasileiras se atracando com Ney Latorraca na cena final de “O beijo no asfalto”. Hoje com os tribunais da internet agindo, seria miudado nas ofensas e ameaças.

Confrontando com o estilo mocinho limpinho e pegador que reinavam imputar-lhe, acho outros quantos personagens que interpretou e que desapontaram os conservadores. A mim me foi absolutamente saudável ver em cena Tarcísio, o atrapalhado, na novela Guerra dos Sexos. Em outra ponta, o ator me causou asco vivendo o pervertido Dom Jerônimo, de A Muralha; e me estimulou a curiosidade, uma espécie de admiração malsã quando rasgou os sertões na pele do bandoleiro Hermógenes.

Em uma cena eletrizante da novela Irmãos Coragem, João sai para um confronto com um dos vilões que almeja tomar-lhe o diamante. Leva a pedra colada ao corpo, protegida. Confunde-se com ela...

Um ator que inspirou, que provocou reflexões sobre padrões de vida e comportamento, que incorporou o galã, o atrapalhado e o sujo, com a mesma grandeza. Brilha agora em outros palcos como o mais aquilatado diamante.

Aplausos!

 

 

sábado, 14 de agosto de 2021

crônica da semana - Vento forte

 Vento forte

Tem acontecido. E eu acho isso tão bom! Ocorreu, outro dia, d’eu acordar cantarolando uma música muito firme, com refrão forte, composta inteirinha no sonho da noite. Só que, como era resultado da fantasia, da feita que tornei para a realidade esqueci tudo (pudera, mas quando já que tenho pegada para composições com refrões fortes! Dá-se que vou continuar sendo um compositor da margem reta, quieta e esquecida).

Agora pela passagem do dia dos pais, aconteceu de novo e foi um espetáculo de não esquecer. A eternidade prazerosa que a música dá causa, em segundos, em instantes que nem sei contar; se ajeita no inconsciente de forma tão justa, que parece milagre de ressurgir e reviver. E olha a moda que este sonho me inventou: partilhei aquela ilusão maravilhosa com o Dhjeymes. E logo numa canção do Fagner das antigas, dos primeiros discos dele: “Vento forte” (como para a boa desenvoltura do Dhjeymes, deveria ser).

Então, o Dhjeymes... Nos conhecemos na Universidade. Era de uma turma de Geologia que eu desembarquei em persistente tentativa, na verdade, a última, de continuar o curso. Nos demos. É um rapazinho adorável. Considerado na TF. E muito pela simpatia e pelo humor refinado. A mim me conquistou exatamente pela música (e também pelo primor na imitação do jurássico implacável Velociraptor, aos moldes das tensões e suspenses do filme). De um tempo em diante passei a me referir a ele como meu contemporâneo, assim por causa de gostos e lembranças musicais comuns. Era antenado nas canções de gerações bem antes da dele. Fazíamos porfias. Eu, mais velho, já além dos quarenta, ia buscar do fundo do baú uma pérola do cancioneiro. Dava uma dica, uma pista, e não é que o pequeno conhecia, dizia o intérprete, o autor, cantava um trechinho.  Era na obra do Chico Buarque, porém, que ele era craque. Sabia tudo. Em algumas porfias, perdi pra ele. Bem justificada a presença do Dhjeymes no meu sonho musical, a calhar, ora se não.

O sonho era assim: eu pegava o violão com gosto, acertava o tom, num Dó natural resoluto e do nada me aparecia o Dhjeymes fazendo um coro comigo, dominando os detalhes melódicos antigos, nostálgicos, carregados de emoção. E cantamos, e cantamos. E eu trocava as notas com uma leveza, com uma certeza harmônica e havia conivência nos olhares e eu admirava aquele garoto e aquela generosidade que ele tinha em me acompanhar, e o carinho que ele demonstrava por mim, por essa arte cristã, humana, de cantarmos juntos. Sonho é sempre assim, absoluto. Composições cósmicas intangíveis donde nenhuma dúvida vinga. Insegurança alguma se cria. Espaço sem dimensão que nos abriga e nos protege no gozo. Sonho é resistência às imperfeições da alma. Às demências do coletivo social que pregam o mal. Sonhar é sinuosidade, é reta torta, oblongada trajetória adimensional, e é canção cujo tom pode ser o menos presunçoso. Um humilde Dó natural. E que já vale. Que te preenche. E que te anima, quando tudo passa, a atravessar o dia todo cantarolando aquela canção. E foi o que eu fiz. No raiar do sol, espiei para a manhã, respirei o dia, tomei um café frugal, corri para o violão e... o sonho acabou.

A realidade mostrou que com mais gosto eu me abraçasse ao violão, não saiu foi nada. Aceitei que sonho é sonho e que eu, acordado, não sabia tocar a canção “Vento forte” do Fagner. Vá lá que seja, perseverei. Tirei o vinil da capa, pus pra rodar no meu três-em-um. E passei o dia todo cantando: “Vento forte/o amor pode ser... É loucura / que me faz te querer demais”.