sábado, 8 de novembro de 2025

crônica da semana - árvores gigantes

 As árvores gigantes do Tumucumaque

Eu aqui fuçando na internet meu próximo destino de turista aventureiro, dei com as expedições realizadas na região do Tumucumaque. Apreciei. Procurei mais material.  Há uma equipe dedicada às pesquisas naquela área e periodicamente eles partem pra lá para atualização de dados. Muitas dessas campanhas são divulgadas na rede. Em mim, quando vejo essas missões cheias de desafios, me bate logo a liga. Rola uma identificação. Esta de monitoramento das árvores gigantes em especial porque, exceto na envergadura porruda por demais das árvores que é fator endêmico, em tudo me é íntima. Por aquelas situações todas, passei. Destaque para a transposição das corredeiras do rio Jari. Enfrentei os mesmos aperreios no Xingu. Havia um trecho do mesmo jeito encachoeirado que, de forma semelhante, vencíamos na rabeta, na perícia do barqueiro e no equilíbrio das traias sobre a cabeça em arrodeios convulsos e pedregosos.

São os ônus do ofício. É por isso que digo: pesquisador, explorador, buscador de conhecimento e razões de vida me inventam cada uma. Se jogam na missão. É categoria que se envolve alheia a temores. Nas minhas vivências no Xingu, experimentei cada parada. Naquele tempo, coisa de 40 anos atrás, a margem direita do Xingu era um ermo só e recheada de barreiras naturais, incluindo aí a incontável legião de carapanãs que, em ataques indefensáveis, literalmente nos empurravam aos limites do juízo.

Embora os obstáculos me fossem comuns e graves, nem do trisca superavam o que passavam as equipes de florestal e hidrologia. Eram abnegados, apaixonados pelo que faziam. As minhas campanhas eram de estágio adiantado, sondagem, mapeamento de detalhe, ensaios geotécnicos. Tinha sempre uma estrutura mínima de deslocamento e acomodação. Transporte de helicóptero, acampamento com cozinha e até retrete. Eles não. A hidrologia vivia enfurnada nos barcos subindo e descendo rios em um emaranhado hidrográfico interminável. Para os pequenos da florestal, era tudo no pé e o acampamento se concentrava nas costas. Rede para descansar e passar a noite, era atada no pé de pau. Com a turma do barco, só me encontrava em raras oportunidades, no escritório, em Altamira. Tinha uma admiração enorme pelo trabalho deles, e eles se apegaram a mim. Tanto que mereci uma cópia do trabalho final da equipe. Um mapa fantástico com o maior acervo de registro de rios do baixo Amazonas. Incrível. Numa escala de bom discernimento e com detalhes fundamentais nos arranjos e comunicação entre furos. Este mapa, tenho até hoje. Está rasgadinho, tem uns remendos com durex e uns encriquilhos. Entretanto, antes do Google maps, é a minha maior e mais segura fonte de pesquisa quando quero saber coisas das beiras longes e do estuário guajarino.

Já a turma de florestal aqui, ali topava comigo. De vez em quando, nas extensas caminhadas que faziam, varavam num acampamento que eu estava. Abrigavam-se por um dia ou horas e eu fazia questão de lhes proporcionar algum conforto. Mas eles eram empedernidos e inquietos. Logo levantavam acampamento e seguiam. Faziam um trabalho admirável. Boa parte do que se conhece das margens do Xingu, ao pegado e abaixo se deve a essa turma de profissionais da Engenharia Florestal. Traçavam malhas reduzidas de caminhamento, e para cada quadrícula aplicavam a metodologia de catalogação das árvores. Mediam diâmetro, altura, envergadura...Tinha a impressão que faziam essa verificação em cada talinho que encontravam no caminho, tal era o nível de amostragem. Inventariavam o potencial da região com esmero e precisão.

Em outros pontos da Amazônia semeiam excelência. Imagino a turma que dominou as alvoroçadas corredeiras do Jari, pôs as traias nas costas, dormiu ao sereno da madrugada. Penso na felicidade quando encontraram um Angelim Vermelho pródigo em encantos distribuídos nos seus 80 metros de altura. Acredito a emoção ser também gigante.

sábado, 1 de novembro de 2025

crônica da semana - a cozinha é minha

 Louça é coisa que rende

Corre à larga que eu era amamãezado. Que por ser o único homem na família, tinha uns descontos, contava com vantagens, no dia a dia, sobre minhas irmãs. Em tudo. É uma opinião que reconheço, mas que não representa toda a verdade. Ali pela infância, adolescência, mamãe nos tratava por igual. Tudo era dividido no justo das partes. Não cozinhávamos, mas o resto, de um tudo fazíamos. Toda a filharada tinha que estudar e apresentar notas boas. E se houvesse oportunidade de ganhar um dinheirinho para a ‘intera’, o time todo ganhava as ruas nas vendas.

Talvez, lá pelos caminhares dos anos 80, período que passava tempos longe de casa, sim. Por essa época era tratado como reizinho quando varava por aqui. Digo até que ficava sem jeito com tanto zelo, com mamãe andando atrás de mim pela casa querendo saber se eu queria um isso, se precisava de um aquilo, se me aprazia tal aquel’outro. Não dispensava mamãe, mas tentava uma esquiva, despistava, o que não a desestimulava das missões de agrado. Nem me cabia aquela atenção toda. Vivia no trecho. Bem dizer sozinho. Tinha a rotina e o costume da solidão e suas regras. É bem verdade que minhas precisões tinham sempre um agente nas respostas, sem que o meu esforço fosse necessário. Em todos os lugares que morei, havia o suporte das empresas que me contratavam. Então, eu não arcava com as obrigações de moradia, alimentação, lavagem de roupa, essas coisas que pautam a vida no comum dos dias. Resultava que, ao chegar em casa, realmente eu me via num descompasso, sem ritmo ou tino para fazer as coisas. Esperava o apoio das meninas, da mamãe, nos dias em que eu por aqui charlasse de férias ou por motivos outros. Naquela época se me desafiassem a fritar um ovo ou lavar uma meia, não dava conta não. Por essa ocasião, ganhei a fama de ser dado a paparicos.

Depois, com a minha família constituída, as crianças crescendo e estabelecido com trabalho em Barcarena, sem mais viajar, fui tomando termo. Na fase em que trabalhei de turno e tinha dias ou parte dos dias livres, cheguei a assumir algumas prendas e a ensaiar talentos (ainda que sob o salgadérrimo e calórico pecado do macarrãozinho com salsicha). Mas veio o tempo de translado para Belém, e do meio pro fim, não parava em casa. A minha vida era atravessar essa baía de manhãnzinha e só voltar à noite. Ganhei novamente distância dos desafios do lar. Perdi a dimensão de um piqueirão de louça pra lavar.

E como se lava louça né. É atividade-fim que não cessa numa casa. Foi-não-foi a pia tá cheia. Constatei a intensa dinâmica do lar, especialmente da cozinha, por agora, quando descalcei as botas. Sou, do ano passado pra cá, o mais presente em casa; e controlador absoluto do meu tempo. Ante minha disponibilidade assumi os afazeres do lar. Até uma hora da tarde, observo (sempre fui contra esse negócio de trabalhar debaixo do solão que faz além do meio-dia. É desumano. Minha tabela não compreende virar torresminho na véspera belemense). Faço de um tudo e numa ordem. Primeira parte da jornada é a limpeza da casa. Inspira-me a lembrança de quando eu trabalhava e a moça da limpeza fazia o roteiro do meu prédio. Procuro fazer do mesmo jeitinho, usando os mesmos equipamentos e produtos. No mesmo horário e todo santo dia.

Depois de descansar um pedacinho, parto para as artes na cozinha.

Daquele filho despreocupado ou do pai provedor sem tempo, quero agora distância. Abraço a causa e de forma tal que tenho lutado para ficar exclusivo nas criações culinárias. Tem ocasião, que antes de me lançar às panelas, vejo alguns vídeos de chefs e especialistas só para me certificar que vou garantir sucesso àquela receita cá com o meu pendor.

Quando acerto e rolam elogios aos meus pratinhos, fico é satisfeito. E animado a conquistar de vera o controle da cozinha mesmo que para isso tenha que, concessivamente, vencer a qualquer tempo (até depois de uma da tarde) o piqueirão de louça. Porque, coisa que rende é louça na pia.

 

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Sem nada

 Sem Nada

 

O brilho tenta ir embora

A luz, pouca luz

Estupra pupilas testemunhas

Com imagens de horror

 

Gritos lançam-se

Gestos lançam-se

Braços fortes-brasis lançam-se

Em desabalada

Desgraçada

Desencantada

Desesperada

Ânsia louca

 

O gatilho deflagra a bala

Que atravessa os corpos

Que dilacera os ossos

Que vara os olhos

Que pulveriza os dentes

Que mutila a alma

 

A bala é um barco navegando

Em rios de sangue

Derrubando castanheiras

Seringais

Chicos Mendes

Seringais, castanheiras

Por terra

Sem terra

Sem nada

 

A bala é um zunido sem dono

Nenhum grito na cidade

O brilho vai embora

As pupilas testemunhas

Fecham-se alagadas

Alguém passa e cospe nos corpos

Esquecidos de nome.

 

 

sábado, 25 de outubro de 2025

crônica da semana - despertador

 Despertador

Agora, vivendo os dias de um senhorzinho aposentado, me pego ainda na teima de acordar cedo. Não curto acordar cedo!

Justifico esta cisma de madrugador garimpando benefícios desta prática. Faço as minhas caminhadas. E, pelo início da manhã é mais friinho, os passarinhos animam a caminhada, o trânsito é rarefeito, dá pra coletar umas mangas que caíram nas ventarolas noturnas, antes da chegada dos catadores profissas; e ainda tem na conta a possibilidade de observar o deslocamento da sombra das árvores, dos postes, dos prédios, com o sol em baixa inclinação, avisando que a Terra é redonda.

Por essas e por outras, mantenho este desafio de acordar cedo. E eu odeio acordar cedo! Já pensei em outras alternativas, mas por enquanto dou vaga à teimosia.

É peleja que regrou meus costumes por longos anos e que criou em mim uma aversão, um entojo, uma ira nada santa, uma inimizade colossal com o despertador. E durante todos esses anos, alimentou em mim um desejo recorrente: espalhar todos os despertadores do mundo no chão e passar um rolo compressor sobre eles. Destruir, esbandalhar tudinho, até não sobrar uma molinha animada sequer. Esta era a minha ilusão de liberdade, de insurreição redentora, de desapego total das dores provocadas pelo desperta-dor. Mas quando que, liberto de bater ponto, me veria sem trégua neste tempo de agora, quando poderia esticar a soneca e não estico. Égua, chega me dá buscar um desatrapalho na mente.

Deixa estar que hoje, o custo nem é tanto. O meu cedo já bate a campa beirando as seis, bem além dos meus últimos anos na ativa quando o zinho tocava aquela música traumatizante no justo das quatro e meia da madrugada. E eu ainda operava no modo de choque. Provocava, deixava o celular tocar fora do meu alcance para forçar que eu me levantasse, me espertasse logo de prima e evitasse aquele velho e tentador ‘touche’ de desativar ainda em meio sono a campainha para dar mais aquele minutinho de morga. Eu é que não confiava. O bicho tocava, eu dava era um pulo e o dia já estava valendo. Do meio pro fim esta tática ficou meio ineficaz e mesmo no modo pavor, eu levantava, mas remancheava, corria pro sofá, reinava recostar a cabeça e apelava para a resistência. A um custo, mas mantendo a opinião, partia para passar um café quentinho. Fui levando na força e na coragem, até sentir que aquilo não dava mais para mim. Recorri a lenitivos. Adotei a regra do sono interrompido. Na luta, seguia. Tomava café, me arrumava, punha o uniforme, a bota, supria a mochila, ganhava o rumo do porto. A lancha para Barcarena saía às 6 e meia. Em toda a minha história nessa travessia, o tempo de viagem até o trabalho era dedicado à leitura. Deu-se que aos quarenta e cinco do segundo tempo, com o argumento do sono interrompido (não mais um despertar completo), abandonei a leitura matinal, e dei pra tirar um soninho de 45 a 50 minutos, na viagem. Para mim, significava continuar o barato daquela soneca boa das 4 e meia cortado pela gasguitagem do desperta-dor. O efeito colateral do cansaço foi que passei a ler menos. E aí, rapazinho, foi um prejó. Senti falta, magoei.

Passou. Dei baixa na carteira, entrei para o time dos aposentados e tenho o tempo, a vez, do jeito que bem entenda. Adeus despertador.

Quite! Logo nos primeiros dias, o que fiz foi dar um adianto porque 4 e meia não é um horário que indique alguma lucidez num cristão avesso a penitências (e também porque não me apraz acordar cedo). Calibrei para as seis horas que, embora não seja um horário que um aposentado se obrigue a acordar, não dói tanto; e lá s’estava eu levantando de novo ao som do desditoso despertador. De igual maneira. Modo pavor. Ô sina, que resignado aceito! Entretanto, vendo assim por outro lado, a contemplação da aurora me dá uma ocupação nesta minha fase de desocupado e não deixa morrer em mim o desejo de esmigalhar os aparelhos despertadores e seus traumatizantes cocoricós tudinho debaixo de um rolo compressor.

sábado, 18 de outubro de 2025

crônica da semana - quitanda bacana

 A quitanda bacana

Fez sucesso um personagem interpretado por Jô Soares que arremedava o ministro da Agricultura, ali pelos estertores da ditadura civil-militar instalada no Brasil. Teve seu quê de prosaica a parecência, pela formação do político nomeado. O ministro era o Delfim Neto, tido e havido até os últimos dos seus dias como economista influente. A graça na paródia consistia exatamente neste aspecto inusitado de um especialista de uma área exercer o comando das ações de governo em outra área. Corria à larga que, como Economista, Delfim dominava argumentos e defendia dogmas capitalistas regrando o destino do Brasil, mas de agricultura não entendia piriricas. Não raro, o programa apresentava esquetes com o arremedado ministro chamando abacaxi de abóbora, banana de maçã, confundindo alhos com bugalhos. Com a cara mais deslambida, descrevia campos cultiváveis da forma mais equivocada possível ou trocava josé por cazuza na previsão das safras.

Aconteceu com a gente, também por aquela época, não por conveniências políticas e sim pela mais urgente das necessidades.

É imperativo que eu lembre toda vez. A ditadura não aliviava o lombo do pobre. Não havia Bolsa Família, SUS, políticas inclusivas. O pobre tinha que se virar. E a gente corria atrás. Vivia da graça de Deus, das nossas lutas diárias. Minha mãe era incansável para pôr o di cumê dentro de casa. Se agarrava a todas as oportunidades. Foi numa dessas que entrou para o negócio de hortifrúti, sem dominar um tico os detalhes deste empreendimento.

Apesar de não ser a nossa praia, ousou. Alugou um ponto em área nobre da Marquês de Herval e montou uma quitanda. Viveu a rotina das compras de madrugada na Ceasa. Contava com nossa ajuda, os di menor. Fazíamos horário na venda. Todo mundo acumulava outra coisa para ganhar um tutu, então o revezamento era necessário. O que pegou mesmo era que não tínhamos as manhas. Tratávamos os produtos como os tratava o Delfim, com o total desconhecimento de causa. Não sabíamos avaliar a qualidade. Não entendíamos a montagem do lote de verduras e legumes para o cozidão, e também, falhávamos em colocar o preço no que ofertávamos. O que deu foi que duramos pouco naquele lugar privilegiado da avenida. Custos altos de aluguel e tal e coisa. Desalugamos.

Mamãe não desistiu do ramo. Dizia que dava. Nós é que não tínhamos acertado no prumo. Morávamos na última casa da Vila Mauriti, o que nos proporcionava uma frente com pequena área livre para explorar, além do nosso batente. Foi só recolher uns trocados, mamãe montou uma estrutura de madeira, um estrado como balcão, voltou a madrugar na Ceasa e retomou a quitanda nos fundos da vila...

Outro dia, visitei um condomínio classe média que tinha tipo uma mercearia montada em um espaço comum. Uma conveniência. Tem de um tudo, até hortifrúti. Não tem ninguém pra atender lá. O freguês entra, escolhe os produtos, vai à maquininha e faz o pagamento. Tudo no fio do bigode. Na confiança. Tem gente que se espanta quando vê o reto tipo de comportamento do cliente. Menos eu. Mamãe já havia inaugurado esta parceria com o freguês, lá atrás na vila Mauriti...

Como havíamos quebrado feio no empreendimento anterior, agora o esforço era turbinado. Dava a luz do dia e todo mundo saía para uma atividade que gerasse um dinheirinho. O ganho tinha que multiplicar para reparar as perdas. O efeito dessa lida era que não dava pra ficar ninguém tomando conta da quitanda. Mamãe ousada. Antes de sair, montava a barraca com o que tinha. Já com algum macete, expunha em destaque as frutas e verduras mais vistosas, penduradas ou em espaços elevados no estrado. No canto, uma caixinha com um dinheirinho pra troco. Os moradores da vila ou da rua mesmo iam lá, pegavam o que queriam, somavam a conta, iam à caixa, faziam a quita, pegavam o troco se fosse o caso e iam embora. Igual à quitanda bacana de hoje, instalada no condomínio classe média.

 

sábado, 11 de outubro de 2025

crônica da semana- Círio, minhas saudades

 O Círio, minhas saudades

De lembrar mesmo, por agora não lembro o que arrumei naqueles dias para responder com aquela reação de alívio. Para aquietar-me imerso no abrandamento, no conforto da alma, e da devoção. A Santa estava passando na Augusto Montenegro.

O que me volta assim, dos esmigalhos da memória é a aventura de viajar de Barcarena para Belém no mais afogueado dos dias que acontecem ao pegado da grande romaria.

E tinha também um peru.

Isso, um peru. Mimo atemporal, deslocadíssimo de data e de festa, ofertado à minha patota de operários pelo transnacional empresariado instalado no pólo industrial, como um agrado para acalmar os ânimos que andavam era acirrados naquela beirada de rio. Peru em princípio congelado, mas que não resistiu àquela jornada composta de esperas intermináveis por passagem para a travessia, disponibilidade de popopôs, oportunidade de embarcar no ritmo lotou/saiu. Uma lida exposta aos humores tórridos da ‘primavera amazônica’, ao aglomerado abafado das filas no porto, e depois, ao forno nosso de cada dia dentro do ônibus, desde o Veropa até o entorno do Mangueirão. Mais de dez horas nesse translado. Resultado: o bichinho descongelou de forma que ficou até sentido. Quando bati o pé na porta de casa, estava era esverdeando já.

Mancada minha. Pela grandiosidade do evento, tradição e pelos compromissos afetivos, eu deveria ter programado melhor a vinda para Belém, me ajeitado nos cuidados que o momento exigia. Já, já eu lembro o que houve para que me arriscasse tanto, a tempo de perder o peru e quase perder a passagem da Santa no rumo do trapiche de Icoaraci. O que se tira e guarda é que na manhã do sábado, desopilado dos aperreios eu estava rente como pão quente na beira da pista, cedo, antes do clarear do dia, só esperando a Santa passar. Com o espírito leve e muito emocionado.

Vivia um reencontro. Depois de mais de dez anos virando e mexendo pelos rincões amazônicos, envolvido em outubros solitários, estava de volta ao colo da minha cidade e da minha Santinha. Aquela espera ali na beira da calçada tinha um significado enorme, traduzia uma força inexplicável, mas auditável. Aqueles instantes reeditavam os experimentos até bem pouco tempo apartados, desgarrados de mim. Era uma mistura incrível de sensações e lembranças. Família, infância, maçã do amor, mamãe rezando com uma vela acesa no vago da pernamanca que marcava a parede da cozinha, arraial, carrossel, maniçoba, roque-roque, a saudação ao fim do expediente de sexta-feira, “Feliz Círio”; promessas assumidas a cada nó na fitinha... Todas essas dádivas, ações e cenários que quando a gente está longe, fazem falta que só...

É fato, caminho que trilhei, triscas na consciência... a dita e indefensável saudade. Que vinha responder na minha pele de seringueiro, na minha voz pedreirense, nos meus modos de menino que vivia no mundo e que, aos anúncios de outubro ficava num pé e n’outro, inundado de ausências. Sentia falta de tudo o quanto de realiza no coração nazareno de Belém. Por mais de dez anos, quando deu, acompanhei o Círio apenas pelos flashes da TV.

Ah, bem a calhar, lembrei. Não consegui chegar com a tranquilidade que eu queria. Me dei a aperreios exatamente porque tive que ficar em Barcarena até a batida da campa. Houve de o destino me reservar lugar no front, como dirigente sindical, para o Acordo Coletivo. E estava era remosa a negociação. Tivemos reuniões tensas até as vésperas do Círio. O galo estava duro de cozinhar. Sem consenso. Como estratégia os transnacionais nos ofertaram o peru. Suspendemos as reuniões, indignados. Teríamos desde a sexta, uma distensão. Necessária. Apesar dos solavancos, cheguei a tempo.

Esperava a Santa, alinhado com os traçados que me possibilitaram um Círio em Belém depois de um tempão fora. Espírito abrandado, encontrei a Santinha ali na Augusto Montenegro. Depois daquele dia, não mais faltei a nenhum encontro com Ela.

 

 

 

 

 

sábado, 4 de outubro de 2025

crônica da semana - Quem vê cara...

 Quem vê cara...

Dia desses me permiti uma extravagância e fui atrás de um meio quilinho de carne de primeira para o almoço. Não sou íntimo de cortes mais aqueles de qualidade, sou do tempo da pá só com o osso da peça. Ainda bem que o comércio é criativo...

(O coração, lá dentro da gente, bem guardadinho no peito, abriga o que temos de naturalmente bom. Ou de ruim. Para mirar o prumo e o caráter dos nossos escondidos, há de se revelar exteriormente o que verdadeiramente somos. Mas quando que a gente faz isso! Não revela. Caprichamos em caras e bocas, preferimos dissimulações, despistes. Na vera, de palmo em cima, a gente demanda um custo, para se mostrar. Isso, quando se mostra. Fica a máxima: quem vê cara, não vê coração. Arrisco dizer que esta afirmação vale pra tudo. A face exposta de um restaurante, por exemplo, é um salão amplo, limpo, decorado. O coração do restaurante é a cozinha. Não somos dados a visitar o ambiente onde os alimentos são manipulados. Dá-se o mesmo com supermercados, lojas de departamento, agências de serviços e outros estabelecimentos. E também não tem nem por onde, né, a gente ficar abelhudando. Agimos na fé, na confiança. Até que se evidenciem dados em contrário, acreditamos na credibilidade dos atendimentos. E o que os operadores de comércio e serviço se esmeram em nos mostrar, abona este entendimento. Tem estabelecimento que a gente frequenta que parece estar empoado na mais agradável fragância, lavado e enxaguado na regra máxima do zelo e da assepsia. Mas aí, quem entra pra avacalhar tudo? Nós e nossa educação pirenta).

... Ocorreu que varei num balcão operado no modelo de auto-atendimento, no espaço do açougue. Bem ajeitadinho. Um freezer composto por três baias dispostas lado a lado. Em cada uma, um tipo de carne cortada do jeito de bife. Um abrigo em suporte refrigerado com portas de correr e boa vedação. Na parte externa, uma caixinha contendo luvas plásticas para serem usadas pelo cliente na hora da escolha do bife de sua preferência. Estava no jeito pra mim, pouco entendedor. Olhei na placa de identificação e localizei a baia que me interessava. Nisso, virei o olhar para outra precisão doméstica e me desliguei daquele balcão. Quando voltei, o cliente sujismundinho já estava lá fazendo as nojeiras dele e avacalhando com tudo.

O cidadão abriu toda a porta do freezer, expôs as baias, postou-se quase que inteiramente sobre aquele espaço. Sem luvas e sem pudor algum se danou a manipular o grupo de carnes da baia lateral. Destacava um pedaço, esfregava com as duas mãos, espreitava detalhes e após a sondagem tátil-visual, descartava. Pegava outra fatia, descartava. Nós que nos aproximávamos, olhávamos aquilo, atônitos. Já se alongava nas análises e não havia escolhido para si, um único naco. Só se adiantava naquela porquice. E mais, após descartar os bocados, os lançava na baia do meio. Fazia uma mistura de qualidades diferentes e reproduzia a porcariada que fazia nas outras carnes.

Pra gente ver né, quem visse aquele senhor de semblante sereno e cara de vovozinho brincalhão na rua ou em outro lugar, não maldaria que seria uma pessoa sem a mínima contenção social, sem o menor senso de responsabilidade com a higiene, ou com as mais básicas das condutas sanitárias. Quem vê cara...

O coração dele se revelou em uma sujidade tirana. Incitava náusea. Quem estava na vez, desistiu. Alguns fregueses relataram o ocorrido ao gerente e pediram a retirada do produto do balcão.

Não sei se retiraram, não sei se revisaram aquele modo de ofertar o produto. Não tenho reincidido em extravagâncias. Tenho declinado heroicamente de desejos que envolvam carnes de primeira, pá só com o osso da peça, que seja, ofertadas em pontos de auto-atendimento. Quantos passam por ali e fazem a mesma coisa sem nosso testemunho... Revelam o corrompido coração.