sábado, 18 de outubro de 2025

crônica da semana - quitanda bacana

 A quitanda bacana

Fez sucesso um personagem interpretado por Jô Soares que arremedava o ministro da Agricultura, ali pelos estertores da ditadura civil-militar instalada no Brasil. Teve seu quê de prosaica a parecência, pela formação do político nomeado. O ministro era o Delfim Neto, tido e havido até os últimos dos seus dias como economista influente. A graça na paródia consistia exatamente neste aspecto inusitado de um especialista de uma área exercer o comando das ações de governo em outra área. Corria à larga que, como Economista, Delfim dominava argumentos e defendia dogmas capitalistas regrando o destino do Brasil, mas de agricultura não entendia piriricas. Não raro, o programa apresentava esquetes com o arremedado ministro chamando abacaxi de abóbora, banana de maçã, confundindo alhos com bugalhos. Com a cara mais deslambida, descrevia campos cultiváveis da forma mais equivocada possível ou trocava josé por cazuza na previsão das safras.

Aconteceu com a gente, também por aquela época, não por conveniências políticas e sim pela mais urgente das necessidades.

É imperativo que eu lembre toda vez. A ditadura não aliviava o lombo do pobre. Não havia Bolsa Família, SUS, políticas inclusivas. O pobre tinha que se virar. E a gente corria atrás. Vivia da graça de Deus, das nossas lutas diárias. Minha mãe era incansável para pôr o di cumê dentro de casa. Se agarrava a todas as oportunidades. Foi numa dessas que entrou para o negócio de hortifrúti, sem dominar um tico os detalhes deste empreendimento.

Apesar de não ser a nossa praia, ousou. Alugou um ponto em área nobre da Marquês de Herval e montou uma quitanda. Viveu a rotina das compras de madrugada na Ceasa. Contava com nossa ajuda, os di menor. Fazíamos horário na venda. Todo mundo acumulava outra coisa para ganhar um tutu, então o revezamento era necessário. O que pegou mesmo era que não tínhamos as manhas. Tratávamos os produtos como os tratava o Delfim, com o total desconhecimento de causa. Não sabíamos avaliar a qualidade. Não entendíamos a montagem do lote de verduras e legumes para o cozidão, e também, falhávamos em colocar o preço no que ofertávamos. O que deu foi que duramos pouco naquele lugar privilegiado da avenida. Custos altos de aluguel e tal e coisa. Desalugamos.

Mamãe não desistiu do ramo. Dizia que dava. Nós é que não tínhamos acertado no prumo. Morávamos na última casa da Vila Mauriti, o que nos proporcionava uma frente com pequena área livre para explorar, além do nosso batente. Foi só recolher uns trocados, mamãe montou uma estrutura de madeira, um estrado como balcão, voltou a madrugar na Ceasa e retomou a quitanda nos fundos da vila...

Outro dia, visitei um condomínio classe média que tinha tipo uma mercearia montada em um espaço comum. Uma conveniência. Tem de um tudo, até hortifrúti. Não tem ninguém pra atender lá. O freguês entra, escolhe os produtos, vai à maquininha e faz o pagamento. Tudo no fio do bigode. Na confiança. Tem gente que se espanta quando vê o reto tipo de comportamento do cliente. Menos eu. Mamãe já havia inaugurado esta parceria com o freguês, lá atrás na vila Mauriti...

Como havíamos quebrado feio no empreendimento anterior, agora o esforço era turbinado. Dava a luz do dia e todo mundo saía para uma atividade que gerasse um dinheirinho. O ganho tinha que multiplicar para reparar as perdas. O efeito dessa lida era que não dava pra ficar ninguém tomando conta da quitanda. Mamãe ousada. Antes de sair, montava a barraca com o que tinha. Já com algum macete, expunha em destaque as frutas e verduras mais vistosas, penduradas ou em espaços elevados no estrado. No canto, uma caixinha com um dinheirinho pra troco. Os moradores da vila ou da rua mesmo iam lá, pegavam o que queriam, somavam a conta, iam à caixa, faziam a quita, pegavam o troco se fosse o caso e iam embora. Igual à quitanda bacana de hoje, instalada no condomínio classe média.

 

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