A quitanda bacana
Fez
sucesso um personagem interpretado por Jô Soares que arremedava o ministro da
Agricultura, ali pelos estertores da ditadura civil-militar instalada no
Brasil. Teve seu quê de prosaica a parecência, pela formação do político
nomeado. O ministro era o Delfim Neto, tido e havido até os últimos dos seus
dias como economista influente. A graça na paródia consistia exatamente neste
aspecto inusitado de um especialista de uma área exercer o comando das ações de
governo em outra área. Corria à larga que, como Economista, Delfim dominava
argumentos e defendia dogmas capitalistas regrando o destino do Brasil, mas de
agricultura não entendia piriricas. Não raro, o programa apresentava esquetes
com o arremedado ministro chamando abacaxi de abóbora, banana de maçã,
confundindo alhos com bugalhos. Com a cara mais deslambida, descrevia campos
cultiváveis da forma mais equivocada possível ou trocava josé por cazuza na
previsão das safras.
Aconteceu
com a gente, também por aquela época, não por conveniências políticas e sim
pela mais urgente das necessidades.
É
imperativo que eu lembre toda vez. A ditadura não aliviava o lombo do pobre. Não
havia Bolsa Família, SUS, políticas inclusivas. O pobre tinha que se virar. E a
gente corria atrás. Vivia da graça de Deus, das nossas lutas diárias. Minha mãe
era incansável para pôr o di cumê dentro de casa. Se agarrava a todas as
oportunidades. Foi numa dessas que entrou para o negócio de hortifrúti, sem dominar
um tico os detalhes deste empreendimento.
Apesar
de não ser a nossa praia, ousou. Alugou um ponto em área nobre da Marquês de
Herval e montou uma quitanda. Viveu a rotina das compras de madrugada na Ceasa.
Contava com nossa ajuda, os di menor. Fazíamos horário na venda. Todo mundo
acumulava outra coisa para ganhar um tutu, então o revezamento era necessário.
O que pegou mesmo era que não tínhamos as manhas. Tratávamos os produtos como
os tratava o Delfim, com o total desconhecimento de causa. Não sabíamos avaliar
a qualidade. Não entendíamos a montagem do lote de verduras e legumes para o
cozidão, e também, falhávamos em colocar o preço no que ofertávamos. O que deu
foi que duramos pouco naquele lugar privilegiado da avenida. Custos altos de
aluguel e tal e coisa. Desalugamos.
Mamãe
não desistiu do ramo. Dizia que dava. Nós é que não tínhamos acertado no prumo.
Morávamos na última casa da Vila Mauriti, o que nos proporcionava uma frente com
pequena área livre para explorar, além do nosso batente. Foi só recolher uns
trocados, mamãe montou uma estrutura de madeira, um estrado como balcão, voltou
a madrugar na Ceasa e retomou a quitanda nos fundos da vila...
Outro
dia, visitei um condomínio classe média que tinha tipo uma mercearia montada em
um espaço comum. Uma conveniência. Tem de um tudo, até hortifrúti. Não tem
ninguém pra atender lá. O freguês entra, escolhe os produtos, vai à maquininha
e faz o pagamento. Tudo no fio do bigode. Na confiança. Tem gente que se
espanta quando vê o reto tipo de comportamento do cliente. Menos eu. Mamãe já
havia inaugurado esta parceria com o freguês, lá atrás na vila Mauriti...
Como havíamos quebrado feio no empreendimento anterior, agora o esforço era turbinado. Dava a luz do dia e todo mundo saía para uma atividade que gerasse um dinheirinho. O ganho tinha que multiplicar para reparar as perdas. O efeito dessa lida era que não dava pra ficar ninguém tomando conta da quitanda. Mamãe ousada. Antes de sair, montava a barraca com o que tinha. Já com algum macete, expunha em destaque as frutas e verduras mais vistosas, penduradas ou em espaços elevados no estrado. No canto, uma caixinha com um dinheirinho pra troco. Os moradores da vila ou da rua mesmo iam lá, pegavam o que queriam, somavam a conta, iam à caixa, faziam a quita, pegavam o troco se fosse o caso e iam embora. Igual à quitanda bacana de hoje, instalada no condomínio classe média.
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