sábado, 11 de outubro de 2025

crônica da semana- Círio, minhas saudades

 O Círio, minhas saudades

De lembrar mesmo, por agora não lembro o que arrumei naqueles dias para responder com aquela reação de alívio. Para aquietar-me imerso no abrandamento, no conforto da alma, e da devoção. A Santa estava passando na Augusto Montenegro.

O que me volta assim, dos esmigalhos da memória é a aventura de viajar de Barcarena para Belém no mais afogueado dos dias que acontecem ao pegado da grande romaria.

E tinha também um peru.

Isso, um peru. Mimo atemporal, deslocadíssimo de data e de festa, ofertado à minha patota de operários pelo transnacional empresariado instalado no pólo industrial, como um agrado para acalmar os ânimos que andavam era acirrados naquela beirada de rio. Peru em princípio congelado, mas que não resistiu àquela jornada composta de esperas intermináveis por passagem para a travessia, disponibilidade de popopôs, oportunidade de embarcar no ritmo lotou/saiu. Uma lida exposta aos humores tórridos da ‘primavera amazônica’, ao aglomerado abafado das filas no porto, e depois, ao forno nosso de cada dia dentro do ônibus, desde o Veropa até o entorno do Mangueirão. Mais de dez horas nesse translado. Resultado: o bichinho descongelou de forma que ficou até sentido. Quando bati o pé na porta de casa, estava era esverdeando já.

Mancada minha. Pela grandiosidade do evento, tradição e pelos compromissos afetivos, eu deveria ter programado melhor a vinda para Belém, me ajeitado nos cuidados que o momento exigia. Já, já eu lembro o que houve para que me arriscasse tanto, a tempo de perder o peru e quase perder a passagem da Santa no rumo do trapiche de Icoaraci. O que se tira e guarda é que na manhã do sábado, desopilado dos aperreios eu estava rente como pão quente na beira da pista, cedo, antes do clarear do dia, só esperando a Santa passar. Com o espírito leve e muito emocionado.

Vivia um reencontro. Depois de mais de dez anos virando e mexendo pelos rincões amazônicos, envolvido em outubros solitários, estava de volta ao colo da minha cidade e da minha Santinha. Aquela espera ali na beira da calçada tinha um significado enorme, traduzia uma força inexplicável, mas auditável. Aqueles instantes reeditavam os experimentos até bem pouco tempo apartados, desgarrados de mim. Era uma mistura incrível de sensações e lembranças. Família, infância, maçã do amor, mamãe rezando com uma vela acesa no vago da pernamanca que marcava a parede da cozinha, arraial, carrossel, maniçoba, roque-roque, a saudação ao fim do expediente de sexta-feira, “Feliz Círio”; promessas assumidas a cada nó na fitinha... Todas essas dádivas, ações e cenários que quando a gente está longe, fazem falta que só...

É fato, caminho que trilhei, triscas na consciência... a dita e indefensável saudade. Que vinha responder na minha pele de seringueiro, na minha voz pedreirense, nos meus modos de menino que vivia no mundo e que, aos anúncios de outubro ficava num pé e n’outro, inundado de ausências. Sentia falta de tudo o quanto de realiza no coração nazareno de Belém. Por mais de dez anos, quando deu, acompanhei o Círio apenas pelos flashes da TV.

Ah, bem a calhar, lembrei. Não consegui chegar com a tranquilidade que eu queria. Me dei a aperreios exatamente porque tive que ficar em Barcarena até a batida da campa. Houve de o destino me reservar lugar no front, como dirigente sindical, para o Acordo Coletivo. E estava era remosa a negociação. Tivemos reuniões tensas até as vésperas do Círio. O galo estava duro de cozinhar. Sem consenso. Como estratégia os transnacionais nos ofertaram o peru. Suspendemos as reuniões, indignados. Teríamos desde a sexta, uma distensão. Necessária. Apesar dos solavancos, cheguei a tempo.

Esperava a Santa, alinhado com os traçados que me possibilitaram um Círio em Belém depois de um tempão fora. Espírito abrandado, encontrei a Santinha ali na Augusto Montenegro. Depois daquele dia, não mais faltei a nenhum encontro com Ela.

 

 

 

 

 

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