O Círio, minhas saudades
De
lembrar mesmo, por agora não lembro o que arrumei naqueles dias para responder
com aquela reação de alívio. Para aquietar-me imerso no abrandamento, no
conforto da alma, e da devoção. A Santa estava passando na Augusto Montenegro.
O
que me volta assim, dos esmigalhos da memória é a aventura de viajar de
Barcarena para Belém no mais afogueado dos dias que acontecem ao pegado da
grande romaria.
E
tinha também um peru.
Isso,
um peru. Mimo atemporal, deslocadíssimo de data e de festa, ofertado à minha patota
de operários pelo transnacional empresariado instalado no pólo industrial, como
um agrado para acalmar os ânimos que andavam era acirrados naquela beirada de
rio. Peru em princípio congelado, mas que não resistiu àquela jornada composta
de esperas intermináveis por passagem para a travessia, disponibilidade de
popopôs, oportunidade de embarcar no ritmo lotou/saiu. Uma lida exposta aos
humores tórridos da ‘primavera amazônica’, ao aglomerado abafado das filas no
porto, e depois, ao forno nosso de cada dia dentro do ônibus, desde o Veropa
até o entorno do Mangueirão. Mais de dez horas nesse translado. Resultado: o
bichinho descongelou de forma que ficou até sentido. Quando bati o pé na porta
de casa, estava era esverdeando já.
Mancada
minha. Pela grandiosidade do evento, tradição e pelos compromissos afetivos, eu
deveria ter programado melhor a vinda para Belém, me ajeitado nos cuidados que
o momento exigia. Já, já eu lembro o que houve para que me arriscasse tanto, a
tempo de perder o peru e quase perder a passagem da Santa no rumo do trapiche
de Icoaraci. O que se tira e guarda é que na manhã do sábado, desopilado dos
aperreios eu estava rente como pão quente na beira da pista, cedo, antes do
clarear do dia, só esperando a Santa passar. Com o espírito leve e muito
emocionado.
Vivia
um reencontro. Depois de mais de dez anos virando e mexendo pelos rincões
amazônicos, envolvido em outubros solitários, estava de volta ao colo da minha
cidade e da minha Santinha. Aquela espera ali na beira da calçada tinha um
significado enorme, traduzia uma força inexplicável, mas auditável. Aqueles
instantes reeditavam os experimentos até bem pouco tempo apartados, desgarrados
de mim. Era uma mistura incrível de sensações e lembranças. Família, infância,
maçã do amor, mamãe rezando com uma vela acesa no vago da pernamanca que
marcava a parede da cozinha, arraial, carrossel, maniçoba, roque-roque, a
saudação ao fim do expediente de sexta-feira, “Feliz Círio”; promessas
assumidas a cada nó na fitinha... Todas essas dádivas, ações e cenários que quando
a gente está longe, fazem falta que só...
É
fato, caminho que trilhei, triscas na consciência... a dita e indefensável
saudade. Que vinha responder na minha pele de seringueiro, na minha voz pedreirense,
nos meus modos de menino que vivia no mundo e que, aos anúncios de outubro
ficava num pé e n’outro, inundado de ausências. Sentia falta de tudo o quanto
de realiza no coração nazareno de Belém. Por mais de dez anos, quando deu,
acompanhei o Círio apenas pelos flashes da TV.
Ah,
bem a calhar, lembrei. Não consegui chegar com a tranquilidade que eu queria. Me
dei a aperreios exatamente porque tive que ficar em Barcarena até a batida da
campa. Houve de o destino me reservar lugar no front, como dirigente sindical,
para o Acordo Coletivo. E estava era remosa a negociação. Tivemos reuniões
tensas até as vésperas do Círio. O galo estava duro de cozinhar. Sem consenso.
Como estratégia os transnacionais nos ofertaram o peru. Suspendemos as
reuniões, indignados. Teríamos desde a sexta, uma distensão. Necessária. Apesar
dos solavancos, cheguei a tempo.
Esperava
a Santa, alinhado com os traçados que me possibilitaram um Círio em Belém
depois de um tempão fora. Espírito abrandado, encontrei a Santinha ali na
Augusto Montenegro. Depois daquele dia, não mais faltei a nenhum encontro com
Ela.
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