Despertador
Agora,
vivendo os dias de um senhorzinho aposentado, me pego ainda na teima de acordar
cedo. Não curto acordar cedo!
Justifico
esta cisma de madrugador garimpando benefícios desta prática. Faço as minhas
caminhadas. E, pelo início da manhã é mais friinho, os passarinhos animam a
caminhada, o trânsito é rarefeito, dá pra coletar umas mangas que caíram nas
ventarolas noturnas, antes da chegada dos catadores profissas; e ainda tem na
conta a possibilidade de observar o deslocamento da sombra das árvores, dos
postes, dos prédios, com o sol em baixa inclinação, avisando que a Terra é
redonda.
Por
essas e por outras, mantenho este desafio de acordar cedo. E eu odeio acordar
cedo! Já pensei em outras alternativas, mas por enquanto dou vaga à teimosia.
É
peleja que regrou meus costumes por longos anos e que criou em mim uma aversão,
um entojo, uma ira nada santa, uma inimizade colossal com o despertador. E
durante todos esses anos, alimentou em mim um desejo recorrente: espalhar todos
os despertadores do mundo no chão e passar um rolo compressor sobre eles.
Destruir, esbandalhar tudinho, até não sobrar uma molinha animada sequer. Esta
era a minha ilusão de liberdade, de insurreição redentora, de desapego total
das dores provocadas pelo desperta-dor. Mas quando que, liberto de bater ponto,
me veria sem trégua neste tempo de agora, quando poderia esticar a soneca e não
estico. Égua, chega me dá buscar um desatrapalho na mente.
Deixa
estar que hoje, o custo nem é tanto. O meu cedo já bate a campa beirando as
seis, bem além dos meus últimos anos na ativa quando o zinho tocava aquela
música traumatizante no justo das quatro e meia da madrugada. E eu ainda
operava no modo de choque. Provocava, deixava o celular tocar fora do meu
alcance para forçar que eu me levantasse, me espertasse logo de prima e
evitasse aquele velho e tentador ‘touche’ de desativar ainda em meio sono a
campainha para dar mais aquele minutinho de morga. Eu é que não confiava. O
bicho tocava, eu dava era um pulo e o dia já estava valendo. Do meio pro fim esta
tática ficou meio ineficaz e mesmo no modo pavor, eu levantava, mas
remancheava, corria pro sofá, reinava recostar a cabeça e apelava para a
resistência. A um custo, mas mantendo a opinião, partia para passar um café
quentinho. Fui levando na força e na coragem, até sentir que aquilo não dava
mais para mim. Recorri a lenitivos. Adotei a regra do sono interrompido. Na
luta, seguia. Tomava café, me arrumava, punha o uniforme, a bota, supria a
mochila, ganhava o rumo do porto. A lancha para Barcarena saía às 6 e meia. Em
toda a minha história nessa travessia, o tempo de viagem até o trabalho era
dedicado à leitura. Deu-se que aos quarenta e cinco do segundo tempo, com o
argumento do sono interrompido (não mais um despertar completo), abandonei a
leitura matinal, e dei pra tirar um soninho de 45 a 50 minutos, na viagem. Para
mim, significava continuar o barato daquela soneca boa das 4 e meia cortado
pela gasguitagem do desperta-dor. O efeito colateral do cansaço foi que passei
a ler menos. E aí, rapazinho, foi um prejó. Senti falta, magoei.
Passou.
Dei baixa na carteira, entrei para o time dos aposentados e tenho o tempo, a
vez, do jeito que bem entenda. Adeus despertador.
Quite! Logo nos primeiros dias, o que fiz foi dar um adianto porque 4 e meia não é um horário que indique alguma lucidez num cristão avesso a penitências (e também porque não me apraz acordar cedo). Calibrei para as seis horas que, embora não seja um horário que um aposentado se obrigue a acordar, não dói tanto; e lá s’estava eu levantando de novo ao som do desditoso despertador. De igual maneira. Modo pavor. Ô sina, que resignado aceito! Entretanto, vendo assim por outro lado, a contemplação da aurora me dá uma ocupação nesta minha fase de desocupado e não deixa morrer em mim o desejo de esmigalhar os aparelhos despertadores e seus traumatizantes cocoricós tudinho debaixo de um rolo compressor.
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