sábado, 25 de outubro de 2025

crônica da semana - despertador

 Despertador

Agora, vivendo os dias de um senhorzinho aposentado, me pego ainda na teima de acordar cedo. Não curto acordar cedo!

Justifico esta cisma de madrugador garimpando benefícios desta prática. Faço as minhas caminhadas. E, pelo início da manhã é mais friinho, os passarinhos animam a caminhada, o trânsito é rarefeito, dá pra coletar umas mangas que caíram nas ventarolas noturnas, antes da chegada dos catadores profissas; e ainda tem na conta a possibilidade de observar o deslocamento da sombra das árvores, dos postes, dos prédios, com o sol em baixa inclinação, avisando que a Terra é redonda.

Por essas e por outras, mantenho este desafio de acordar cedo. E eu odeio acordar cedo! Já pensei em outras alternativas, mas por enquanto dou vaga à teimosia.

É peleja que regrou meus costumes por longos anos e que criou em mim uma aversão, um entojo, uma ira nada santa, uma inimizade colossal com o despertador. E durante todos esses anos, alimentou em mim um desejo recorrente: espalhar todos os despertadores do mundo no chão e passar um rolo compressor sobre eles. Destruir, esbandalhar tudinho, até não sobrar uma molinha animada sequer. Esta era a minha ilusão de liberdade, de insurreição redentora, de desapego total das dores provocadas pelo desperta-dor. Mas quando que, liberto de bater ponto, me veria sem trégua neste tempo de agora, quando poderia esticar a soneca e não estico. Égua, chega me dá buscar um desatrapalho na mente.

Deixa estar que hoje, o custo nem é tanto. O meu cedo já bate a campa beirando as seis, bem além dos meus últimos anos na ativa quando o zinho tocava aquela música traumatizante no justo das quatro e meia da madrugada. E eu ainda operava no modo de choque. Provocava, deixava o celular tocar fora do meu alcance para forçar que eu me levantasse, me espertasse logo de prima e evitasse aquele velho e tentador ‘touche’ de desativar ainda em meio sono a campainha para dar mais aquele minutinho de morga. Eu é que não confiava. O bicho tocava, eu dava era um pulo e o dia já estava valendo. Do meio pro fim esta tática ficou meio ineficaz e mesmo no modo pavor, eu levantava, mas remancheava, corria pro sofá, reinava recostar a cabeça e apelava para a resistência. A um custo, mas mantendo a opinião, partia para passar um café quentinho. Fui levando na força e na coragem, até sentir que aquilo não dava mais para mim. Recorri a lenitivos. Adotei a regra do sono interrompido. Na luta, seguia. Tomava café, me arrumava, punha o uniforme, a bota, supria a mochila, ganhava o rumo do porto. A lancha para Barcarena saía às 6 e meia. Em toda a minha história nessa travessia, o tempo de viagem até o trabalho era dedicado à leitura. Deu-se que aos quarenta e cinco do segundo tempo, com o argumento do sono interrompido (não mais um despertar completo), abandonei a leitura matinal, e dei pra tirar um soninho de 45 a 50 minutos, na viagem. Para mim, significava continuar o barato daquela soneca boa das 4 e meia cortado pela gasguitagem do desperta-dor. O efeito colateral do cansaço foi que passei a ler menos. E aí, rapazinho, foi um prejó. Senti falta, magoei.

Passou. Dei baixa na carteira, entrei para o time dos aposentados e tenho o tempo, a vez, do jeito que bem entenda. Adeus despertador.

Quite! Logo nos primeiros dias, o que fiz foi dar um adianto porque 4 e meia não é um horário que indique alguma lucidez num cristão avesso a penitências (e também porque não me apraz acordar cedo). Calibrei para as seis horas que, embora não seja um horário que um aposentado se obrigue a acordar, não dói tanto; e lá s’estava eu levantando de novo ao som do desditoso despertador. De igual maneira. Modo pavor. Ô sina, que resignado aceito! Entretanto, vendo assim por outro lado, a contemplação da aurora me dá uma ocupação nesta minha fase de desocupado e não deixa morrer em mim o desejo de esmigalhar os aparelhos despertadores e seus traumatizantes cocoricós tudinho debaixo de um rolo compressor.

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