Quem vê cara...
Dia
desses me permiti uma extravagância e fui atrás de um meio quilinho de carne de
primeira para o almoço. Não sou íntimo de cortes mais aqueles de qualidade, sou
do tempo da pá só com o osso da peça. Ainda bem que o comércio é criativo...
(O
coração, lá dentro da gente, bem guardadinho no peito, abriga o que temos de
naturalmente bom. Ou de ruim. Para mirar o prumo e o caráter dos nossos
escondidos, há de se revelar exteriormente o que verdadeiramente somos. Mas
quando que a gente faz isso! Não revela. Caprichamos em caras e bocas,
preferimos dissimulações, despistes. Na vera, de palmo em cima, a gente demanda
um custo, para se mostrar. Isso, quando se mostra. Fica a máxima: quem vê cara,
não vê coração. Arrisco dizer que esta afirmação vale pra tudo. A face exposta
de um restaurante, por exemplo, é um salão amplo, limpo, decorado. O coração do
restaurante é a cozinha. Não somos dados a visitar o ambiente onde os alimentos
são manipulados. Dá-se o mesmo com supermercados, lojas de departamento,
agências de serviços e outros estabelecimentos. E também não tem nem por onde,
né, a gente ficar abelhudando. Agimos na fé, na confiança. Até que se evidenciem
dados em contrário, acreditamos na credibilidade dos atendimentos. E o que os
operadores de comércio e serviço se esmeram em nos mostrar, abona este
entendimento. Tem estabelecimento que a gente frequenta que parece estar
empoado na mais agradável fragância, lavado e enxaguado na regra máxima do zelo
e da assepsia. Mas aí, quem entra pra avacalhar tudo? Nós e nossa educação
pirenta).
...
Ocorreu que varei num balcão operado no modelo de auto-atendimento, no espaço
do açougue. Bem ajeitadinho. Um freezer composto por três baias dispostas lado
a lado. Em cada uma, um tipo de carne cortada do jeito de bife. Um abrigo em
suporte refrigerado com portas de correr e boa vedação. Na parte externa, uma
caixinha contendo luvas plásticas para serem usadas pelo cliente na hora da
escolha do bife de sua preferência. Estava no jeito pra mim, pouco entendedor.
Olhei na placa de identificação e localizei a baia que me interessava. Nisso,
virei o olhar para outra precisão doméstica e me desliguei daquele balcão.
Quando voltei, o cliente sujismundinho já estava lá fazendo as nojeiras dele e
avacalhando com tudo.
O
cidadão abriu toda a porta do freezer, expôs as baias, postou-se quase que inteiramente
sobre aquele espaço. Sem luvas e sem pudor algum se danou a manipular o grupo
de carnes da baia lateral. Destacava um pedaço, esfregava com as duas mãos,
espreitava detalhes e após a sondagem tátil-visual, descartava. Pegava outra
fatia, descartava. Nós que nos aproximávamos, olhávamos aquilo, atônitos. Já se
alongava nas análises e não havia escolhido para si, um único naco. Só se
adiantava naquela porquice. E mais, após descartar os bocados, os lançava na
baia do meio. Fazia uma mistura de qualidades diferentes e reproduzia a
porcariada que fazia nas outras carnes.
Pra
gente ver né, quem visse aquele senhor de semblante sereno e cara de vovozinho
brincalhão na rua ou em outro lugar, não maldaria que seria uma pessoa sem a
mínima contenção social, sem o menor senso de responsabilidade com a higiene, ou
com as mais básicas das condutas sanitárias. Quem vê cara...
O
coração dele se revelou em uma sujidade tirana. Incitava náusea. Quem estava na
vez, desistiu. Alguns fregueses relataram o ocorrido ao gerente e pediram a
retirada do produto do balcão.
Não sei se retiraram, não sei se revisaram aquele modo de ofertar o produto. Não tenho reincidido em extravagâncias. Tenho declinado heroicamente de desejos que envolvam carnes de primeira, pá só com o osso da peça, que seja, ofertadas em pontos de auto-atendimento. Quantos passam por ali e fazem a mesma coisa sem nosso testemunho... Revelam o corrompido coração.
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