terça-feira, 20 de agosto de 2019
sábado, 17 de agosto de 2019
crônica da semana - Antônio saudade longe
Saudade
longe
A
crônica de hoje se destina a revelar minha saudade. Saudade longe de Antônio.
Certo
dia, aprendi o significado da saudade perto. O poeta, num momento inspirado,
definiu ser aquela saudade que a gente pode vencer. É aquela que a gente, com
um pequeno esforço, resolve logo a parada.
Meu
coração pressionado pela dor, hoje tem que falar da saudade longe. Aquela que é
implacável. Irremediável. Aquela que não se tira e não se arreda da gente tão
fácil, aquela que se inclina às angústias do tempo.
Nesta
crônica, declino das prosas inventadas, e me imponho registrar, quedado à
saudade, um pouco do cristal lapidado que foi Antônio Francisco.
Conheci
Toninho em meados de 1982, na final do Festival de Música da Escola Salesiana
do Trabalho. Estava ali naquela noite, liderando o Grupo Hera da Terra que era
batido e cravado como um dos favoritos para vencer aquele festival.
Antes
disso, só ouvia falar dele. Era considerado na Sacramenta.
O
Hera não ganhou o primeiro lugar, mas eu ganhei a presença de Toninho na minha
vida. O festival nos aproximou.
Dali
em diante, foi só encantamento. Primeiro com a poesia que Antônio fazia. Tinha
uma estética centrada na liberdade textual. Emoldurava de dramaticidade cada
linha escrita. Ao mesmo tempo apaziguava corações com palavras doces e versos
cheios de esperança. Cantava a Amazônia. Amava a Amazônia.
A
música nos possibilitou a intimidade. Adiante, conheci o homem, o pai de
família, o trabalhador. Um ser abundante, generoso. Tinhas asas maiores que as
asas do maior dos condores. E sob elas, abrigou uma legião de amigos. Eu era um
deles. Quantas vezes, chegando de viagem, encontrei um prato de comida e um
lugar para dormir, na casa de Antônio. Quantos fomos nós a ter as noites
passadas no sofá da sala, sentados no chão, procurando uma beirinha na janela,
para participar das reuniões musicais que o Antônio fazia na casa dele. Era o
lar de todos. Gerações de compositores, artistas visuais, poetas, atores, militantes
culturais foram inspiradas em Toninho.
Politicamente
era um cidadão fiel às suas idéias. Chegou a cursar Ciências Sociais. E da
Academia, trouxe um discurso refinado. Teoria retrabalhada às práticas que ele
já desenvolvia na Sacramenta, no calor das lutas populares.
Antônio
Francisco foi fundamental para a cultura que se realizou durante muito tempo no
eixo Sacramenta-Pedreira. Esta afirmação sou eu que faço, porque Toninho, nunca
quis esta reverência. Atuou sempre na articulação, mas raramente ocupou o
centro do palco (Embora, se recorrêssemos à Teoria da Relatividade veríamos
claramente este movimento sendo invertido. O palco é que orbitava Antônio
Francisco).
O
nosso último encontro se deu pelas graças da saudade perto. Deu na telha e
fomos ter com ele, num almoço animado e cheio de música. Havia em mim, uma fome
de Antônio, naquele dia. Não tirava os olhos dele. Fazia perguntas, pedia que
tocasse, cantasse canções próprias. Sentia o magnetismo dele me mundiando.
Entreguei-me a um transe, que nem era novidade para mim. Fazia parte daqueles
encantamentos que ele me proporcionava desde o dito ano de 1982.
Hoje,
faz uma semana que Antônio partiu. “Nunca mais aquela saudade tão perto”. A
nós, seus amigos, nos deixou um legado largo, estendido, sedimentado nos versos
de vida diários... E a saudade longe.
Aquela,
que não se tira e não se arreda da gente. Aquela que se inclina implacável às dores
da alma.
sábado, 10 de agosto de 2019
crônica da semana - o Mapuche
O
Mapuche e a carapanã
Contei
aqui, anos atrás, um fato que me fazia refletir pacas sobre o estado das coisas
e da vida, quando estava em Rondônia. Parecia uma coisa. Tinha um acampamento
que ficava às proximidades de Ariquemes. Passava a semana lá. Mas era batata. O
geólogo que acampava comigo, chegava no barraco, atava a rede do lado da minha.
Passava dois, três dias, bem que era uma beleza. Antes de completar a semana
descia para a cidade com malária. Eu ficava. Ele fazia o tratamento, cumpria a
desobriga. Tomava o vitaminé e voltava. Atava a rede do meu lado. Mais com
pouco, lá s’stava o pequeno tremendo de malária de novo. Nessa batidinha, pegou
umas cinco febres, salteadas entre a falciparum e a Vivax. Não aguentou o
baque, saiu da empresa e procurou melhoras. E eu lá, na minha redinha, imune. E
me pergutando por quê.
Dormia
ao lado do camarada, dividíamos o mesmo espaço. Ele pegava malária, eu não. Era
o próprio ser de luz, o escolhido, um santo dos ermos rondonienses. Tudo podia
naquele que me fortalecia.
Ou,
mirando pros lados da minha composição biológica, me entendia como um super organismo
que desafiava a eficiência do anofilis, bloqueva as investidas nocivas do
Plasmodium, continha as crises de frio, febre e alucinações. Eu só podia ter um
açúcar qualquer que me protegia da sezão. Ainda mais em Ariquemes, que à época
era a capital mundial da malária. Tinha 100 mil habitantes e 300 mil casos por
ano. Se meu amigo geólogo não tivesse um chama para o impaludismo, a conta dividida
bem divididinha, daria três malárias para cada habitante.
A visita
que fiz às montanhas do Chile, este ano, me convenceu da ocorrência de mutações
benéficas que acontecem na gente e que nos livram da malária e da falta de
suspiração.
Além
de três mil metros de altitude, no muito alto das montanhas, o corpo humano
sente os efeitos do ar pouco servido de oxigênio. A concentração de oxigênio, em
grande parte da Terra é de 21%. Lá em cima, nos Andes, cai para perto de 12%.
Nessas condições, o Mal da Montanha pode matar um ser humano. A falta de
oxigênio derruba quem não está preparado.
Fiquei
abismado quando desembarcamos numa cidade próxima à estação de inverno, situada
a quase 3.500m de altitude. No caminho para o restaurante, reparei as crianças
brincando na rua em carreiras desenfreadas, moradores nos cuidados diários,
trabalhadores de uma construção mais adiante, estudantes no caminho da escola.
Tudo acontecendo na maior normalidade. Temperatura abaixo de zero. Enquanto
fazia minhas observações, comecei a sentir um troço estranho. Uma tonteira, uns
passamentos, vista turvando, respiração truncada. Mãos congelando. Mais que
depressa procurei o abrigo no quentinho do restaurante. A altitude e o frio
estavam me derrubando.
É
certo que as pessoas daquela cidade, têm uma constituição biologia diferente da
minha. Desenvolveram uma mutação que lhes permite viver naquele lugar inóspito,
do jeito que eu vivia no meu acampamento em Rondônia, adaptado, aninhado aos
livramentos da Evolução.
Pelo
que se torna, um índio Mapuche se viesse ter conosco, não resistiria a uma
ferroada de carapanã; e assim, pelo que se deixa, eu me quedarei aos chiliquitos
toda vez que subir às montanhas.
São
essas fragilidades entre iguais, essas diferenças entre os fortes, que me fazem
refletir pacas sobre o estado das coisas e da vida.
sábado, 3 de agosto de 2019
crônica da semana - oração pela família
Oração
pela famíla
Há
muitos anos, acompanhei um documentário produzido pela BBC sobre comportamento
humano. Duas expressões culturais (ou naturais, instintivas?) me deixaram
bestinha da Silva. Uma demonstrava o ritmo universal da canção de ninar.
Segundo a reportagem, a gente quando pega uma criança nos braços e canta uma
canção qualquer, faz um balancinho no bebê, que tem o mesmo compasso em todo
mundo conhecido. Nem aquém, nem além. É um nananeném do mesmo jeitinho aqui nas
baixadas da Pedreira; lá acolá, nos ermos andinos ou além mar, no velho mundo.
Uma
outra, que parece óbvia, mas não é, diz da capacidade que o ser humano tem de
se organizar em família. Um núcleo social que envolve cuidados, cumplicidades,
perspectivas, compromissos mútuos. Para esta manifestação da organização
comunitária, a matéria deu ênfase ao grupo formado por pais, filhos, agregados por
afinidade e comparou.
Grupos
vastos de animais, logo abandonam as crias. Um cavalo, quando nasce, já sai
andando e procurando o que fazer. Grupos outros acolhem o filhote, zelam pela
segurança, dão de comer até que a cria ganhe independência e lute pela própria
sobrevivência. A fragilidade dos recém-chegados exige a atenção dos pais e da
própria comunidade. Os seres humanos fazem parte deste mundo de zelos e
cuidados. E vão além. Fortalecem laços afetivos, partilham interesses que
extrapolam a satisfação de necessidades básicas. Produzem riquezas de
compreensões e posses. Dividem sonhos, ombreiam-se na caminhada. O que
conhecemos, hoje em vários formatos, diga-se, e em composições diversas,
traduzimos socialmente como família. É do seio da família que brotamos,
ganhamos o mundo e procuramos o que fazer para tornar a vida possível.
A
modelagem da família se altera, mas o objetivo é sempre o mesmo. Ser feliz é o
horizonte perseguido.
Na
minha trajetória, as mazelas historicamente reproduzidas no Brasil, não me
deram ter tanta relação com famílias de composição tradicional. Pai, mãe e
filhos formam uma parcela bem reduzida das minhas relações. Agora, tenho
próximo de mim, mina de gente que veio de lar encabeçado somente por mãe, ou
apenas pelo pai.
E
de composição farta. E de ganho pouco. E de tropeços pelo caminho.
Minha
família pode ser o exemplo. Mamãe sozinha assegurou o futuro de quatro pequenos.
Pelas minhas varações na Sacramenta topei com pessoas humildes, vencendo os
dias com pouco mais de um salário e sustentando proles de até oitos crianças.
Certa ocasião, na Everdosa, me afeiçoei de uma família e apadrinhei de coração
o décimo segundo filho daquela heroína. Eu que vinha de fora, tinha até
dificuldade de decorar o nome de todos.
Agora,
nessa semana que passou, presenciei a confraternização de uma família cujo
esteio era o pai. Sete irmãos. Todos já orbitando os cinqüenta, cheios de
histórias. Digerindo pequenas faltas, reparando erros. Mas ao fim, juntos. Contabilizando,
após os anos passados sob os cuidados do pai, os talentos, as vitórias.
Eu
me passo quando essas ligações da estrutura familiar vingam inquebrantáveis.
Ainda mais agora, nesses dias tensos que vivemos, e que nos deparamos com
famílias esbandalhadas em perfis morais, esmigalhadas em vieses ideológicos.
Quem consegue ficar junto é herói.
É
bonito ver essas ligações invioláveis. E tão bonito, que merece até uma construção
mais ousada, preposicionada! “É bonito de ver”.
domingo, 28 de julho de 2019
sábado, 27 de julho de 2019
crônica da semana - sinhozinho
Sinhozinho,
a mãe primata e o pregador de roupa
Ele
não morava mais na mina. Fazia parte de um grupo seleto de pioneiros que
iniciou a mineração em Rondônia. Aparecia nas frentes de trabalho somente para
consertar o que ninguém consertava. Mecânico leigo, fazia e acontecia com uma
chave de torque na mão. Homem de pouquíssimas palavras, contraditoriamente se
animava quando a prosa ia pros lados das histórias de caçador, lá daqueles
tempos antigos. Já peguei a fase de caçador arrependido. Ouvi várias vezes a
passagem em que ele derruba a mãe macaca. Em algumas ocasiões penitenciou-se e,
contrito, advertia que o macaquinho parecia gente. Parecia que rezava.
Aconteceu
certa vez. Numa das suas caçadas, avistou no alto da árvore, a macaca com um
filhote nas costas. Apontou a 12 e com um tiro certeiro, derrubou os dois.
Quando se aproximou, percebeu a mãe primata sem vida, estirada no chão. Ao
lado, o filhote pulava, gritava, rolava na terra. Segundo o relato de
Sinhozinho, o macaquinho sem a mãe, não iria sobreviver na floresta. Tinha a “missão”
cristã de sacrificar o filhote. Ao apontar a arma, notou que o macaquinho saiu
daquele estado de desespero, virou para o lado dele, aproximou-se. Agachou-se,
juntou as mãozinhas. Era como se rezasse, consternado tempos além, revelava
Sinhozinho. Parecia uma súplica. Um pedido de clemência. Parecia gente. Naquela
época, de caçador implacável, Sinhozinho não fazia essas reflexões. Atirou.
Se
alguém ainda não viu de perto a mão de um macaco, eu asseguro. É igualzinha à
nossa. A disposição dos dedos, a articulação da falange, da falangeta. É
escritinho a nossa pegada.
Em
uma outra ocasião, constatei esta anatomia. Ao chegar no meu acampamento,
depois de uma exaustiva caminhada, na maior broca, o que encontrei para comer
foi só carne de macaco. Vi o crânio, as mãos, os pés do macaco, descartados. As
partes nobres cozidas na panela. Não consegui comer. Para mim, era como se
fosse comer o meu avô. Bateu em mim uma angústia antropofágica. Uma consciência
de parentesco. Uma pena ancestral. Uma desolação filogenética.
A
Taxonomia é a parte da Biologia que relaciona características iguais entre os
seres vivos. Olhando por esse lado, me senti atingido por aquele tiro que
Sinhozinho disparou e acho que agi certo em declinar daquele ensopado, no meu
acampamento. As semelhanças entre mim e aquele almoço eram incríveis.
Essa
parecência e esta solidariedade, já não acontecem com o carrapato. E tão distinto é, que Sinhozinho não contava
um drama sequer envolvendo o artrópode.
Tenho
pensado sobre a evolução do carrapato. O único degrau evolutivo alcançado que
consigo associar o aracnídeo hematófago está ligado ao comportamento social. O
bichinho é dado. Está sempre acompanhado de mina de parças quando a gente topa
com ele, numa folha caída no bosquinho.
Assisti
a um vídeo do maravilhoso Ariano Suassuna, e atinei bem para os argumentos que
usa ao negar a Teoria da Evolução. Diz não acreditar que o homem veio do
macaco. E que o macaco, por mais esperto que seja, jamais criaria uma
engenhosidade do status de um pregador de roupas.
Penso
que podemos explorar além dos rasos das opiniões. Pesquisar (olha que fucei um
feixe de literatura e não achei texto em que Darwin tenha dito que um ser
dormiu macaco e acordou humano). E ir mais além. Procurar semelhanças e
diferenças entre nós, o carrapato e o ensopado de macaco.
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