sábado, 20 de setembro de 2014

crônica da semana - paludismo

Paludismo, Aralém e outros ais
Fico até meio aquele quando vejo algum anúncio solicitando doadores de sangue. Imagino que se eu doar o meu, no outro dia a assistência tá apitando aqui na porta de casa pra me levar pra UTI. Lá no laboratório quando virem boiando no meu plasma, traços ainda animados das três malárias, uma dengue e uma hepatite, os técnicos vão tomar o maior susto e vão querer mais que depressa me acudir. E isso sem contar com o teor de Etanol que se mantém há anos, assustando etilicamente, em taxas generosíssimas.
(Antes de prosseguir discorrendo sobre o meu patrimônio nada modesto de ziquiziras, pondero admitindo que o que nos faz resistir, o que nos leva a viver de vera, gostar de não largar este mundo, criar anticorpos e pular fogueiras são as descobertas, os aprendizados. Mesmo que nos cheguem atemporais, já na batida da campa. Ainda que venham tardios, por conta de urgências outras, nos adiantam, que só, ora, ora... Durante muitos anos conhecia o termo “impaludismo” como sinônimo de malária. Só que, por esses dias, lendo o romance “Marajó” de Dalcídio Jurandir, vi que ele se refere à doença, reduzindo o termo para “paludismo”. Mirei, indaguei para mim mesmo sobre aquele jeito de escrever. Quedei-me, porém, ao estilo. Vai ver que era do eu marajoara do Dalcídio, reduzir as doenças. Dá-lhes um apelido subtraído de prefixo. Como se assim, sem o ‘im’, os efeitos, as dores, os ais fossem amenizados. Pode ser. Mas, por cuidado, fui ao dicionário e aprendi mais uma na vida. Certifiquei-me que podemos escrever das duas formas. Faz tanto e dá no mesmo. Agarrei e pus no título lá em cima, do mesmo jeitinho que está nas páginas de Marajó: paludismo).
No início da década de 80, quando fui trabalhar em Ariquemes, já fui preparado. A cidade era famosa por ter 100 mil habitantes e ter 300 mil casos de malária por ano. Três malárias pra cada. Era a campeã mundial da doença. Já fui esperando as minhas três. Mas olha como são as coisas: entrávamos para o campo no mesmo dia, eu e o geólogo Roberto Matias. Atávamos nossa rede uma do lado da outra, tínhamos a mesma rotina. E era tiro e queda: uma semana depois de acampado, Roberto baixava pra cidade com malária e eu, ó, ficava no mato esbanjando saúde. Contadas encarreiradas, meu companheiro só no tempo de Ariquemes, pegou cinco malárias. Era só, atar a rede e pluft. Uma cruz de falciparum, meia de vívax, uma mais rara, a malariae, todas maltratando. E ia pegando. Era pegador meu amigo. Mas não era um caso único de multiplicação da maleita. Tenho amigos próximos de mim, com mais de 20 malárias no curriculo.
Eu aguentei uns dois anos zerado, sem pegar malária, nesta pisada de acampar pra cá, acampar pra lá. E não é que quando me aquietei numa vila toda arrumadinha, morando em casa telada foi que me arranjei com as minhas três. A primeira foi meia cruz de falciparum. Fiquei apavorado. Após o tratamento me danei a tomar o chá de melão de São Caetano em jejum, que era ruim pra dedéu, porque me disseram que era bom pra sarar de vez. Mas quando! Não deu nem 20 dias, peguei a segunda. Uma cruz de vívax. E foi logo no carnaval. O tratamento a gente fazia em Porto Velho. Para os sintomas, Dipirona no glúteo, porque no braço não tem cristão que aguente, soro, Aralém para manter as funções sem sobressaltos e Primaquina ou  Cloroquina, conforme a identidade do Plasmodium. Quando peguei a segunda malária, era carnaval. Tinha uma namorada e ela brincou o carnaval sozinha. A terceira malária...Ah, a terceira malária doeu menos que a dor da saudade (e para esta dor, não teve Aralém que desse jeito).




quarta-feira, 17 de setembro de 2014

crônica remix- uma tarde

Uma Tarde
Não entende a presença dela ali, em plena tarde de Sábado. Para ela, o Sábado era um dia sagrado. Dormia até tarde. Tomava um café, ainda com aquela preguicinha  do acordar sem querer e ia despertar realmente,  embalando-se na rede da varanda. Depois, tomava um barril de suco de qualquer fruta regional e traçava o plano de vôo com possibilidades que iam do passeio à casa de amigos a uma fugida estratégica para Mosqueiro. O Sábado não tinha hora pra terminar. Ele lembra que na época da campanha para presidente, tinham uma turma espertíssíma que fazia a diferença na ‘buxixeata’. Eita! Por aqueles dias, o Sábado desandava...
Não tinha por que estar ali, naquela tarde. As pendências estavam todas resolvidas. Nem precisaram de advogado. Foi tudo na santa paz. Tudo bem divididinho. Ela ficou com o carro, ele com a casa na Pirajá. Ela levou toda a biblioteca, e ele herdou aquela belezura de discoteca que incluía aquele disco em vinil, raríssimo, do acreano Sérgio Souto. Tantos anos e não tinham filhos. Ambos levam a responsabilidade de um exame, que pelo grau de importância diante das ‘prioridades’, nenhum dos dois, jamais fará. O caso foi bem resolvido, então, o que a levaria a sua casa numa tarde de Sábado? Ele meio que surpreso, meio que curioso:
- Mas és tu, mulher? Que ventos te trazem?
Ela, prática, decidida e aparentando pressa:
 -Aquelas caixas, lá no quartinho, Posso dar uma olhadinha?
Ele prestativo, quase que bajulador, indicando o caminho:
-Claro, claro...
Enquanto ela cavucava por lá, ele buscou na internet, o último poema do amigo José Miguel Alves. Traga do verso: “O último amigo arde...” Tenta lembrar o gosto do cigarro. Desiste. Ora, a grande responsável por ele ter abandonado o maldito vício estava ali, no quartinho dos bagulhos. “Taí, te devo essa”, murmura, talvez tentando reconhecer que a partilha não fora assim tão justa.
-O quê? – Devolve ela, demonstrando ter ainda os ouvidos mais sensíveis do mundo, emendando a seguir– Achei, achei!
E vai saindo. Ele a acompanha. Despedem-se com beijinhos. Três pra casar (oh, não, pra casar, de novo, não!). De repente, um fogo explodido das profundezas da irracionalidade (aquela irracionalidade do coração, que eles tanto se orgulhavam de desconhecer), aquele fogo traiçoeiro, perturbador, se fez num longo beijo. Um beijo adocicado, fértil, um Nilo de prazer. Que momento!
Tão bom, meu Deus!
Quando os lábios separaram-se constrangidos, procuraram os seus rumos. Tomaram pé e tornaram daquele mundo impossível de existir. Abraçaram a lógica das coisas e entenderam tudo.
Ela se refez. Entrou no carro, puxou da bolsa uns bregueços (umas hastes finas de plástico, de madeira, do tamanho de agulhas de tricô; atracadores, grampos, aquelas coisas que havia recuperado das caixas), e com eles tentou prender os cabelos. Ele aproximou o rosto da janela do carro e confirmou uma opinião antiga:
-Ficas melhor com o cabelo preso.
Não era isso que ele queria dizer. Na verdade nunca tinha as palavras para definir o prazer de vê-la com os cabelos daquele jeito. Não sabia dizer bem o “jeito”: preso, não preso. Não de todo solto. Nem preso, nem solto, sei lá.
Ela, um tanto desconcertada, fez um arranjo rápido com as hastes de madeira e ai, ai, ali estava a mulher da sua vida, com os cabelos misteriosamente arrumados do jeito que ele tanto gostava.
Um sorriso foi o sinal da despedida. Ela deu a partida no carro e saiu para sempre do seu caminho, naquela tarde de Sábado.










sábado, 13 de setembro de 2014

crônica da semana- sombra do poste

Na sombra do poste (Raimundo)
Até acho que para um mês de setembro, está chovendo além do combinado em Belém, mas isso não quer dizer um arremedo de clima de montanha, não. Bastam dois dias de estiagem, na planície, que o calor vem naquela potência de aguar a laranjinha que a gente compra no sinal, um instante após a giletada. A gente é que se alivie num geladinho e se ajeite à sombra do poste pra se proteger dos raios ‘uvês’, porque se bobar, derrete junto.
É coisa do momento. A folhinha do ano lembra que a fase é a mais pura tradução do mormacento Verão Paraense, que ora viceja a pino, nesta onzena setembrina. O que está claro de encandear os olhos é o calibre de um sol mais ardente e mais precocemente presente. Sinal de que o Equinócio de Primavera se aproxima.
Tô atento a esse estiramento da luminosidade. Está amanhecendo mais cedo. Não tem nem um mês que, na saída para o trabalho, ainda estava tudo escuro e eu pude acompanhar o encontro de Vênus e Júpiter, ali pras bandas da Bandeira Branca. Sabia dos planetas porque vi na internet, o encontro foi alardeado, e foi facinho localizá-los no céu por causa do brilho absurdamente possante dos dois. No primeiro dia vi os dois juntinhos. No outro dia, Júpiter deixou Vênus para trás e ganhou altura no céu. No terceiro dia, Vênus sumiu e deixou de ser a Estrela da Manhã (vai reaparecer como Estrela Dalva no céu lá pra Novembro, só que ao anoitecer. Não fiquemos tristes com a fulguração ausente. É uma questão e tempo). Ali pelo quarto dia, no mesmo horário, não mais consegui perceber o brilho de Júpiter nem de estrela alguma próxima. Com o passar dos dias, a luz dos astros foi diminuindo, diminuindo, o clarão do dia foi tomando conta do horizonte e agora, antes das seis horas, ali pra’queles lados do Utinga, o céu já se compõe num cerzido harmonizado em amplos descaimentos de azul. A aurora amazônica antecipa o clarão do dia e as estrelas cintilantes, e os planetas brilhantes, pluft, apagaram-se, anularam-se ante o poder do sol.
Isso tudo é muito organizadinho, muito certinho, é o produto das danças e contradanças do universo. Eis então que agora em setembro o sol vai se postar bem em cima da gente. Para esta região aqui na faixa do Equador, o resultado disso vai se refletir nos amanheceres mais cedo, na maior intensidade do calor, e na sombra do poste.
Tenho acompanhado a sombra do poste ao longo do tempo. Na Pedro Miranda, bem ali na parada onde ficava o antigo Shangrilá, em dezembro do ano passado, a galera se escondia do sol formando uma cobrinha que se estendia no sentido da Escola Salesiana, rés ao meio-fio. Em março, a sombra andou e se lançou no rumo da parede, que se em outra época fosse, seria exatamente a porta de entrada do Shangrilá, quer dizer, ficou perpendicular ao meio-fio. E a turma que espera o Pedreira Lomas, acompanhando... Em junho, a bicha já tava do outro lado, se propagando no sentido da feira da Pedreira. Agora em setembro, como se movida por uma libido atávica, a sombra se aproxima novamente do traçado que iria (um dia) dar na porta do Shangrilá. Este é o bailado do universo que a gente testemunha mais de perto. Quantos segredos, quantas respostas, quantas deduções mentirosas este ir e vir da sombra de um poste suscitou, quantos embaralhos fez na minha cabeça, quantos por quês fez surgir... e quantas vezes perdi o ônibus pensando nessas coisas sem sentido...de sombra, de sol e setembros e chãos e humores esturricados e dias de calor, Raimundo; e quantas inquietações pelos vagares desimpedidos do mundo? Raimundo, Raimundo, por favor, não derrete não!



sábado, 6 de setembro de 2014

crônica da semana -xendengo

Passa pra semana
Esqueçamos por um instante o ECA porque a melhor parte dessa história é uma cobrança que fiz lá no Xendengo.
É que mamãe, por algum tempo atuou no ramo do crediário. Fez uma compra grande no comércio atacadista, arrumou não sei donde, um cearense danado de bom, dado ao negócio de porta-em-porta, mandou confeccionar os cartões do Crediário Santa Luzia e mirou no rumo das vendas. Severino, que além de santo de romaria, era mascate aprumado, botava pra chulear nas andanças pelas ruas da Pedreira, cheio de belengodengos: a rede no ombro...panelas de alumínio alçadas pelas mãos fortes. E vendia que não era fácil o galego. Ele se esforçava porque a primeira prestação era dele. Ele vendia e eu cobrava. Eu era o famoso ‘prestação’. E me esmerava nos cartões todos arrumadinhos, amarrados com um elástico encardido de suor. O trato com a clientela previa o pagamento ser por semana. Fosse o valor que fosse. E alguns eram tão pouquinhos, hoje fosse, a paga seria coisa de 5 Reais. Mesmo assim, com alíquotas gititas, ainda tinha freguês que me deixava na mão. Nem bem os meninos me anunciavam “ mãe, chegou o prestação” e a freguesa já vinha me despachando, “ah, meu filho, ainda não saiu meu ordenado, passa pra semana, tá”. Eu pegava meu lápis, com borracha na ponta, apagava a data daquele dia, e anotava a data de ‘pra semana’, no cartão. E assim eu ia me virando de prestação, nos finais de semana anotando os ‘por conta’ e os ‘em a ver’, nas contas do Crediário Santa Luzia. Recebendo um pingadinho aqui, outro ali, me batendo pelo circuito da Marquês, no sábado, que terminava lá perto da mata da aeronáutica e concluindo a pisada no domingo, rompendo os domínios da Sacramenta, fazendo arrodeios imensos pra me livrar da matilha ensandecida de Totós, Blaiques, Baleias e Tubarões, que comigo inticavam.
Eis então, que havia um cartão que eu estava me enjoando de apagar e mudar a data, chega minha borracha estava gasta só de ser usada naquela cobrança. Contava já com três semanas, que eu passava religiosamente naquela casa e nada. Era só o velho e indigesto ‘pra semana’, pela fuça. Quem me recebia era a mãe, que nem era devedora de verdade. O compromisso era das meninas da casa que eu nem sabia, mas depois, por força do ofício, fui saber que eram moças que labutavam em “casas de divertimento, pra não dizer outra coisa” (palavras de mamãe).
E foi assim que eu, menino, fui bater no Xendengo.
Depois de uma tentativa zerada, pra’quelas bandas, em casa, mamãe falou que uma das meninas tinha mandado recado para eu ir cobrar no dia seguinte, no trabalho dela. Mamãe deu a letra e lá eu me abalei pra Gaspar Viana numa tarde quente de segunda-feira. Entrei no Xendendo feito um foguete, fui lá no fundo, indaguei. A menina veio com o numerário apenas de uma prestação. Ah, sacrista! Reinei. Mais de três semanas de atraso e fez só uma quita. Saí voado lá de dentro, varando o escurinho do salão. Bem na porta, errei a passada e pisei de com força no pé de uma das garotas que sentada estava na batente. Pra quê. Ela me mandou uns elogios impublicáveis, deu uma cusparada na minha direção e quando fez a menção de levantar, eu abri na carreira. E ela atrás de mim, me chamando de filho disso, filho daquilo. Dobrei a esquina da Presidente Vargas, atravessei pro lado do Palácio, ganhei a Manoel Barata, espavorido.

Só parei de correr quando não mais a avistei no estirão atrás de mim. Tava na baba. Os cartões do Crediário Santa Luzia molhados e o elástico que os envolvia, agora mais encardido ainda de suor. Na carreira, perdi meu lápis com a borracha roída na ponta.

sábado, 30 de agosto de 2014

crônica da semana - e o vento levou

E o vento levou
A introdução do guarda-sol na paisagem das feiras de Belém foi uma grande idéia. Representou uma forra ao calor inclemente que dá pleno meio-dia e vai refletir no melindro da gente em tempo de derreter nosso ‘célebro’. Por outro lado, a invenção não resistia quando o vento virava o Geral e desembestava com mais de mil dali dos baixios da Pedreira. As sombrinhonas iam pelos ares levando as mais finas peças.
Depois de algum tempo madrugando com o Seu Jorge, seguimos rumo próprio. Minha mãe choramingou com o fiscal e conseguiu um cantinho para os Sodreres, ali, naquela região dos informais. Não tínhamos guarda-sol. Nossa infra se reduzia a uma mesa magrinha de pernas grandes que eu trazia na cabeça, de casa, todo dia. Começamos vendendo cosméticos dos mais variados ‘catálagos’. Inclusive as amostras grátis de batom e perfume, vendíamos (era, aliás, o que mais saía).
Variamos a mercadoria com confecções, perfumes... quando nos mudamos para a calçada que dá para a Pedro Miranda. Um espaço legalizado, comprado com a ajuda de parentes e amigos. Bem localizado, confronte ao mercado de carne. Por essa ocasião, já havia ocorrido uma evolução no formato das barracas. Não havia mais a necessidade de levar pra casa e trazer de volta, todo dia, as mercadorias. Não sei de quem foi a sacada. Ventilou-se amiúde que a idéia tinha sido importada do Ver-o-Peso. Consistia na confecção de caixas de madeira com portinhola, cadeado, empurrador e quetais personalizados, montadas sobre rodinhas de metal para que pudessem ser movimentadas. Era como se fosse uma arca que guardasse nossos bens preciosos. Do tabuleiro, todo mundo na feira migrou para a arca. Era demais perfeitinho, ficava tudo ali na feira. Ao final do expediente, recolhíamos a mercadoria para dentro da caixa, fechávamos no cadeado, arrumávamos em cima o estrado, o guarda-sol, cobríamos tudo com um encerado plástico e deixávamos ali no nosso cantinho. De tardezinha vinha uma galera da administração, deslocava e acomodava as nossas caixas todas num lugar outro mais para o interior da feira. Esta manobra era necessária porque o mesmo espaço que ocupávamos durante o dia, era ocupado pelo pessoal do churrasquinho à noite.
Esta praça de alimentação ali da feira me vem do passado como uma das mais deliciosas lembranças. Não há hoje no mundo fastfood de Belém, algo que chegue aos pés daquele churrasquinho. Só a farinha que era servida ali, valia pelo mais engalanado xis-qualquer-coisa de agora. Vez sim, vez não eu pegava com a mamãe um numerário de adiantamento e estourava tudo nos espetinhos. Ao contrário dos churrascos de domingo, o tempero não primava pelo purismo minimalista do sal grosso. Era a diversidade de condimentos, o segredo do sucesso que faziam os churrasquinhos da Mauriti. Outros elementos compunham o cenário do repasto e o fazia algo transcendente, enlevado: a brasa ardendo, o fogareiro com alças de argolas, o jeito de abanar o fogo, a fumacinha cheirosa...aquela aguinha gelada, quando a gente terminava de comer.
Aí virava o Geral.
Eram contados os dias em que a feira funcionava à tarde. Vésperas do Círio, Natal, Ano Novo...

Os ventos se formam pela diferença de temperatura do ar. Quanto mais o dia avança, a atmosfera mais aquece e a possibilidade de rajadas fortes aumenta. Certa ocasião, estávamos contando com uma boa venda. Era véspera de uma dessas festas, não lembro qual. Três’orinhas da tarde, o vento Geral veio arrasador e levou nosso guarda-sol, as mais finas peças de Fio-de-escócia, as camisas de botão, as bermudas desfiadas na coxa, o Charisma... “para além dos fios de alta tensão”. Só a  arca ficou.

sábado, 23 de agosto de 2014

crônica da semana - tabaco

Os amantes que mascavam tabaco
Seu Jorge era um inovador, um revolucionário, mudou o modo de ser e de estar de boa parte dos feirantes de Belém. Quando o conheci, era padeiro da Aveirense, panificadora que ficava na esquina da antiga Independência com a Alcindo Cacela e que, como o nome denota, homenageava Aveiro, terra lusa distante abrigada à ria do Vouga. Lá, conheceu minha tia Fabiana, uma das maiores doceiras que esta terra das mangueiras conheceu. Virou meu tio. Mas por força do hábito e dos distanciamentos protocolares que as funções na panificadora impunham, o tratamos até hoje por “Seu Jorge”, minha tia Fabi, inclusive, em que pese os mais de 40 anos juntos.
Depois que saiu da Aveirense, Seu Jorge foi trabalhar na feira. Morávamos todos na Mauriti e eu, bem gitinho que era, mas viradinho, fui com ele.
Naqueles tempos a feira era bem diferente, os vendedores expunham seus produtos em tabuleiros montados em cavaletes de madeira crua. Seu Jorge era muito dedicado, determinado. Vendia confecções, não tinha como os verdureiros, os açougueiros, os peixeiros, a urgência das madrugadas, mas armava a barraca todo dia antes do sol nascer. Quatro e meia desescorava o carrinho de mão da cerca, arrumava as caixas com as confecções uma sobre as outras, amarrava bem amarradinha a pilha e saia empurrando o carro. Eu na frente dando o apoio moral e aqui e ali dando a direção porque ele não via o trajeto direito. Conduzia o carrinho olhando pelos lados, guiando-se pela sarjeta, já que a pilha de caixas o impedia de ver o estirão de frente. Um quarteirão nesta batidinha. Chegávamos e num trisca, o estrado estava armado, depois era só arrumar. Blusinhas de meia aqui, calcinhas de florzinhas ali, shortinhos de elástico acolá, cuecas de copinho mais pra trás. Tudo pecinhas baratas, populares. Nessa hora eu ajudava mesmo. Arrumava tudinho, ficava ali ‘entretido’ colocando uma peça num lugar; outra, n’outro... e quando me espantava o sol já estava torrando meu cocuruto. E daí em diante era só quentura. A manhã toda que a gente ficava na feira era esse sofrimento ardido embaixo dum solão de lascar. Aí, o tino apurado, a sagacidade, a visão de negócio do Seu Jorge, emergiu. Mas não deu um mês, Seu Jorge acrescentou à nossa carga no carrinho de mão, dois guarda-sóis. Pronto. Resolvido o problema. Além de nos proteger do sol, o artifício ainda nos possibilitava fincar cruzetas na estrutura. Ganhamos mais espaço para expor nossas peças. Ali a gente pendurava as camisas de botão para os rapazes, as batinhas para senhoras, conjuntinhos femininos ornados em ilhoses doirados...Coisinhas mais aquelas de finas e sofisticadas.
O uso do guarda-sol logo se espalhou pelas outras feiras da cidade, mas asseguro que a idéia pioneira, foi de seu Jorge.
Por aqueles tempos o traçado permitido pela prefeitura para as bancas era da calçada para dentro da feira. As bancas eram posicionadas lado a lado e dominavam todo o perímetro em 90 graus da calçada que compreendia a quina formada pela  Mauriti e Pedro Miranda. À frente das bancas, o prédio do Mercado e, lá dentro, os talhos de carne. Éramos regularizados, pagávamos carnê de locação, gente para guardar os estrados, vigia. Era tudo nos conformes.

Mas havia também uma ocupação informal. Era uma concentração de bancas exatamente atrás da gente, dando frente para a rua. Muita gente foi se chegando, armando a banca no leito da Mauriti e se arrumando na beirinha da calçada, com um banquinho, uma cadeirinha, uma caixa para sentar, fazer as contas, classificar a mercadoria. Não eram clandestinos, o fiscal abonava o negócio mediante uma contribuição pecuniária, segundo ele, insuspeita. Atrás da banca do Seu Jorge, dividindo o meio-fio com a gente, ficava a barraca do casal. Eles mexiam com o de cumê, tomate, cebola, temperos...Faziam os  lotes naquelas embalagens tramadas em fios plásticos vermelhinhos finos. Trabalhavam direitinho, pagavam o fiscal, vendiam produtos novos trazidos cedo da Ceasa, varriam o espacinho deles. Ganhavam o sustento honestamente. Formavam um casal já bem maduro, mas demonstravam cumplicidade, exibiam-se em carinhos e afetos, eram atenciosos com os fregueses, nossos vizinhos de calçada, companheiros na lida e mascavam tabaco.

sábado, 16 de agosto de 2014

crônica da semana - férias

Minhas férias
Nera que dantes, quando a gente voltava às aulas, a primeira tarefa na escola era fazer uma redação falando sobre as férias, nera?
Então, pra dizer, tô numa sala de aula de uns anos atrás e vou tentar traçar umas linhas sobre as minhas férias deste julho próximo passado. E claro fique que escrevo hoje, porque entendo que as férias na vera só terminaram agora, na biqueira de agosto. Teve muita gente que emendou o último fim de semana. Dei a vaga no sábado anterior ao nosso papai herói, e agora retomo esta prosa bucólica que só ela.
Fomos, os Sodreres, para o Maranhão. Naquela base, né, passagens compradas com antecedência numa super promoção, pessoas pra lá de acolhedoras, desejo incontido de matar a saudade, de reviver grandes amizades e o estímulo, a vontade de conhecer outras terras.
E foi providencial esta visita. Uma passagem rápida, mas que nos mostrou o quanto arrumadinha e bem traçada é São Luís. A ilha  nos surpreendeu pelo alívio, pelo ar desafogueado, pelo germezinho de liberdade que a cidade inocula na gente. Esta despressurização talvez tenha a causa na sua localização à beira mar. Como diz meu compadre Quelemém, “São Luís é Belém com uma Salinas dentro”. Além da sensação térmica aprazível, a cidade nos dá de bandeja o centro histórico. Na minha opinião, a grande sacada de São Luís é integrar os valores arquitetônicos do centro com a produção artesanal. As engrenagens se completam. As lembrancinhas, os símbolos do Maranhão, podemos encontrá-los expostos em escaninhos seculares, em prédios azulejados nas mais tradicionais cerâmicas européias. As reentrâncias calçadas em paralelepípedos dispõem-se no centro histórico como o próprio traçado da memória (incluindo, até mesmo a depreciação, o desgaste, o descaso que atravessam os tempos). Quando ouvimos falar que há um zelo pelo centro histórico de São Luís, estamos diante de uma verdade.
Demos um pulinho em São José de Ribamar, que é cidade ao pegado de São Luís e que me revelou a origem do santo. Eu não sabia, mas o José de lá, é o mesmo pai de Jesus. Há uma estátua do santo num pontal bem acima da praia e este local é que dá o sobrenome ao santo carpinteiro. Ribamar vem de “riba”, acima e “mar”, vem de mar mesmo: o José que está acima do mar. Em Ribamar tive um reencontro com a família Farias, almas generosíssimas que vivem me abrigando (a primeira vez que me tomaram no colo foi em Altamira. Eram a minha família à beira do Xingu).
De volta a São Luís, passamos uma noite dançando e nos maravilhando com os mais variados estilos de boi.
Tínhamos porque tínhamos que ir aos Lençóis. E fomos. Destaque para a estrada que leva ao parque natural. Impecável. Sem um risco que a desabone.
A nossa base foi Barreirinhas (que tem uma placa logo na entrada avisando que ali não se tolera a poluição sonora). De lá, nos embrenhamos em aventuras. Em uma tarde, chegamos às dunas por terra, numa espécie de rallye onde a caminhonete enfrenta a resistência da estrada de areia pura e em alguns casos, embica e mergulha de dar medo nos lagos que se multiplicam pelo caminho. O pôr do sol nos lençóis é coisa que entontece.
Mas a melhor lembrança que trago de São Luís, é a lua nascendo no mar. Pesquisei a data da lua cheia, tomei emprestada uma bússola do meu anfitrião, localizei o nascente. Pedi pra minha irmãzinha Cléo Farias sugerir uma praia com vista livre e desimpedida para Leste. Foi Calhau e foi batata. Assim, bem na linha da água, a lua mostra-se em um tamanho absurdo e reflete uma beleza acintosa, extravagante.
Fomos, os Sodreres todos, para o Maranhão e trouxemos a lua no coração.