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quarta-feira, 24 de julho de 2024
domingo, 21 de julho de 2024
crônica da semana - hirondelle
Entre as hélices do Hirondelle
A
primeira vez que entrei em um avião, foi num Hirondelle da TABA. Era uma nave
clássica, tradicional. Tinha uma relação colaborativa, funcional e ao mesmo
tempo afetuosa com a região amazônica. Cruzava os céus da floresta carregando
sonhos, atenuando saudades, ativando metas, expectativas. E transportando a
minha turma de Mineração em visita ao projeto de bauxita às margens do rio
Trombetas, no início dos anos 80, naquela primeira vez que ganhei os céus. Um
detalhe lhe atraía a atenção do mais desatento passageiro. As enormes hélices
instaladas em cada uma das asas. Um desenho aerodinâmico subversivo que nos
envolvia em um tempo instintivamente pretérito. Um tempo apegado ao passado,
num presente em que os aviões já adotavam os poderosos motores a jato. Fazia as
vezes, a aeronave da TABA, de uma relíquia, de aspecto ultrapassado,
envelhecido, retrô radical, se comparada, ali de palmo em cima com os 737 da
vida, nos estacionamentos de aeroportos. E nem era. No limite do seu cada qual,
dava a mesma conta do recado dos grandalhões e posudos pra lá de turbinados.
Chegava em escondidos de rios e florestas que nenhum outro vôo comercial
chegava. Dominava os rincões. E também não são de forma alguma, conceitos
ultrapassados. Em muitas rotas pelo Brasil, os aviões de hélice ainda operam.
Os da TABA sim, abandonaram as coordenadas dos ares. Estes sim, datam do
antigamente. Do tempo em que fazíamos rolés pelos corredores da Escola Técnica
e íamos dar nas beiras de rio.
Tenho
o avião como uma das criações humanas mais extraordinárias, di rocha, e de
certo, arte sublime, elevada. Quase milagre. Impressiona sem lapso o meu tino,
a minha razão. Agora, durante as férias, visitando a netinha no Rio, fiquei
horas no aeroporto, acompanhando encantado, dezenas de pousos e decolagens. Suspirando.
Pensando coisas como ‘é verdade, é verdade, o ser humano é incrível, genial.
Como põe no ar uma monstro desse’. Impressionante. É reconfortante, a mim,
perceber e admitir esta grandiosidade do engenho que vem do dentro do nosso
cocuruto.
(Como
também, me dei por satisfeito ao constatar que lá no Rio de janeiro, aquele
passeio aleatório que a gente faz com a galera, do jeito que era pelos
corredores da ETFPA, com minha turma, nas horas vagas da tarde quente, é
conhecido como rolé. Deste jeitinho, com este ‘é’ aberto, ao contrário do vulgo
dominante que dá uma pronúncia fechada ao ‘é’. Comum a gente ouvir, até em
notas da imprensa, divulgação de rolês realizados ou programados pela garotada.
Eu sempre achei estranho. Lá no meu tempo, das hélices nas asas dos aviões e da
TABA, eu falava rolé. Aliás, até hoje, quando necessário, me recuso,
veementemente a pronunciar a forma fechada rolê. Assumido como um genuíno
oxítona, digo que a galerinha carioca me representa. Olé, Sodré. Roléééééé.
Salve, salve o ‘é’ aberto!).
Um
avião se sustentar no ar é algo fascinante e para muitos, inexplicável. Eu
mesmo não entendo. Vou no raso. Seguro algo com a mão e, se de repente, largo
no espaço. Logo o objeto cai no chão. Este é o empirismo a mim permitido. Até
abonado pela lei do Newton. Resultado óbvio, esperado e de natuteza,
convenientemente respeitável (ninguém larga o corpo a partir de um desnível, no
espaço, e espera, na boa, mesmo que com as asas de Ícaro, flutuar).
A
inventividade, a ciência, ferramentas tecnológicas incríveis nos dão caminhar
pelo céu. Há uma explicação. O céu não é um vazio. A forma das asas, diferença
de pressão do ar sobre as asas, formação de ventos turbinados, e o domínio do
saber fazem esta belezura desfilar pelos nossos céus. E me dão, sempre que
posso, andar por estas margens de rio pra lá e pra cá, desde aquele dia em que
embarquei na TABA e mergulhei nas nuvens ombreado pelas hélices do Hirondelle.
terça-feira, 16 de julho de 2024
crônica da semana - que rei sou eu
Que rei sou eu?
Nem de mim, nem do mundo sei. Sou Reimundo. Sem rima que importe, sem caminhos ou sorte. Rei de um mundo frágil, facilmente alterável. uma hora escondido, outra hora universal. Em um tempo solitário, noutro, carnaval. Ora pau, ora tijolo; nem seu Souza para o gosto do freguês. Sem um fim de história que valha um era uma vez. Tudo muda.
Reconheço que nos esforços diários, não é nada fácil a gente operar dentro de uma personalidade visível e estável.
Umas experiências me deixaram conscientes destas mobilidades.
Passei boa parte da vida desenvolvendo a lida junto com uma peãozada carente de tudo em quanto. Conheci mina deles que não sabia nem escrever. Por vezes, no pé da obra, eu mesmo fazia o pagamento, repassava o contracheque e esperava de volta o canhoto assinado. Durante o tempo que interagi com este segmento dos trabalhadores, aquele era o momento mais desconcertante, Constrangedor. Alguns parcamente alfabetizados, isolavam-se abrigados à cumplicidade de uma caneta, e lá no longe, passavam um tempo desenhando cuidadosamente as letras, expondo, com algum estilo e mesmo em linhas tortas, o nome completo. A maioria, devolvia o papel assinado com garranchos indecifráveis. E uma porção bem significativa se adiantava, não sem uma ponta de vergonha, pressionava o polegar sobre a almofadinha que eu trazia comigo, e a seguir repetia a mesma pressão sobre o recibo.
Que rei? E que mundo?
A cada marca de digitais sobre o papel, meu coração se esmigalhava.
Naquela fase, ao mesmo tempo, eu convivia com um outro grupo. Trabalhadores qualificados, moldados nas graduações e nos comandos. Uma elite do saber formal. Eu era um reimundo sem canudo. Não era elite, mas era aceito naquele grupo porque rendia aos negócios, que eu fizesse o meio campo, a ligação entre os que mandam e os que só obedecem. Eu ficava por ali, então fazendo menção de poderosinho. Nesse tempo, nosso staff era pura amizade. Fazíamos encontros animadíssimos regados a muita água que passarinho não bebe, nos refestelávamos em folguedos e confraternizações. Eu tocava meu violãozinho e abria brecha para convites em festinhas mais seletivas. Éramos tipo irmãos.
Tempos mais tarde, formou-se um outro cenário. Um elo foi quebrado naquela cadeia de produção. Fiquei sem equipe. Não tinha mais a peãozada para lidar. Mas a elite estava acima de mim, me pressionando. Cobrando eficiência e produtividade. Era outra região, outras perspectivas, um recomeço em outra empresa, e como este mundo de mineração é pequeno, alguns dos líderes eram o ditos irmãos dos tempos atrás. Fui ter com eles para revisitarmos nossas boas interações. Mas quando! Não me deram ibope. Até meu nome de guerra em outras paragens, evitavam pronunciar. Nos relacionávamos pela formalidade do crachá. Cervejinha, violãozinho, nem pensar. Era eles pra lá e eu pra cá. Morávamos em alojamentos separados e fazíamos as refeições em ambientes diferentes. Não nos encontrávamos nos vagos do dia.
No meu segundo emprego, compreendi que tipo de rei eu era.
Mas enfim, reimundo, tinha um reinado.
Mais tarde, em outra jornada, voltei a trabalhar direto com os peões. E aí eu já estava escaldado. Tratava todo mundo por companheiro, nos metíamos na mata para trampo brabo privilegiando a solidariedade. Eles me ajudavam carregando minha boroca, minhas amostras e me levantavam quando eu engatava o pé no cipó e rebolava lá na frente da picada. Retribuía com jornadas menos penosas e um tempo para pescar e coletar cupuaçu. Nas folgas, eu varava na casa deles. Ouvíamos música do mundo e bebíamos o que tinha. Elite também havia e, obviamente, não se dirigia a nós como companheiros. Mantinha o distanciamento, Não sentavam à mesa com a gente. Até que anunciaram corte de pessoal. Elite na mira. Foi aí que o chefe veio, de prato na mão pedindo: “arrede aí, companheiro, me dê uma vaguinha”.
crônica da semana - pelos cinco
Pelos cinco
Minha mãe era uma jogadora do Bicho fidelíssima. Em toda rodada, fazia uma fezinha. Do claro que o dia inaugurava até o corujão, era certo um palpite, uma combinação de números, sequências sonhadas ou um presságio da hora pregando a esperançazinha de ganhar uma bolada.
Embora tenha acompanhado (e criticado) a renitência de mamãe neste jogo tido, lavrado e havido como indefensável vício, não deixava de nutrir certa admiração e muita curiosidade pela rigidez de opinião que lhe acompanhava em cada pule preenchida. O que resultava em tolerância e respeito por aquela diversão debilmente proscrita empreendida a cada dia.
Compreendi e até contribuí com os mistérios que cercam as apostas no Bicho. Um fato extraordinário marcou o meu espanto ante crenças e certezas na hora de cravar os números.
Passava uma temporada em casa, em período de férias ou por uma indesejada vacância na minha carreira profissional. Era só no come-dorme. A regra da sesta era sagrada. Dei um soninho aperreado pelo calor da tarde, mas com folga tal de me permitir sonhar. Eu juro. Apareceu no sonho um pacote de dezenas, certinhas, organizadas, discerníveis. E olha só, sou assim assim para esquecer dos sonhos. Ocorre que nessa tarde, acordei com todos os números gravados na cabeça. Logo comentei com mamãe e passei os números com a convicção total herdada do sonho. Ela anotou tudo no caderninho mantido para as contas e estatísticas que suportavam seus palpites. Apostou alto no Corujão. Quebrou a banca. Deu tudinho e ela ganhou, verdadeiramente, uma dinheirama. Eu fiquei bestinha com aquele fenômeno. Cheguei a me considerar por um breve tempo, um iluminado, um paranormal que adivinhava os casos futuros. Ilusão desfeita rapidola, muito convenientemente após mamãe ter perdido uma boa parte do prêmio, investindo em palpites envolvidos com meus superpoderes, como data do meu aniversário, datas de viagens e outras invencionices. Conformado, desanuviei dos meus dons sobrenaturais, segui meu caminho no comum da minha humanidade e creditei os fatos a uma anomalia no campo das probabilidades e das sugestões do inconsciente.
E assim, depois de um tempo na maré tranquila e calma, tratando os fenômenos à luz da razão, eis que me deparei com um caso incrível, o tanto de pôr a pulga atrás da orelha da gente, dia desses.
Soube que uma amiga ganhou no milhar. Até aí, fato bem possível, inclusive é premiação registrada em música, no acervo do Samba de Breque de Moreira da Silva. Só que não foi uma, duas, nem três vezes. Ela acerta, parece que quando quer. Dá de entender que tem dia que ela acorda na ira, cata quatro números, vai lá na banca e pã, ganha. Impressionante! E o espanto é maior quando revela os valores. ´Sempre mais de 10.000 Reais. Observa que só não ganha mais porque casa valores pequenos, ali beirando as miudezas de Reais.
Não manjo e sempre tive dificuldades para compreender as formas de jogar e de medir os pagamentos no jogo do Bicho. Mamãe me explicava. Tinha a dezena, o palpite pelos cinco, no grupo e dezena, de centena, na cabeça, o cercado de centena seca. Muitas combinas que me baratinavam a cuca. Nunca joguei no Bicho, não por nada. Não domino as manhas.
O que estimo é que acertar um milhar é difícil. Acertar mais de uma vez é extraordinário. Ser um premiado contumaz no milhar deve configurar um caso de subversão, extrapolação da razão e do consolo confortável da estatística, é superação completa de uma propriedade da natureza humana que, no vulgo, conhecemos como sorte.
Tô de férias. Herdei o caderninho de contas e probabilidades de mamãe. Os dias estão por acolá de calor. Vou arriscar um soninho à tarde. E eu que não creio nos mistérios, vou sintonizar nos adivinhos. Bora ver se rola um milhar. Ou pelo menos uma presença pelos cinco que me volte o consolo do escrito e do casado.
sábado, 22 de junho de 2024
crônica da semana - sem acanhamento asas do brasil
Sem acanhamento e sem pão
Dessa
vez, perdi a vergonha, o meu acanhamento, e perguntei. Tenho essas reservas,
sei lá, às vezes a gente chega nas partes indagando aí a pessoa até malda que é polícia
ou fiscal da Celpa. Mas vendo que jeito de um ou de outro não tenho, perguntei.
Resultou
que no retorno da minha caminhada pela manhã, deveria realizar a missão de
comprar pão. E, um desafio. Sair das mesmices do entorno, procurar outras
padarias, ou mesmo lanches de rua que oferecessem pães de tipos diferentes da
nossa rotina. Então peguei um caminho alternativo. O que veio a calhar, pois
que, estava enjoado daquele caminho de volta num estirão de sol pela Dr.
Freitas. E também porque não me apraz tirar a pernada numa monótona retidão.
Melhor. Vim quebrando.
E
a primeira quebrada foi na Visconde. Cultivo lembranças atadas a um bucolismo
pueril daquele lugar. No início dos anos 70, morávamos na vila Dois Irmãos.
Casas com paredes geminadas, um quarto/tudo, e bem apertadinhas. Parede-meia,
banheiro fora, De família. O largo da rua em piçarra de areia vermelha e
fininha que nos permitia a bola toda a tarde com o detalhe de a formação dos
times contemplar um bom número na linha e o goleiro. Parecia jogo de verdade.
Os goleiros não faziam menção, jogavam na vera, se atiravam naquele chão rijo,
em defesas espetaculares. Saíam do jogo vermelhos e ralados.
Ao
pegado da garagem de ônibus, tinha um chagão que levava para o igarapé. É a
minha lembrança neoclássica. Me leva à contemplação dos detalhes, dos desenhos
naturais. Naquele pequeno corredor havia, íntegros, elementos interioranos,
inocentes fachadas, cadeiras na porta, meninas de partinha, na janela. Ali na
frente, o terreiro de um frescor agradável, vespertino, proporcionado por uma
doméstica e eficiente mata ciliar. No final de um suave declive, o igarapé da
Visconde (cenário de umas das minhas primeiras crônicas: “O dia mais feliz da
minha vida”. Pra ver só, a envergadura sentimental deste chagão). Do outro
lado, entre os vagos da cerca, dava para admirarmos, com certa invejinha, o
verdejante campo de futebol do Pará Clube. Aquele escondidinho campesino, um
modesto condado caboclo, às margens do igarapé compunha um conjunto mais
robusto de vivências arraigadas ainda, mesmo dentro de um centro urbano, às
rotinas de nossa gente do interior. E isso era visível quando minha patota se
adiantava e explorava o estirão da Visconde.
Esta
feição de cidade. Os aglomerados, calçadas, fachadas em alvenaria, vilinhas, se
muito, se via até a Itororó. Depois, as ocupações se mimetizavam com o
capinzal. Caminhos estreitos, casinhas de madeira e muitas cobertas com palha;
aqui, ali uma árvore grande marcando vazios e aceiros.
Durante
minha caminhada de volta pra casa, reagrupava na cabeça as indicações que me
são remanescentes. Me cobrava precisão. Se era verdade mesmo aquela minha
reconstituição. O abono veio do testemunho de outra vila. Entre Itororó e
Pirajá. Local que meu tio Jorge morou logo que iniciou seu trabalho como
feirante. E este detalhe ratifica meu mapeamento porque destaca o longo (e na
minha visão de agente ativo, porque o acompanhava, sobre-humano) percurso que
meu tio fazia para a feira da Pedreira empurrando o carrinho de mão com as
mercadorias (mais com pouco, mudaria pra Mauriti, por ser mais perto da feira).
Por vezes, passava o dia na vilinha, e lembro que ele me alertava pra não me
meter com a pariceirada da rua e não zanzar pras bandas do capinzal, que era bem
adiante, ao pegado.
Hora
de dar outra quebrada, ainda mais que sem árvore, no canteiro, uma caminhada
pela Visconde maltrata. Fiz questão de quebrar na Alferes Costa. Rua que nem
existia naquelas paragens, pelo meu tempo bom, porque ali reinava o mundo sem
fim de campinhos do Areal. Tirei a localização pelo Hospital das Clínicas,
espaço antes ocupado pelo centro comunitário e mais atrás, pelo Areal. A
construção do centro comunitário cortou foi nosso barato. Acabou com o Areal e
abriu frentes para a ocupação dos campos do Asas do Brasil, do Trabalhista e de
outros que por ali resistiam.
A
última quebrada foi na Passagem do Arame. Tá bonita, repaginada, tem parquinho,
academia ao ar livre e a brisa fresca que vem lá do igarapé do Zé. Parei para
um café, As atendentes me disseram que moram ali há mais de 50 anos. Foi aí que
perdi o acanhamento e perguntei onde ficava o campo do Asas. Pra’li, respondeu
uma delas estreitando os lábios na direção.
O
que torna é que cheguei em casa sem pão, mas com boas lembranças e três tapiocas molhadas. Uma pra cada.
sábado, 15 de junho de 2024
crônica da semana - deixa no sílvio
Deixa no Sílvio
“O
único prazer que tenho na vida é ver o Sílvio, aí tu vem mudar de canal!”
Aquela
bronca, dada com sinceridade, vinda sem reservas das residuais reservas de
dignidade. A exposição doída de uma vida marcada pela sensaboria dos dias atingiu
em cheio a minha soberba, a minha intolerância, os meus pueris conceitos
regenciais de família. E também aquela confissão crua, envolvida em humilhação
e desprezo redefiniu minhas posturas e costuraram meus arrependimentos eternos.
A partir daquele dia me envolvi, com reincidentes insucessos, em intenções de
alcançar tolerâncias e ponderações. Amparadas por contextualizações, análises
racionais de comportamento e rebatimentos das interações sociais. Não dava pra
ser tão radical. Afinal de contas, estava tratando com mãe. E mãe, a gente
sabe, é visionária, profética. Prevê que a polarização, o extremismo
representam um mal, um nó difícil de desatar.
Então,
pra quê aquela repressão, se uma tarde de domingo ligada no Sílvio, ela sabia,
não mudava em nada a nossa relação com o mundo, com a nossa luta diária para pôr
o cumê na mesa, e os malabarismos rotineiros para garantir nossa sobrevivência?
Não era aquela diversão pastelão que nos tiraria do rumo. Eu não entendia, mas
entendi que, com a lucidez, com o discernimento que minha mãe tinha sobre nossa
realidade, de maneira alguma, a programação do domingo significava um risco.
Muito
claro isso e tão minimamente explicável que, até hoje me condeno, sofro por
aquela postura autoritária, senhorial de único filho homem metidão, cheio de corda
engendrada pelos hermetismos cristãos. Definidor de gostos, costumes e, dizque,
salvador do mundo.
E
foi uma luta incessante contra a idiossincrasia febril. Por vezes, inglória, de
débeis resultados. Do meio pro fim, quando me vi caminhando para uma
horizontalização, para um alinhamento negociado para as questões mais imediatas
das nossas realizações sociais, me vem este golpe direitista, com o qual nos
debatemos nos últimos tempos.
Lá
atrás, operei constrangimentos na família, animado pela minha aceitação cega às
recomendações da Igreja. Ao conservadorismo e à moralidade piedosa. Era
militante. Aninhado no leito dos credos tradicionais e, no contrapé, à Teologia
da Libertação. Levava pra casa as contradições, o fanatismo, e além da oração,
a ânsia pela revolução... Pelo levante dos pobres.
Pressionava
a família. Mamãe, ligada no Sílvio e olhando na frente, alertava: “olha lá,
menino”.
Mais
tarde, atuando como dirigente sindical, me imaginei com algum poder
revolucionário. Radicalizei. Ou era isso ou não era. Fiquei de cara com metralhadora,
participei de greves de fome, fiz e aconteci com microfone na mão, em discursos
inflamados para a categoria. Sofri perseguições, penei pacas. Doutor Geraldo, nosso
advogado, grande mestre, e um craque na arte da negociação, era como mamãe: “olha
lá menino!. Precisamos ver lá na frente”.
Foi
um custo para mim, aceitar os caminhos da negociação, das ponderações. Dos desapegos.
Com o tempo, estava apascentado e ligado nos limites, nos passos que a perna
pode dar. Entendi que facilitar o entendimento era tornar o mundo possível,
tolerante e com vias abertas. Era como não mudar o canal da TV em que mamãe
assistia ao Sílvio. Uma decisão, um caminho difícil de trilhar, mas como dizia
a mamãe, para quem tem poucos prazeres, poucas aspirações, na vida, temos que
ir conquistando os domingos. Deixa no Sílvio.
Aí
teve um dia quando mamãe, que nunca chamava nome, em meio a um encalacre,
soltou um poderoso palavrão deste tamanho. Depois, veio este tempo em que o
mundo deu uma guinada ao hemisfério sórdido da ofensa rasa, da incompreensão,
do desrespeito, do golpe, das fake news, da privatização das praias, da bancada
da bala, do estupro... E isso não tem graça nenhuma, não é um pastelão.
Alguém
veio e mudou de canal. E aí, o quê... devo entornar.
sábado, 8 de junho de 2024
crônica da semana - cinema em casa
Cinema em casa
Já
fui muito vicici em cinema. De rua, tela grande, pipoqueiro na sala de espera;
exibições encarreiradas com sessões sem esvaziamento da platéia, e som que a
gente só entendia os diálogos com muito esforço, quando filme nacional. Filme estrangeiro,
me aviava na legenda é que era. Via e revia as películas. Digo até que dividia
benzinho as sessões uma na cola da outra que eu assistia. A primeira era pra
entender as falas ou ler as legendas. A segunda, para apreciar os movimentos,
os jogos de câmera, efeitos, cenas fortes de amor ou ricas na dramaticidade. A
última juntava as duas experiências. Era pacote completo. Um olho no enredo,
outro na emoção e um reparo atento no sentido do que se dizia em cena.
O
cinema, como se falava antes, era a maior diversão num determinado desenho
social dos lazeres. Normal que a grande maioria dos meus contemporâneos, se
perguntados, citem a sétima arte como a preferida. Dei destaque, me afeiçoei
mais, penso eu, por uns detalhes. Morei muitos anos ao pegado do Paraíso, a
nossa estimada, respeitada casa de exibição que nos enchia de pavulagem aqui na
Pedreira. Se não era o melhor, era o cinema da barra, da comunidade. Éramos
íntimos. E como orientava o letreiro ao pé do palco que compunha o imenso
salão, fazíamos dele, o nosso paraíso mesmo.
Todas
as noites, a minha patota se reunia na calçada do cinema. Pra nada. Jogar
conversa fora, insistir numa ou noutra encarnação com um cristo do grupo,
passar o tempo, puxar um papo com aquela senhora que ficava na roleta e que era
de muito pouco papo, abelhudar a freqüência na bilheteria cada noite pra ver se
o negócio rendia uma grana ainda e, aqui, ali, comprar um ingresso e fazer a
pré na sessão das 10.
Também
virei fã porque cheguei a fazer umas diárias de peão no Paraíso. O titular das
tarefas era o Niquela. Cuidava de um tudo. Varria, tirava chicletes das
cadeiras, aguava o chão do grande salão (e depois que passei a ajudar na lida,
foi que notei o quanto era grande. Ficava na baba depois das vassouradas e
enxágues). Era zagueiro dos mais indóceis, do Glorioso Internacional da
Mauriti. Um dia deu na telha, me pediu uma ajuda no trampo. Eu faturava uma
ponta na subempreitada, mas o que valia mesmo era que entrava de graça e para
ver o filme que quisesse, pelo portãozinho lateral, sob o protesto da
senhorinha da roleta. O agrado mais legal, porém, estava na missão de ir com o
Niquela buscar as latas de filmes, na distribuidora Luiz Severiano Ribeiro.
Outro bônus era que eu, só querer, subia até a sala de projeção para acompanhar
as manobras e operações daquela engenhoca admirável. Perdia um tempão
acompanhando a lampadinha espalhar a luz pelo salão e jogar as imagens na tela.
Lá de cima dava mais bola pra’quela máquina fascinante de projeção, que para as
aventuras e emoções das películas.
E
ponha emoções. Nessa época encantei-me com a beleza da Ursula Andress, num
faroeste de pouco interesse. Já era de maior e acompanhei as traquinagens da
Dama do lotação e algumas chancadas de enredo saliente sob olhares de inveja da
minha patota. Experimentei um clássico em E o vento levou e vibrei, dei
saltitos, fiz menção de movimentar o nunchaku q’nenzinho o Bruce Lee.
As
salas de exibição sumiram das ruas. Ainda resistem nos shoppings. Para ver um
bom filme, podemos hoje também, montar acampamento no sofá da sala e zapear as
ofertas da internet e streamings.
Fiz
isso no último feriadão. Virei, mexi e achei em um nicho de vídeos, um filme
fenomenal. Barravento. O primeiro longa-metragem de Gláuber Rocha. Que
maravilha! A gente se vê na telona. Coisa rara. Gente igual a gente. A
sequência do samba embrionário. A roda, a cantoria, o berimbau, o passo
miudinho, a umbigada, as pernadas da Capoeira. Maravilha!
Luz,
câmera, ação. Pipoca, escurinho. Barravento é filme de se ver inúmeras vezes,
estirado no sofá.