segunda-feira, 9 de outubro de 2017
domingo, 8 de outubro de 2017
crônica da semana - círio psicodélico
O
Círio e o povo unido
Quando
entramos na praça, um tilintar psicodélico ecoou dentro de mim, uma satisfação líquida
percorreu minha dorsal, ativou minhas terminações nervosas e o meu mundo
transladou pela órbita letárgica de um caleidoscópio de flores lilases. Viajou
entorpecida minha alma entre cantigas e bênçãos. Havíamos chegado no céu.
Mas
antes, lutamos a luta de um povo unido.
Os
padres franceses estavam um isso para serem expulsos do Brasil. Enquadrados na
Lei de Segurança Nacional, os religiosos aguardavam julgamento presos.
O
Círio era no dia seguinte. Na sede do Ipar, uma reunião, à revelia da ordem de
Dom Alberto Ramos que proibia a realização de qualquer manifestação na
procissão, decidia a estratégia de mobilização e protesto em apoio aos padres e
aos 13 posseiros do Araguaia. Uma alemã magra, alta, com a dicção voluntariosa,
fazia uma fala de certezas e crenças na liberdade. A pastora Rosa Marga
iniciava um apostolado vibrante, corajoso, e solidário. Foi a grande líder do MLPA,
movimento que se ergueu para lutar ao lado dos presos do Araguaia.
Tínhamos
uma irmã salesiana na luta, também. Irmã Lísia era, como todas as outras
freiras, digamos assim, caseira. Não se abalava para as coisas do mundo.
Professava sua fé coordenando o semi-internato do Centro Social Auxilium e de
lá saía apenas para a reunião com os jovens, do outro lado da rua, na Escola
Salesiana do Trabalho. Foi contaminada com o bichinho do inconformismo, com a
larvinha revolucionária. E acabou saindo pro mundo. Para toda reunião ou
mobilização do MLPA, a gente arrastava a Queridinha, querido diminutivo pelo
qual a irmã era conhecida, por causa daquele humor cearense da peste.
Vivíamos
dias de transformações no início dos anos 80. A igreja retornava com as
Comunidades de Base, apostava na práxis popular centrada no método “Ver, julgar
e agir”. Os religiosos eram chamados a colaborar. Nossa turma operava com, o
então padre, Brunys e com a Queridinha, pelas ruas estivadas da Pedreira e
Sacramenta, no diapasão de Puebla.
No
dia do Círio, o pau cantou feio. Dom Alberto falou. Dom Alberto avisou. Não
passarão.
Até
que caminhamos um bocado, mas, às proximidades da Basílica, o tempo fechou.
Polícia despintada que estava no meio de nós, polícia fardada, todo mundo tirou
uma casquinha. A primeira faixa a ser destruída, para mim, era a mais
verdadeira. Trazia uma passagem da conversão de Paulo: “Por que me persegues?”
Era simbólica. Quando ela caiu, quando se esfarelou aos pisões da repressão,
nós todos nos esfarelamos. Padres, freiras, religiosos, leigos, jovens, velhos,
todo mundo apanhou. Muitos foram presos com violência. Sangravam. Mas não
choravam. Em meio ao ataque, ainda se entoou um canto novo de alegria, até o
sufocamento total da manifestação. Eu fui varando, com pedaços de pano e uma
ferpa deste tamanho sacada da estaca que emoldurava minha faixa, na mão.
Pequenininho, me vi diluído naquela multidão, triturado por uma onda
poderosíssima. Era a Berlinda chegando.
Quando
entramos no CAN, um psicodelismo lilás acendeu dentro de mim. Havia chegado no
céu.
terça-feira, 3 de outubro de 2017
crônica remix - Francisco
O Santo dos
pobres
Um violão
Giannini Trovador. Vinte e seis exemplares do Asterix, que representavam até
então, a coleção completa dos episódios criados pelos geniais franceses René
Goscinny e Albert Urdezo. Um Pau de Chuva, instrumento percussivo que arremeda
o som de água caindo, originário dos Andes chilenos e que comprei, numa
exposição, como sendo artesanato dos Cintas-Largas. Uma caixa com muitos
quadrinhos. A linhagem inteiriçada dos cartunistas paulistanos. Revista Circo.
Chiclete com Banana. Geraldão. Níquel Náusea. Piratas do Tietê; De carona, a
vovozinha revista MAD, já nos estertores, fazendo o contraponto; e uma pilha de
PQP que mamãe mandava pra mim, todo mês. Somando no acervo, os primeiros números
de O Planeta Diário e Casseta e Planeta. Noutra caixa, as aquisições capa dura,
feitas junto ao Círculo do Livro e também adquiridas na livraria da,
revolucionária, Rose. Sartre. Veríssimos, muitos Veríssimos e as minhas, até
hoje, iluminações literárias, Zero e Feliz Ano Velho. Na mala, uns vinis
‘emprestados’ de Mercedes Sosa, Zé Geraldo, Ana Belém, Maria Betânia...e
preciosas amostras de cassiterita, columbita, topázio, quartzo-dente-de-cão,
quartzo rosa, uma fagulhinha, quase invisível de diamante industrial, meus
quase nada de vestir, um frasco de Contouré e...só. Esta era a minha
bagagem franciscana quando embarquei em Porto velho, de volta para Belém, num
dia 4 de outubro, como o de hoje. Dia de São Francisco de Assis.
Operou um
milagre, o Santo dos Pobres, naquele dia. Depois de quatro anos longe, estava
difícil de voltar. Uma greve poderosíssima dos aeronautas tirou do ar uma leva
de aviões. Os vôos liberados eram um aqui, outro ali. Esta situação fez com
que, naquela terceira vez, eu me visse deixando Porto Velho sem ninguém para me
dar um tiauzinho, antes do embarque. Estava sozinho. Mas deixei estar, não
queria incomodar os Borges Guimarães, a minha família rondoniense, com mais uma
tentativa. Antes, nas duas incursões, toda a galera. Lencinho branco de
despedida, lembrancinhas, emoções, saudades antecipadas, e, olha só, os vôos
foram cancelados. No dia 4 de outubro, havia uma chance mínima, para que a
viagem desse certo. A providência, um milagrezinho tinha que acontecer.
Combinei com meu povo que iria sozinho, afinal, milagres não acontecem assim,
na vida da gente, quando a gente bem entende. Não botei fé.
O avião que
me trouxe marcaria certinho o final da greve. Desde ele, tudo voltaria ao
normal. Desembarquei em Belém, já de tardinha, com a certeza da ajuda do Santo
Francisco.
Sempre fui
fã de São Francisco (meu filho tem Assis no nome). Isso, se não causou
conflito, gerou um desconfortozinho na minha vivência dentro da igreja. Sou ex
aluno salesiano. Atuei na pastoral da Sacramenta, nas comunidades de base, nos
movimentos de jovens, levando a mensagem de Dom Bosco, mas não escondia a minha
inclinação franciscana.
Um ser
humano admirável, Francisco. Em plena idade média, num cenário irrefreável da
ascensão burguesa, rebelou-se e optou pela pobreza. Talvez essa reviravolta na
vida seja, realmente, o maior atrativo na historia de Francisco. E esta visão,
um tanto romanceada do santo, de prima, me arrebatou. Mas depois, conhecendo
mais sobre a opção de Francisco (e ajudado pelos cenários históricos dramáticos
envolvendo os Fraticelli, descritos por Umberto Eco em O Nome da Rosa), tomei
pé do quanto o Santo de Assis foi sábio e corajoso para superar a suntuosidade
da Igreja, a soberba do clero, a ânsia dos pobres... séculos mais tarde, a
greve dos aeronautas, e operar milagres. Salve, Francisco!
sábado, 30 de setembro de 2017
crônica da semana - banzeiro
Banzeiro
Daquele
dia que aportamos no galpão Mosqueiro-Soure, chegando do Acre, custei que só
para navegar nas águas da Guajará de novo.
Meio
tonteira isso, algo de não se entender, mas nós belemenses, temos um jeito
continental de ser e de estar. Pouca trela dedicamos às nossas águas de fora
(do contrário já teríamos uma linha regular de transporte público,
Icoaraci-Belém).
Nos
batemos há tempos pelos caminhos de terra firme, hoje mais que antes, travados,
engarrafados, esburacados e perigosos. Resulta que só caí pra dentro da baía,
novamente, quando regressei de uma temporada de um ano trabalhando nas minas de
ouro do Amapá. E foi cheia de graça essa minha viagem. Poderia regressar de
avião, o contrato que fiz com a empresa, me dava direito. Quis experimentar a
aventura de quase 24 horas navegando pelos rios amazônicos. Troquei minha
passagem de avião por uma de navio e zarpamos eu e minha companheira Edna. Ela,
que durante a minha jornada em Macapá fez várias vezes este trajeto, não se
animou muito. Mas eu... Cisquei a viagem toda. Não preguei o olho. Subia,
descia os conveses, zanzava de popa a proa. Perdia o olhar durante o dia
procurando o horizonte ou, pela parte da noite, admirando o brilho das
estrelas. Por vezes, eu corria exaltadíssimo ao encontro de Edninha com a
notícia de que as canoinhas estavam se aproximando. E ela, calejada naquela
lida, me voltava com uns saquinhos plásticos já preparados contendo pequenos
regalos a serem lançados para os ribeirinhos. E lá eu me abalava para a
balaustrada do navio, aprumava a pontaria e...
Foi
uma experiência. Uma vivência que jamais pensei, no futuro, se repetir tantas
vezes.
Pouco
depois de voltar de Macapá e retomar a vida continental de Belém, fui chamado
para trabalhar em Barcarena. Pronto. Acabou a aridez. Findou-se a pobreza de
água. Se num determinado momento da minha vida, me fiz cativo das terras
emersas, nos últimos 22 anos, me realizo no leito da baía do Guajará. Começo e
termino o dia navegando os humores das águas toldadas do estuário.
E
esta frequência me dá um quê de proximidade com a dinâmica da baía. Conheço
detalhes da travessia. Entendo o balançar do barco em cada trecho da viagem. Me
permito a tensão quando cruzamos a foz do rio Guamá e navegamos meio de banda
resistindo à forte correnteza guamarina. E me deixo folgar quando o sentido da
corrente passa a ser único, na frente de Belém.
Um
tempão ziguezagueando por este tecido líquido guajarino, garante o conhecimento
sobre a ocorrência das marés e permite elaborações de agendas (na maré cheia, a
viagem, normalmente é mais rápida. Isto não é uma regra, mas, pelo comum, é). O
cerzido diário me concede saber respeitar a vontade dos ventos.
Dia
sim, outro também, a caminhada sobre as ondas me alerta para a época do ano de
grandes banzeiros. De manhanzinha, até que não, mas ao cair da tarde, agora,
entre agosto e dezembro, o banzeiro é certo. É tempo de onda quebrar no
Ver-o-Peso e ir lamber a calçada da ‘Casas Pernambucanas’.
Para
quem se queixava ser continental, a aventura, de uns tempos pra cá, tá é boa.
terça-feira, 26 de setembro de 2017
degenerescendo
Há homens que eu aprecio
puros ou com gelo
grisalhos ou imberbes
ativos ou pacatos
doces ou amaros
sutis ou indelicados
ébrios, ébrios,ébrios
ou sóbrios e sonolentos
Há homens que eu aprecio
puros, crus, ao natural
ou com uma pitadinha de sal
pais, filhos, espíritos cantos e encantos
mas são poucos
muito poucos
e com carinho
lembro tanto deles.
puros ou com gelo
grisalhos ou imberbes
ativos ou pacatos
doces ou amaros
sutis ou indelicados
ébrios, ébrios,ébrios
ou sóbrios e sonolentos
Há homens que eu aprecio
puros, crus, ao natural
ou com uma pitadinha de sal
pais, filhos, espíritos cantos e encantos
mas são poucos
muito poucos
e com carinho
lembro tanto deles.
sábado, 23 de setembro de 2017
crônica da semana - brisa
Super
da brisa
Ontem aconteceu o equinócio. E não tem nada de
oculto ou misterioso nisso. É o marco de um período que o sol se posta
exatamente sobre a linha do Equador, determina também a incidência direta dos
raios solares nas superfícies tropicais. Corresponde ao momento em que a Terra
está mais perto do sol. Todos estes eventos, somados às particularidades do
planeta, interferem na posição da zona de convergência intertropical, aquecem
as água do Atlântico Norte e provocam fenômenos naturais como tempestades e
furacões. Fenômenos absolutamente naturais, resultantes da dinâmica prodigiosa
do nosso planeta. Não tem nada de castigo de Deus nisso.
Mesmo porque Deus é super do bem, super da
brisa.
Um ensinamento que mais pininica dentro de mim,
e que resultou positivamente da minha passagem pelo oratório da Escola
Salesiana do Trabalho, foi a certeza que o padre Lourenço nos dava de um Deus
de amor. Comparava a bondade de Deus com a vida cotidiana de um pai de família
ali das baixadas da Pedreira. Dizia que o pai não quer o mal para os filhos.
Ele provê, cuida, dá carinho, e só deseja que os filhos sejam felizes.
Acredito até hoje na convicção do padre
Lourenço. Diante dela me é muito claro que os filhos de Deus que habitam as
terras do Haiti, de Cuba, das pequenas ilhas caribenhas, do delta do
Mississipi, de jeito maneira, foram atormentados por forças divinas.
Relacionar as catástrofes naturais à ira de
Deus, para mim, é pecado mortal. Leva, sem maiores discussões ao fogo eterno. É
alta trairagem com o pai, além de uma robusta demonstração de ignorância. Mais
fácil e mais possível é que as tragédias tenham razões nas insanidades humanas.
Uma passada de vista num bom atlas geográfico
daqueles das antigas, faria um bem danado no entendimento dessas catástrofes.
Deixaríamos de perseguir o bom pai, e nos daria vaga a perceber soluções e
proteções.
A população dessas regiões tem o conhecimento
desses riscos. A eles, falta a atenção de políticas preventivas. Engenharias
aplicadas. Poder de mobilização. Condutas e infraestruturas eficientes de
evacuações e socorro. O que a gente vê, pelas notícias que nos chegam, é que tecnologias
que se antecipam aos fenômenos ajudam bastante. Salvam vidas.
Deus é do bem. Deus é da brisa. Do amor e da
felicidade. Não tem nada a ver com dores, tormentas e furacões.
Quando não entendemos um evento na natureza
como pertencente ao planeta, damos vez à tragédia. Quando nos comovemos com um
vendaval no litoral da Flórida e desconhecemos o avanço das águas sobre Cuba,
sobre o Haiti, como se só existissem seres humanos dignos de atenção na costa
leste dos Estados Unidos, nós sim, é que somos um pouco culpados por dores,
tormentas e furacões.
O equinócio é um fenômeno importantíssimo na
história das civilizações. Estamos aqui, porque o homem tratou este evento com
racionalidade e moldou-se a ele. Aquece as águas do Atlântico Norte, atiça a
circulação dos ventos, cria redemunhos enormes. Não tem nada de castigo de Deus
nisso.
Equinócio quer dizer “noite igual”. E não noite
eterna. Não nos fechemos na escuridão.
sábado, 16 de setembro de 2017
crônica da semana - patrimônio cultural
O
patrimônio e a pamonha
Um
dos resultados desse estado de coisas é o contágio. Agentes ativos e passivos
sucumbirão à piração espalhada no qual pega. Agradeço ao bom pai, que eu não seja
exemplo para nada, e para ninguém, mas se for tirar por mim...
Mire
e veja se não é um desatino: a água geladinha, corrente e transparente, em
profundidade boa para garantir um senhor dum tibum. A maravilha de um igarapé
pródigo, correndo ao meu lado, me convidando para os prazeres da natureza, e eu,
entre incrédulo, indignado e bestão, me pego conferindo o sujeito operar aquela
aparelhagem dos infernos montada na mala do carro dele, pelo controle remoto. Avalio
que aquilo só pode ser produto do mais puro e indissolúvel sadismo.
Ocorreu
no final de semana próximo passado, logo na biqueira de estes monstrengos
barulhentos serem indicados pela Câmara, como patrimônio cultural e imaterial
de Belém.
Não
bastasse o barulho grassar em cada palmo desta cidade, agora é reconhecido como
um bem cultural. Égua-te, pira-paz.
Por
outra,vamos à vida real. Dez, entre dez pessoas, com quem entabulo uma conversa
sobre este assunto, relatam algum tipo de pendenga. Uma zanga, uma humilhação. Para
tirar as provas, aproveitei apara fazer umas comparações regionais, ensejando a
visita de uma amiga vinda de Manaus. Fiz aquela sabatina. Perguntei sobre o
calor, o tacacá com jambu pinçado a palitinho, o transporte público, e, é
óbvio, sobre o barulho. De Manaus, livrou a barra. Mas de Belém, não deu um
desconto. Diz-se apavorada. Os pais moram na Sacramenta e há mais de dez anos
sofrem com um vizinho que tem um patrimônio cultural na porta. O pobre do casal
foi bater no juiz. Parece até uma coisa, essas pessoas só podem ter pacto com o
mais graduado dos satanases. Nada os detêm. Muitos demonstram abertamente serem
protegidos por gente importante. Prova é que, segundo minha amiga, mesmo depois
dos trâmites na justiça, as desditas sonoras continuam. E cada vez mais
ferozes.
A
gente tenta fugir. Pega a estrada sem rumo em busca de sossego. Descobre praias paradisíacas. E quem está lá,
atazanando na areia? A selvageria sonora. Dá meia volta. Ganha o mundo, sobe
ladeira, desce ladeira, penetra no escondido da mata, e vai dar na beira de um
igarapé maravilhoso, aquele da água friínha de engilhar a ponta dos dedos, num
mergulhinho mais demorado. Foi lá que o destino colocou o infeliz com o
controle na mão. Fiquei em transe. Não mergulhei na água geladinha, não bebi
nada, não comi nada. Fiquei teso, só observando o sujeito operando o patrimônio
cultural dele. Embora várias famílias estivessem ali, era ele quem comandava.
Havia uma hora de profunda agressão. Um locutor gritava desesperadamente,
amparado por um pop eletrônico, dentro das poderosas caixas de som. Nessa hora
ele colocava o volume do máximo. Aquilo até hoje está na minha cabeça (é a tal
da piração, do trauma). Quer saber, borimbora daqui, sugeri ao meu povo,
humilhado.
Na
volta, paramos na estrada e compramos uma boa partida de pamonha. Ainda bem, meu
Deus, ainda bem que existe pamonha, para dar algum sabor à vida.
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